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Filhos de Exu: existe no candomblé e o que se diz deles

Existe filho de Exu no candomblé, mas é raro e depende da nação. Veja o que Prandi e outras pesquisas registram sobre os filhos de Exu e o que é só estereótipo.

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Um alguidar de barro com um pequeno garfo de ferro e uma laterita, ao lado de uma vela vermelha e uma preta acesas sobre o chão de terra batida de um terreiro, diante de uma parede caiada.

Resumo

Existe filho de Exu no candomblé, mas é raro. Segundo Reginaldo Prandi, quem o jogo indicava como filho de Exu acabava iniciado para outro orixá, em especial Ogum Xoroquê. Hoje já há iniciados para Exu que assumem a origem com orgulho.

A resposta depende da nação. No jeje, Legba não raspa ninguém. No angola-congo, a associação de Pambu Njila com Exu existe, mas as fontes não dizem se ele é nkisi de cabeça. No batuque, o Bará costuma ocupar os filhos e ser dono da cabeça.

Ter um Exu pessoal não é ser filho de Exu: todo iniciado nagô recebe o seu Bara. Os traços que os devotos atribuem aos filhos de Exu são estereótipo, e o único estudo com testes psicológicos não achou correlação. Filho de Exu Caveira é outra camada, a do guardião.

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Filho de Exu existe no candomblé, mas é raro, e a raridade tem causa registrada. Segundo Reginaldo Prandi, quem o jogo de búzios apontava como filho de Exu acabava iniciado para outro orixá, em especial Ogum Xoroquê. Sobre os filhos de Exu, a resposta muda conforme a nação e conforme o Exu de que se fala.

Aqui não há lista de “características”. Há o que a pesquisa registra, nação por nação, e de onde vem o que se costuma dizer. Para o orixá em si, veja quem é Exu.


Existe filho de Exu no candomblé?

Existe. No candomblé, cada pessoa é iniciada para um orixá de cabeça. Prandi escreve que, até pouco antes de 2001, “eram raros e notórios os filhos de Exu iniciados para Exu”.

O sociólogo Roger Bastide, nos anos 1950, disse conhecer “pelo menos uma filha de Exu” e ter ouvido nomes de outras: o número era pequeno. Édson Carneiro registrou, na Bahia de 1948, um jeito de falar: “não se diz que a pessoa é filha de Exu, mas que tem um carrego de Exu”.

“Já há filhos de Exu orgulhosos de sua origem”

A frase é de Prandi, e descreve um movimento recente. Em terreiros que abandonam o sincretismo com o catolicismo, Exu passa a ser tratado como um orixá igual aos demais.

Um caso recente aparece numa reportagem do Jornal Correio, de Salvador, de 2023. Em 2022, um iaô de 29 anos foi consagrado a Exu no terreiro Aganju, em Lauro de Freitas (BA). Pai Balbino de Xangô, apontado pelo jornal como a maior autoridade do candomblé atual, lembrava de “apenas três casos” de pessoas feitas de Exu na Bahia. O jornal leu ainda a listagem do mapeamento dos terreiros de Salvador, de 2006: dos 1.165 terreiros, quatro eram de Exu. O número é do jornal. O iniciado resumiu: “foi Exu que me escolheu”.


Filho de Exu em cada nação

A resposta muda de casa para casa. O quadro mostra o que cada fonte registra:

TradiçãoO que a fonte diz
Candomblé ketu (nagô)existe, é raro. A casa costumava iniciar para outro orixá [D1, D2]
Candomblé jejeLegba, Aizan e Ogum Xoroquê “não raspam ninguém” e não se manifestam em corpo humano
Candomblé angola-congoPambu Njila, também chamado Aluvaiá, é associado a Exu. Não há fonte sobre ser ou não nkisi de cabeça
Batuque (RS)o Bará comumente ocupa seus filhos e atua como “dono da cabeça”

No jeje, quem escreve é Vagner Gonçalves da Silva, sobre os jeje-mahi de Cachoeira (BA). Ele conta que Legba é cultuado na maioria das casas jeje, mas não é “feito” em corpo humano [D12, D14].

No angola-congo, uma dissertação da Unesp registra que Pambu Njila (ou Pambu Nzila) é “a divindade protetora dos templos e dos caminhos”, associada a Exu. A fórmula “filho de Pambu Nzila” apareceu uma vez em campo, dita por um dirigente em tom de brincadeira. Não há fonte aberta que diga se ele é nkisi de cabeça, e por isso o texto não afirma.

No batuque, o certo é dizer “Bará”, e não “Exu”. Pesquisadores entrevistaram pessoas “de Bará” no Rio Grande do Sul. O Bará de casa se distingue do “bará da rua”, este com poucos iniciados. O par de orixás de cabeça no batuque está em orixá de frente e de junto, e o quadro geral, em o que é batuque.

Pintura de quatro vasilhas de barro de tamanhos diferentes em fila sobre um pano branco e uma esteira de palha, cada uma com uma vela acesa de cor única ao lado: vermelha, branca, preta e azul.


Ter um Exu não é ser filho de Exu

Muita confusão vem daqui. No candomblé nagô, todo iniciado recebe o seu Exu pessoal, o Bara, junto do assento do orixá de cabeça. Juana Elbein dos Santos descreve que a noviça recebe duas vasilhas consagradas: a do seu orixá, “dono de sua cabeça”, e a do seu Bara. Prandi resume que cada casa, cada rua e cada pessoa tem seu guardião.

Entre os fon é parecido: cada pessoa tem um Legba que a acompanha do nascimento à morte, e o “vodum dono de sua cabeça” é outra coisa.

Quase todo iniciado tem o seu Exu, e só uma minoria o tem como orixá de cabeça. O Exu de cada pessoa está em assentamento de Exu.

Uma nota de grafia: Bara é o Exu pessoal do candomblé nagô, na grafia de Elbein dos Santos, e Bará é o orixá do batuque.


O que se diz de quem é de Exu: o estereótipo

O que circula sobre “as características do filho de Exu” tem nome na academia: estereótipo do orixá, um conjunto de traços que os devotos atribuem a cada orixá e a seus filhos. Prandi registra o que os seguidores dizem dos consagrados a Exu, e a lista inclui pessoas inteligentes, rápidas e carnais. Ele enquadra tudo como crença: “os devotos acreditam que os homens e mulheres herdam muitos dos atributos de personalidade de seus orixás”. E lembra que nenhum orixá é inteiramente bom, nem inteiramente mal.

Há quatro motivos para não tomar a lista como diagnóstico:

  1. Ninguém testou. O único estudo com testes psicológicos que se encontrou, num terreiro queto do Rio de Janeiro, tinha 15 pessoas, e nenhuma era de Exu. As autoras concluem que não seria possível estabelecer correlações.
  2. Os quadros não fecham. As informações do pai de santo não formaram um quadro coerente. Algumas filhas de certos orixás haviam sido raspadas sob a proteção de outros, tidos como mais benéficos.
  3. Exu tem muitas qualidades. Bastide contou 21 subdivindades de Exu, mais que Oxum (16), Omolu (14) e Xangô (12). Um traço único para “o filho de Exu” apaga essa diversidade.
  4. As descrições se contradizem. Numa dissertação da PUC Goiás, a lista de falas de devotos junta “gente de Exu é perturbada” e, no mesmo trecho, “não guarda rancor”.

O estereótipo também machucou pessoas. A mesma dissertação registra que, com a expansão dos candomblés no século XIX, ter Exu na cabeça virou infortúnio para alguns dirigentes, com estigma e preconceito. Dirigentes chegaram a propor trocar o orixá de cabeça do filho de Exu, alegando que Exu, por ser movimento, geraria filhos “desinquietos”.


Filho de Exu Caveira é outra camada

“Filho de Exu Caveira”, “de Tiriri” ou “de Capa Preta” é fala popular sobre o guardião da umbanda e da quimbanda. As pesquisas acadêmicas consultadas não usam a expressão.

Na umbanda, os exus são entendidos como espíritos de pessoas desencarnadas. Ser “de esquerda”, dizem Carvalho e Bairrão, não é propriedade de certos tipos de entidade, mas um modo de manifestação. Numa casa de umbanda estudada pela USP, o preto-velho lê o orixá de cabeça dos filhos de santo pelo nome e pela data de nascimento. Ele segue sendo um orixá, como Ogum ou Iansã. O guardião é outra relação.

A vertente Umbanda Sagrada diz que não há filho de Exu, de Pombagira nem de Exu Mirim. É posição de uma vertente, e não de toda a umbanda.

Para saber quem é cada guardião, veja Exu Caveira, exu de guarda e nomes de Exu. A ferramenta qual é o seu Exu mostra afinidades, como entretenimento.


Como a casa reconhece o orixá de cabeça

Quem confirma o orixá de cabeça no candomblé é o jogo de búzios da casa de santo, feito pelo pai ou pela mãe de santo. A Joice não joga búzios, e este texto não faz leitura de cabeça.

Para pensar no assunto, veja como saber qual é o meu orixá e pode ser filho de mais de um orixá. A ferramenta descubra seu orixá serve de ponto de partida, e não de resposta.


Perguntas frequentes

Existe filho de Exu no candomblé?

Existe, mas é raro. Prandi registra que os iniciados para Exu eram “raros e notórios”, e que hoje há filhos de Exu que assumem a origem. Na Bahia, um jornal de 2023 citou uma autoridade que lembrava de apenas três casos. O que vale é o jogo da sua casa.

É raro ser filho de Exu? Por quê?

Sim. Segundo Prandi, o jogo indicava Exu e a casa iniciava para outro orixá, em especial Ogum Xoroquê. Bastide lia a raridade como efeito do estigma que recaía sobre Exu. Hoje, com a dessincretização, isso vem mudando.

Quais são as características dos filhos de Exu?

O que circula é estereótipo dos devotos, e não diagnóstico. Prandi registra que os seguidores os veem como inteligentes, rápidos e carnais. O único estudo com testes psicológicos não achou correlação. Ninguém é definido pelo orixá.

Tem como ser filho de Exu na umbanda?

Na umbanda, Exu é um guardião, espírito de pessoa desencarnada, e não orixá de cabeça. Uma vertente diz que não há filho de Exu. Muitas casas falam em “trabalhar com Exu”, que é outra relação. Procure a sua casa.

Filho de Exu pode ser também de outro orixá?

No candomblé, cada pessoa tem um orixá de cabeça, e o jogo pode apontar um juntó. Todo iniciado nagô recebe também o seu Bara, então quase todos têm um Exu pessoal. Veja o artigo sobre mais de um orixá.


Referências

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