Exu não é o demônio. Essa é a resposta mais urgente para quem pergunta quem é Exu e também a mais negada por séculos de preconceito. Exu é o orixá da comunicação e do movimento, o mensageiro entre o mundo espiritual e o mundo material, o primeiro a comer e o primeiro a ser saudado em qualquer terreiro. Sem ele, nada começa.
Este guia apresenta Exu em profundidade: a origem iorubá, a ficha técnica completa e a história de como o orixá mensageiro foi transformado em “diabo” pelo olhar colonial. Traz também a diferença entre o Exu orixá do candomblé e os exus guardiões da umbanda, que não são a mesma coisa.
Quem é Exu, o orixá mensageiro
Exu é o orixá iorubá da comunicação, do movimento e dos caminhos. É o mensageiro entre o Orum (o plano espiritual) e o Aiyê (o plano material): toda oferenda, reza ou pedido passa primeiro por ele. Por isso é o primeiro a ser saudado e a receber oferenda em qualquer ritual do candomblé.
Na África iorubá, Exu também é chamado de Elegbara, “o senhor do poder”, e de Bará, nome pelo qual é cultuado até hoje no batuque do Rio Grande do Sul. Seu símbolo é o ogó, o bastão ritual que ele leva na mão, e as leituras dele, com a laterita, os búzios e a chave, estão em símbolos de Exu. Como explicamos no nosso guia sobre os orixás, cada orixá governa forças da natureza e da vida humana; o domínio de Exu é tudo aquilo que se move: a palavra, a estrada, a porta, a fronteira, a troca.
Os mitos compilados por Reginaldo Prandi em Mitologia dos Orixás mostram um Exu astuto, dinâmico, capaz de virar qualquer situação do avesso. É dele o famoso itan em que recolhe todas as histórias do mundo. Pierre Verger o descreveu como vaidoso e irascível, mas também generoso com quem o trata com respeito. Por isso a tradição o chama de “o mais humano dos orixás”: nem totalmente bom, nem totalmente mau, como toda pessoa que caminha.
Ficha técnica de Exu
Cores: Vermelho e preto | Dia: Segunda-feira | Elemento: Fogo e movimento | Domínios: Encruzilhadas, caminhos, portas, comunicação | Símbolo: Ogó, o bastão | Oferenda ritual: Padê (farofa de dendê) | Saudação: Laroyê Exu!
Nomes e caminhos: Exu (do iorubá Èṣù), Elegbá/Elegbara, Bará (batuque), Exu Odara, Exu Alaketu, Exu Lonan (dono dos caminhos), Yangi (a laterita primordial, pedra vermelha que é seu primeiro assentamento).
A guia nessas cores, com as variações de cada casa, está em guia de Exu, e o que é o assentamento, quem faz e por que ele fica na porta está em assentamento de Exu.
Sincretismo: No Sul do Brasil e no Rio, o Bará foi associado a Santo Antônio, celebrado em 13 de junho, o dia de Exu, uma das pontes que explicamos no artigo sobre santos juninos e orixás. Importante: a associação ao “diabo” feita pelos missionários não é sincretismo: é demonização histórica, como mostra a próxima seção.
No candomblé de nação ketu, nenhum xirê começa sem que Exu receba o padê. É ele quem abre a comunicação entre a casa e o Orum: função litúrgica, não “pacto” de qualquer natureza.
Os mitos de Exu: o dono das histórias
A literatura oral iorubá guarda itans, mitos que dizem mais sobre Exu do que qualquer ficha técnica. Dois deles são incontornáveis.
O recolhedor de histórias
Conta a tradição, registrada por Prandi, que Exu foi encarregado por Olodumare de recolher todas as histórias do mundo: os acontecimentos da terra e do céu, dos homens e dos orixás. Exu tudo viu, tudo escutou e tudo entregou ao sistema do destino. Por isso ele é o orixá que conhece os caminhos de cada um: nada acontece que Exu não saiba, nenhum pedido chega ao Orum sem passar por suas mãos.
O boné de duas cores
O itan mais citado sobre Exu é também o mais atual. Dois amigos juravam que nada poderia separá-los. Exu, querendo mostrar o perigo da certeza absoluta, passou entre os dois usando um boné vermelho de um lado e preto do outro. Um amigo jurou ter visto um homem de boné vermelho; o outro, de boné preto. A discussão virou briga, e a briga desfez a amizade, até Exu revelar o truque.
O ensinamento é direto: ninguém vê a verdade inteira de onde está. Exu é o orixá que desmonta certezas, obriga a olhar pelo outro lado e pune a arrogância de quem acha que enxerga tudo. Num tempo de opiniões absolutas, o mito do boné de duas cores segue sendo uma das lições mais sábias da tradição afro-brasileira.
De mensageiro a “diabo”: como nasceu o preconceito
Quando os missionários europeus encontraram o culto a Exu, precisaram encaixá-lo numa cosmologia que só conhecia dois polos: o bem absoluto e o mal absoluto. O orixá da rua, do corpo, do movimento e da palavra, guardião de tudo o que a moral cristã da época reprimia, foi empurrado para o polo errado. Como documenta Reginaldo Prandi no artigo acadêmico “Exu, de mensageiro a diabo” (Revista USP, 2001), a identificação de Exu com o “diabo” foi uma construção colonial e missionária, e não um fundamento da religião.
Prandi mostra a data em que a troca aparece por escrito: em 1857, o missionário batista Thomas Bowen registrou que “na língua iorubá o diabo é denominado Exu”. O resultado mais duradouro foi a tradução. Na versão iorubá da Bíblia, a palavra “Exu” passou a ser usada para o diabo, como registra o antropólogo Vagner Gonçalves da Silva. O linguista nigeriano Kọ́lá Túbọ̀sún conta que foi o bispo Àjàyí Crowther, com a equipe que traduziu a Bíblia, quem escolheu Èṣù para verter Satã.
A mesma leitura explica o tridente, que hoje está em quase todo ponto riscado de Exu; as origens disputadas dele estão em tridente de Exu.
A cosmologia iorubá não tem um “diabo”. Não existe, no pensamento tradicional dos orixás, uma entidade que personifique o mal absoluto. Exu pune e recompensa, abre e fecha, exatamente como a vida. Pesquisas recentes, como o trabalho divulgado pela Universidade Federal de Goiás sobre as representações de Exu, mostram como essa distorção colonial segue alimentando a intolerância religiosa contra terreiros até hoje.
Nomear esse processo é parte de desfazê-lo: quando alguém pergunta “Exu é do mal?”, a pergunta já nasce do imaginário colonial, e não da tradição. A resposta da tradição é outra: Exu é o princípio do movimento, e sem movimento não há vida, não há axé circulando, não há caminho aberto.
Exu orixá e exu guardião: a diferença que importa
Aqui mora a confusão mais comum, inclusive entre praticantes em formação. O Exu orixá do candomblé e os exus guardiões da umbanda compartilham o nome e a saudação, mas são realidades espirituais distintas. Assim como umbanda e candomblé são tradições diferentes, seus “Exus” também são.
| Exu orixá (candomblé) | Exu guardião (umbanda) | |
|---|---|---|
| O que é | Divindade do panteão iorubá (orixá) | Espírito de pessoa que viveu, em evolução (entidade) |
| Origem | África: culto a Èṣù/Elegbara | Brasil: cosmologia umbandista |
| Função | Mensageiro entre Orum e Aiyê; primeiro a receber oferenda | Guardião do terreiro, do médium e dos caminhos; quebra de demandas |
| Como se manifesta | Culto de orixá: assentamento, padê, xirê | Incorporação nas giras; dá consulta e orientação |
| Exemplos de nomes | Exu Odara, Elegbara, Bará, Lonan | Tranca-Ruas, Sete Encruzilhadas, Caveira, Pombagiras |
| Saudação | Laroyê Exu! | Laroyê Exu! (compartilhada) |
Misturar os dois planos é o erro número um dos conteúdos rasos da internet. O Exu orixá não incorpora dando consulta na gira; os exus guardiões não são divindades africanas. Cada tradição tem seu fundamento e ambas merecem o nome dito com respeito.
Os guardiões têm nomes que falam do lugar onde trabalham, como a encruzilhada, o cemitério e o lodo, e a lista, um a um, está em nomes de Exu. Como a casa reconhece o Exu que acompanha cada médium está em Exu de guarda. Quem é filho de Exu no candomblé, e o que é só estereótipo, está em filhos de Exu.
Os exus guardiões da umbanda
Na umbanda, os exus são espíritos de pessoas que viveram, almas em processo de evolução pela caridade, que trabalham na chamada linha da esquerda. Trabalham sob a direção dos Orixás e da Lei da casa, como os demais guias de umbanda: protegem o terreiro, o médium e os consulentes, desfazem demandas e cuidam dos caminhos.
“Esquerda” não significa mal. Na umbanda, esquerda designa um campo de atuação: proteção, justiça, quebra de demandas, trabalho nas fronteiras. Os exus guardiões são definidos pela própria tradição como trabalhadores da luz que atuam onde outras linhas não alcançam.
Alguns nomes consagrados dessas falanges:
- Exu Tranca-Ruas: senhor dos caminhos e das encruzilhadas, ligado à vibração de Ogum; um dos guardiões mais cultuados do Brasil.
- Exu Sete Encruzilhadas: ligado às escolhas e aos direcionamentos da vida; é também o nome do exu associado à narrativa fundadora da umbanda.
- Exu Caveira e João Caveira: linha das almas, que trabalha na kalunga pequena (o cemitério), sob a vibração de Obaluaê, com a transmutação de energias.
- Pombagira: a contraparte feminina da linha, com Maria Padilha, Sete Saias e tantas outras. Entidade de defesa, dignidade e desfazimento de ilusões, e não o estereótipo injusto que a sociedade lhe colou.
- Exu Gato Preto: registrado por pesquisadores em casas de umbanda e quimbanda de São Paulo, Minas Gerais e Paraná.
Todos os nomes, com quem é cada um, estão em nomes de Exu.
Na quimbanda, Exu e Pombagira ocupam o centro do culto, com fundamentos e hierarquia próprios: é o chamado “povo da rua”, como explicamos no artigo sobre o que é quimbanda. Os antropólogos Emerson Giumbelli e Leonardo Almeida, que estudaram a quimbanda gaúcha, lembram que “específico não significa autônomo”: o culto se apoia em princípios da umbanda e do batuque. Não é “umbanda do mal”. Os reinos estão em reinos da quimbanda, e o que separa as duas, em diferença entre umbanda e quimbanda.
O que se oferece a Exu
No candomblé ketu, a oferenda litúrgica de Exu é o padê, do iorubá ipadé, “reunião”: uma farofa de azeite de dendê, às vezes acompanhada de água, mel ou cachaça, servida antes de qualquer cerimônia para que Exu abra a comunicação e os caminhos. O dendê, aliás, é presença constante em tudo o que toca Exu: cor de fogo, calor, movimento.
Fora do contexto de terreiro, quem deseja honrar Exu costuma recorrer a gestos simples e respeitosos:
- Velas vermelhas e pretas, acesas na segunda-feira; as cores das velas rituais seguem a vibração de cada orixá
- Fios de contas (guias) nas cores vermelho e preto, lavados e cuidados com axé
- Ervas quentes ligadas à sua vibração, como a arruda e a guiné, usadas em banhos e defumações de proteção. O mapa do que as pesquisas ligam a Exu, casa por casa, está em ervas de Exu
- A saudação, dita com fé, ao passar por uma encruzilhada ou ao iniciar um trabalho: Laroyê Exu!
Oferendas rituais (ebós, padês assentados, trabalhos de encruzilhada) são fundamento de terreiro. Cada casa tem seu preceito, e o que se entrega, onde e como, é orientação de babalorixá, ialorixá ou dirigente. Se você sente o chamado de Exu, o caminho mais seguro é procurar uma casa séria e perguntar. Exu respeita quem o respeita.
O que se leva e onde se entrega, em linhas gerais, está em oferenda para Exu.
Perguntas frequentes sobre Exu
Exu é do mal?
Não. Exu é o orixá da comunicação, do movimento e dos caminhos, o mensageiro entre o mundo espiritual e o material. A associação com o “mal” é uma distorção histórica criada no período colonial, quando missionários encaixaram à força a cosmologia iorubá na dualidade cristã. A tradição não tem essa leitura.
O que significa “Laroyê Exu”?
É a saudação de Exu, vinda do iorubá, com tradução aproximada de “salve o mensageiro!”, uma exclamação de reverência e alegria. É dita ao saudá-lo nos rituais, ao passar por encruzilhadas e ao iniciar trabalhos espirituais, tanto no candomblé quanto na umbanda e na quimbanda.
Qual é o dia e quais são as cores de Exu?
O dia de Exu é a segunda-feira, quando se acendem velas e se renovam pedidos de abertura de caminhos. Suas cores são o vermelho e o preto presentes nas velas, nos fios de contas e nas vestes rituais ligadas a ele em todas as tradições afro-brasileiras.
Qual a diferença entre o Exu do candomblé e o da umbanda?
O Exu do candomblé é um orixá: divindade iorubá, mensageiro entre o Orum e o Aiyê. Os exus da umbanda são entidades: espíritos de pessoas que viveram e hoje trabalham como guardiões nas giras, como Tranca-Ruas e Sete Encruzilhadas. Mesmo nome, mesma saudação: naturezas diferentes.
O que Exu gosta de receber?
No candomblé ketu, a oferenda litúrgica é o padê: farofa de azeite de dendê, servida antes de toda cerimônia. Elementos como cachaça, mel, charutos e velas vermelhas e pretas aparecem nas diferentes tradições. Oferendas rituais, porém, seguem o preceito de cada casa: procure a orientação de um dirigente.
Onde comprar produtos para honrar Exu
Na Joia Mística Laroyê, você encontra artigos preparados com respeito ao fundamento:
- Velas vermelhas e pretas para a segunda-feira e os pedidos de abertura de caminhos
- Guias e fios de contas nas cores de Exu, vermelho e preto, em diferentes acabamentos
- Imagens de Exu e Pombagira em gesso e resina, de diversos tamanhos
- Arruda, guiné e ervas quentes, frescas ou secas, para banhos e defumações de proteção
- Defumadores prontos: blends tradicionais para limpeza e firmeza do ambiente
Visite nossa loja em Extrema-MG ou fale com a gente pelo WhatsApp e enviamos para todo o Brasil. Toda segunda-feira é dia de firmar seu pedido de caminhos abertos.
Laroyê Exu!
Referências
- Reginaldo Prandi: “Exu, de mensageiro a diabo”, Revista USP, 2001
- Universidade Federal de Goiás: As representações de Exu, de orixá a egum, Jornal UFG
- Vagner Gonçalves da Silva: Exu do Brasil, Revista de Antropologia, 2012
- Emerson Giumbelli e Leonardo Almeida: O enigma da quimbanda, Revista de Antropologia, 2021
- Kọ́lá Túbọ̀sún: Èṣù is not the Devil, YorubaName, 2016 (cópia arquivada)