A guia de Exu é, na maioria das casas, um colar de contas pretas e vermelhas alternadas. É assim na umbanda e no candomblé de nação queto, que também registra azul e preto [D1, D2]. Algumas casas usam preto e branco ou preto e cinza, e a cor certa é a da sua casa.
O nome serve para duas peças: o fio de contas do orixá Exu e a guia do Exu guardião.
Qual a cor da guia de Exu
A cor mais registrada é o preto com vermelho, em contas alternadas. Reginaldo Prandi pôs essa combinação na tabela de atributos do candomblé queto publicada em Horizontes Antropológicos. A tese de Patrícia Ricardo de Souza, defendida na USP em 2007, compara o queto e a umbanda lado a lado.
| Tradição | Cor das contas de Exu |
|---|---|
| Candomblé queto | vermelho e preto, ou azul e preto, alternadas |
| Umbanda | vermelho e preto, alternadas |
| Tambor de mina | Elegbara: preto e vermelho, com balizas nas mesmas cores |
| Xambá (Pernambuco) | branco e preto |
| Outras casas de Pernambuco | preto com vermelho ou com cinza |
Os sacerdotes divergem. Na tese de Luciano Lima Souza, da UESB, um fala em preto e vermelho com tom de índigo, e outro, em preto e branco.
Para ver a cor da guia de outro orixá ao lado da de Exu, use a ferramenta qual guia usar.
Guia do orixá e guia do guardião: duas peças
A guia de Exu pode ser de dois Exus diferentes, e a diferença começa na teologia. No candomblé, Exu é orixá. Na umbanda, os exus são entendidos como espíritos de pessoas desencarnadas que trabalham na linha de esquerda, com as pombagiras e os exus mirins. A história das duas camadas está em quem é Exu.
Na umbanda, a palavra “guia” nomeia o colar e também o espírito. Cada guia de contas corresponde a um orixá ou a uma entidade.
Uma ialorixá ouvida na tese da UESB separa as duas peças até na cor:
“Usa-se muito coral e azul na conta de Exu/Orixá e o do Exu/mavambo é o vermelho e preto”
Mãe Luizinha, do Axé Batistini, na tese da UESB
Ela chama de mavambo o Exu “que as pessoas recebem”. É o registro de uma casa. Mas mostra que quem é de dentro separa as duas peças.
O fio de contas de Exu no candomblé
No candomblé, o fio de contas tem o nome iorubá de ilequê, e o de Exu segue a nação da casa. No queto, a tabela de Prandi dá as contas alternadas e registra o assentamento do orixá: “laterita enterrada e garfos de ferro em alguidar de barro”. Os símbolos de Exu, pela mesma fonte, são “um porrete fálico e tridentes de ferro”, e os outros estão em símbolos de Exu.
Duas peças aparecem nas falas da tese da UESB:
- Brajá: colar de búzios abertos, trançados um no outro. Poucos orixás usam, e dois sacerdotes da pesquisa põem Exu entre eles.
- Quelê: numa casa, o quelê de Exu e o de Omolu são de sete fios, e o dos outros orixás, de cinco. A própria ialorixá avisa que não sabe se é assim em todas as casas.
No tambor de mina, o vodum correspondente a Exu é Elegbara, com rosários longos de contas pequenas. Quantos fios e em que ordem é fundamento da casa.

Materiais e pingentes da guia de guardião
Na umbanda, a guia de Exu é de contas, e o material varia. Numa casa, todo médium que entra para a corrente monta duas guias primeiro: uma de Oxalá, transparente ou leitosa, e uma de Exu, preta e vermelha, de um fio só e com cristais facetados.
As linhas pedem elementos próprios. Um médium umbandista registra que caboclos pedem penas e dentes, e que exus pedem tridentes. O tridente virou emblema de Exu pela leitura cristã: a tese da USP diz que Exu, “uma vez associado ao diabo cristão, ganhou tridente além de chifres e rabo”. A leitura oposta, que vê chifres de Exu na África desde o século XIX, está em tridente de Exu.
Em loja, a semente vermelha e preta aparece vendida como “de Exu”. O registro de terreiro sobre o olho-de-cabra põe a semente com os baianos, não com os exus. Guia pronta, contas e pingente de tridente se compram na loja. O que entra na sua guia, quem decide é a casa.
Guia de Exu Caveira
A guia de Exu Caveira não tem cor com fonte. Circulam preto e vermelho e preto e branco. O que tem registro é o pingente de caveira.
A tese de Alice Costa Macedo, da USP de Ribeirão Preto, estudou uma casa de umbanda. Lá, o pai de santo usa na gira de esquerda uma caveirinha pendurada na guia de exu. É o símbolo do Exu Sete Covas, que trabalha no cemitério. “Essa caveirinha que eu uso tinha sete caveiras antes”, contou ele; hoje é uma só.
Na mesma casa, João Caveira é “exu da linha da calunga, linha das almas”, e cuida da porteira do cemitério. O cemitério junta os dois: a caveira de Sete Covas e a porteira de João Caveira [D9, D10]. O pai de santo explica também por que o exu trabalha de preto: “o preto mostra qual é a linha que ele vem”.
A falange inteira está em Exu Caveira, e a linha, em linha das almas na umbanda.
A guia muda de um Exu para outro?
Muda, mas não por tabela. Nenhuma fonte séria dá a cor da guia de Tiriri, de Tranca Rua ou de Marabô. Na umbanda, as falanges de Exu têm nome do lugar onde trabalham, como Encruzilhada, Porteira, Cemitério, Caveira e Lodo. Na casa estudada pela USP, o pingente de caveira saiu desse lugar, o cemitério.
Quem define a guia de cada guardião é a casa. Os perfis estão em nomes de Exu, com fichas de Exu Tiriri, Exu Tranca Ruas e Exu Mirim. A guia de Pombagira é outra peça, também definida pela casa, e a entidade está em quem é Pombagira.
Quem cruza e quem pode usar a guia de Exu
Guia comprada pronta ainda não é guia de trabalho. Falta o rito. Na umbanda, toda guia é fechada e cruzada pelo chefe do terreiro: o pai ou a mãe de santo, ou os guias chefes da casa. Sem isso, ela é “apenas mais um colar”. Pais e mães de santo de Pernambuco dizem o mesmo à Revista Continente: fio sem consagração tem só valor de enfeite.
Quem pode usar depende do tipo de guia:
- Guia de proteção que uma entidade dá: na umbanda, ninguém precisa ser adepto para ganhar uma guia.
- Guia de trabalho de Exu: é do médium da casa e passa pelo dirigente [D12, D14].
- Fio de contas do orixá Exu: segue a regra da casa de candomblé e da nação.
Se você tem dúvida sobre a guia que a sua casa pediu, a Joice ajuda a conferir o material pelo WhatsApp.
Numa casa de umbanda, o fio de contas de Exu vai no pulso e não passa pela cabeça do médium. É regra de uma casa. Pergunte à sua.
Lavar a guia e o que fazer quando ela arrebenta estão em guia de contas na umbanda.
Perguntas frequentes
Quem pode usar guia de Exu?
Na umbanda, ninguém precisa ser adepto para ganhar uma guia de proteção de uma entidade. A guia de trabalho de Exu é do médium da casa e passa pelo dirigente. No candomblé, o fio de contas de Exu segue a regra da casa e da nação. Na dúvida, pergunte ao seu pai ou mãe de santo.
Guia de Exu pode ser toda preta?
A combinação mais registrada é preto e vermelho alternados. Há casas com preto e branco, como os xambás de Pernambuco, e com preto e cinza. Uma guia só preta depende da casa e da entidade. O preto, numa casa estudada pela USP, marca a linha de esquerda de onde o exu vem.
Pode usar guia de Exu junto com a de Oxalá?
Numa casa de umbanda, sim: são as duas primeiras guias do médium: a de Oxalá, transparente ou leitosa, e a de Exu, preta e vermelha. O jeito de usar as duas segue a regra da sua casa.
O que significa a caveira na guia de Exu?
Numa casa de umbanda pesquisada pela USP, a caveirinha pendurada na guia de exu é o símbolo do Exu Sete Covas, que trabalha no cemitério. O pai de santo a usa na gira de esquerda. Não é uma regra de todas as casas.
Dá para cruzar a guia de Exu em casa?
Não. Quem fecha e cruza a guia é o chefe do terreiro ou o guia chefe da casa. Sem esse rito, a guia vale como enfeite, dizem pais e mães de santo ouvidos pela Revista Continente. Leve a guia comprada para a sua casa e siga o dirigente.
Referências
- Reginaldo Prandi: Deuses africanos no Brasil contemporâneo, Horizontes Antropológicos, 1995
- Patrícia Ricardo de Souza: Axós e ilequês, tese de doutorado, USP, 2007
- Luciano Lima Souza: Os colares sagrados da memória, tese de doutorado, UESB, 2019
- Alice Costa Macedo: Encruzilhadas da interpretação na umbanda, tese de doutorado, USP, 2015
- Vagner Gonçalves da Silva: Exu do Brasil, Revista de Antropologia, 2012
- Juliana Carvalho e José Francisco Bairrão: Umbanda e quimbanda, Psicologia USP, 2019
- Revista Continente: Fios e contas, 2013
- Casa de Caridade Gauisa: Fio de contas na umbanda, 2022
- Site Diário de Umbanda: fio de contas
- Douglas Rainho: Guias e fios de conta na umbanda, 2015