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Umbanda 8 min de leitura

Ponto de Xangô: letras da casa de Zélio e o ponto riscado

Ponto de Xangô chama, firma e despede a linha da pedreira. Veja os pontos da casa de Zélio, o lírio que vira livro e o oxé de dois gumes no ponto riscado.

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Atabaque de couro, machado de madeira de dois gumes, pemba branca, pedra escura e vela marrom acesa sobre mesa de terreiro.

Resumo

Ponto de Xangô é o ponto cantado da linha de Xangô na umbanda. Ele chama, firma a chegada, agradece e despede, e a casa de Zélio de Moraes publica 32 pontos de Xangô sem autor.

O mesmo ponto muda de casa para casa: na pedreira há um lírio numa casa e um livro em outra, e quem vence a demanda é Ogum num livro e Santo Antônio numa tenda de Dourados. Pontos famosos como o Brado de Xangô têm compositor e não se copiam.

No ponto riscado, a pesquisa registra o oxé de dois gumes no ponto do Caboclo Pedra Roxa. O desenho é da entidade e da casa, e a letra para cantar se aprende na gira.

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8 min de leitura

O ponto de Xangô é o canto da linha de Xangô na gira de umbanda: chama, firma a chegada, agradece e despede o orixá e os caboclos da pedreira. A casa de Zélio de Moraes publica 32 pontos de Xangô, todos sem autor. A letra muda de terreiro para terreiro. Às vezes, muda uma palavra só.


O que é o ponto de Xangô e quando ele se canta

O ponto de Xangô é o ponto cantado do orixá e dos caboclos da linha dele. Cada momento da gira tem o seu. Nos livros de duas casas:

  • Chamada: “Umbanda tá lhe chamando”, canta a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade (TENSP). No Terreiro Pai Maneco, de Curitiba, o verso é “A Umbanda está lhe chamando”.
  • Chegada e firmeza: o primeiro ponto da TENSP fecha com “Pai de cabeça chegou”. No Pai Maneco, “Arreia que Xangô chegou”.
  • Agradecimento: o último ponto de Xangô da TENSP diz “Meu Pai Xangô, muito obrigado”.
  • Subida: o Pai Maneco tem seção própria, com “Ta na hora de subir”. A TENSP não marca ponto de subida de Xangô.

Numa tenda de Dourados (MS), o pesquisador Haroldo Medeiros registra pontos em todos os momentos do culto, da defumação à chegada dos guias. Lá, eles servem como rezas. O ogã abre cada um conforme o momento do ritual. Nas casas que Pedro Nogueira estudou, os pontos são “uma espécie de trilha sonora” da gira de caboclos. Em geral, quem escolhe são os ogãs. O papel de quem toca está em curimba na umbanda; os tipos de ponto, em pontos cantados na umbanda.

Na tenda de Dourados, os orixás não incorporam. Quem desce são os guias. Muitos pontos de Xangô são dos caboclos da linha dele: Pedra Roxa, Sete Pedreiras, Pedra Preta, Quebra Pedra. A linha no terreiro está em Xangô na umbanda.

Onde se canta: chamada, chegada, firmeza, agradecimento, subida | Livro da casa de Zélio: 32 pontos de Xangô | Sinal no ponto riscado: oxé de dois gumes


Os pontos de Xangô na casa de Zélio de Moraes

A casa fundada por Zélio de Moraes publica no site um Livro de Pontos Cantados. A seção “Pontos de XANGÔ” tem 32 pontos numerados, entre Ogum e Oxóssi. Nenhum traz autor. O primeiro abre com a pedra e a pedreira:

“Pedra rolou Xangô / Lá na pedreira”

Os outros fazem de Xangô o “rei da pedreira” e o “rei de Umbanda”. Um saúda Xangô Agodô. Outro canta o “reino de Badé”. Badé é o nome de Xangô nos templos do tambor de mina, segundo Reginaldo Prandi e Armando Vallado. Quem é o orixá por trás desses nomes está em quem é Xangô.

A segunda casa com livro aberto é o Terreiro de Umbanda Pai Maneco. A apostila de Xangô tem ponto de saudação, pontos de cada caboclo da linha, pontos de linha e subida. A casa escreve o autor quando ele existe, como em “Composição: Pai Andir”. No ponto do Caboclo Quebra Pedra, o crédito é outro: “Composição: entidade”.


Lírio ou livro: o mesmo ponto de Xangô em casas diferentes

O ponto de Xangô viaja de terreiro em terreiro e muda no caminho. Na TENSP, lá no alto “Tem um lírio que é de Xangô”. No Pai Maneco, “Tem um livro que é de Xangô”. Pedro Nogueira ouviu as duas versões em casas diferentes.

PontoNuma casaEm outra
A pedreira”Tem um lírio que é de Xangô” (TENSP)“tem um livro que é de Xangô” (UFJF e Pai Maneco)
Sentado na pedra”Esperando meu Pai Xangô” (TENSP)“Conversando com meu Pai Xangô” (Dourados)
Quem vence a demanda”Com Ogum venceu demanda” (TENSP)“Santo Antônio venceu demanda” (Dourados)
Sete pedreiras”Que arrebentou sete pedreiras” (TENSP)“dono das sete pedreiras” (UFJF)

Nogueira lê o livro como marca do sincretismo. O São Jerônimo dos congás que ele visitou segura um livro. Ele escreve que o sincretismo “pode estar” ali, sem cravar. A relação do santo com o orixá está em São Jerônimo e Xangô. As folhas da linha estão em ervas de Xangô.

Outros pontos também viajam. O ponto 22 da TENSP pede que a pedreira role sobre quem perder a fé. Em Belém, uma reportagem de O Liberal sobre o dia de São João abriu com a mesma ideia. As datas de junho e setembro estão em dia de Xangô.


Pedreira, machado e livro: o que o ponto de Xangô canta

O ponto de Xangô volta aos mesmos símbolos.

  • Pedreira. Em 1933, Leal de Souza já escrevia que os despachos de Xangô se fazem nas pedreiras. Medeiros resume: Xangô é o orixá “cujo domínio são as pedreiras e está associado à justiça”.
  • Machado. A TENSP canta a “machadinha de Xangô”, que corta mironga.
  • Livro e pena. O ponto 05 da TENSP pede que Xangô pegue “no livro e na pena” para firmar a justiça. O 29 lembra que ele escrevia “com sua pena de ouro”. Em Dourados, um ponto diz que Xangô “escreveu a justiça”.

Prandi e Vallado contam que, como rei, Xangô era o juiz supremo do seu povo:

“Seu duplo machado visa a justiça para cada um dos dois lados que se opõem na contenda”


Pontos de Xangô que têm autor: o Brado de Xangô e outros

Nem todo ponto famoso é de raiz. Diamantino Trindade, citado por Lourival Andrade Júnior, chama de pontos de raiz os “trazidos diretamente pelas entidades incorporadas”. Os outros são de compositores, “muito comuns nos festivais de curimbas”.

  • Brado de Xangô. É o “Ele bradou na aldeia”, que circula na internet com o nome de Tião Casemiro. No próprio canal, o ogã diz que o ponto é “de autoria” de Ivo de Carvalho e que ele o interpreta. Num show no Rio, em 2024, o crédito voltou a ser de Ivo de Carvalho. A gravação está no canal de Tião Casemiro.
  • Estão queimando vela. A gravação de Ogan Helder, de 2024, credita Helder Dos Santos Santana como autor.
  • “Xangô meu pai, amarra os inimigos”. A autoria não foi conferida em fonte aberta. E o título promete um efeito que ponto não garante. Fica fora.

Por isso aqui só entram pontos que as casas publicam sem autor ou que as pesquisas já citam, e curtos, como no ponto de Ogum.


Ponto riscado de Xangô: o oxé de dois gumes

No ponto riscado, o sinal de Xangô que a pesquisa registra é o oxé, o machado de dois gumes. Andrade Júnior, que estudou pontos riscados de caboclos, mostra que no do Caboclo Pedra Roxa o machado de Xangô aparece “com dois gumes”, junto com as flechas de Oxóssi. Outros caboclos, como Cobra Coral e Arranca Toco, riscam o machado de uma lâmina só. O Pedra Roxa também é caboclo da linha de Xangô no Pai Maneco.

Pintura de curimbeiro de costas ao atabaque e oxé de dois gumes riscado em giz no chão do terreiro.

O risco também diz o que a entidade está fazendo. Em Dourados, uma médium contou a Medeiros que cada ponto riscado é “um pedido daquela pessoa”. Entre os riscos, ela citou “o risco de Xangô”. O desenho é da entidade e da casa. Riscado copiado da internet não é o ponto do seu terreiro. O fundamento de riscar está em ponto riscado na umbanda.

Quem vai firmar o ponto com pemba e vela e quer conferir o material que a casa pediu pode falar com a Joia Mística pelo WhatsApp.


Perguntas frequentes

Qual é o ponto de Xangô mais conhecido?

Não há medição de qual é o mais cantado. Entre os pontos sem autor, o da pedreira com lírio ou livro está em três registros: TENSP, Pai Maneco e a pesquisa da UFJF. Entre os gravados, o Brado de Xangô circula com o nome de Tião Casemiro, que o atribui a Ivo de Carvalho.

O que é maleme no ponto de Xangô?

É palavra de pedido que aparece nos pontos. No Pai Maneco, o ponto do Caboclo Pedra Roxa diz “Me dê maleime” e logo pede agô a Xangô. No livro da TENSP, a mesma expressão sai como “malembe” num ponto e “Maleme” em outro. O dicionário Dicio registra malembe como cântico rogatório a orixás nos candomblés.

Tem ponto de Xangô em iorubá?

Em iorubá, o que se canta é a cantiga do candomblé ketu, não o ponto de umbanda. Pierre Verger registra que, no Brasil, os ritmos de Xangô são o tonibobé e o alujá. Três cantigas estão no site: Oba Sá Rewa, Ikitê Re O Lokê Odô e Oba Ní Sà Rè.


Referências

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