No dia 30 de setembro acontecem duas festas ao mesmo tempo. Numa delas, a Igreja celebra o tradutor da Bíblia. Na outra, terreiros do Rio Grande do Sul saúdam o rei do trovão. São Jerônimo e Xangô dividem a data há mais de um século.
A pergunta que leva o leitor até aqui costuma ser direta: qual santo é Xangô? A resposta honesta é que não existe uma só. Existe um mapa, e ele muda quando você atravessa o Brasil. Este artigo conta quem foi Jerônimo de verdade. Mostra o que na imagem dele os terreiros leram como assinatura do Orixá, e por que a correspondência é uma no Sul e outra na Bahia.
Quem foi São Jerônimo
Jerônimo de Estridão nasceu por volta de 347, na Dalmácia, região das atuais Croácia e Eslovênia. Foi para o deserto, estudou hebraico e grego, e assumiu a tarefa que definiria sua vida: traduzir a Bíblia inteira para o latim.
O resultado ficou conhecido como Vulgata, e serviu de texto bíblico oficial do Ocidente por mais de mil anos. Jerônimo morreu em Belém, em 30 de setembro de 420, e a data da morte virou o dia litúrgico dele.
Aqui vale uma diferença importante em relação a outros santos do sincretismo. Jerônimo não é figura lendária. Ele deixou obra escrita, correspondência e biografia documentada. Está entre os quatro grandes doutores da Igreja latina, ao lado de Agostinho, Ambrósio e Gregório Magno. Em 2020, nos 1.600 anos da morte dele, o Papa Francisco publicou a carta apostólica Scripturae Sacrae Affectus, que trata a Vulgata como um monumento da história cultural do Ocidente.
Na iconografia, ele aparece quase sempre com os mesmos elementos: um leão deitado a seus pés, um livro, materiais de escrita e um crânio. Nas pinturas do santo penitente no deserto, entra ainda uma pedra na mão, com que ele bate no peito. Guarde o leão, o livro e a pedra, porque é neles que a história vira.
Xangô, o Orixá da justiça
Do lado afro-brasileiro está Xangô, o Orixá do fogo, do raio, do trovão e da justiça. Ele foi rei antes de ser Orixá: o quarto alaafim de Oió, no antigo território iorubá.
Aqui fica só o essencial, porque o blog já tem o perfil completo dele em quem é Xangô.
Símbolo: oxê, o machado de dois gumes | Dia: quarta-feira | Elemento: fogo | Oferenda: amalá, quiabo no dendê | Saudação: Káwó Kabiyesilé!
As duas lâminas do oxê dizem tudo sobre ele. A justiça de Xangô pune o culpado e protege o inocente no mesmo movimento. No Rio Grande do Sul a saudação soa “Káwó Kabiyesilé!”, e no resto do país circula mais como “Kaô Kabecilê!”. São grafias do mesmo brado iorubá, que significa saudação ao rei.
O leão, o livro e a pedra
Por que justamente Jerônimo? A resposta está na imagem do santo, e são três os elementos que os terreiros leram como assinatura de Xangô.
- O leão. Na cultura iorubá o leão é símbolo de realeza. Um santo que doma uma fera dessas é um santo de estatura real, e Xangô foi rei de fato.
- O livro. Jerônimo é o santo da palavra fixada, de quem estabelece a norma escrita. Xangô é o Orixá que julga. Lei escrita conversa com justiça pronunciada.
- A pedra. A pedra na mão do penitente encontra a pedreira de Xangô e o edun ará, a pedra de raio. Na umbanda, “Xangô das Pedreiras” é epíteto corrente.
Uma nota curiosa sobre o leão: ele vem de uma lenda medieval, em que o santo teria domado a fera ao curar um ferimento na pata. Historiadores atribuem a cena a uma confusão com São Gerásimo. O símbolo que aproximou o santo do Orixá, portanto, nem faz parte da biografia real de Jerônimo.
Sincretismo não é equivalência. São Jerônimo continua sendo São Jerônimo para o católico, e Xangô continua sendo Xangô para o povo de santo. O 30 de setembro abriga duas devoções que se respeitam.
Qual santo é Xangô? Depende de onde você está
Aqui está o ponto que quase nenhum texto sobre o tema cobre. A correspondência de Xangô com santos católicos muda de região, e tratá-la como regra nacional é o erro mais comum da internet.
| Região e tradição | Santo associado a Xangô |
|---|---|
| Rio Grande do Sul, batuque e umbanda do Sul | São Jerônimo, no 30 de setembro. É a associação mais consolidada do país |
| Bahia, candomblé ketu | Não há resposta única: São Jerônimo, Santa Bárbara e São Miguel Arcanjo aparecem conforme a qualidade e a casa |
| Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Sergipe | O ponto ali não é o santo, é o nome: a própria religião de Orixás se chama Xangô |
| Sudeste, umbanda e catolicismo popular | São Pedro e São João Batista, no ciclo junino, com São Jerônimo como alternativa |
Há casas que refinam ainda mais, ligando cada qualidade de Xangô a um santo diferente. Essa leitura existe e circula entre terreiros, mas não é regra de nação: é fundamento de casa.
O contraste com o Sudeste merece nota. Boa parte da umbanda celebra Xangô em junho, junto com os santos juninos, e não em setembro. As duas datas convivem, e muitas casas guardam as duas. Como resumiu o sacerdote Diego de Ogum em entrevista à CNN Brasil, não existe uma associação única e universal entre santos e Orixás.
Vale ainda separar duas energias que o público confunde. O raio de Iansã não é o trovão de Xangô, e cada um tem seu próprio sincretismo.
30 de setembro no Sul: a data que virou oficial
No Rio Grande do Sul o 30 de setembro não é data discreta. É festa pública, e em alguns municípios é oficial.
A cidade de Capão do Leão realiza a Festa de Xangô, padroeiro africanista do município, organizada com o Conselho Municipal do Povo de Terreiro. Uma prefeitura reconhecendo um Orixá como padroeiro diz muito sobre o peso da data naquele estado.
Esse enraizamento tem história. O batuque é a tradição afro-gaúcha por excelência, estruturada ao longo do século XIX, sobretudo nas regiões portuárias de Rio Grande e Pelotas. Como descreve o antropólogo Ari Pedro Oro em pesquisa publicada na Estudos Afro-Asiáticos, o batuque se organiza em “lados” ou nações: Oió, Jeje, Ijexá, Cabinda e Nagô.
Foi nesse chão que São Jerônimo virou o rosto público de Xangô. Quem quiser entender o fundamento ritual, com o alujá e as qualidades do Sul, encontra tudo em Xangô no batuque.
Por que a associação aconteceu
O encontro entre o santo e o Orixá não foi escolha livre.
Durante a colonização e a escravidão, cultuar Orixás era proibido. A saída foi rezar diante da imagem católica e saudar o Orixá por dentro. O santo funcionou como fachada, e não como conversão. Depois da abolição a repressão continuou por via legal: o Código Penal de 1890 criminalizou práticas espirituais e serviu de base para invasões de terreiros por décadas.
O sociólogo Reginaldo Prandi mostra que as religiões afro-brasileiras foram sincréticas desde o início, estabelecendo paralelos entre Orixás e santos sob pressão de contexto. Não foi devoção confusa. Foi engenharia de sobrevivência.
Vale lembrar que Xangô tem duas camadas, e isso ajuda a entender o encaixe. Há o Xangô histórico, o rei de Oió, e o Xangô divino, o Orixá do trovão. Um rei africano podia ser lido através de um santo europeu sem que os dois virassem a mesma pessoa.
A imagem do santo era o que ficava à vista. O Orixá era o que se guardava por dentro. Chamar isso de confusão religiosa é ler a história pelo lado errado.
Separar ou celebrar junto: o debate de hoje
Parte do povo de santo hoje pratica reafricanização e prefere separar santo e Orixá. O argumento é simples e legítimo: a fachada não é mais necessária, e manter a associação embaralha duas teologias distintas.
Outra parte celebra as duas devoções juntas, e também tem razão. Para muitas famílias, rezar a São Jerônimo e saudar Xangô no mesmo dia é herança de avós, e cortar isso seria apagar a própria história.
O blog não escolhe lado. A regra de ouro continua valendo: quem define a correspondência é o fundamento de cada casa. O mesmo debate aparece em São Jorge e Ogum, e a conclusão é a mesma.
Perguntas frequentes
Qual Orixá é São Jerônimo?
No sincretismo, São Jerônimo foi associado a Xangô, o Orixá da justiça e do trovão. A ligação é mais forte no Rio Grande do Sul, onde o batuque celebra a data em 30 de setembro. Santo e Orixá seguem sendo figuras distintas, de tradições diferentes.
Por que Xangô foi sincretizado com São Jerônimo?
Pela imagem do santo. O leão aos seus pés representa realeza, e Xangô foi rei de Oió. O livro remete à lei escrita, e Xangô é quem julga. A pedra do penitente encontra a pedreira e a pedra de raio do Orixá.
O dia de Xangô é 29 de junho ou 30 de setembro?
Depende da tradição e da região. No Sul, com o batuque, a data é 30 de setembro, dia de São Jerônimo. Em boa parte da umbanda do Sudeste, Xangô é celebrado em junho, junto com São Pedro e São João. Muitas casas guardam as duas.
Qual santo é Xangô no batuque do Rio Grande do Sul?
São Jerônimo, sem grande divergência. É a correspondência mais consolidada do estado, a ponto de municípios gaúchos oficializarem a celebração de 30 de setembro. O batuque é a tradição afro-gaúcha por excelência, organizada em nações como Oió, Cabinda e Ijexá.
O que oferecer a Xangô no dia dele?
O prato tradicional é o amalá, quiabo refogado no dendê servido em gamela de madeira. Acompanham velas vermelhas e brancas, e a saudação Káwó Kabiyesilé. A oferenda é gesto de devoção e respeito, nunca uma troca que garanta um resultado.
Onde comprar itens para o dia de Xangô
Na Joia Mística Laroyê, você encontra o que precisa para honrar a data:
- Velas vermelhas e brancas: as cores de Xangô, em tamanhos variados
- Gamelas e alguidares de barro: para servir o amalá do jeito tradicional
- Imagens de São Jerônimo e de Xangô: para altar de casa ou de terreiro
- Guias e contas nas cores do Orixá: para quem já tem orientação da sua casa
- Azeite de dendê e ervas: os básicos de qualquer preparo devocional
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Referências
- Wikipédia: biografia de São Jerônimo
- Vaticano: carta apostólica Scripturae Sacrae Affectus, do Papa Francisco
- CNN Brasil: entrevista com o sacerdote Diego de Ogum sobre o sincretismo entre santos e Orixás
- Prefeitura de Capão do Leão: página oficial da Festa de Xangô, padroeiro africanista do município
- Estudos Afro-Asiáticos (Scielo): pesquisa do antropólogo Ari Pedro Oro sobre o batuque gaúcho
- Reginaldo Prandi (USP): página acadêmica do sociólogo, especialista em religiões afro-brasileiras