Quando o atabaque começa a bater e o terreiro inteiro levanta a voz, algo muda no ar. É o ponto cantado, o cântico sagrado que abre a gira de umbanda e chama os guias para trabalhar. Mais do que música, ele é oração em forma de canto, uma prece que move as energias e sustenta o trabalho do início ao fim.
Neste guia, você entende o que são os pontos cantados, para que serve cada tipo, qual a diferença deles para o ponto riscado e por que nenhuma gira acontece sem eles.
O que são os pontos cantados
Os pontos cantados são os cânticos rituais da umbanda. São preces melodizadas que saúdam os orixás, chamam as entidades, firmam a corrente e encaminham cada etapa da gira. Cada linha de trabalho e cada guia tem o seu repertório próprio, transmitido de terreiro para terreiro, muitas vezes só de boca a ouvido.
Não são música de entretenimento. O ponto cantado é uma ferramenta espiritual: ele impregna o ambiente de certas energias e limpa outras, elevando a vibração de quem canta e de quem assiste. Por isso se diz que, na umbanda, cantar é rezar duas vezes.
O canto une a corrente. Quando todos entoam o mesmo ponto, os médiuns, os cambones e a assistência vibram juntos numa só intenção. Essa união é parte do fundamento: o ponto certo, cantado com fé, firma o trabalho e chama a força da entidade que vai descer.
Boa parte desse repertório nasceu da tradição oral. Os pontos foram compostos e guardados de cabeça, passados de geração em geração dentro dos terreiros, e por isso o mesmo canto pode ter pequenas variações de letra de casa para casa. Muitos carregam a herança dos cânticos africanos e da religiosidade popular brasileira, o que faz dos pontos cantados um patrimônio vivo, reconhecido inclusive em registros culturais do país. Aprender um ponto é receber um pedaço dessa memória.
Ponto cantado e ponto riscado: qual a diferença
Aqui mora uma confusão comum. Ponto cantado e ponto riscado são coisas diferentes, ainda que o nome se pareça.
- Ponto cantado: é o cântico, feito com a voz e sustentado pela curimba. Ele soa no ar e movimenta a energia pelo som.
- Ponto riscado: é o desenho traçado no chão ou no quadro com a pemba, o giz sagrado. Funciona como a assinatura e o selo da entidade, um símbolo que firma sua presença.
Um se ouve, o outro se vê. Os dois se completam num mesmo trabalho: a entidade pode riscar o seu ponto para se identificar e, ao mesmo tempo, ter o seu ponto cantado entoado pela corrente. Para entender o desenho em detalhe, veja o nosso guia sobre o ponto riscado na umbanda.
A curimba: quem conduz os pontos
Nenhum ponto cantado se sustenta sozinho. Quem o conduz é a curimba, o grupo de médiuns responsável pela música do terreiro. Ela reúne os ogãs ou curimbeiros, que tocam o atabaque e os instrumentos, e os cantadores, que puxam a voz para a corrente acompanhar.
O toque do atabaque não é enfeite. O ritmo marca a vibração de cada linha e sustenta a incorporação. Um ponto de caboclo pede um toque firme e marcado; um ponto de preto-velho pede um andamento mais lento e sentido. Para conhecer esse trabalho por dentro, veja o guia sobre a curimba na umbanda.
A fé que canta é uma prece a mais. O ponto não precisa de voz bonita, precisa de intenção limpa. Cante com respeito, e a força vem.
Os tipos de ponto cantado
Cada momento da gira pede um tipo de ponto. Conhecer essa lógica ajuda o médium a entender o que está acontecendo em cada etapa do trabalho.
- Ponto de abertura ou licença: inicia a gira, pede licença e proteção aos orixás e ao congá, o altar do terreiro.
- Ponto de defumação: acompanha a defumação que limpa o espaço, os médiuns e a assistência antes do trabalho começar.
- Ponto de saudação ao congá: reverencia o altar e as forças que regem a casa.
- Ponto de chamada: convida a entidade ou a linha a se aproximar e incorporar nos médiuns.
- Ponto de firmeza ou sustentação: mantém a energia firme e elevada durante todo o trabalho.
- Ponto de subida ou despedida: encaminha a saída das entidades ao fim da gira, com gratidão.
- Ponto de descarrego e fluidificação: limpa energias densas e carrega os elementos de trabalho, como a água e as ervas.
Além desses, cada guia tem os seus pontos de fundamento, que contam a história e o campo de atuação da entidade. Um ponto pode dizer de onde vem o caboclo, o que trabalha o preto-velho ou qual a alegria da criança.
Pontos por linha de trabalho
Na umbanda, cada linha de guia tem o seu jeito de cantar. O ponto muda de melodia, de ritmo e de imagem conforme quem chega.
- Caboclos: pontos firmes, ligados à mata, às cachoeiras e às flechas. Veja mais sobre os caboclos na umbanda.
- Pretos-velhos: pontos mais lentos e sentidos, que falam de senzala, rosário e sabedoria. Conheça os pretos-velhos na umbanda.
- Crianças (erês): pontos alegres e simples, cheios de doçura.
- Exus e pombagiras: pontos de encruzilhada, entoados na gira específica dessas entidades.
- Baianos, boiadeiros, marinheiros e ciganos: cada povo com o seu ritmo, do coco baiano à toada do boiadeiro.
Para entender como essas linhas se organizam, vale ler sobre as 7 linhas da umbanda e o panorama dos guias da umbanda.
Como aprender e cantar com respeito
O ponto cantado se aprende na convivência. Frequentando a gira, o médium vai gravando as melodias, os nomes e os fundamentos de cada canto. Não existe atalho: é o tempo de casa que ensina.
Alguns cuidados ajudam a manter o respeito. Cante com a corrente, sem se destacar por vaidade, porque o ponto é da casa, não do solista. Evite gravar os trabalhos sem a autorização do dirigente, já que muitos pontos guardam fundamento. E lembre que a força não está na afinação, e sim na fé com que se canta. Para quem está começando o desenvolvimento mediúnico, aprender os pontos é parte do caminho.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre ponto cantado e ponto riscado?
O ponto cantado é o cântico, feito com a voz e sustentado pela curimba, que movimenta a energia pelo som. O ponto riscado é o desenho traçado com a pemba, o giz sagrado, e funciona como a assinatura da entidade. Um se ouve, o outro se vê, e os dois se completam no trabalho.
Para que servem os pontos cantados na umbanda?
Servem para abrir e fechar a gira, saudar os orixás, chamar as entidades, firmar a corrente, defumar o espaço e encaminhar as energias. Mais do que música, são preces cantadas que elevam a vibração e sustentam todo o trabalho espiritual, do início à despedida das entidades.
O que é ponto de firmeza e ponto de subida?
O ponto de firmeza mantém a energia elevada e estável durante o trabalho, sustentando a corrente e a incorporação. Já o ponto de subida, também chamado de despedida, é entoado no fim da gira para encaminhar a saída das entidades com respeito e gratidão, fechando o ciclo do trabalho.
Preciso saber cantar para trabalhar na umbanda?
Não. A umbanda valoriza a intenção, não a voz bonita. O importante é cantar com fé e acompanhar a corrente. Com o tempo de casa, o médium naturalmente aprende as melodias e os fundamentos de cada ponto, gravando o repertório na convivência com a gira.
Pode cantar ponto de umbanda em casa?
Sim, com respeito. Cantar pontos em casa, ao acender uma vela ou fazer uma prece, é uma forma de manter a conexão e estudar o repertório. O que exige o terreiro e a orientação do dirigente é o trabalho de gira em si, com incorporação e atendimento.
Onde encontrar itens para a sua gira
Se você trabalha na umbanda e quer preparar a sua casa de fé, na Joia Mística Laroyê você encontra:
- Atabaques e instrumentos: para a curimba conduzir os pontos
- Velas coloridas: para firmar a linha de cada guia
- Defumadores e ervas: para os pontos de defumação e descarrego
- Pembas coloridas: para os pontos riscados que acompanham os cantados
- Guias e roupa branca: para compor o seu axé com respeito
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Fontes: Pontos cantados (Wikipédia) e Pontos Cantados (Diário de Umbanda).
Referências
- Wikipédia: Pontos cantados, verbete enciclopédico sobre o cântico ritual
- Diário de Umbanda: Pontos Cantados, artigo sobre o tema na religião