Quimbanda não é magia negra. Essa é a confusão mais antiga e mais injusta que persiste sobre a tradição e talvez seja ela que tenha trazido você até aqui. A Quimbanda é uma religião afro-brasileira que cultua Exu e Pombagira de forma central, com cosmologia, ritos e organização próprios. Este guia explica o que ela é de verdade: sua origem, a doutrina de Exu e Pombagira, os 7 reinos, a diferença para a umbanda e por que o rótulo de “feitiçaria do mal” diz mais sobre o preconceito do país do que sobre a religião.
O que é a Quimbanda
A Quimbanda (também grafada Kimbanda) é uma religião de matriz afro-brasileira centrada no culto a Exus e Pombagiras. A palavra vem do quimbundo, língua banta de Angola, em que kimbanda designa o curandeiro, o sacerdote, o especialista em rituais e cura. Na origem, portanto, não há nenhum sentido de “magia do mal” pelo contrário, o termo nomeia quem domina o conhecimento de tratar e orientar a comunidade.
Como religião de raízes bantu e iorubá, a Quimbanda tem uma lógica pragmática: trabalha questões concretas da vida proteção, justiça pessoal, prosperidade, amor e sexualidade. Isso a diferencia da ética de caridade e evolução que organiza a umbanda, mas não a torna “negativa”. São propósitos distintos, não uma escala de bem e mal.
Laroyê, Exu! saudação tradicional dirigida a Exu, de domínio público nos terreiros. Significa, em linhas gerais, “salve o mensageiro”, aquele que abre os caminhos.
A origem da Quimbanda: do Rio Grande do Sul para o Brasil
A raiz mais profunda da Quimbanda está nos cultos africanos a Exu, especialmente entre os povos bantos, reinterpretados no Brasil ao longo dos séculos da diáspora. Mas é como religião autônoma com símbolos, ritos iniciáticos e dogmas próprios que ela se estrutura no Rio Grande do Sul, na região de Porto Alegre, a partir de meados dos anos 1960.
Foi nesse período que o culto a Exu e Pombagira passou a ser celebrado de forma independente, e não apenas como uma “linha de trabalho” dentro de outra tradição. A pesquisa acadêmica registra justamente essa consolidação da quimbanda como modalidade religiosa própria no Sul do país é o que mostra, por exemplo, o estudo O enigma da quimbanda, publicado na Revista de Antropologia da USP. A sistematização dos reinos e das falanges aparece em obras populares das décadas de 1960 e 1970 literatura de grande circulação que ajudou a organizar a cosmologia, ainda que a autoria e as datas exatas dessas publicações fundadoras variem conforme a fonte.
Vale guardar uma distinção importante: o Exu da Quimbanda (entidade, espírito que trabalha) não é o mesmo que o Exu orixá do candomblé (força da natureza, divindade iorubá ligada às encruzilhadas e à comunicação). São figuras de tradições diferentes, com naturezas diferentes.
Exu e Pombagira: os dois polos da Quimbanda
No coração da Quimbanda estão duas forças complementares e é fundamental entendê-las sem a lente do preconceito.
- Exu entidades masculinas associadas às encruzilhadas, aos caminhos, às trocas e à comunicação entre o mundo material e o espiritual. São agentes de movimento, mediação e justiça. Exu abre e fecha portas conforme a intenção de quem o procura.
- Pombagira (ou Pomba Gira) entidades femininas ligadas ao amor, à sexualidade, à autonomia feminina e à justiça emocional. Costumam ser associadas a mulheres que desafiaram normas morais e patriarcais figuras de força, sabedoria e liberdade, jamais de promiscuidade no sentido moralista.
Exu e Pombagira são polos que se completam masculino e feminino de uma mesma engrenagem espiritual, e não uma dupla de “bem” e “mal”. Entre as entidades mais conhecidas estão Maria Padilha (a mais célebre das Pombagiras), Exu Tranca-Ruas (proteção e abertura de caminhos) e Zé Pelintra, o malandro dos terreiros boêmio e brincalhão, mas trabalhador exigente, cuja classificação varia entre as casas.
Quem está começando a estudar essas figuras pode achar útil conhecer também as guias de umbanda e o que cada uma representa, já que muitas entidades transitam entre as duas tradições.
Os 7 reinos da Quimbanda e os 63 povos de Exu
A organização mais difundida da Quimbanda divide o panteão em 7 reinos, cada um com 9 povos (também chamados de falanges) totalizando 63 povos de Exu. Cada reino e cada povo é chefiado por um Exu-Rei e uma Pombagira-Rainha, numa estrutura que lembra organizações monárquicas e tribais e que absorveu, pelo sincretismo, camadas da antiga demonologia europeia.
| Reino | Chefia (Exu-Rei / Pombagira-Rainha) | Domínio |
|---|---|---|
| Encruzilhadas | Exu Rei das Sete Encruzilhadas / Pombagira Rainha das Sete Encruzilhadas | Abertura de caminhos; “porta de entrada” dos trabalhos |
| Cruzeiro | Exu Rei dos Sete Cruzeiros / Pombagira Rainha dos Cruzeiros | Cruzeiros e ligação com as almas |
| Matas | Exu Rei das Matas / Pombagira Rainha das Matas | Florestas e locais com árvores |
| Calunga (Cemitério) | Exu Rei das Sete Calungas / Pombagira Rainha das Sete Calungas | Cemitérios, mortes e almas |
| Almas | Exu Rei das Almas / Pombagira Rainha das Almas | Almas e lugares altos (lombas) |
| Lira | Exu Rei das Sete Liras / Rainha (sincrética: Maria Padilha) | Vida urbana, boemia, prazer e amor |
| Praia | Exu Rei da Praia / Pombagira Rainha da Praia | Praias e proximidades das águas |
Um cuidado honesto: os nomes e a lista exata dos reinos variam entre casas e correntes (a quimbanda gaúcha “tradicional”, a quimbanda nagô, entre outras). O modelo de 7 reinos e 63 povos é o mais difundido, mas deve ser lido como mapa de referência e não como dogma universal único.
Quimbanda e umbanda: qual é a diferença?
Embora caminhem lado a lado em muitas casas, quimbanda e umbanda são coisas distintas. A diferença não está em “bem contra mal”, e sim em propósito e estrutura.
- Na umbanda religião sincrética brasileira que reúne catolicismo popular, espiritismo, candomblé e tradições indígenas o eixo é a caridade, a evolução espiritual e a cura. Exus e Pombagiras atuam como guias dentro de uma mesa orientada por Caboclos e Pretos-Velhos. Se quiser se aprofundar nessa tradição, veja a diferença entre umbanda e candomblé.
- Na quimbanda, Exu e Pombagira são o centro do culto, não coadjuvantes. É a “casa de Exu” seu reinado, sua lógica direta e pragmática de resolver demandas da vida.
A famosa divisão entre “direita” (umbanda) e “esquerda” (quimbanda) é, na verdade, uma construção histórico-moral, não uma verdade teológica. O sociólogo Renato Ortiz, no clássico A Morte Branca do Feiticeiro Negro, mostra como a sociedade brasileira hierarquizou moralmente as religiões negras à medida que tentava “embranquecê-las” e aproximá-las de valores cristãos europeus. Direita e esquerda, nessa leitura, se complementam não se opõem como luz e sombra.
Quimbanda é magia negra? Desfazendo o estigma
Não. Quimbanda não é magia negra, satanismo nem “macumba do mal”. É uma religião, e merece a mesma naturalidade com que tratamos o catolicismo ou o budismo.
O equívoco mais grave é confundir Exu com o diabo cristão. Quando alguns reinos recebem nomes como “Lúcifer” ou “Maria Padilha do Inferno”, esses são rótulos sincréticos heráldica absorvida da demonologia europeia ao longo da colonização, e não uma afirmação de que Exu “é o demônio”. Exu é mensageiro, guardião de caminhos, agente de justiça. Nada nele corresponde ao mal absoluto da teologia cristã.
A pecha de “magia negra” nasceu do racismo religioso que perseguiu terreiros por mais de um século. Estudar a Quimbanda com seriedade sua etimologia banta, sua origem histórica, sua cosmologia é também um gesto de reparação e de respeito. Como em qualquer religião séria, aqui não há fórmula infalível nem promessa de resultado garantido: há fé, responsabilidade e trabalho espiritual.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre umbanda e quimbanda?
Na umbanda, o eixo é a caridade e a evolução espiritual, e Exu atua como guia dentro de uma mesa. Na quimbanda, Exu e Pombagira são o centro do culto, com lógica pragmática voltada a demandas concretas. A divisão “direita e esquerda” é histórico-moral, não uma oposição entre bem e mal.
Quantos são os reinos da quimbanda?
São 7 reinos, cada um com 9 povos (falanges), totalizando 63 povos de Exu. Cada reino é chefiado por um Exu-Rei e uma Pombagira-Rainha. Os nomes variam entre casas e correntes, então essa estrutura deve ser entendida como o modelo mais difundido, não como regra única.
Exu da quimbanda é o mesmo Exu orixá do candomblé?
Não. O Exu orixá do candomblé é uma divindade iorubá, força da natureza ligada à comunicação e às encruzilhadas. O Exu da quimbanda é uma entidade, um espírito que trabalha. Compartilham simbologia de caminhos e mensageiro, mas pertencem a tradições e naturezas diferentes.
Quimbanda é perigosa?
A quimbanda é uma religião como outra qualquer exige respeito, seriedade e orientação. Não é “perigosa” por si só; o que pede cuidado é procurar uma casa idônea e um dirigente responsável, em vez de promessas sensacionalistas. Trabalho espiritual sério nunca garante resultado mágico instantâneo.
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Referências
- Wikipédia: verbete sobre a Quimbanda
- Revista de Antropologia da USP (Scielo): O enigma da quimbanda