Os reinos da Quimbanda são a forma como a tradição organiza o seu panteão: cada Exu e cada Pombagira pertence a um reino, ligado a um lugar e a um tipo de trabalho. Entender esse mapa é entender a lógica da Quimbanda, uma religião afro-brasileira séria, e não a “magia negra” que o preconceito insistiu em inventar.
Este guia percorre os sete reinos, um a um, explica a estrutura dos 63 povos de Exu, quem chefia cada reino e por que a lista muda de uma casa para outra. É um aprofundamento do nosso guia o que é a Quimbanda.
O que são os reinos da Quimbanda
Na Quimbanda, os Exus e as Pombagiras, o chamado “Povo da Rua”, não trabalham de forma solta. Eles se organizam em reinos, uma estrutura que a tradição herdou das organizações tribais da África banta, onde havia reinos governados por reis e rainhas.
Cada reino corresponde a um território espiritual e a um tipo de atuação: as encruzilhadas, os cemitérios, as matas, as praias. Não é uma geografia de “bons” e “maus” lugares, e sim de funções diferentes. Um Exu do reino das Matas trabalha a força da natureza; um Exu da Calunga lida com a ancestralidade e a morte. Cada reino tem o seu ofício.
Laroyê, Exu! saudação tradicional a Exu, o mensageiro que abre os caminhos. Antes de estudar os reinos, vale lembrar: Exu não é o diabo cristão. É guardião, agente de justiça e movimento.
A estrutura: 7 reinos, 9 povos, 63 falanges
A organização mais difundida da Quimbanda divide o panteão em 7 reinos. Cada reino se subdivide em 9 povos (também chamados de falanges), o que resulta em 63 povos de Exu. É uma estrutura em camadas, como um reino com suas províncias e vilas.
- O reino reúne os Exus de um mesmo território espiritual.
- O povo (ou falange) é um grupo menor dentro do reino, com afinidade de função.
- A chefia de cada reino cabe a um Exu-Rei e a uma Pombagira-Rainha, que comandam os Exus daquele domínio.
No topo de toda a hierarquia está a figura do Exu Maioral, o rei de todos os Exus. Em muitas casas ele recebe o nome sincrético de “Lúcifer”, herança da demonologia europeia absorvida na colonização. Isso não significa que Exu seja o demônio: é apenas um rótulo histórico, uma roupa cristã posta por cima de uma entidade africana.
Os sete reinos, um a um
A lista abaixo segue o modelo mais conhecido, também documentado em referências de estudo como a wiki de Reinos de Exú na Quimbanda. Os nomes das entidades citadas variam entre as casas.
Reino das Encruzilhadas
É a porta de entrada dos trabalhos. Governa as encruzilhadas, os cruzamentos de rua, os pontos onde os caminhos se abrem e se fecham. É o reino da abertura e do movimento, comandado pelo Exu Rei das Sete Encruzilhadas. Entre suas entidades mais conhecidas está o Exu Tranca-Ruas, guardião das passagens.
Reino do Cruzeiro
Ligado aos cruzeiros das ruas e dos cemitérios, é o reino da comunicação com as almas. Trabalha a intercessão entre os vivos e os mortos, e costuma ser procurado em questões de justiça espiritual e prestação de contas.
Reino das Matas
Governa as florestas e os lugares com árvores, fora o cemitério, que pertence a outro reino. É o reino da força bruta da natureza, das ervas e dos caminhos do mato. Os Exus daqui têm ligação com a cura pela natureza e com a proteção.
Reino da Calunga (Cemitério)
A Calunga pequena é o cemitério. Este reino trata da morte, da ancestralidade e das almas que ali habitam. É um território de respeito profundo, não de terror. Aqui atuam entidades como o Exu Caveira e o Exu do Cemitério, guardiões da fronteira entre a vida e a morte.
Reino das Almas
Ligado às almas e aos lugares altos, como lombas e morros, é o reino da mediação com os espíritos e do amparo aos que partiram. Trabalha a caridade e a orientação espiritual dentro da lógica da Quimbanda.
Reino da Lira
É o reino da vida urbana, da boemia, do prazer e do amor. Suas chefias são mais conhecidas pelos nomes sincréticos, e é aqui que reina a mais célebre das Pombagiras, Maria Padilha. Trabalha questões de sedução, autonomia e justiça afetiva.
Reino da Praia
Governa as praias e as águas, salgadas ou doces, incluindo a Calunga grande, que é o mar. É o reino da fartura, da limpeza e das grandes travessias. Os Exus e Pombagiras da Praia trabalham próximos ao encontro da terra com a água.
As chefias e os nomes sincréticos
Cada reino tem o seu Exu-Rei e a sua Pombagira-Rainha. Muitos desses nomes chegaram até nós com uma camada sincrética por cima, herdada da colonização: é o caso do reino da Lira, cujos chefes aparecem como “Exu Lúcifer” e “Maria Padilha”, quando os nomes próprios da Quimbanda seriam Exu Rei das Sete Liras e Rainha das Marias.
Esse ponto merece cuidado. Quando um reino recebe nomes como “Lúcifer” ou “do Inferno”, trata-se de heráldica sincrética, símbolos absorvidos da demonologia europeia, e não de uma confissão de que a Quimbanda cultua o mal. As Pombagiras e os Exus são entidades de trabalho, justiça e proteção. Ler seus títulos pela lente do medo cristão é justamente o erro que a religião pede para desfazer.
Por que os reinos variam entre as casas
Um leitor atento vai encontrar listas diferentes por aí, e isso é normal. A Quimbanda não tem um catecismo único. A sistematização em 7 reinos e 63 povos é a mais difundida, mas convive com outras correntes, como a quimbanda gaúcha “tradicional” e a quimbanda nagô, cada uma com suas ênfases, nomes e arranjos.
Por isso, entenda esta lista como um mapa de referência, não como dogma. O que vale, na prática, é a tradição oral da sua casa e a orientação do seu dirigente. Como em toda religião séria, aqui não há fórmula infalível nem promessa de resultado garantido: há fé, respeito e trabalho espiritual. Estudar os reinos com seriedade é também um gesto de reparação diante de séculos de racismo religioso.
Perguntas frequentes
Quantos são os reinos da quimbanda?
São 7 reinos, no modelo mais difundido: Encruzilhadas, Cruzeiro, Matas, Calunga (Cemitério), Almas, Lira e Praia. Cada reino se divide em 9 povos, ou falanges, totalizando 63 povos de Exu. Os nomes e a lista exata variam entre as casas e correntes da Quimbanda.
O que são os 63 povos de Exu?
São as 63 falanges que formam o panteão da Quimbanda: 7 reinos, cada um com 9 povos. Cada povo é um grupo de Exus com afinidade de função e território, subordinado à chefia do seu reino. É uma estrutura em camadas, herdada das organizações tribais da África banta.
Quem chefia os reinos da quimbanda?
Cada reino é comandado por um Exu-Rei e uma Pombagira-Rainha. No topo de toda a hierarquia está o Exu Maioral, o rei de todos os Exus, que em muitas casas recebe o nome sincrético de Lúcifer, um rótulo colonial que não significa o diabo cristão.
Os reinos da quimbanda são iguais em todas as casas?
Não. A Quimbanda não tem um catecismo único. O modelo de 7 reinos e 63 povos é o mais conhecido, mas há correntes diferentes, como a quimbanda gaúcha e a nagô, com nomes e arranjos próprios. A lista deve ser lida como mapa de referência, não como regra universal.
Exu da quimbanda é o diabo?
Não. Exu é mensageiro, guardião dos caminhos e agente de justiça. Nomes como “Lúcifer” em certos reinos são rótulos sincréticos herdados da demonologia europeia na colonização, não uma afirmação de culto ao mal. Confundir Exu com o diabo cristão é o preconceito que a Quimbanda pede para desfazer.
Onde comprar artigos para Quimbanda
Na Joia Mística Laroyê, você encontra tudo para o culto a Exu e Pombagira com respeito e qualidade:
- Velas vermelhas e pretas as cores tradicionais de Exu, em vários tamanhos
- Imagens de Exu e Pombagira peças de altar e firmas dos reinos
- Charutos e cigarrilhas rituais para oferendas e firmezas
- Guias e colares nas cores das entidades
- Ervas e defumadores para banhos e limpeza de ambiente
Conheça também nossa página dedicada à Quimbanda e suas tradições. Visite a loja em Extrema-MG e enviamos para todo o Brasil.
Referências
- Wikipédia: verbete sobre a Quimbanda
- Deldebbio Wiki: Reinos de Exú na Quimbanda, referência de estudo sobre a estrutura dos reinos