Filho de Exu existe no candomblé, mas é raro, e a raridade tem causa registrada. Segundo Reginaldo Prandi, quem o jogo de búzios apontava como filho de Exu acabava iniciado para outro orixá, em especial Ogum Xoroquê. Sobre os filhos de Exu, a resposta muda conforme a nação e conforme o Exu de que se fala.
Aqui não há lista de “características”. Há o que a pesquisa registra, nação por nação, e de onde vem o que se costuma dizer. Para o orixá em si, veja quem é Exu.
Existe filho de Exu no candomblé?
Existe. No candomblé, cada pessoa é iniciada para um orixá de cabeça. Prandi escreve que, até pouco antes de 2001, “eram raros e notórios os filhos de Exu iniciados para Exu”.
O sociólogo Roger Bastide, nos anos 1950, disse conhecer “pelo menos uma filha de Exu” e ter ouvido nomes de outras: o número era pequeno. Édson Carneiro registrou, na Bahia de 1948, um jeito de falar: “não se diz que a pessoa é filha de Exu, mas que tem um carrego de Exu”.
“Já há filhos de Exu orgulhosos de sua origem”
A frase é de Prandi, e descreve um movimento recente. Em terreiros que abandonam o sincretismo com o catolicismo, Exu passa a ser tratado como um orixá igual aos demais.
Um caso recente aparece numa reportagem do Jornal Correio, de Salvador, de 2023. Em 2022, um iaô de 29 anos foi consagrado a Exu no terreiro Aganju, em Lauro de Freitas (BA). Pai Balbino de Xangô, apontado pelo jornal como a maior autoridade do candomblé atual, lembrava de “apenas três casos” de pessoas feitas de Exu na Bahia. O jornal leu ainda a listagem do mapeamento dos terreiros de Salvador, de 2006: dos 1.165 terreiros, quatro eram de Exu. O número é do jornal. O iniciado resumiu: “foi Exu que me escolheu”.
Filho de Exu em cada nação
A resposta muda de casa para casa. O quadro mostra o que cada fonte registra:
| Tradição | O que a fonte diz |
|---|---|
| Candomblé ketu (nagô) | existe, é raro. A casa costumava iniciar para outro orixá [D1, D2] |
| Candomblé jeje | Legba, Aizan e Ogum Xoroquê “não raspam ninguém” e não se manifestam em corpo humano |
| Candomblé angola-congo | Pambu Njila, também chamado Aluvaiá, é associado a Exu. Não há fonte sobre ser ou não nkisi de cabeça |
| Batuque (RS) | o Bará comumente ocupa seus filhos e atua como “dono da cabeça” |
No jeje, quem escreve é Vagner Gonçalves da Silva, sobre os jeje-mahi de Cachoeira (BA). Ele conta que Legba é cultuado na maioria das casas jeje, mas não é “feito” em corpo humano [D12, D14].
No angola-congo, uma dissertação da Unesp registra que Pambu Njila (ou Pambu Nzila) é “a divindade protetora dos templos e dos caminhos”, associada a Exu. A fórmula “filho de Pambu Nzila” apareceu uma vez em campo, dita por um dirigente em tom de brincadeira. Não há fonte aberta que diga se ele é nkisi de cabeça, e por isso o texto não afirma.
No batuque, o certo é dizer “Bará”, e não “Exu”. Pesquisadores entrevistaram pessoas “de Bará” no Rio Grande do Sul. O Bará de casa se distingue do “bará da rua”, este com poucos iniciados. O par de orixás de cabeça no batuque está em orixá de frente e de junto, e o quadro geral, em o que é batuque.

Ter um Exu não é ser filho de Exu
Muita confusão vem daqui. No candomblé nagô, todo iniciado recebe o seu Exu pessoal, o Bara, junto do assento do orixá de cabeça. Juana Elbein dos Santos descreve que a noviça recebe duas vasilhas consagradas: a do seu orixá, “dono de sua cabeça”, e a do seu Bara. Prandi resume que cada casa, cada rua e cada pessoa tem seu guardião.
Entre os fon é parecido: cada pessoa tem um Legba que a acompanha do nascimento à morte, e o “vodum dono de sua cabeça” é outra coisa.
Quase todo iniciado tem o seu Exu, e só uma minoria o tem como orixá de cabeça. O Exu de cada pessoa está em assentamento de Exu.
Uma nota de grafia: Bara é o Exu pessoal do candomblé nagô, na grafia de Elbein dos Santos, e Bará é o orixá do batuque.
O que se diz de quem é de Exu: o estereótipo
O que circula sobre “as características do filho de Exu” tem nome na academia: estereótipo do orixá, um conjunto de traços que os devotos atribuem a cada orixá e a seus filhos. Prandi registra o que os seguidores dizem dos consagrados a Exu, e a lista inclui pessoas inteligentes, rápidas e carnais. Ele enquadra tudo como crença: “os devotos acreditam que os homens e mulheres herdam muitos dos atributos de personalidade de seus orixás”. E lembra que nenhum orixá é inteiramente bom, nem inteiramente mal.
Há quatro motivos para não tomar a lista como diagnóstico:
- Ninguém testou. O único estudo com testes psicológicos que se encontrou, num terreiro queto do Rio de Janeiro, tinha 15 pessoas, e nenhuma era de Exu. As autoras concluem que não seria possível estabelecer correlações.
- Os quadros não fecham. As informações do pai de santo não formaram um quadro coerente. Algumas filhas de certos orixás haviam sido raspadas sob a proteção de outros, tidos como mais benéficos.
- Exu tem muitas qualidades. Bastide contou 21 subdivindades de Exu, mais que Oxum (16), Omolu (14) e Xangô (12). Um traço único para “o filho de Exu” apaga essa diversidade.
- As descrições se contradizem. Numa dissertação da PUC Goiás, a lista de falas de devotos junta “gente de Exu é perturbada” e, no mesmo trecho, “não guarda rancor”.
O estereótipo também machucou pessoas. A mesma dissertação registra que, com a expansão dos candomblés no século XIX, ter Exu na cabeça virou infortúnio para alguns dirigentes, com estigma e preconceito. Dirigentes chegaram a propor trocar o orixá de cabeça do filho de Exu, alegando que Exu, por ser movimento, geraria filhos “desinquietos”.
Filho de Exu Caveira é outra camada
“Filho de Exu Caveira”, “de Tiriri” ou “de Capa Preta” é fala popular sobre o guardião da umbanda e da quimbanda. As pesquisas acadêmicas consultadas não usam a expressão.
Na umbanda, os exus são entendidos como espíritos de pessoas desencarnadas. Ser “de esquerda”, dizem Carvalho e Bairrão, não é propriedade de certos tipos de entidade, mas um modo de manifestação. Numa casa de umbanda estudada pela USP, o preto-velho lê o orixá de cabeça dos filhos de santo pelo nome e pela data de nascimento. Ele segue sendo um orixá, como Ogum ou Iansã. O guardião é outra relação.
A vertente Umbanda Sagrada diz que não há filho de Exu, de Pombagira nem de Exu Mirim. É posição de uma vertente, e não de toda a umbanda.
Para saber quem é cada guardião, veja Exu Caveira, exu de guarda e nomes de Exu. A ferramenta qual é o seu Exu mostra afinidades, como entretenimento.
Como a casa reconhece o orixá de cabeça
Quem confirma o orixá de cabeça no candomblé é o jogo de búzios da casa de santo, feito pelo pai ou pela mãe de santo. A Joice não joga búzios, e este texto não faz leitura de cabeça.
Para pensar no assunto, veja como saber qual é o meu orixá e pode ser filho de mais de um orixá. A ferramenta descubra seu orixá serve de ponto de partida, e não de resposta.
Perguntas frequentes
Existe filho de Exu no candomblé?
Existe, mas é raro. Prandi registra que os iniciados para Exu eram “raros e notórios”, e que hoje há filhos de Exu que assumem a origem. Na Bahia, um jornal de 2023 citou uma autoridade que lembrava de apenas três casos. O que vale é o jogo da sua casa.
É raro ser filho de Exu? Por quê?
Sim. Segundo Prandi, o jogo indicava Exu e a casa iniciava para outro orixá, em especial Ogum Xoroquê. Bastide lia a raridade como efeito do estigma que recaía sobre Exu. Hoje, com a dessincretização, isso vem mudando.
Quais são as características dos filhos de Exu?
O que circula é estereótipo dos devotos, e não diagnóstico. Prandi registra que os seguidores os veem como inteligentes, rápidos e carnais. O único estudo com testes psicológicos não achou correlação. Ninguém é definido pelo orixá.
Tem como ser filho de Exu na umbanda?
Na umbanda, Exu é um guardião, espírito de pessoa desencarnada, e não orixá de cabeça. Uma vertente diz que não há filho de Exu. Muitas casas falam em “trabalhar com Exu”, que é outra relação. Procure a sua casa.
Filho de Exu pode ser também de outro orixá?
No candomblé, cada pessoa tem um orixá de cabeça, e o jogo pode apontar um juntó. Todo iniciado nagô recebe também o seu Bara, então quase todos têm um Exu pessoal. Veja o artigo sobre mais de um orixá.
Referências
- Reginaldo Prandi: Exu, de mensageiro a diabo, Revista USP, 2001
- Reginaldo Prandi: Deuses africanos no Brasil contemporâneo, Horizontes Antropológicos, 1995
- Vagner Gonçalves da Silva: Legba no Brasil, Sociologia & Antropologia, 2019
- Renato Botão: Para além da nagocracia, dissertação, UNESP Marília, 2007
- Emerson Giumbelli e Leonardo de Almeida: O Enigma da quimbanda, Revista de Antropologia, 2021
- Monique Augras e Angela Correa: O objeto do desejo, Arquivos Brasileiros de Psicologia, 1979
- Denise Camargo: Laróyè, das ruas ao terreiro, Studium, 2005
- Juliana Carvalho e José Bairrão: Umbanda e quimbanda, Psicologia USP, 2019
- Oli Santos da Costa: Exu, o orixá fálico da mitologia nagô-yorubá, dissertação, PUC Goiás, 2012
- Jornal Correio: Por que há tão poucos candomblés de Exu na Bahia?, 2023