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Tridente de Exu: origem, significado e o da Pombagira

O tridente de Exu veio do diabo cristão ou dos chifres africanos? Veja as leituras dos pesquisadores, a diferença para o da Pombagira e o tridente de ferro.

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Tridente de ferro forjado de três pontas retas apoiado numa parede caiada, ao lado de um garfo de ferro menor de duas pontas, sobre chão de terra batida com velas vermelhas e pretas.

Resumo

O tridente de Exu é o garfo de ferro de três pontas que representa Exu nas tronqueiras da umbanda, nos assentamentos da quimbanda e em casas de candomblé. Aparece em quase todo ponto riscado de Exu: num estudo de 318 pontos, só dois não tinham tridente.

A origem é disputada. Para Reginaldo Prandi, o tridente veio da imagem cristã do diabo. Para Vagner Gonçalves da Silva, há Exu com chifres na África desde o século XIX, e o garfo retoma a simbologia do corpo que o mito de Exu já tinha.

O garfo da Pombagira é diferente para se distinguir do de Exu: arredondado ou de duas pontas, conforme a fonte. O tridente de ferro se compra pronto, mas quem o transforma em assentamento é a casa.

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O tridente de Exu é o garfo de ferro de três pontas que representa Exu nas tronqueiras da umbanda, nos assentamentos da quimbanda e em casas de candomblé. É o símbolo mais repetido dos Exus: num estudo de 318 pontos riscados, só dois não tinham tridente. A origem dele é disputada entre os pesquisadores.


O que é o tridente de Exu

O tridente de Exu é uma ferramenta, nome que os terreiros dão aos ferros de um orixá que resumem os seus atributos. O tridente é a ferramenta de Exu, como o arco e a flecha são a de Oxóssi. No candomblé, o sociólogo Reginaldo Prandi registra como símbolos de Exu “um porrete fálico e tridentes de ferro”.

Para entender a quem ele pertence, vale separar o orixá Exu dos Exus guardiões da umbanda e da quimbanda, como explica o artigo quem é Exu. O tridente aparece nas duas camadas, e os guardiões que o levam estão em nomes de Exu.

Na umbanda, as tronqueiras têm assentamentos montados com os ferros que representam os Exus, os garfos de Exu. Os garfos se tornaram símbolo de Exu em muitos países e reúnem as ideias de encontro, transição e passagem, segundo o antropólogo Vagner Gonçalves da Silva.


De onde vem o tridente de Exu

Não há uma resposta só. As fontes registram três leituras, e elas convivem.

A herança cristã. Para Reginaldo Prandi, o tridente de ferro, ferramenta de Netuno no mundo grego e símbolo do diabo na cristandade, virou a representação de Exu nas lojas de umbanda e candomblé. É a leitura mais citada, e ela conversa com a história de como Exu foi confundido com o diabo, contada no pilar quem é Exu.

Os chifres africanos. Vagner Gonçalves da Silva lembra que, “para muitos”, o cetro de Exu é influência do tridente diabólico. Mas ele mostra que há representações de Exu com chifres na África ocidental desde pelo menos a primeira metade do século XIX, ligadas a poder e fecundidade.

A forma do corpo. Silva também propõe que o mito de Exu, com o falo e a vagina no centro, foi reelaborado nas formas do tridente. Para o pesquisador Raul Lody, citado por Lourival Andrade Júnior, o tridente substituiu o ogó, o bastão de Exu, e manteve a verticalidade dele.

“A ênfase mítica na simbologia do falo e da vagina parece ter sido reelaborada nas formas do tridente e dos lugares de oferenda.”

Vagner Gonçalves da Silva, Revista de Antropologia, USP, 2012

O número de pontas também mudou com o tempo. Numa imagem publicada por Édison Carneiro em 1937, a lança de Exu tinha sete pontas, os sete caminhos. Roger Bastide descreveu o ferro de Exu terminando em sete, catorze ou vinte e uma hastes. A estátua de ferro forjado, com chifres e cetro, popularizou a forma que se vê hoje.


Tridente de Exu e tridente de Pombagira: a diferença

O garfo da Pombagira é feito para se distinguir do dos Exus. Prandi descreve a peça da Pombagira com formato arredondado. Silva descreve o garfo de três pontas para o Exu e o de duas pontas para a Pombagira. A tabela resume as duas descrições.

ExuPombagira
Forma mais registradagarfo de três pontas, retogarfo arredondado ou de duas pontas
Onde aparecetronqueira, assentamento, ponto riscadojunto de boneca de ferro, lanças e correntes

O feitio não é regra fixa. Num centro de umbanda estudado por Andrade Júnior, o garfo curvo indica o Exu que trabalha na Calunga, o cemitério, e o reto, o da encruzilhada. O autor lembra que muitos Exus atuam nos dois lugares. Quem lê o tridente de cada entidade é a casa. O que é a Pombagira, e como é o assentamento dela, está em quem é Pombagira e em assentamento de Pombagira.


O tridente no ponto riscado

O ponto riscado é o emblema que o Exu risca para se identificar quando vem em terra, sobretudo nas sessões de umbanda. O tridente está em quase todos. Lourival Andrade Júnior analisou 318 pontos riscados de Exu e achou o tridente em 316. Os dois que não tinham traziam outra marca, uma flecha e uma hélice.

Para Andrade Júnior, as três pontas dizem que Exu oferece “no mínimo três possibilidades” de caminho, e a escolha é de quem segue. O que os outros traços do ponto riscado dizem está em ponto riscado na umbanda.


Na tronqueira, no assentamento e no candomblé

O tridente é a peça central dos assentamentos de Exu. Na umbanda, fica nas tronqueiras, a casa de Exu na entrada do terreiro, descrita em tronqueira. Numa loja da Feira de São Joaquim, em Salvador, os assentamentos de ferro em forma de tridente eram os de Exu.

No candomblé, a forma do tridente dá o padrão das ferramentas de Exu e mostra até a qual orixá aquele Exu serve. Na ferramenta de um Exu de Oxumarê, cinco tridentes somam-se às cobras. Na de Ogum Xoroquê, os tridentes se sobrepõem à espada de Ogum. O papel do ogó e das outras ferramentas está em ferramentas dos orixás.

O tridente se compra pronto, mas quem o consagra é o terreiro. Assentar Exu é trabalho da casa, com o dirigente, e o que vai dentro de um assentamento não se ensina aqui.


O tridente de ferro: material, forma e quem faz

Exu é orixá do ferro. Na ferramentaria de santo, os orixás guerreiros e caçadores, como Exu, Ogum e Oxóssi, têm o ferro como matéria-prima; Xangô tem o cobre, e Oxalá, o latão. Em Salvador, o ferreiro José Adário dos Santos, o Zé Diabo, faz ferramentas de santo há mais de 50 anos. O trabalho passa por serrar barras, forjar e soldar, e no fim a ferramenta é lavada e consagrada ao orixá. Tridentes estão entre as formas que ele criou, em ferro forjado, batido e soldado.

Pintura de uma forja de ferreiro com a brasa acesa, a bigorna e, sobre a bancada, um tridente, um arco e flecha e uma espada de ferro.

O tridente de ferro da loja é essa mesma peça, pronta para a casa consagrar. Antes de comprar, leve a orientação da sua casa sobre tamanho e formato; pelo WhatsApp a loja confere com você a peça certa.


Perguntas frequentes

Por que Exu usa tridente?

As fontes dão três razões. Para Prandi, o tridente veio da imagem cristã do diabo. Para Silva, há Exu com chifres na África desde o século XIX, e o garfo retoma a simbologia do corpo que o mito de Exu já tinha. Nos terreiros, ele virou símbolo de passagem e de caminho.

O tridente de Exu é símbolo do diabo?

Não na tradição dos terreiros. A ligação com o diabo é uma leitura histórica sobre a origem da forma, registrada por Prandi. Os pesquisadores também mostram outras origens, africanas. Nos terreiros, o garfo fala de encontro, transição e passagem.

Posso ter um tridente de Exu em casa?

A peça de ferro se compra pronta. O que faz dela assentamento é a consagração no terreiro, feita pela casa. Ter um tridente sem casa é ter um objeto, não um assentamento. Se você frequenta um terreiro, pergunte ao dirigente antes.

O que significa o tridente virado para baixo?

Não há leitura única registrada em fonte séria. O que as fontes documentam é a diferença entre garfo reto e curvo numa casa de umbanda. Posição e formato do tridente no ponto e no assentamento são leitura da casa: pergunte ao seu dirigente.


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