Xangô na umbanda é o orixá da linha da justiça e das pedreiras, festejado às quartas-feiras e, em muitas casas, em 30 de setembro. A vela é marrom ou vermelha e branca, conforme o terreiro. Na codificação de Matta e Silva, ele trabalha por falanges como Xangô Kaô, Sete Pedreiras e Agodô. Para a maioria dos autores e das casas, quem desce na gira são caboclos e pretos velhos da linha dele.
Quem é Xangô na umbanda
Xangô é o mesmo orixá do trovão e da justiça que o candomblé cultua, vivido do jeito da umbanda. A história de Oió, as qualidades e a ficha completa estão em quem é Xangô. Um artigo da revista Religare (UFPB) põe Xangô entre os nove orixás mais cultuados nos terreiros de umbanda.
Em 1933, no Rio de Janeiro, o escritor Leal de Souza registrou as sete linhas da umbanda: “a primeira de Oxalá; a segunda de Ogum; a terceira, de Euxoce (Oxóssi); a quarta, de Xangô”. Na língua da umbanda, essa quarta linha era São Jerônimo, e os despachos de Xangô se faziam “nas pedreiras”. Para ele, a linha “se consagra a reparação do que foi destruído”.
“A linha de Xangô pratica a caridade sob um critério de implacável justiça: quem não merece, não tem; quem faz, paga.” Leal de Souza, 1933
A linha de Xangô muda de número em cada autor
O lugar de Xangô muda em cada codificação, e a pesquisadora Sônia Lages (UFJF), que resume Matta e Silva, avisa: “as classificações variam”.
| Fonte | Lugar de Xangô |
|---|---|
| Leal de Souza, Rio de Janeiro, 1933 | quarta linha, de São Jerônimo |
| Matta e Silva, por Nogueira (UFJF, 2014) | terceira linha, depois de Oxalá e Iemanjá |
| Santuário Nacional da Umbanda, Santo André (SP) | sexta linha |
| Umbanda Sagrada, no TEUSP (Rio de Janeiro) | quarta irradiação, em par com Mãe Oroiná |
| Casas de Fortaleza, por Silva (UFC, 2009) | Linha das Cachoeiras, regida por Xangô |
O número muda, e a justiça continua: Leal, a Umbanda Sagrada, as casas de Fortaleza e o Núcleo Umbandista São Sebastião (NUSS), de São Paulo, ligam a linha de Xangô à justiça. A comparação está em as 7 linhas da umbanda.
As falanges de Xangô segundo Matta e Silva
Na umbanda esotérica de Matta e Silva, reproduzida por Lages e por Nogueira, a linha de Xangô se divide em sete falanges, cada uma com um caboclo e um Exu.
| Falange | Exu que a acompanha |
|---|---|
| Xangô Kaô | Exu Gira-Mundo |
| Xangô Sete Montanhas | Exu Corcunda |
| Xangô Sete Pedreiras | Exu Ventania |
| Xangô Pedra Preta | Exu Meia-Noite |
| Xangô Pedra Branca | Exu Mangueira |
| Xangô Sete Cachoeiras | Exu Calunga |
| Xangô Agodô | Exu Pedreira |
É a lista de uma escola, mas alguns nomes aparecem também nas casas. A Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade (TENSP), casa fundada por Zélio de Moraes, canta “Viva o meu Pai é Xangô Agodô”. O Núcleo Mata Verde diz que o Caboclo Pedra Branca é “de OXALÁ e XANGÔ”. Quem é o Exu da primeira falange está em Exu Gira Mundo.

Xangô incorpora? Quem desce na linha
Na maioria dos autores, não. Lages resume Matta e Silva: na umbanda, os orixás “repassam seus atributos às entidades”, sem se apresentar “pessoalmente no terreiro, como ocorre no Candomblé”. Leal de Souza escreveu em 1933 que “Os Orixás não baixam sempre”.
No Terreiro de Umbanda Pai Maneco, de Curitiba, o Pai-de-Cabeça do médium “é sempre um Caboclo de OGUM, OXÓSSI ou XANGÔ”. Um dirigente ouvido pela casa resume: “Orixá puro não incorpora”.
Para o NUSS, a linha reúne caboclos, pretos velhos e espíritos de quem trabalhou com a lei. Segundo o NUSS, uma falange é a “falange dos pretos”, chefiada pelo preto velho Quenguelê.
Como chega quem vem na linha? Nas casas de Fortaleza estudadas por Silva, os espíritos da Linha das Cachoeiras “se encantaram nas pedras ou nas águas” e vêm pedir justiça para os filhos perseguidos. No trabalho, curvam o corpo do médium e giram a cabeça dele como um redemoinho, de pés firmes. A mesma entidade pode mudar de linha: a Cabocla Braba vem na Linha de Xangô “quando quer pedir justiça para os filhos”.
Num terreiro de Passo Fundo (RS), as entidades de Xangô chegam com um brado forte, passos e voz firmes. Mais sobre quem desce em caboclos na umbanda e pretos-velhos na umbanda. Se a dúvida é sobre a sua gira, pergunte ao dirigente.
Cor da vela, dia e saudação de Xangô na umbanda
Cor: marrom | Dia: quarta-feira | Data: 30 de setembro | Saudação: Kaô Kabecilê
| Fonte | Cor de Xangô |
|---|---|
| Leal de Souza (1933) | roxo |
| Federação de Umbanda e Candomblé do Estado de São Paulo (FUCESP) e Santuário Nacional da Umbanda | marrom; vermelho e branco em alguns templos |
| Tenda de Umbanda Caboclo Tupinambá e Vó Catarina (TUCTVC), São José dos Campos (SP) | guia e vela marrom, vermelho e branco |
| Terreiro Pai Maneco, Curitiba | marrom e branco |
| Umbanda Esotérica, Belo Horizonte | verde |
Para acender em casa, a vela marrom de cor única é a que mais aparece nessas casas. A ficha do orixá está em Xangô.
- Dia. A quarta-feira é o dia de Xangô na TUCTVC e no Santuário.
- Data. A mais citada é 30 de setembro, dia de São Jerônimo; a FUCESP soma 24 e 29 de junho. A TUCTVC lembra que o sincretismo “não significa que as duas figuras sejam exatamente a mesma divindade”. As datas por lugar estão em dia de Xangô, e o santo, em São Jerônimo e Xangô.
- Saudação. O Santuário registra “Caô Cabiecilê” ou “Kaô Kabecilê”. As outras estão em saudação dos orixás.
Pedreira, amalá e o que se pede a Xangô
A pedreira é o ponto de força mais citado. Leal já mandava os despachos de Xangô “nas pedreiras”, e a FUCESP indica “montanhas e pedreiras”. No Terreiro Pai Maneco, o amalá leva “7 velas marrons e 7 velas brancas, cerveja preta”, camarão e quiabo. A entrega é feita “Na pedreira ou sobre uma pedra grande e bonita”.
O primeiro ponto de Xangô da TENSP canta a mesma paisagem: “Pedra rolou Xangô / Lá na pedreira / Segura a pedra meu Pai / Na cachoeira”. Os outros pontos estão em ponto de Xangô.
Na Umbanda Sagrada, o TEUSP ensina outra coisa: “Xangô é o senhor do fogo e não das pedras!”, e as pedras são de Oxum. Vale o que a sua casa ensina.
As comidas estão em amalá de Xangô e oferenda para Xangô, e as folhas, em ervas de Xangô. Para conferir a vela ou o quiabo que a casa pediu, a Joia Mística Laroyê atende pelo WhatsApp.
O que se pede a Xangô é justiça. A TUCTVC lista clareza em decisões e “Proteção em questões jurídicas”. Em Passo Fundo, quem procura as entidades de Xangô leva “problemas justiciais”. O TEUSP lembra que o machado dele não serve para punir.
Xangô na umbanda e no candomblé: o que muda
A grande diferença é a presença. No candomblé, o orixá se apresenta no terreiro; na umbanda de Matta e Silva, ele repassa os atributos às entidades.
A cor também muda. Na tabela de Reginaldo Prandi para o candomblé queto, as contas de Xangô são “vermelho e branco (alternadas)”. A FUCESP resume: “Na Umbanda, marrom, no Candomblé, vermelho e branco.”
No Recife, “xangô” é também o nome de uma religião dos orixás, diferente da umbanda e da jurema (Motta, UFPE). As qualidades do candomblé estão em qualidades de Xangô.
Perguntas frequentes
Qual o dia de Xangô na umbanda?
A quarta-feira, segundo a TUCTVC e o Santuário Nacional da Umbanda. No ano, a data mais citada é 30 de setembro, dia de São Jerônimo, e há casas que festejam também em junho. Confira com a sua casa.
Qual a cor da vela de Xangô na umbanda?
Marrom, na maioria das casas citadas aqui. A TUCTVC usa marrom, vermelho e branco, e o Terreiro Pai Maneco, marrom e branco. Em 1933, Leal de Souza dava à linha a cor roxa. Na dúvida, siga a cor que a sua casa usa.
Qual a oração de Xangô na umbanda?
Não existe uma oração única: as preces que circulam são de cada casa, como a que a TUCTVC publica. Peça ao dirigente a reza da sua casa. Diante da vela marrom acesa, as suas palavras também servem.
Referências
- Leal de Souza, livro de 1933: O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda
- Lages, UFJF (2003): Exu: luz e sombras
- Nogueira, UFJF (2014): linhas da umbanda
- Silva, UFC (2009): dissertação sobre uma mãe de santo na umbanda de Fortaleza
- Bertocho, UFFS (2019): Terreiro de Umbanda Ogum Beira Mar
- Silva, UFMG (2017): Umbanda Esotérica em Belo Horizonte
- Esposito e Bastos, Religare (2022): mitologia dos orixás
- Prandi, Horizontes Antropológicos (1995): Deuses africanos no Brasil
- Motta, Revista del CESLA (2020): Xangô, Jurema e Umbanda
- Casas: TUCTVC, NUSS, FUCESP, Santuário Nacional da Umbanda, Pai Maneco, Xangô e Oxalá na Umbanda, TEUSP, Xangô e Xangô, o Orixá do Fogo
- TENSP: Livro de Pontos Cantados