Pombagira é um Exu feminino: a Exu-mulher da umbanda e da quimbanda, cultuada também em boa parte dos candomblés, dona da encruzilhada em forma de T e, nas casas estudadas, uma força própria, sem hierarquia com Exu.
O nome vem, muito provavelmente, de Bongbogirá, um dos nomes de Exu nos candomblés de tradição banto. Ela tem dezenas de falanges, como Maria Padilha, Maria Mulambo e a Cigana. As cores são vermelho e preto, a gira acontece à noite, na segunda ou na sexta, e o dia, a guia e a oferenda são definidos pela casa.
O que é Pombagira: a Exu-mulher
A Pombagira é a forma feminina de Exu. O sociólogo Reginaldo Prandi, da USP, resume: “Pombagira é considerada um Exu feminino”. Em outro ponto do mesmo texto, ele registra que ela é “um Exu-mulher, como ela mesma gosta de ser chamada”.
Natureza: Exu feminino | Cores: vermelho e preto | Dia: segunda ou sexta à noite, conforme a casa | Lugar: encruzilhada em T | Saudação: Laroyê
Ela não é subordinada a Exu. Numa pesquisa em seis terreiros de umbanda de São Paulo, Mariana Leal de Barros e José Francisco Bairrão não encontraram hierarquia entre o feminino e o masculino. Uma mãe de santo resumiu assim: são forças diferentes, “mas uma não é mais do que a outra”.
Cada pessoa da casa tem a sua. Prandi registra que, nos candomblés de nação angola e na maioria dos terreiros de umbanda, o iniciado tem um Exu masculino e uma Pombagira, além do orixá. Parte da umbanda vai além e ensina que todo ser humano tem o seu Exu e a sua Pombagira, responsáveis pela abertura dos caminhos.
De onde vem o nome Pombagira
O nome é de origem banto. Nos candomblés de nação angola e congo, um dos nomes de Exu é Bongbogirá, também escrito Bombogirá ou Bambojira. Prandi conclui que Pombagira “certamente é uma corruptela” desse nome, que acabou ficando só para a qualidade feminina de Exu.
O historiador Alexander Vianna, na revista Afro-Ásia, vai até o inquice Pambu Njila, aportuguesado como Bombojira: uma divindade sem gênero fixo, protetora dos caminhos e das passagens. O nome vem do quimbundo pambu-a-njila, que significa encruzilhada. Vianna lembra que a pombagira da umbanda é outra coisa: uma entidade que se manifesta em médiuns, distinta da divindade centro-africana.
Mesmo assim, a etimologia é hipótese aceita, não prova. A dissertação de Cristiane Amaral de Barros, na UFJF, registra que Edison Carneiro anotou “Bombojira” como invocação a Exu em candomblés congo em 1948 e que Monique Augras encontrou o culto à Pombagira já estabelecido no Rio de Janeiro em 1961. E conclui que a passagem de Bombonjira para Pomba-gira “ainda é apenas hipótese que carece de confirmação”.
A grafia muda de casa para casa: Pomba Gira, Pomba-gira, Pombajira. No blog usamos Pombagira, a forma de Prandi.
Pombagira não é entidade do mal
A imagem da Pombagira como figura do mal não nasceu nos terreiros. Ela vem do mesmo racismo religioso que, desde a colônia, tratou o que era de matriz africana como feitiçaria. A Pombagira lida com temas que a moral cristã trata como tabu: o desejo, o corpo, a mulher que decide a própria vida. Por isso virou caricatura.
Dentro da tradição, ela é entidade de trabalho. Prandi descreve a consulta com ela durante a gira, com a entidade presente pelo transe. Ele registra também que a um pedido sempre corresponde algum tipo de oferenda, e que descobrir a oferenda certa é tarefa dos pais e mães de santo que conduzem a casa.
Pesquisas mais recentes leem a Pombagira também como figura de autonomia feminina. A revisão de Letícia Reis na revista Sacrilegens, da UFJF, reúne essa leitura a partir dos estudos de Prandi.
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Pombagira na umbanda, na quimbanda e no candomblé
A Pombagira aparece em mais de uma religião, e o papel muda em cada uma.
Na umbanda, ela é da linha da esquerda e trabalha incorporada nos médiuns, ao lado dos guias da umbanda. Prandi lembra que foi a umbanda que “desenvolveu e sistematizou o culto a Pombagira como entidade dotada de identidade própria”. Na umbanda, o Exu é o espírito de um morto, e não um orixá, e muitas pombagiras também são tidas como espíritos de mortos.
Na quimbanda, o culto é dirigido justamente a exus e pombagiras, e ela é cultuada como Exu feminino. Prandi escreve que, na prática, “não há quimbanda sem umbanda nem quimbandeiro sem umbandista”. No Rio Grande do Sul, a quimbanda ganhou um peso que não tem em outro estado, e é lá que as pombagiras entraram no calendário oficial de Porto Alegre. O resto da tradição está em o que é quimbanda.
No candomblé, sobretudo nas casas de nação angola, ela também é cultuada. Ali a comida dela fica “ao pé da Pombagira”, junto ao assentamento de Pombagira, longe dos olhos de quem não é iniciado. Para entender o par masculino, veja quem é Exu.
As falanges de Pombagira
Pombagira é um nome de muitas. Cada falange tem nome, gosto e ponto próprios, e vários espíritos podem responder pelo mesmo nome.
“Pombagira é singular mas é também plural. Elas são muitas, cada qual com nome, aparência, preferências, símbolos e cantigas particulares.” Reginaldo Prandi, Herdeiras do Axé, 1996
Entre as mais conhecidas da lista de Prandi estão a Rainha, a Maria Padilha, a Sete Saias, a Maria Mulambo, a Cigana, a Maria Quitéria, a Dama da Noite e a Menina. Muitas levam o nome do lugar onde moram, como as das Almas, da Calunga e das Praias, e a falange pode se dividir: Maria Padilha do Cabaré, Maria Padilha do Cruzeiro das Almas.
As pombagiras cruzadas com as almas, como a Rosa Caveira, formam uma família própria. A lista completa, família por família, está em nomes de Pombagira.
Cores, guia e dia da Pombagira
As cores da Pombagira são o vermelho e o preto, nos tecidos, nas velas e nas guias. Prandi registra velas vermelhas, pretas “e, às vezes, brancas”. A cor também muda por falange: em casas de Porto Velho, Nilza Lagos viu as Marias Padilhas de vermelho, preto e dourado e as Marias Mulambos de preto e colorido, e anotou que “nada é rígido”.
Na guia, Barros registra que as pombagiras cruzadas com as almas somam o branco ao vermelho e ao preto, também nas guias dos médiuns. E Lagos registra que, em Porto Velho, o colar é um dos objetos que pertencem à Pombagira, e a médium o usa num momento de necessidade. Quem faz e cruza a guia é a casa, como explica guia de Exu.
O dia é a segunda ou a sexta-feira, à noite, conforme o terreiro. Prandi registra as consultas “muito tarde da noite, geralmente às sextas-feiras”. Barros encontrou giras às primeiras ou últimas segundas ou sextas do mês, ou depois da meia-noite, e escreve que cada terreiro é livre para escolher o dia. O 13 de agosto que circula nas redes não tem fonte para Pombagira: a lei com essa data em Porto Alegre é do Exu Sr. Velho Omulu (Lei 13.416/2023). As datas por falange estão em dia de Pombagira.
Oferenda e encruzilhada: onde a Pombagira recebe
A Pombagira recebe na encruzilhada em forma de T. Prandi registra a regra, e Barros a repete: “Todas as encruzilhadas abertas pertencem a Exu. Todas as encruzilhadas em forma de T pertencem a Pomba-gira.” As pombagiras das almas recebem no cemitério ou no cruzeiro, e algumas preferem a praia ou a mata. O resto está em encruzilhada na quimbanda.
O presente é o que ela usa em terra: tecido vermelho e preto, perfume, joia ou bijuteria, champanhe, cigarrilha e rosas vermelhas abertas, nunca botões. Barros explica o porquê: o botão simboliza pureza e virgindade. Na comida, Prandi registra o padê e a farofa de mandioca com mel. Na loja há vela vermelha e vela preta de cor única, perfume, taça e cigarrilha, e se a casa pediu um material e você quer conferir antes de comprar, a Joice tira a dúvida pelo WhatsApp.
Quem decide é a casa. Perguntado sobre o que não se dá, um babalorixá de Porto Velho respondeu a Lagos: “não se dá à Pombagira aquilo que nós não gostaríamos de ganhar”. A lista completa está em oferenda para Pombagira, e a bebida tem texto próprio em bebida de Pombagira.
Perguntas frequentes
Quem é a Pombagira e o que ela representa?
A Pombagira é um Exu feminino, a Exu-mulher da umbanda e da quimbanda, cultuada também em boa parte dos candomblés. Trabalha na encruzilhada em T e atende na gira, à noite. As pesquisas leem nela a força do desejo e da mulher que decide a própria vida.
Pombagira é do mal?
Não. A fama de entidade do mal vem do preconceito cristão e do racismo religioso contra as religiões de matriz africana. Nos terreiros, ela é entidade de trabalho, que aconselha quem a procura com respeito.
Qual é o dia da Pombagira?
É a segunda ou a sexta-feira, à noite, conforme o terreiro. Prandi registra as giras geralmente às sextas, e Barros mostra que cada casa escolhe entre segunda e sexta. O 13 de agosto não tem fonte para Pombagira.
Quais são as cores da Pombagira?
Vermelho e preto. As pombagiras das almas somam o branco, e em Porto Velho as Marias Padilhas usam também o dourado. A cor exata é da falange e da casa.
Qual a diferença entre Pombagira e Exu fêmea?
Nenhuma de princípio: “Exu fêmea” ou “Exu-mulher” é o conceito, e Pombagira é o nome dado a ele no Brasil. O que muda é a religião: na umbanda ela é espírito de trabalho da esquerda; no candomblé de nação angola, é cultuada junto ao assentamento.
Referências
- Reginaldo Prandi, Herdeiras do Axé: Pombagira e as faces inconfessas do Brasil
- Reginaldo Prandi, Esboços (UFSC): Coração de Pombagira
- Alexander Martins Vianna, Afro-Ásia (UFBA): Os sagrados femininos da Pombagira
- Cristiane Amaral de Barros, UFJF: Iemanjá e Pomba-gira
- Mariana Leal de Barros e José Francisco Bairrão, Revista do IEB (USP): Performances de gênero na umbanda
- Nilza Lagos, UMESP: Arreda homem que aí vem mulher
- Giumbelli e Almeida, Revista de Antropologia (USP): O enigma da quimbanda
- Letícia Reis, Sacrilegens (UFJF): A figura da Pombagira: transgressão e empoderamento feminino
- Porto Alegre: Lei 13.416/2023, Exu Sr. Velho Omulu