Quem entra pela primeira vez numa gira sai com uma pergunta na cabeça. Por que se canta o tempo inteiro?
A resposta tem nome. A curimba na umbanda é o grupo que canta e toca dentro do terreiro, e é ela que sustenta o ritual do começo ao fim. Sem curimba, a gira não abre, não chama e não fecha.
Este guia explica o que é a curimba, quem a compõe e para que servem os três atabaques. Mostra também como os pontos se organizam ao longo do trabalho, e por que existem casas que não usam tambor nenhum.
O que é curimba na umbanda
Curimba, também grafada corimba, é o grupo de médiuns responsável pela condução musical do ritual. Reúne quem canta os pontos e quem toca os instrumentos: atabaques, agogô e, em algumas casas, chocalho e palmas.
A palavra tem origem apontada no quimbundo, língua banto de Angola, no verbo kwimba, que significa cantar. Essa é a explicação corrente nos terreiros. Não existe consenso acadêmico fechado sobre a etimologia, então vale tratar como tradição oral bem estabelecida, e não como verbete de dicionário.
Há ainda uma ambiguidade útil de conhecer. Em muitas casas, “curimba” designa o grupo de pessoas. Em outras, a palavra vira sinônimo do próprio ponto cantado ou da parte musical do trabalho como um todo. As duas leituras circulam, e nenhuma está errada.
Uma coisa importa desde já: curimba é umbanda, xirê é candomblé. São liturgias diferentes, de religiões diferentes, e misturar as duas confunde quem está aprendendo.
Se essa distinção ainda não está clara para você, vale ler a diferença entre umbanda e candomblé antes de seguir.
Quem é quem na curimba
A curimba tem funções definidas, e os nomes mudam bastante de casa para casa. O quadro abaixo reúne o arranjo mais comum.
| Função | O que faz |
|---|---|
| Ogã curimbeiro | Puxa e canta os pontos. Em muitas casas, canta sem tocar |
| Ogã atabaqueiro | Toca a percussão. Pode acumular canto e toque |
| Ogã chefe (alabê) | Comanda o setor musical, define o toque e o ponto da vez |
| Ogã auxiliar | Aprendiz em formação, com nomes que variam por casa |
| Cambone | Auxilia a entidade incorporada no atendimento |
Repare na última linha, porque ali mora a confusão mais comum. O cambone não faz parte da curimba. Ele serve a entidade durante a consulta, acende a vela, acende o charuto, traduz o que o guia fala. É outra função, com outro treino.
A palavra ogã vem do iorubá e carrega o sentido de chefe ou senhor da casa. Na umbanda, o cargo é de responsabilidade e de disciplina, não de destaque pessoal.
Sobre quem pode ocupar o posto, há uma diferença marcante em relação ao candomblé. Na maior parte das casas de umbanda, mulheres podem ser ogã e tocar atabaque, sem restrição de período menstrual. Isso não é regra universal, e existem casas que mantêm restrições próprias.
Rum, rumpi e lé: os três atabaques
Os atabaques trabalham em conjunto, cada um com um registro e uma função. Eles não repetem a mesma coisa: conversam entre si.
- Rum: o maior e mais grave. Puxa o toque do ponto e conduz o conjunto
- Rumpi: o médio. Responde ao rum e sustenta a base
- Lé: o menor e mais agudo. Faz a marcação e costuma ser onde o ogã aprendiz começa
Um detalhe histórico ajuda a entender o quadro. Rum, rumpi e lé é nomenclatura de origem jeje que acabou se generalizando. No candomblé ketu os tambores se chamam ilú, e na nação angola aparecem como ngoma.
Os toques mais citados na umbanda são o congo de ouro, o ijexá, a cabula, o barravento e o angolão, além de sambas rituais. Boa parte desses ritmos entrou na umbanda vinda do candomblé de angola, o que mostra formação histórica compartilhada sem fundir as duas religiões.
Vale a ressalva de sempre. A lista de toques e a associação entre determinado toque e determinada linha varia muito por casa e por região. Desconfie de tabela fechada que promete o “toque certo” de cada orixá.
Ponto cantado e ponto riscado: a diferença
O terreiro FESFA Cabocla Tupyara separa três coisas que muita gente confunde: marcar ponto, riscar ponto e cantar ponto.
Marcar ponto é dançar o ponto, acompanhar o passo. Riscar ponto é a assinatura desenhada com pemba. Cantar ponto é a prece evocativa entoada pela curimba.
| Ponto cantado | Ponto riscado | |
|---|---|---|
| Suporte | letra e melodia, sustentadas pela curimba | grafia feita com pemba |
| Quem executa | curimba e assistência, a casa inteira canta | a entidade incorporada, na maioria das casas |
| Função | evoca, saúda, firma, doutrina e despede | identifica, assina e firma a força no local |
| Duração | dura enquanto é entoado | permanece firmado até ser descarregado |
Os dois se completam dentro do mesmo trabalho. Para entender o lado desenhado dessa dupla, o blog tem um guia dedicado ao ponto riscado na umbanda.
Os pontos na ordem da gira
A gira tem uma sequência, e cada momento tem seu canto. A ordem abaixo é a mais citada, e muda de casa para casa.
- Abertura: abre os trabalhos e saúda Oxalá e os orixás da casa
- Defumação: cantado durante a queima das ervas
- Firmeza da tronqueira: firma a proteção da porteira
- Bater cabeça: reverência ao congá antes do trabalho
- Chamada da linha: chama caboclos, pretos-velhos, baianos, exus e pombagiras, conforme a gira
- Trabalho: pontos de doutrina, cura e descarrego durante os atendimentos
- Subida: canta a despedida das entidades
- Encerramento: fecha a gira com a prece final
Essa lista não é fechada. Há casas que catalogam mais de quinze tipos de ponto, incluindo homenagem, batismo e cruzamento.
Os pontos de chamada seguem a organização das sete linhas da umbanda, e cada linha tem repertório próprio. É por isso que o ouvido treinado sabe quem está chegando antes de ver.
Por que se canta: a função ritual do ponto
A pergunta do começo tem três respostas, e elas se somam.
A primeira é organizacional. O ponto marca cada parte do ritual e dá começo, meio e fim reconhecíveis ao trabalho. Ele é o relógio da gira.
A segunda é de concentração. Um estudo de Martelli e Bairrão publicado na revista Psicologia em Estudo mostra que o som do atabaque cumpre função dupla. Ele volta a atenção do médium para dentro e bloqueia a distração sonora de fora.
Os autores registram que canto e toque agem em sinergia. A letra diz qual espírito chega, e o ritmo sustenta o estado. Nenhum dos dois sozinho dá conta.
Aqui cabe um alerta honesto. Circula muito em blog a frase de que o atabaque “altera as ondas cerebrais e induz o transe”. Isso não é conclusão científica, é leitura popular. O que a pesquisa descreve é concentração e atenção dirigida.
A terceira resposta é teológica, e é a mais bonita. Para os umbandistas ouvidos no estudo, os verdadeiros compositores dos pontos são os próprios espíritos. O ogã se descreve como instrumento que tem a mão conduzida.
Existe gira sem atabaque?
Existe, e com lastro histórico. O ritual estabelecido pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas com Zélio Fernandino de Moraes era deliberadamente simples: roupa branca, cantos firmes e suaves, sem sacrifício animal e sem atabaque.
Em parte da documentação, a orientação vai além e dispensa até as palmas. Fica só o canto sustentando a corrente. O blog Registros de Umbanda publica um áudio atribuído a Zélio em que ele explica o motivo.
A recusa ao tambor não era medo de repressão nem questão de saúde. Era doutrinária. Para ele, espírito que baixa vem fazer caridade ou ensinar, não fazer bonito.
Hoje pouquíssimas tendas mantêm esse rigor, e a grande maioria das casas adota o formato com atabaque. Nenhum dos dois caminhos é a umbanda errada. Umbanda branca, omolocô, traçada e esotérica tratam a música de formas diferentes, e a diversidade faz parte da religião.
Perguntas frequentes
O que é curimba na umbanda?
Curimba é o grupo de médiuns que conduz a parte musical da gira, cantando os pontos e tocando atabaque, agogô e demais instrumentos. Em algumas casas, a palavra também designa o próprio ponto cantado. A origem apontada nos terreiros é o quimbundo kwimba, que significa cantar.
Qual a diferença entre ponto cantado e ponto riscado?
O ponto cantado é uma prece entoada pela curimba e acompanhada pela casa toda, e dura enquanto é cantado. O ponto riscado é a assinatura desenhada com pemba, feita em geral pela entidade incorporada, e permanece firmado no local até ser descarregado. Um evoca, o outro identifica e firma.
Quem pode tocar atabaque na umbanda?
Quem a casa autoriza e prepara para isso, normalmente na função de ogã. Na maior parte das casas de umbanda, homens e mulheres podem tocar, o que difere do costume de várias casas de candomblé. Como tudo na umbanda, a regra final é da sua casa e do dirigente.
Toda umbanda usa atabaque?
Não. O ritual original ligado a Zélio de Moraes dispensava o atabaque por motivo doutrinário, e algumas tendas mantêm esse formato até hoje. A maioria das casas, porém, adota o toque. As duas formas são legítimas dentro da diversidade da religião.
Quais são os toques de atabaque da umbanda?
Os mais citados são congo de ouro, ijexá, cabula, barravento e angolão, além de sambas rituais. Boa parte veio do candomblé de angola e foi adaptada pela umbanda. A lista e o uso de cada toque variam bastante entre casas e regiões do país.
Onde comprar artigos para a curimba
Na Joia Mística Laroyê, você encontra o que o setor musical do terreiro precisa:
- Atabaques e agogôs: peças em tamanhos diferentes, do lé ao rum
- Guias de ogã: montadas no padrão da casa, prontas para cruzar
- Pemba: branca e colorida, para riscar ponto e firmar trabalho
- Defumadores e ervas: para o ponto de defumação e a limpeza do salão
- Velas e roupa branca de ritual: os itens de reposição de toda gira
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Uma última recomendação de estudo. A Wikipédia mantém um verbete sobre curimba com a hierarquia dos ogãs e a descrição dos instrumentos, útil para quem está começando a se situar no assunto.
Referências
- FESFA Cabocla Tupyara: diferença entre marcar, riscar e cantar ponto
- Psicologia em Estudo (Scielo): estudo de Martelli e Bairrão sobre a função do atabaque na concentração ritual
- Registros de Umbanda: áudio atribuído a Zélio de Moraes sobre o uso de atabaques na umbanda
- Wikipédia: verbete sobre curimba