O ponto de Ogum é o canto da linha de Ogum na gira de umbanda: abre a sessão, chama os Oguns pelo nome, sustenta a chegada e despede. Na casa de Zélio de Moraes, Ogum já aparece no primeiro ponto de abertura. O livro da casa reúne 67 pontos dele. A letra muda de terreiro para terreiro.
O que é o ponto de Ogum e quando ele se canta
O ponto de Ogum é o ponto cantado de Ogum e das entidades da linha dele. Cada momento da gira tem o seu. No livro da Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade (TENSP), Ogum entra antes da seção que leva o nome dele.
- Abertura: “E Ogum em toda gira” e “Salve a coroa de Ogum de Lei”.
- Defumador: “Corre gira Pai Ogum” e “Quem está de ronda é São Jorge”.
- Tronqueira: “Ogum é todo Malé”.
- Chegada e firmeza: o primeiro ponto da seção de Ogum pede “Abre os meus caminhos” e “Firma esse gongá, Ogum”.
- Subida: “Olha Ogum vai se embora”, com “Firma ponto Ogum vai se embora”.
Em outra casa, a lógica é a mesma. Numa tenda de Dourados (MS), o pesquisador Haroldo Medeiros registra pontos para a defumação, a abertura e a chegada dos guias. Há ainda pontos de pedido, puxados conforme a necessidade de quem está na gira. Quem toca e puxa o canto é assunto da curimba na umbanda. Os tipos de ponto em geral estão em pontos cantados na umbanda.
Onde se canta: abertura, defumador, tronqueira, chegada, subida | Livro da casa de Zélio: 67 pontos de Ogum | Sinal no ponto riscado: espada
Os pontos de Ogum na casa de Zélio de Moraes
A casa fundada por Zélio de Moraes publica no site um Livro de Pontos Cantados. Nele, Ogum é a primeira linha de orixá, logo depois da tronqueira. O índice conta 67 pontos de Ogum. O livro não dá autor para os pontos: a casa os publica como tradição.
O ponto 04 faz uma chamada dos Oguns e depois diz que eles trabalham na terra, no mar e na areia:
“Salve Ogum Iara / Ogum Matinata / Ogum Rompe Mato / Ogum Megê”
Nos outros pontos aparecem Sete Ondas, Beira Mar, Sete Espadas, Ogum de Lei e Naruê. Ogum Matinata vem “navegando sobre o mar azul” para defender “o Cruzeiro do Sul”. Quem é cada um desses Oguns na gira está em Ogum na umbanda, e o orixá, em quem é Ogum.
”Eu tenho sete espadas”: o mesmo ponto em quatro registros
O ponto das sete espadas aparece em quatro registros diferentes. Está no livro da casa de Zélio e em três casas pesquisadas por Pedro Nogueira (UFJF). Também está na apostila do Terreiro de Umbanda Pai Maneco, de Curitiba, e numa tenda de Dourados. Na TENSP, começa assim:
“Eu tenho Sete Espadas pra me defender / Eu tenho Ogum na minha companhia”
O fim muda de casa para casa:
| Onde | O verso que muda |
|---|---|
| TENSP (casa de Zélio) | “Vivo com Deus e a Virgem Maria” |
| Três casas pesquisadas na UFJF | ”Ogun vai baixar, / Na fé de Zambi e da Virgem Maria” |
| Pai Maneco (Curitiba) | “Mas Ogum vai baixar / Na fé de Zambi e da Virgem Maria” |
| Tenda em Dourados (MS) | “Ogum é o chefe da cavalaria / Tem sete espadas com quem nos defendia” |
Nogueira lê “Zambi” como influência banta e “Virgem Maria” como católica. Ele lembra que, por serem de tradição oral, as origens dos pontos “muitas vezes não podem ser comprovadas”. A troca às vezes é de uma palavra. Na TENSP, o ponto que abre a seção de Ogum canta “Ogum, a hora é boa”. No Pai Maneco, o mesmo verso é “Ogum a hora é essa”.
General, bandeira e ronda: por que o ponto de Ogum fala como soldado
O ponto de Ogum usa patente, cavalo e quartel. Na TENSP há “Ogum general de Umbanda”, “Senhor Major Ogum” e “Mas ele é praça de cavalaria”. No ponto 10, Ogum Megê vai à guerra montado e vence demanda “nos campos do Humaitá”:
“Em seu cavalo seu Ogum foi guerrear / Com sua espada / Com sua lança”
Ronda é outra palavra de quartel. “Beira Mar quem está de ronda é militar”, canta a TENSP, e “Olha Ogum está de ronda / Miguel tá chamando”. No Pai Maneco, os pontos de Ogum de Ronda trazem São Jorge rondando e São Miguel chamando. O Núcleo Umbandista São Sebastião escreve que São Miguel é o Ogum de Lei. Para a mesma casa, a divisão das falanges de Ogum diverge muito de um terreiro para outro. O santo cavaleiro dos pontos é o de São Jorge e Ogum, e a data dele está em dia de Ogum.
E o Humaitá?
Humaitá é o nome de uma fortaleza paraguaia. Segundo o historiador Francisco Doratioto, a Guerra do Paraguai se travou em torno dela de abril de 1866 a julho de 1868. Os pontos põem o Humaitá em lugares diferentes: “nos campos do Humaitá” e “na ponta do Humaitá” na TENSP, “nas matas de Humaitá” e “Seu Sete Ondas vem de Humaitá” no Pai Maneco.
As fontes sobre os pontos não explicam o nome. A ligação com a guerra é uma leitura possível. Há outro dado ao lado: o pesquisador Lourival Andrade Júnior registra que, durante a ditadura, muitos médiuns de terreiro pertenciam às forças armadas, “na maioria dos casos constatados como filhos de Ogum”.
De onde vêm as letras dos pontos de Ogum
As letras chegam pela gira, pelo compositor, pelo livro da casa e pela coletânea impressa. Diamantino Trindade, citado por Andrade Júnior, chama de pontos de raiz os “trazidos diretamente pelas entidades incorporadas ou por meio da intuição dos médiuns”. Os outros são criados por compositores, “muito comuns nos festivais de curimbas”.
Nos anos 1970 os pontos já circulavam impressos. A coletânea 3.000 pontos riscados e cantados na Umbanda e no Candomblé saiu pela Editora Eco em 1974. Ela é a principal base dos pontos que Andrade Júnior analisou. Hoje as casas publicam os seus. A TENSP tem livro; o Pai Maneco tem apostilas por linha, com “pontos individuais” de cada Ogum e “pontos de linha”.
Ponto de compositor tem dono. A apostila do Pai Maneco marca o autor quando ele existe, como em “Composição: Reinaldo Godinho”. Por isso aqui só entram pontos que as casas publicam sem autor ou que as pesquisas já citam.
Ponto riscado de Ogum: a espada no chão do terreiro
No ponto riscado, o sinal de Ogum é a espada, em duas pesquisas. Andrade Júnior mostra que o ponto do Caboclo Ogum das Matas tem, “além da tradicional flecha”, a espada de Ogum, que ele chama de Obé. Em Dourados, Medeiros descreve um conjunto de pontos riscados em que a espada é “representativo de Ogum”. Junto vai uma vela branca e vermelha, que a casa liga ao orixá.

O riscado também diz o que a entidade pede. Em Fortaleza, um pai de santo explicou isso ao pesquisador Linconly Pereira: pelo ponto, “você vai identificar o tipo de vela que você tem que acender, o tipo de bebida que você tem que usar”. Dos dirigentes que ele ouviu, só dois se sentiram à vontade para ensinar algo concreto sobre pontos riscados. O desenho é da entidade e da casa. Riscado copiado da internet não é o ponto do seu terreiro. O fundamento de riscar está em ponto riscado na umbanda.
A lança está no ponto cantado; as fontes não a põem no risco de Ogum. Quem vai firmar o ponto com pemba e vela e quer conferir a cor que a casa pediu pode falar com a Joia Mística pelo WhatsApp.
Perguntas frequentes
Qual é o ponto de Ogum mais conhecido?
Entre os pontos com fonte, o das sete espadas, que começa com “Eu tenho Sete Espadas pra me defender”. Ele está no livro da casa de Zélio e em três casas pesquisadas na UFJF. Também aparece no Pai Maneco e numa tenda de Dourados, cada um com um fecho diferente.
O que Ogum Beira Mar trouxe do mar?
O próprio ponto responde. Na apostila do Pai Maneco, depois de “Seu Ogum Beira Mar / O que trouxe do mar?”, vem “Vem trazendo no braço direito / O rosário da Mamãe Sereia”. A casa de Zélio tem um ponto com o mesmo primeiro verso.
O ponto de Ogum do candomblé é igual ao da umbanda?
Não é o mesmo repertório. O livro da casa de Zélio é de umbanda e canta em português. No candomblé baiano descrito por Pierre Verger, Ogum é o primeiro saudado depois que Exu é despachado e recebe o grito “Ogum ieee!”. Uma cantiga de Ogum está em Ogum Onire Alagbara.
Referências
- Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade: Livro de Pontos Cantados
- Terreiro de Umbanda Pai Maneco: apostila de pontos de Ogum
- Pedro Antônio Pires Nogueira, UFJF: dissertação sobre caboclos e pontos em casas de umbanda
- Haroldo Paulo Camara Medeiros, UFGD: Quebra o coco e arrebenta a sapucaia
- Lourival Andrade Júnior, Mneme (UFRN): Os caboclos nas religiões afro-brasileiras
- Lourival Andrade Júnior, ANPUH: Adorei as almas, umbanda, preto-velho e escravidão
- Linconly Jesus Alencar Pereira, UFC: A umbanda em Fortaleza, pontos cantados e riscados
- Francisco Doratioto, Navigator (Marinha do Brasil): 150 anos da Passagem de Humaitá
- Núcleo Umbandista São Sebastião: Linha de Ogum
- Pierre Verger: Orixás, deuses iorubás na África e no Novo Mundo