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Quimbanda 8 min de leitura

Diferença entre umbanda e quimbanda: o que separa as duas

A diferença entre umbanda e quimbanda não é bem contra mal. Veja origem, entidades, giras e oferendas de cada uma, e por que tanta casa pratica as duas.

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Congá claro de umbanda ao lado da tronqueira de Exu com velas vermelhas e pretas, contrastando as duas giras no terreiro.

Resumo

Umbanda e Quimbanda são tradições espirituais brasileiras irmãs, porém com naturezas de atuação, teologias e abordagens magísticas distintas que operam de forma complementar no universo astral.

A Umbanda trabalha predominantemente nas irradiações da Direita (com Caboclos, Pretos-Velhos e Erês voltados para a cura, consolo e caridade pública moral), integrando a Esquerda como força de proteção e guarda subordinada à Lei Divina.

A Quimbanda é o culto autônomo e aprofundado aos Guardiões da Esquerda (Exus e Pombagiras), operando na contenção cármica, quebra direta de feitiçarias, domínio dos elementos da matéria e corte de demandas densas através do fogo, do ferro e dos mistérios da terra.

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Quem trabalha em loja de artigos religiosos ouve essa pergunta toda semana: “isso aqui é de umbanda ou de quimbanda?”. Por trás dela quase sempre mora outra dúvida, mais antiga, que a pessoa tem vergonha de dizer em voz alta.

A diferença entre umbanda e quimbanda não é a diferença entre o bem e o mal. São duas tradições brasileiras distintas, com origens próprias, entidades próprias e formas próprias de organizar o trabalho. A divisão que muita gente carrega na cabeça é moral e histórica, não teológica.

Este guia compara as duas lado a lado: onde cada uma nasceu, quem trabalha em cada gira e como são as oferendas. Também explica por que tanta casa pratica as duas, e de onde veio a fama que persegue a quimbanda até hoje.


O que separa de verdade as duas

Em uma frase: a umbanda organiza o trabalho em torno de guias como caboclos e pretos-velhos, enquanto a quimbanda organiza o culto em torno de Exus e Pombagiras.

Não é uma diferença de qualidade moral. É uma diferença de quem é o dono da casa. Na umbanda, Exu é convidado, guarda a porta e executa a ordem da gira. Na quimbanda, a gira é dele.

Existem outras distâncias importantes: o horário do trabalho, o local da oferenda, o vocabulário ritual e a lógica do que se pede. Nenhuma delas coloca uma religião acima da outra.


Onde cada uma nasceu

A umbanda se organiza no Brasil no início do século XX. A referência mais citada é a de Zélio Fernandino de Moraes, em 1908, no Rio de Janeiro. Ela nasce como síntese: candomblé, kardecismo, catolicismo popular e tradições indígenas dentro de um mesmo salão.

A palavra quimbanda é mais antiga que essa história. Vem do quimbundo kimbanda, que nomeia o curador, o sacerdote que trata e resolve. No candomblé de Angola, o Tata Kimbanda já era um cargo com função definida.

Aqui vem o ponto que quase ninguém conta. Depois que a umbanda se organizou em torno de uma moral de caridade, o nome “quimbanda” passou a ser usado pelos próprios umbandistas para apontar aquilo que eles recusavam. Boa parte do estigma nasceu dentro de casa, como acusação, e não como descrição de uma doutrina.

No Rio Grande do Sul o desenho é ainda mais específico. A quimbanda ganha autonomia a partir dos anos 1960, saindo da chamada linha cruzada, que reunia batuque e umbanda no mesmo terreiro. O artigo “O enigma da quimbanda”, de Emerson Giumbelli e Leonardo Oliveira de Almeida, documenta bem esse processo.


Quem trabalha em cada gira

Na umbanda, a gira se abre para uma variedade grande de entidades. Caboclos, pretos-velhos, erês, baianos, boiadeiros, marinheiros e ciganos atendem cada um na sua linha. Exus e Pombagiras aparecem como guardiões, e os orixás funcionam como forças regentes. O artigo sobre os guias da umbanda detalha essas falanges.

Na quimbanda, o culto se concentra em Exus e Pombagiras, organizados em reinos e falanges. Encruzilhadas, cruzeiro, matas, calunga, almas, lira e praia dão nome a esses domínios, que já estão explicados em detalhe no texto sobre os reinos da quimbanda.

Sobre “esquerda” e “direita”: esses termos são vocabulário interno de organização do trabalho, não uma escala moral. Gira de esquerda quer dizer gira do povo de Exu, e nada além disso.


Tabela comparativa

CritérioUmbandaQuimbanda
OrigemBrasil, início do séc. XX, referência em Zélio de Moraes (1908)Termo do quimbundo kimbanda; culto autônomo urbano consolidado no séc. XX
Entidades centraisCaboclos, pretos-velhos, erês, baianos, boiadeirosExus e Pombagiras, em reinos e falanges
Papel de ExuConvidado e guardião, trabalha sob a direção da casaDono da casa, com assentamento e culto próprios
GiraDiurna ou início da noite, ponto cantado em portuguêsTradicionalmente noturna, com toque e ponto próprios
OferendasPontos de natureza da linha e congá do terreiroEncruzilhada, calunga, mata, beira de estrada
VestimentaBranco predominante, guias por linhaCores fortes por reino: preto, vermelho, roxo
Eixo do trabalhoCaridade e desenvolvimento mediúnicoResolução prática de questões concretas da vida
MoralidadeÉtica de caridade, herança cristã-kardecistaÉtica de responsabilidade e troca, sem divisão bem contra mal

Uma ressalva honesta: nada disso é regra fechada. Dia da gira, presença de orixá na quimbanda e nome das falanges mudam de casa para casa e de região para região.


Exu: o mesmo nome, dois lugares diferentes

Muita confusão vem daqui. Exu aparece nas duas tradições, mas ocupa lugares distintos em cada uma.

Na umbanda, Exu é guardião. Ele abre caminho, guarda a porta, faz a limpeza do ambiente e responde à direção do terreiro. A gira principal pertence a outros guias, e ele trabalha ao lado deles.

Na quimbanda, Exu é o centro. Recebe assentamento próprio, tem hierarquia definida e é a ele que o trabalho se dedica. Em parte das casas gaúchas ele chega a receber tratamento ritual comparável ao de orixá, com expressões como “Exu cruzado”.

Vale dizer o óbvio, porque ainda é preciso: Exu não tem relação com o diabo das tradições cristãs. Essa associação foi produzida de fora, pela catequese e pela imprensa, e não descreve o que acontece em terreiro nenhum.


Por que tanta casa pratica as duas

Se a diferença é real, por que tantos terreiros abrem gira de umbanda e gira de quimbanda no mesmo endereço?

Porque as duas se completam na prática. Muitas casas se declaram de umbanda cruzada e trabalham as duas linhas com organização separada:

  • Dias diferentes: a gira de esquerda costuma ficar em segunda ou sexta, mas isso varia
  • Espaços diferentes: a tronqueira fica na entrada, fora do salão principal
  • Ritual diferente: abertura, ponto cantado e vestimenta seguem a linha do dia

Também existem casas exclusivamente de quimbanda, com fundamento e hierarquia próprios, que nunca abrem gira de direita. As duas configurações são legítimas. Para entender melhor como funciona uma sessão de umbanda, vale o texto sobre a gira de umbanda.

E o candomblé, entra onde nessa conversa? Em outro lugar, com liturgia e estrutura próprias, tema tratado no comparativo entre umbanda e candomblé.


De onde vem a fama de “magia negra”

O rótulo de “magia negra” nunca foi uma categoria da quimbanda. Foi uma acusação, e vale saber de quem partiu.

Primeiro veio de fora, na perseguição às religiões de matriz africana, que a polícia e a imprensa trataram como caso de ordem pública durante décadas. Depois veio de dentro, quando setores da umbanda usaram o nome para se afastar do que consideravam pouco respeitável.

A pesquisa acadêmica recente desmonta esse enquadramento. O artigo “Umbanda e quimbanda: alternativa negra à moral branca”, de Juliana Carvalho e José Francisco Bairrão, na revista Psicologia USP, contesta diretamente a leitura da quimbanda como inversão perversa da umbanda. O que a etnografia encontra é outra ética, não a ausência de ética.

O que a quimbanda não adota é a divisão maniqueísta entre bem e mal. No lugar dela, opera uma lógica de responsabilidade pessoal e de troca. Isso incomoda quem espera de toda religião a mesma gramática cristã de pecado e redenção.


Perguntas frequentes

Quimbanda é o mesmo que umbanda?

Não. São tradições distintas, com origens, entidades e liturgias próprias. A umbanda se organiza em torno de guias como caboclos e pretos-velhos, e a quimbanda em torno de Exus e Pombagiras. Muitas casas praticam as duas, em dias e espaços separados, o que ajuda a criar a confusão.

Quimbanda é “magia negra”?

Não. O rótulo é uma acusação externa, herdada da perseguição às religiões afro-brasileiras e reforçada por setores da própria umbanda no século XX. A quimbanda é uma religião com fundamento, hierarquia e ética próprias, e a pesquisa acadêmica recente contesta essa leitura de forma direta.

Exu na umbanda é o mesmo Exu da quimbanda?

O nome é o mesmo, o lugar ritual é diferente. Na umbanda, Exu atua como guardião, abre caminho e trabalha sob a direção da casa. Na quimbanda, ele é o centro do culto, recebe assentamento próprio e é a ele que a gira se dedica.

Gira de esquerda é quimbanda?

Nem sempre, mas com frequência é assim que se chama. “Esquerda” nomeia o trabalho com o povo de Exu, e muitas casas de umbanda cruzada usam o termo para a gira que dedicam a essas entidades. O vocabulário muda conforme a região e a tradição da casa.

Pode frequentar umbanda e quimbanda ao mesmo tempo?

Pode, e é comum. Boa parte dos terreiros de umbanda cruzada abre as duas giras, em dias diferentes. Quem define o que é adequado para cada pessoa é a direção da casa, considerando o desenvolvimento mediúnico e o momento de vida de cada um.


Onde comprar artigos para umbanda e quimbanda

Na Joia Mística Laroyê, você encontra material para as duas giras:

  • Velas de todas as cores: brancas para a direita, vermelhas e pretas para a esquerda
  • Guias e fios de conta: montados por linha e por falange
  • Imagens e assentamentos: Exu, Pombagira, caboclos e pretos-velhos
  • Ervas secas e defumadores: para banho, limpeza de ambiente e defumação da casa
  • Bebidas rituais, charutos e velas de sete dias: os itens mais pedidos para firmeza

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Para conhecer a origem do termo e o uso histórico da palavra, vale o verbete “Quimbanda” na Wikipédia.


Referências

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