As ervas de Exu mais bem atestadas em pesquisa de campo são a pimenta (malagueta e dedo-de-moça), a aroeira-branca e a corredeira. Aparecem em estudos feitos em terreiros de candomblé e de umbanda, e a lista completa muda de casa para casa [D2, D3, D4, D9].
Este mapa mostra o que cada fonte registra, em que tradição e em qual casa. Onde não há fonte, ele diz que não há.
Quais são as ervas de Exu
A melhor base é a dissertação de Bianca Purcino, da Universidade Federal do Sul da Bahia, que levantou 118 espécies em dois terreiros de candomblé: um da nação ketu, em Itabuna, e um da nação ijexá, em Arataca. Sete plantas foram atribuídas a Exu.
| Planta | Nome em iorubá | O que o levantamento registra |
|---|---|---|
| Aroeira-branca | ájobi fumfum | Exu e Iansã; obrigações de cabeça, banhos e sacudimento |
| Pimenta-malagueta | atá | atribuída a Exu |
| Corredeira | fálakuni | Exu; enfeites e ebós |
| Vassourinha-de-relógio | ásárágogo | Exu; sacudimento e enfeite em ebós |
| Quarana | não informado | Exu; sacudimento |
| Gameleira-branca | irokò | banho “dos filhos de Exu e Oxalá” |
| Graveto-do-cão | égún mó | atribuído a Exu, sem uso religioso na tabela |
A tabela não diz qual das duas casas deu cada atribuição. Por isso o certo é falar em “dois terreiros, um ketu e um ijexá”, e nunca em “no ketu”.
Quatro dessas plantas (vassourinha-de-relógio, quarana, gameleira e graveto-do-cão) têm só esse levantamento como fonte. A pimenta é a única com fonte em duas tradições, o candomblé e a umbanda. A gameleira é também a morada de Iroco, e essa ligação não é com Exu.
De qual Exu se fala
Antes de qualquer lista, vale perguntar qual Exu. No candomblé, Exu é uma divindade múltipla: “cada casa, cada rua, cada cidade, cada mercado tem seu guardião”, escreve Reginaldo Prandi. O antropólogo Vagner Gonçalves da Silva conta menos de uma dezena de avatares de Exu no candomblé, contra legiões na umbanda.
Na umbanda, os exus são entendidos como espíritos de pessoas desencarnadas. Um dirigente ouvido em Senhor do Bonfim, na Bahia, resume: “existe o Exú Orixá e o que não é Orixá, que é um guia espiritual”. A história dessa separação está em quem é Exu, e os nomes dos guardiões, em nomes de Exu.
Uma lista de “ervas de Exu” muda conforme a resposta. A do orixá vem do candomblé. A do guardião vem da casa de umbanda que o recebe.
O que a umbanda registra
Na umbanda há menos estudo de campo, mas a pimenta-dedo-de-moça aparece em duas casas diferentes:
- Teixeira de Freitas (BA): no Terreiro de Umbanda Luz Divina de São Jorge, das 39 plantas citadas, uma foi atribuída a Exu, a pimenta-dedo-de-moça, “usada em passes, pontos e mandalas”.
- Curitiba (PR): o caderno de ervas do Terreiro do Pai Maneco diz que a mesma pimenta “é utilizada nos amalás de Exu e de Pomba Gira”. Amalá é a comida de oferenda, e o caderno a classifica como erva quente.
A jurema-preta vem de fonte secundária. Um estudo sobre terreiros do sertão baiano cita um livro umbandista que a põe no elemento fogo, com Exu como orixá regente. No mesmo estudo, um terreiro de umbanda consagra a jurema a Exu, o Exu orixá (Bará), e tem outro Exu, Tranca Rua, como guia da casa. A ficha da ferramenta em jurema traz outros orixás, e as duas leituras convivem.

Ervas de Exu no banho
Para banho, a fonte forte é curta. A aroeira-branca aparece no levantamento baiano em “obrigações de cabeça, banhos e sacudimento”. A gameleira é indicada para os banhos dos filhos de Exu e de Oxalá, segundo os entrevistados. A jurema, na leitura umbandista, entra em banhos fortes de descarrego.
Só isso. Não há receita com fonte de campo, e por isso o mapa não inventa uma. Os cuidados de banho estão nos vizinhos:
- Banho de aroeira: a planta, o cuidado com a pele e quem evita.
- Arruda, erva de Ogum e Exu e guiné, erva de Ogum e Exu: as duas ervas que o blog já trata como quentes de Exu.
- Ervas quentes e frias: a lógica que explica por que folha quente vai do pescoço para baixo.
Nenhuma planta faz um banho “de Exu” sozinha. Ossaim é o dono das folhas, e Exu, Ogum e Oxóssi são chamados “orixá de rua” por um dirigente baiano ouvido por Pedro Botelho: sem folha não há orixá.
Pimenta não vai nos olhos nem nas mucosas. O graveto-do-cão tem látex que irrita a pele, e a fonte não o dá para banho.
O que não tem fonte: guardião nomeado, angola, jeje e quimbanda
O autocomplete do Google pede “ervas de Exu Caveira”, “de Exu Tranca Rua” e “de Exu Tiriri”. Os estudos de campo abertos não atribuem erva a guardião nomeado. O que circula são listas de site sem autoria, que não entram aqui.
Outras lacunas que o texto prefere declarar:
- Angola e jeje: os estudos de campo abertos não trazem planta de Exu para essas nações.
- Quimbanda: só o contexto do guardião; nenhuma planta.
- Defumação e amaci de Exu: nenhuma fonte forte encontrada.
Quem procura “erva de Exu para assentamento” encontra outra resposta. Assentamento é feito pela casa, com o dirigente, e o que entra nele é fundamento. O que ele é e quem o faz está em assentamento de Exu. Se a sua casa pediu uma folha específica, a Joice ajuda a conferir o material pelo WhatsApp.
Como ler uma lista de ervas de Exu na internet
As listas de site costumam repetir as mesmas fichas, com nomes iorubás e a classificação de folha quente. O blog Saber Não Ocupa Espaço e o site do Àsé Dan Fè Èrò publicam fichas iguais. Parecem vir da mesma origem, o livro de Pessoa de Barros e Napoleão, de 1999 [D14, D15]. São uma voz só, e não duas fontes independentes.
Um exemplo da variação: o blog Saber diz que se usam “7 folhas para banhos de Exú e 16 para os banhos de orixás”. É a regra de uma casa. Tome como pista para perguntar à sua, e não como norma.
Antes de acreditar numa lista, três perguntas ajudam:
- Ela diz de qual Exu fala, o orixá ou o guardião?
- Ela diz a nação ou a casa?
- Ela cita fonte de campo, ou só copia outra lista?
Se a resposta for “não” às três, é lista de blog. Para conferir símbolos e cores do mesmo Exu, veja também símbolos de Exu e guia de Exu.
Perguntas frequentes
Qual erva é de Exu?
A mais bem atestada é a pimenta: aparece no candomblé baiano (malagueta) e na umbanda (dedo-de-moça), em três fontes. Aroeira-branca e corredeira vêm de um levantamento em dois terreiros do sul da Bahia. Nenhuma lista vale para todas as casas.
Quais ervas usar no banho de Exu?
A fonte de campo só liga a aroeira-branca e a gameleira a banho de Exu, e não dá receita. Pimenta não vai em mucosa. Quem indica o banho é o dirigente da casa, que conhece a sua obrigação. Os cuidados básicos estão em banho de aroeira.
Existe erva de Exu Caveira ou de Exu Tranca Rua?
Os estudos de campo abertos não atribuem erva a guardião nomeado. As listas que circulam são de site sem autoria. Cada casa tem o seu guardião e a sua folha, e é ao dirigente que se pergunta.
Erva de Exu serve para assentamento?
Assentamento é fundamento da casa, feito pelo dirigente. Por isso este mapa não lista plantas para montar um. O que é o assentamento de Exu e quem o faz está no artigo dedicado ao tema.
Referências
- Bianca Purcino: Perfil etnobotânico em terreiros de candomblé no sul da Bahia, dissertação, UFSB, 2022
- Joyce Santos e Jorge Fortuna: A etnobotânica do terreiro Luz Divina de São Jorge, Research, Society and Development, 2023
- Lílian Santos e Juracy Marques dos Santos: Orixá, natureza e homem, Núcleo do Conhecimento, 2021
- Grupo de Estudos do Terreiro do Pai Maneco: caderno de ervas e plantas
- Pedro Botelho: Ewé awo, o segredo das folhas no candomblé da Bahia, 2011
- Reginaldo Prandi: Exu, de mensageiro a diabo, Revista USP, 2001
- Vagner Gonçalves da Silva: Exu do Brasil, Revista de Antropologia, 2012
- Juliana Carvalho e José Bairrão: Umbanda e quimbanda, Psicologia USP, 2019
- Blog Saber Não Ocupa Espaço: Ervas e suas aplicações, 2013