Meio da tarde, barracão vazio, atabaques em silêncio. Antes do público chegar, antes do primeiro Orixá ser chamado, um grupo de mulheres se reúne em volta da cumeeira da casa. O que acontece ali é o padê, e sem ele a festa não começa.
Boa parte da internet trata o assunto como se fosse apenas uma farofa entregue numa encruzilhada. Não é. Este guia explica o que é padê, por que ele vem primeiro, quem tem cargo para conduzir e o que o rito saúda além de Exu.
Padê é a comida, ipadê é a cerimônia
Comece por aqui, porque quase todo texto sobre o tema erra nesse ponto.
Padê é a comida ritual: a farinha crua misturada ao azeite de dendê, com os demais elementos do rito. Ipadê é a cerimônia inteira, com cantos, cargos, ordem e tempo próprios. Uma coisa é o prato, a outra é a liturgia que o envolve.
A palavra vem do iorubá ìpàdé, que significa encontro ou reunião. A tradução já entrega a função do rito. Ele é uma convocação: reúne Exu, os ancestrais e a comunidade viva antes que qualquer outra coisa aconteça na casa.
Se o que você procura é o preparo da comida em si, com ingredientes e variações, o blog tem um guia dedicado à farofa de dendê. Aqui o assunto é a cerimônia.
Padê é o que se oferece. Ipadê é o encontro que se convoca. Quem troca uma palavra pela outra acaba descrevendo um prato quando queria descrever um fundamento.
Por que Exu come primeiro no candomblé ketu
No candomblé de nação ketu, nenhuma cerimônia começa sem que Exu seja saudado antes de todos. Isso não é hierarquia de poder, e sim função.
Exu é o Orixá do movimento e da comunicação entre o aiê, o mundo dos vivos, e o orum, o mundo espiritual. Nenhum pedido chega ao seu destino sem passar por ele. Ele não é o mais importante do panteão. Ele é a porta. É esse papel de mediador que a pesquisa acadêmica sobre Exu nos candomblés de nação ketu registra em campo.
Cabe aqui a correção que o tema sempre exige. Exu não é o diabo. A associação nasceu do trabalho missionário e colonial, como documenta o sociólogo Reginaldo Prandi, e não existe na cosmologia iorubá. Não há, no panteão, uma figura que personifique o mal absoluto.
Você vai encontrar fontes de terreiro dizendo que o padê serve para que Exu não perturbe os trabalhos. A formulação é da tradição e faz sentido dentro dela. Ela descreve o lado brincalhão e imprevisível do Orixá do movimento, e nunca o gesto de aplacar uma entidade maligna.
Um rito de mulheres: quem conduz o ipadê
Aqui está o dado que mais surpreende quem chega de fora. O ipadê é conduzido por mulheres com cargo confirmado, e não pelo sacerdote da casa.
- Iyámorô: comanda o ato. Dança em volta da cumeeira e encaminha os elementos ao final. Segundo as fontes de terreiro, só ela entra e sai do barracão durante o rito, protegida por um objeto de cabaça.
- Iyádagã (a dagã) e a sidagã: preparam os elementos, sentadas diante do axé, e assistem a iyámorô.
- Iyátebexé: puxa e dirige os cantos.
- Ogãs: tocam os atabaques e conduzem o toque próprio do momento.
- Babalorixá ou ialorixá: supervisiona o conjunto, sem executar.
Essa é a estrutura mais registrada nas fontes de nação ketu. Como toda coisa de candomblé, a distribuição exata dos cargos varia de casa para casa. Quem confirma o que vale na prática é o fundamento do seu terreiro.
O que o padê leva, e onde e quando acontece
Cada elemento do rito tem nome próprio e função definida. A lista abaixo segue o registro do portal O Candomblé sobre o ritual do ìpàdé.
| Elemento | Nome ritual | Função no rito |
|---|---|---|
| Cuia de cabaça | igbá | Recipiente do rito, lido como a cabeça de todos |
| Acaçá | akasá | Massa de milho na folha de bananeira, o corpo da comunidade |
| Aguardente | otí | Saudação e movimento |
| Água | omí | Acalma e fecunda, contrapeso do dendê e da aguardente |
| Farinha crua | iyefún | Fertilidade, é a base da comida |
| Azeite de dendê | epô pupa | Calor e força, marca a comida como comida de santo |
| Limo da costa | (alternativa) | Substitui o dendê em ocasiões de teor mais brando |
Um detalhe de fundamento que quase nenhum texto traz: a troca do dendê pelo limo da costa não é improviso, e sim escolha ligada ao tipo de ocasião.
Sobre a aguardente, vale a nota honesta. Ela é substância litúrgica, como o vinho na eucaristia. Ninguém bebe no ipadê, e a bebida é sempre ofertada, nunca consumida.
O rito acontece dentro do barracão, em volta da cumeeira, o eixo central da casa. Não é rito de encruzilhada. E acontece à luz do dia, tradicionalmente entre 14h e 16h, ao contrário do que o imaginário popular supõe. A exceção é o axexê, o rito fúnebre, em que o ipadê é noturno e os atabaques dão lugar a instrumentos de cabaça.
Não é só Exu: o encontro com os ancestrais
Reduzir o ipadê a uma oferenda para Exu é perder metade do rito.
O que se reverencia ali é uma cadeia inteira de presenças: Exu como mensageiro, os eguns, que são os ancestrais, as iyá mi, as mães ancestrais, e os esás, ancestrais importantes daquela comunidade de axé. O repertório de cantos inclui, obrigatoriamente, canto para os mortos.
Essa dimensão ancestral é o assunto central de Os Nàgô e a morte, tese de Juana Elbein dos Santos. É a obra de referência sobre o pàdè e o culto aos ancestrais na Bahia. E explica por que o rito abre a casa: primeiro se pede licença a quem veio antes.
O ipadê não é a festa. Ele é a condição da festa. Só depois que os elementos são encaminhados para fora do barracão a casa está pronta para o xirê, a roda que chama os Orixás.
Padê não é ebó, e não é despacho
Três palavras que muita gente usa como sinônimo, e não são.
| Ipadê | Ebó | |
|---|---|---|
| Quem determina | Calendário litúrgico da casa | Jogo de búzios, caso a caso |
| Para quem | Toda a comunidade, sempre | A pessoa que consultou |
| Quando acontece | Antes de cada cerimônia | Quando o jogo indicar |
| Onde | Cumeeira do barracão | Onde o jogo determinar |
O ebó é prescrito e individual. O ipadê é fixo e coletivo: ele acontece de qualquer forma, para todo mundo, sem depender de consulta.
Quanto a “despacho”, a palavra no vocabulário de terreiro significa encaminhar. É nesse sentido que os elementos do ipadê são despachados para fora do barracão ao final. O uso pejorativo que a palavra ganhou fora dos terreiros é outro assunto, tratado no artigo da oferenda para Exu.
O padê nas outras nações, e o que cabe fazer em casa
Aqui vale a honestidade de dizer o que a pesquisa confirma e o que não confirma.
- Ketu: o ipadê, com esses cargos e esses elementos, é fundamento desta nação. Toda a descrição acima é ketu.
- Jeje: as fontes consultadas não descrevem um ipadê jeje equivalente. O que se confirma é que a função de abertura pertence a Legba, e que casas jeje mantêm uma casa dele no terreiro.
- Angola: cultuam-se inquices, e o dono dos caminhos é Aluvaiá, também saudado como Pambu Njila. A lógica de abrir pela porta é a mesma, mas o nome e a liturgia são outros.
- Umbanda: a palavra padê circula referida à comida e ao agrado aos guardiões, entregue na tronqueira ou na encruzilhada. Não existe na umbanda a cerimônia de cumeeira com iyámorô e dagã.
Para entender melhor essas diferenças, vale o guia sobre as nações do candomblé.
E a pergunta que sempre aparece: dá para fazer padê em casa? O ipadê, não. Ele é rito comunitário, em torno da cumeeira de uma casa de axé, executado por cargos que a casa confirma e envolvendo culto aos ancestrais, que tem preceito próprio. Cargo não se autoatribui.
O que uma pessoa não iniciada pode fazer é o agrado devocional simples: uma vela, uma saudação sincera, o preparo respeitoso da farofa. Isso é caminho honesto, e o blog explica passo a passo no guia da farofa de dendê.
Perguntas frequentes
Para que serve o padê?
Serve para abrir. O rito saúda Exu, que é o mensageiro entre os mundos, e reverencia os ancestrais da casa antes que qualquer cerimônia comece. Sem essa abertura, a comunicação entre a comunidade e os Orixás não é considerada estabelecida no candomblé ketu.
Qual a diferença entre padê e ipadê?
Padê é a comida ritual, feita de farinha crua com azeite de dendê e os demais elementos. Ipadê é a cerimônia inteira, com cargos, cantos e ordem próprios. A palavra iorubá ìpàdé significa encontro. Uma é o prato, a outra é a liturgia.
Quem faz o padê no candomblé?
No candomblé ketu, quem conduz são mulheres com cargo confirmado. A iyámorô comanda o ato, a dagã e a sidagã preparam os elementos, e a iyátebexé dirige os cantos. O babalorixá ou a ialorixá supervisiona sem executar.
O que é padê na umbanda?
Na umbanda, a palavra é usada sobretudo para a comida ofertada a Exu e aos guardiões, entregue na tronqueira ou na encruzilhada. Não existe ali a cerimônia de cumeeira com iyámorô e dagã. São tradições distintas, e vale não confundir uma com a outra.
Padê é a mesma coisa que despacho?
Não. No vocabulário de terreiro, despachar significa encaminhar, e é assim que os elementos do ipadê saem do barracão ao final do rito. O ipadê é uma cerimônia de abertura completa, com estrutura litúrgica própria, e não o simples ato de encaminhar uma oferenda.
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Referências
- Cocar, periódico da UEPA: pesquisa acadêmica sobre Exu nos candomblés de nação ketu
- O Candomblé (portal): registro do ritual do ìpàdé, elementos e função de cada um
- Juana Elbein dos Santos: Os Nàgô e a morte, tese de referência sobre o pàdè e o culto aos ancestrais na Bahia