Zélio de Moraes foi o médium de São Gonçalo (RJ) que a tradição liga à fundação da umbanda, em 1908 [C8, C12]. Nasceu em abril de 1891 e morreu em 3 de outubro de 1975 [D1, C27]. Fundou a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade, que se apresenta como o centro de umbanda mais antigo em funcionamento.
Quem foi Zélio de Moraes
Zélio Fernandino de Moraes era de uma família tradicional e católica de São Gonçalo [D1, C32]. Foi médium do Caboclo das Sete Encruzilhadas por quase sete décadas, fundou tendas, foi farmacêutico e vereador [C13, D1, D2].
Nome: Zélio Fernandino de Moraes | Nascimento: abril de 1891, São Gonçalo (RJ) | Morte: 3 de outubro de 1975 | Esposa: Maria Isabel | Filhas: Zélia e Zilméia | Profissão: farmacêutico | Casa: Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade
A data de nascimento mais citada é 10 de abril de 1891. A Revista de História da Biblioteca Nacional confirma o mês: ele completou 17 anos em abril de 1908. Sobre o lugar da morte, as fontes divergem. A revista diz Cachoeiras de Macacu, e a Wikipédia diz Niterói [D1, C27].
A família e a doença de 1908
Em 1908, aos 17 anos, Zélio se preparava para os exames da Escola Naval quando uma paralisia interrompeu os planos [D1, C28]. A partir de outubro, segundo a revista da Biblioteca Nacional, ele passou a falar palavras sem nexo e a ter visões. A família, “muito católica”, recorreu aos padres.
As versões sobre a doença variam. O pesquisador Bruno Faria Rohde registra que uns falam em paralisia e outros em crises parecidas com epilepsia, e que os médicos não conseguiam curá-lo.
Segundo a tradição, a família o levou a uma sessão espírita em Niterói em 15 de novembro de 1908. Ali se manifestou o Caboclo das Sete Encruzilhadas, que anunciou um culto novo. No dia seguinte, na casa de Zélio, em Neves, nasceu a Tenda da Piedade. É dessa data que vem o Dia da Umbanda. Quem é o guia, de onde vem o nome e qual a sua linha está em Caboclo das Sete Encruzilhadas.

Farmacêutico e vereador em São Gonçalo
Fora do terreiro, Zélio tinha profissão e vida pública. Foi farmacêutico na Pharmácia Nossa Senhora da Piedade, na Rua Floriano Peixoto, em Neves, a mesma rua onde morou por muito tempo [D2, C29]. A revista da Biblioteca Nacional o descreve também como comerciante.
Na política, ele foi vereador em São Gonçalo. Foi eleito em 1924 e reeleito em 1927, quando os colegas o escolheram secretário da Câmara. A própria Câmara Municipal de São Gonçalo registra o mandato e um jornal de 1929 que o apresentava de novo como candidato, aos 38 anos.
A Tenda lembra que a atuação dele na Câmara foi voltada às escolas públicas gratuitas. E ele mesmo criou uma escola primária gratuita no seu centro espírita, para as crianças de Neves.
As tendas que ele fundou
A primeira foi a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade, fundada em 16 de novembro de 1908, segundo a casa [C8, C12]. Depois vieram outras, e aqui as fontes contam números diferentes.
- Em 1933, Leal de Souza, que presidia uma delas, lista quatro tendas: a da Piedade, “a matriz”, em Neves, e as de Nossa Senhora da Conceição, São Pedro e Nossa Senhora da Guia, no Rio.
- Pela Tenda, foram sete tendas filhas, a primeira em 1918: Conceição, Guia, Santa Bárbara, São Pedro, São Jorge, São Jerônimo e Oxalá.
- Pelo pesquisador José Henrique Motta de Oliveira, da UFRRJ, “não há registros confiáveis” das datas de todas. Segundo ele, a primeira é de 1918 e a última de 1935.
Segundo Oliveira, até os dirigentes das novas casas “foram indicados pelo guia”. Em 1939 nasceu também a Federação Espírita de Umbanda, hoje UEUB, que se apresenta como criada por orientação do Caboclo. Em 1954, a UEUB deu à Tenda da Piedade o diploma de “filiada número um”.
A Cabana de Pai Antônio e os últimos anos
Nos anos 1950, Zélio fundou a Cabana de Pai Antônio, em Boca do Mato, Cachoeiras de Macacu (RJ). Um jornal de 1957 noticiou a fundação, segundo a Tenda. O nome é o do preto-velho que trabalhava com ele desde os primeiros tempos, já descrito por Leal de Souza em 1933. Quem são os pretos-velhos está em pretos-velhos na umbanda.
Em 1963, Zélio passou a direção da Tenda às filhas, Zélia e Zilméia, e foi morar em Cachoeiras de Macacu [D1, D2]. Na Cabana e depois em casa, segundo a Tenda, ele seguiu atendendo quem o procurava até morrer, em 1975.
A frase que ele pedia que se lembrasse ficou guardada pela casa:
“Zélio pedia que lembrássemos que a Umbanda é a manifestação do espírito para a caridade e que a humildade é a forma mais sublime da prática do Evangelho do Cristo.” (Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade)
Da filha ao bisneto
A direção da Tenda seguiu na família. Primeiro Zélia de Moraes Lacerda, depois Zilméia de Moraes Cunha, depois a neta Lygia Maria Marinho da Cunha. Hoje a casa é dirigida pelo bisneto, Leonardo Cunha. A sede é a Cabana de Pai Antônio, e todas as sedes anteriores, inclusive a primeira, foram demolidas. A casa de Neves começou a ser derrubada em 2011.
O rito segue a matriz de Zélio: sem atabaque, palmas nem dança, com os médiuns de branco e descalços. Em outras casas, há terreiros com a fotografia de Zélio no congá, ao lado dos santos e dos orixás.
O que é documento e o que é relato na história de Zélio
A vida civil de Zélio tem documento: Câmara, farmácia, datas [D1, D2]. A vida religiosa também tem registro de época. Em 1932 e 1933, o jornalista Leal de Souza escreveu sobre o Caboclo, a Tenda da Piedade e as tendas filhas [C13, C14].
A cena de 1908, com todos os detalhes, é outra coisa. Não há ata da sessão, e as sessões da federação não geravam ata. A jornalista umbandista Lilia Ribeiro gravou uma entrevista com Zélio em 1961. A publicação da história em boletim é datada de 1961 pela BBC e de 1971 por uma dissertação do CEFET/RJ [C15, D4]. Em 1972, uma revista umbandista publicou a reportagem “Eu fundei a Umbanda”.
Os pesquisadores divergem sobre o papel dele. A antropóloga Diana Brown põe o surgimento da umbanda nos anos 1920. Mesmo assim, reconhece que o centro de Zélio e os de seus companheiros foram os primeiros que ela encontrou a se dizer de umbanda. Rohde, pesquisador e umbandista, não descarta o valor do relato, porque ele marca um período importante da religião. As várias formas de umbanda que vieram depois estão em vertentes da umbanda.
A filha Zilméia fazia questão de um ponto: o pai “nunca fora kardecista”, e a família “era tradicionalmente católica”.
Perguntas frequentes
Quem foi Zélio Fernandino de Moraes?
Foi o médium do Caboclo das Sete Encruzilhadas e o fundador da Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade, em São Gonçalo (RJ). A tradição liga essa casa ao nascimento da umbanda, em 1908. Fora do terreiro, foi farmacêutico em Neves e vereador em São Gonçalo, eleito em 1924 e reeleito em 1927.
Quando Zélio de Moraes nasceu e quando morreu?
Nasceu em abril de 1891, em São Gonçalo (RJ); a data mais citada é 10 de abril. Morreu em 3 de outubro de 1975, aos 84 anos. O local da morte diverge: a Revista de História da Biblioteca Nacional diz Cachoeiras de Macacu, e a Wikipédia diz Niterói.
Zélio de Moraes fundou a umbanda?
Segundo a tradição, a umbanda foi anunciada pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas por meio dele, em 1908. Os pesquisadores tratam o episódio como relato fundador: a religião se formou ao longo de décadas. Diana Brown reconhece que a casa de Zélio e as de seus companheiros foram as primeiras a se dizer de umbanda.
Zélio de Moraes era rico?
As fontes não falam em riqueza. Descrevem uma família tradicional de São Gonçalo e um homem de classe média, farmacêutico, com farmácia na rua onde morava, em Neves. Ele também foi vereador por dois mandatos e criou uma escola primária gratuita no seu centro espírita.
Referências
- NUNES, Jorge Cesar Pereira. Revista de História da Biblioteca Nacional, 2008. O pai da umbanda
- TARDOCK, Luciano. Câmara Municipal de São Gonçalo, 2019. São Gonçalo: espiritualidade e política
- ROHDE, Bruno Faria. REVER (PUC-SP), 2009. Umbanda, uma religião que não nasceu