O assentamento de Exu é a morada material de Exu, preparada pela casa de santo, que liga Exu a um terreiro ou a uma pessoa. Ali se oferecem as comidas, se fazem os pedidos e se acendem as velas. No candomblé, assenta-se o orixá; na umbanda e na quimbanda, o guardião.
O que é o assentamento de Exu
É a representação de Exu no mundo material. A frase é do texto do Museu do Homem do Nordeste, da Fundação Joaquim Nabuco, que expõe um assentamento de Exu feito em tabatinga e búzios nos anos 1980. A peça é do babalorixá Manoel Papai, do Sítio de Pai Adão, casa nagô-egbá do Recife.
O antropólogo Lucas Marques, em artigo na Religião & Sociedade, junta três ideias numa só. O assentamento, também chamado de ibá (igbá), é “a morada do orixá, o próprio orixá materializado e o local onde a relação entre pessoa e orixá se faz”.
E ele é pessoal. Cada pessoa tem os próprios assentamentos, que a acompanham a vida toda. Não é um objeto de Exu qualquer: é o Exu daquela pessoa ou daquela casa.
O assentamento do orixá em geral está em assentamento de santo. Aqui fica o de Exu, que tem regras próprias de lugar e de dono.
No candomblé: o Exu da casa e o de cada iniciado
No candomblé, Exu é assentado por motivos coletivos e individuais. Uma ialorixá ouvida pela pesquisadora Luciana Novaes, da UFS, resume: no coletivo, Exu é assentado na fundação de um candomblé e como protetor de feiras e mercados; no individual, cada filho e filha tem Exu junto com a sua família de orixás.
Reginaldo Prandi, na Revista USP, dá as duas pontas. Cada casa, cada rua e cada mercado tem seu guardião. E “cada ser humano tem seu Exu, que é assentado, nominado e regularmente propiciado”.
Exu coletivo: na casa de Exu ou na entrada do terreiro | Exu individual (Bara): em lugar privativo do dono | Quem recebe: o iniciado, junto ou antes do assento do orixá
A antropóloga Juana Elbein dos Santos, em Os Nàgô e a morte, estudou o candomblé nagô da Bahia. Ela chama o Exu individual de Bara, cultuado em privado pela pessoa a quem acompanha. Na iniciação, a noviça recebe o Bara ao mesmo tempo, “e até mesmo antes”, do assento do seu orixá.
Esse Bara não é o Bará do batuque gaúcho, que é outro orixá e está em quem é Bará. A busca “assentamento de exu bara” mistura os dois.
Juana Elbein registra também a forma mais antiga de Exu no mito nagô: Exu Yangi, um rochedo de laterita. Prandi lista Iangui, “o primeiro da Criação, representado pela laterita”.

Por que o assentamento de Exu fica na porta
Porque Exu guarda a passagem. No sistema nagô, Exu “fica à esquerda dos caminhos e daí controla a entrada e a saída de todo o tráfego”, e por isso seus lugares de culto ficam nos caminhos das cidades e aldeias. Na terra iorubá, ele é assentado na entrada das cidades.
Nos terreiros nagô da Bahia, o sociólogo Roger Bastide viu dois assentamentos de Exu, segundo a dissertação de Oli Santos da Costa, da PUC Goiás:
- O porteiro: “numa casinhola perto da porta de entrada, vela pelo candomblé, abre, fecha-lhe as portas”.
- O do limiar: “enterrado no limiar da casa principal ou aninha-se atrás da porta de entrada”.
Um mito recolhido por Prandi conta que Orunmilá perguntou a Exu onde ele queria morar. Exu respondeu “do lado de fora”, e a primeira resposta valeu.
Num terreiro de Bocaiuva, em Minas, que pratica candomblé angola e ketu, umbanda e quimbanda, o assentamento de Exu e o do Senhor Tiriri ficam na porteira. “São os guardiões que zelam pela entrada do terreiro”, e a casa acredita que eles drenam o que chega da rua.
Na umbanda e na quimbanda: o assentamento do guardião
Na umbanda, os exus são entendidos como espíritos de pessoas desencarnadas, da linha de esquerda. Então o que se assenta ali é o guardião, e não o orixá. A diferença entre os dois está em quem é Exu.
O lugar é a tronqueira, que na umbanda é “o quarto dos exus”. Prandi registra que as tronqueiras “são povoadas de assentamentos montados com os ferros que representam os exus”. A história desse ferro está em tridente de Exu.
Na quimbanda gaúcha, o assentamento ganhou peso central. O estudo de Emerson Giumbelli e Leonardo Oliveira de Almeida, na Revista de Antropologia, chama os assentamentos de “vinculadores entre pessoas e entidades”. Os exus, que eram só tolerados nos templos de umbanda, passaram a ter assentamentos próprios, e a feitura envolve sacrifício.
Ali, o exu assentado fica oculto na casinha dos exus, “acessível apenas a alguns”. Há casas com casinhas separadas para os exus e para os barás. O Exu que acompanha o médium está em exu de guarda, e a Pombagira, em assentamento de Pombagira.
Assentamento, tronqueira e firmeza
Os três nomes aparecem juntos e não são a mesma coisa.
- Assentamento é o Exu materializado, de uma casa ou de uma pessoa, feito pelo sacerdote [D15, D10].
- Tronqueira é o cômodo onde os assentamentos dos exus moram, na entrada do terreiro de umbanda. Numa casa de Bocaiuva, a casinha de madeira do portão “é considerada a tronqueira da casa”. O cômodo inteiro está em o que é tronqueira.
- Firmeza é outra prática, sem assentamento, e a diferença está em firmeza na umbanda.
Quem faz e quem pode ter
Quem faz é a casa. No candomblé, a pesquisa da UFS conta pelo menos três pessoas num assentamento de Exu: “a Iyalorixá ou o Babalorixá, o ogã e aquele que terá a divindade Exu assentada”. Na umbanda, a casinha-tronqueira de Bocaiuva foi feita pelo líder do terreiro. Na quimbanda, quem dirige precisa ser aprontado e estar vinculado aos assentamentos das entidades com que trabalha.
A peça se compra; o assentamento, não. O ferreiro de santo José Adário dos Santos, de Salvador, explicou a Marques que o ferro sai da oficina como ferro:
“Quando um Exu sai daqui, ele não sai já Exu, aqui ele sai como jabá de ogum, que é o ferro”
José Adário dos Santos, ferreiro de santo, na Religião & Sociedade
Tridente, alguidar e vela se compram na loja; o que transforma o ferro em Exu é o terreiro. Se a sua casa pediu material para um assentamento, a Joice ajuda a conferir a lista pelo WhatsApp. O que vai dentro e como se monta não aparece aqui de propósito: é fundamento de cada casa.
Quem pode ter é quem tem casa. No candomblé, o Exu individual vem com a iniciação. Mudar de casa de santo ou de endereço com o assentamento é decisão do dirigente, e nenhuma fonte séria dá uma regra geral.
O que acontece com o assentamento quando a pessoa morre
Depende da nação e da casa. No nagô da Bahia, Juana Elbein registra que o Bara do morto “será destruído ritualmente com todas as outras representações que individualizam” a pessoa.
Em Salvador, um babalorixá ouvido na UFS conta que, no axexê, às vezes o assentamento do orixá vai para o mar com o material do morto. Em outros casos, “os assentamentos continuam a ser zelados por familiares ou pelo terreiro”. Quem decide é a casa do falecido.
Perguntas frequentes
O que é assentamento de Exu na umbanda?
Na umbanda, o assentamento de Exu é o do guardião, espírito da linha de esquerda, e não o do orixá. Ele mora na tronqueira, o quarto dos exus na entrada do terreiro, montado com os ferros que representam os exus. Quem faz é o dirigente da casa.
Quem pode fazer assentamento de Exu?
No candomblé, a ialorixá ou o babalorixá, com o ogã e a pessoa que terá Exu assentado. Na umbanda, o dirigente do terreiro. Na quimbanda, só o sacerdote aprontado e vinculado aos assentamentos das entidades. A pessoa sozinha, fora de uma casa, não assenta Exu.
Pode ter assentamento de Exu em casa?
Só pela casa de santo e onde o dirigente mandar. No candomblé nagô, o Exu individual do iniciado fica num lugar privativo dele. Na quimbanda gaúcha, o assentado fica na casinha dos exus do terreiro. Quem não tem casa trabalha com firmeza, que não é assentamento.
Assentamento de Exu e de Pombagira ficam juntos?
Depende da casa. Na umbanda, Prandi registra que as pombagiras ganharam ferros de formato arredondado nas tronqueiras, junto com os garfos dos exus. Na quimbanda, cada entidade tem o seu assentamento, e a da Pombagira está no artigo sobre o assentamento de Pombagira.
Referências
- Fundação Joaquim Nabuco, Museu do Homem do Nordeste: 31, Assentamento de Exu
- Lucas Marques: Fazendo orixás, Religião & Sociedade, 2018
- Reginaldo Prandi: Exu, de mensageiro a diabo, Revista USP, 2001
- Juana Elbein dos Santos: Os Nàgô e a morte, Vozes
- Luciana de Castro Nunes Novaes: A morte visível e a vida invisível, dissertação, UFS, 2013 (cópia arquivada)
- Oli Santos da Costa: Exu, o orixá fálico da mitologia nagô-yorubá, dissertação, PUC Goiás, 2012
- Fábio da Silva Gonçalves: Se me der de beber, também bebe, dissertação, UFMG, 2017
- Emerson Giumbelli e Leonardo Oliveira de Almeida: O enigma da quimbanda, Revista de Antropologia, 2021
- Juliana Carvalho e José Francisco Bairrão: Umbanda e quimbanda, Psicologia USP, 2019