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Umbanda 9 min de leitura

Ponto riscado na umbanda: a assinatura das entidades

Ponto riscado na umbanda é a assinatura da entidade. Entenda a pemba, as cores, as famílias de símbolos, como o ponto é firmado e por que não se copia.

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Ponto riscado com pemba branca e colorida no chão do terreiro, a assinatura simbólica das entidades da umbanda sob luz natural.

Resumo

O ponto riscado na Umbanda é uma escrita sagrada cabalística grafada com pemba (giz ritualístico) pelo guia incorporado no chão do terreiro ou na tábua de firmeza. Ele funciona como a assinatura cósmica da entidade, atestando sua identidade espiritual, sua falange de origem e a autorização divina para conduzir o trabalho mágico.

Cada traço geométrico possui função ativa: flechas direcionam o axé e indicam linhas de caboclo; cruzes representam a fé e a linha das almas; espadas evocam a força e o corte de demandas de Ogum; ondas e corações ligam-se às águas de Iemanjá e Oxum; e tridentes marcam o assentamento magnético dos guardiões de esquerda.

Ao ser riscado e ativado com velas, ervas e pontos cantados, o ponto riscado torna-se um circuito condensador de energia capaz de abrir portais, fechar o corpo de médiuns contra obsessões e descarregar magias nocivas. Somente entidades legítimas possuem a chave de seus próprios pontos riscados.

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A entidade se abaixa, pega o giz cônico e risca o chão. Sai uma cruz, uma flecha, um círculo em volta. Quem assiste pela primeira vez acha que é desenho. Não é.

O ponto riscado é escrita. É a assinatura da entidade que chegou, o carimbo que ela usa para se identificar e para firmar o trabalho que vai fazer. Cada traço tem função ritual.

Este guia explica o que é o ponto riscado na umbanda e qual a diferença dele para o ponto cantado. Também trata da pemba, das famílias de símbolos e de por que copiar ponto da internet não funciona.


O que é o ponto riscado

Ponto riscado é a grafia ritual traçada pela entidade incorporada, feita de linhas e símbolos combinados. Não é ornamento nem amuleto avulso: é linguagem.

A comparação mais honesta é com uma assinatura. Ela identifica quem assina e vale pelo gesto, não pelo desenho em si.

Na prática de terreiro, o ponto cumpre quatro funções ao mesmo tempo:

  • Identificação: a entidade se apresenta e confirma quem é diante do dirigente e da corrente
  • Firmeza: o ponto ancora e sustenta o trabalho enquanto ele durar
  • Delimitação: o traçado marca o espaço e o tempo em que aquela energia atua
  • Comando: a combinação de símbolos ordena uma ação, como abrir, cortar, firmar ou limpar

O ponto cantado chama. O ponto riscado assina e firma.

Quem risca é a entidade incorporada, e em alguns momentos o dirigente da casa, quando autorizado pela espiritualidade. Médium em desenvolvimento não risca. Você vai ver textos atribuindo o riscado ao babalorixá, mas esse é vocabulário do candomblé, não da umbanda.


Ponto riscado, ponto cantado e marcar ponto

Três coisas diferentes carregam a palavra “ponto”, e a confusão é constante. O Terreiro de Umbanda Cabocla Tupyara separa as três com clareza.

Ponto riscadoPonto cantadoMarcar ponto
O que ésímbolos que identificam a entidadecântico sagrado com letra e melodiareverência dançada no ritmo do canto
Suportepemba, no chão, tábua ou congávoz e atabaqueo corpo, na roda
Quem faza entidade incorporadaa curimba e a correntemédiuns e entidades
Duraçãofica até ser descarregadodura o cantodura o canto

A curimba é o grupo de ogãs que sustenta o canto e o atabaque numa gira. Ela chama e despede as entidades. O riscado entra depois, quando a entidade já está na roda.


A pemba: o giz que escreve o ponto

A pemba é o giz ritual da umbanda. Tem formato cônico ou ovalado, cabe fechada na mão, e no Brasil é feita de calcário. A palavra vem do tronco banto e nomeia o pó branco ritual dos povos kongo.

O uso vai além do riscado. O pó de pemba, misturado a outros elementos, entra na limpeza do ambiente e dos médiuns na abertura dos trabalhos. Muitas casas consagram a pemba antes do uso, com banho de ervas e oração, e isso varia de terreiro para terreiro.

A regra geral das cores é simples: a cor da pemba acompanha a linha da entidade que está riscando.

CorUso mais citado
Brancaa mais universal; paz, abertura, Oxalá; serve a qualquer linha
Vermelhalinha de Ogum e os guardiões; força e proteção
Verdecaboclos e Oxóssi
AzulIemanjá; também paz e cura
AmarelaOxum
Pretalinha de esquerda, trabalhos de corte e descarrego

Duas ressalvas importam aqui. A primeira: cada casa firma a sua correspondência, e a orientação vem do dirigente, nunca de uma tabela da internet. A segunda: cor de pemba não é cor de vela. São sistemas paralelos, e a correspondência nem sempre bate, como você vê em velas rituais e seus significados.


As famílias de símbolos

Aqui mora o maior mal-entendido do tema. Os sites entregam dicionários fechados, do tipo “estrela significa isso”. A realidade do terreiro é outra: a leitura é do conjunto, e ela muda por linha e por casa.

O pesquisador Lourival Andrade Júnior, da UFRN, analisou mais de 300 pontos riscados e nominações de Exu em terreiros brasileiros. O tamanho do repertório mostra por que catálogo único não existe.

O que se pode dizer com segurança são as famílias de sentido:

SímboloFamília de sentido
Cruzencruzamento, encontro entre os planos, fechamento
Círculodelimita o campo de ação daquele trabalho
Flecha e lançadireção, alvo, abertura de caminho
Estrela de cinco pontasregência e comando espiritual
Selo de Salomãoequilíbrio entre o alto e o material
Meia-lua e ondaslinhas das águas, ciclo, limpeza
Sol e raiosforça vital, luz, irradiação
Espadacorte de demanda e defesa
Tridenteguardiões, encruzilhada, comando
Chave e âncoraabrir caminho, firmar, fixar

Note o que fica de fora. A estrela invertida lida como negativa vem do esoterismo europeu e não é consenso umbandista. E números dentro do ponto não têm leitura fechada: cada casa lê de um jeito.


Como o ponto é riscado, firmado e descarregado

O ciclo tem começo, meio e fim, e cada etapa é fundamento de casa. O que segue descreve o que muitas casas fazem, não é instrução ao leitor.

  1. A entidade risca com a pemba, no chão batido, numa tábua de riscar ou dentro do congá
  2. Acende-se uma vela sobre o ponto ou ao lado, e o ponto potencializa a firmeza da vela
  3. Conforme a linha, entram outros elementos, como bebida, charuto ou água
  4. O ponto se mantém enquanto o trabalho durar
  5. Quando a entidade sobe, os cambonos apagam a vela apertando o pavio, nunca soprando
  6. Ao fim dos trabalhos, o ponto é cruzado com bebida ou álcool em forma de cruz e o material é recolhido

Há uma exceção conhecida. Quando a entidade fecha o ponto dentro de um círculo, aquela energia deve permanecer por alguns dias, e o ponto não se apaga na hora.

O ponto riscado também existe na quimbanda e, com outra lógica, no candomblé de nação angola. São tradições distintas, cada uma com seu fundamento.


Da cruz do Kongo ao giz do terreiro

Existe uma razão histórica para a cruz e o círculo aparecerem em quase todo ponto riscado. Eles são o substrato mais antigo do sistema.

O dikenga, cosmograma dos povos bakongo, é uma cruz dentro de um círculo. Ele marca o ciclo entre o mundo dos vivos e o dos ancestrais, com os quatro momentos do sol. Da mesma matriz vem o mpambu nzila, a encruzilhada.

O pesquisador Hertz Wendell de Camargo, em estudo publicado pela UNESP, acompanhou um terreiro de Curitiba entre 2016 e 2022. Ele identifica o cosmograma kongo operando dentro do ritual de abertura da umbanda.

Sobre essa camada africana se depositou outra, a partir de 1908. A umbanda se codifica no Brasil absorvendo noções kardecistas e um vocabulário gráfico esotérico e maçônico. Dele vêm a estrela de cinco pontas e o selo de Salomão. Renato Ortiz descreveu o processo em A morte branca do feiticeiro negro.


Por que ponto copiado da internet não funciona

Essa é a pergunta que mais chega, e a resposta é de fundamento, não de proibição.

O ponto é ato, não imagem. A força está no gesto ritual e na autorização espiritual do momento em que a entidade risca. Reproduzir o traçado é copiar a caligrafia de uma assinatura: não transfere a identidade de ninguém.

O ponto é pessoal e situacional. A mesma entidade risca diferente conforme o trabalho, a casa e a corrente do dia. Um ponto achado numa busca de imagens pertence a outro guia, de outra casa, para outro fim.

Abrir sem saber fechar não ajuda ninguém. A orientação umbandista compara traçar ponto sem permissão a abrir uma porta espiritual sem saber fechá-la. Não é ameaça nem castigo: é falta de fundamento.

O caminho de quem quer entender o próprio ponto passa pela casa, pelo desenvolvimento da mediunidade e pela orientação do dirigente. Não passa por tutorial.


Perguntas frequentes

O que é ponto riscado na umbanda?

É a grafia ritual traçada com pemba pela entidade incorporada, feita de símbolos combinados. Funciona como assinatura espiritual: identifica quem chegou, firma o trabalho, delimita o campo de atuação e comanda a ação daquela energia. Não é desenho decorativo nem amuleto solto.

Quem pode riscar ponto na umbanda?

Quem risca é a entidade incorporada, e em situações específicas o dirigente da casa, quando autorizado pela espiritualidade. Médium em desenvolvimento não risca por conta própria. Existem cursos que ensinam a riscar fora da incorporação, mas essa é posição minoritária dentro da umbanda.

Qual a diferença entre ponto riscado e ponto cantado?

O ponto cantado é cântico com letra e melodia, sustentado pela curimba, e serve para evocar, saudar e despedir as entidades. O ponto riscado é grafia feita com pemba, serve para identificar e firmar, e permanece até ser descarregado. Um chama, o outro assina.

Para que serve a pemba?

A pemba é o giz ritual de calcário usado para riscar o ponto. Além disso, o pó dela entra na limpeza do ambiente e dos médiuns na abertura dos trabalhos. A cor acompanha a linha da entidade, com a branca servindo a qualquer linha na falta de outra.

Pode apagar o ponto riscado depois?

Sim, e na maioria das casas o ponto é descarregado ao fim dos trabalhos, cruzado com bebida ou álcool. A exceção é quando a entidade fecha o ponto dentro de um círculo, indicando que a energia deve permanecer alguns dias. A palavra final é sempre do dirigente da casa.


Onde comprar pemba e artigos de umbanda

Na Joia Mística Laroyê, você encontra o que a casa usa nos trabalhos:

  • Pemba branca: a mais usada e a que serve a qualquer linha
  • Pemba colorida: vermelha, verde, azul, amarela e preta, para as linhas específicas
  • Tábua de riscar: para casas que não riscam direto no chão
  • Velas rituais em cores variadas: para firmar o ponto durante o trabalho
  • Defumadores e ervas secas: para a limpeza que abre e fecha a gira

Visite nossa loja em Extrema-MG ou fale com a gente pelo WhatsApp e enviamos para todo o Brasil.

Para se aprofundar, o Cantinho de Oxalá reúne material sobre a pemba e sua consagração. Sobre a formação histórica da religião, a referência clássica segue sendo A morte branca do feiticeiro negro, de Renato Ortiz.


Referências

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