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Umbanda 8 min de leitura

Preto velho é Exu? O que dizem as pesquisas de campo

Preto velho é Exu? Em geral não: a umbanda os põe em lados opostos. Mas pesquisas descrevem o preto velho da mata, o cruzado e o quimbandeiro em poucas casas.

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Dois banquinhos baixos de madeira lado a lado diante de uma parede caiada: num, vela branca e xícara de barro; no outro, uma vela vermelha e uma preta.

Resumo

Na classificação mais comum da umbanda, o preto velho fica na linha da direita e Exu na da esquerda, e os dois não são a mesma entidade. Reginaldo Prandi avisa que essa divisão pode ser meramente formal, de frouxa importância ética.

Pesquisas de campo registram exceções em poucas casas: o preto velho da mata, de uma casa de Ribeirão Preto, o preto velho cruzado ou de tronqueira, de terreiros de São João del-Rei e Montevidéu, e o Exu cruzado com preto velho.

Para uma pesquisa da USP, ser de esquerda é um modo de atuar, e não um tipo de entidade. Por isso a pergunta se preto velho é Exu tem resposta curta (em geral, não) e resposta de casa (quem explica é o dirigente).

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8 min de leitura

Preto velho é Exu? Em geral, não. Na classificação mais comum da umbanda, o preto velho fica na linha da direita e Exu na da esquerda. Um historiador registra que o preto velho baixa sob todos os orixás, menos Exu e Ibeji.

Pesquisas de campo descrevem, porém, exceções em poucas casas: o preto velho “da mata”, o preto velho “cruzado” e o Exu “cruzado” com preto velho.


Preto velho é Exu? Na classificação mais comum, não

Não, na classificação mais usada. O sociólogo Reginaldo Prandi, da USP, descreve a umbanda em duas linhas, direita e esquerda. Ele põe o preto velho do lado direito, como “símbolo da raiz africana e marca do passado escravista”.

Na classificação de Lima (1997), resumida por Dias e Bairrão, os pretos-velhos são entidades “disciplinadoras” e os exus, “catárticas”. São rótulos do autor, e não das casas.

O próprio Prandi avisa que a divisão pesa menos do que parece:

“Esta divisão, contudo, pode ser meramente formal, como uma orientação classificatória estritamente ritual e com frouxa importância ética.”

Reginaldo Prandi, Herdeiras do Axé, 1996

Na prática, escreve ele, “não há quimbanda sem umbanda nem quimbandeiro sem umbandista”. A diferença entre umbanda e quimbanda e quem é Exu completam o quadro.

Preto velho: direita | Exu: esquerda | Dia: segunda-feira, dos dois | Exceções: da mata, cruzado


O que os dois têm em comum: dia, espaço e cemitério

A segunda-feira é o dia dos dois, e o dia de preto velho no ano é 13 de maio. O Santuário Nacional da Umbanda diz que é o dia dos pretos-velhos, “mesmo dia de Exu e Abaluaiê”. Numa casa de Ribeirão Preto, a segunda é “concomitantemente o dia dos pretos-velhos e dos exus”. Em Vitória (ES), é dia de oferendas para “preto velhos, entidade Exu e mortos especiais de cemitério”.

O espaço também junta os dois. Na casa estudada por Rafael de Nuzzi Dias, o certo seria a casa das almas à direita da entrada, em frente à tronqueira, a casa dos exus, à esquerda.

Pátio de terreiro: casinha de madeira com velas vermelha e preta diante de casa branca com cachimbo, xícara e vela.

No cemitério, as pesquisas divergem. Em Vitória, Barbara Thompson (UFBA) anotou que os pretos velhos “trabalham de forma diferenciada dos exus”. O único local de oferenda para eles é o cruzeiro das almas da linha branca, e os exus recebem em portões, cruzeiros e lápides.

Já Lourival Andrade Júnior (UFRN) escreve que exus, pombagiras e pretos velhos “harmoniosamente dividem e convivem nos mesmos nichos dentro do campo santo”. A linha das almas e o Exu das Almas tratam disso em detalhe.


As exceções: o preto velho da mata, o cruzado e o quimbandeiro

Sim, as pesquisas registram exceções, em poucas casas. Quatro têm nome: o preto velho “da mata”, o preto velho “cruzado” ou “de tronqueira”, o Exu “cruzado” com preto velho e o “quimbandeiro”. Cada uma vem de uma casa ou de uma pesquisa, e nenhuma vale para a umbanda inteira.

O preto velho da mata

Numa casa de Ribeirão Preto, Dias e Bairrão descrevem pretos-velhos “da mata” que, para eles, “desafiam dicotomias ao fundirem num único personagem pretos-velhos e exus”. O assentamento deles fica perto do domínio da esquerda e dos exus. O do preto velho comum fica no altar, com caboclos e erês.

O pai-pequeno da casa os resume assim: são pretos-velhos “pois trabalham com características dos pretos-velhos; mas com uma energia mais densa, próxima dos exus”. Os autores contrastam o comum, de “entidades serenas, calmas e acolhedoras”, com o da mata, de “entidades severas, diretas e imperativas”. Não são tomados como entidades da esquerda propriamente dita. O dirigente anterior chamava o seu de “compadre”, tratamento que a umbanda usa para os exus.

Os autores sugerem que a fronteira entre pretos-velhos e exus é “talvez mesmo praticamente inexistente”, e leem a separação como parte de um esforço de “embranquecimento” do preto velho. É interpretação deles, e não doutrina da casa.

O preto velho cruzado ou de tronqueira

Lívia Lima Rezende, na Afro-Ásia, escreve que os pretos-velhos “cruzados” atuariam “entre as linhas de pretos-velhos e exus”, com características dos dois grupos. Juntariam sabedoria, ponderação e humildade a um discurso mais incisivo e menos paciente.

A pesquisa ouviu médiuns em São João del-Rei (MG) e Montevidéu, onde o cruzado também se diz “de tronqueira”.

Atenção ao nome: o “cruzado” de Rezende descreve um espírito, e a Linha Cruzada do Rio Grande do Sul descreve uma casa que cultua batuque, umbanda e quimbanda em sessões separadas.

O Exu cruzado com preto velho

Dias e Bairrão definem “cruzado” como termo dos umbandistas para entidades que estão “na interseção entre a esquerda e a direita”. Segundo Diana Brown (1994), que eles citam, um Exu pode ser “cruzado” com um preto velho e assim recuperar uma identidade africana.

O preto velho quimbandeiro

Um estudo de 1972, de Lapassade e Luz, descreveria “pretos velhos quimbandeiros”. Na revisão de 2011, Dias e Bairrão dizem ser bastante provável que o nome seja dos autores, e não dos umbandistas. Levantam a hipótese de que pretos-velhos “revoltosos” tenham se “(con)fundido” com os exus em muitos lugares.


Esquerda é um modo de atuar, segundo uma pesquisa da USP

Segundo uma pesquisa da USP, ser de esquerda na umbanda não define um tipo de entidade. Juliana Barros Brant Carvalho e José Francisco Miguel Henriques Bairrão escrevem que isso:

“não é uma propriedade de certos tipos dessa espiritualidade, mas um modo de manifestação e de ação de quaisquer sujeitos espirituais”

Carvalho e Bairrão, Psicologia USP, 2019

Na descrição deles, a linha da esquerda “também inclui alguns pretos-velhos”, embora os pretos-velhos sejam “atribuídos à linha da direita e reportados como humildes, amáveis e pacientes”. A pesquisa está aberta no SciELO.

Por essa leitura, a pergunta “preto velho é Exu?” supõe dois tipos fixos, e as casas descritas acima mostram arranjos diferentes.


Por que a pergunta pesa: reconhecimento e racismo religioso

Prandi anota que, “de todas as classes de entidades da umbanda, que são muitas, certamente o preto-velho é o de maior reconhecimento público”, e o põe do lado do “bem”. Já uma dissertação da UFES, sobre giras de pretos-velhos em Vitória, registra que obrigações religiosas em locais públicos “evidenciaram os problemas e conflitos da discriminação e do racismo religioso”. O assunto está em racismo religioso.

As pesquisas citadas tratam direita e esquerda como forma de organizar a casa, e não como escala de valor. Este blog descreve o que elas registram e não ensina nem recomenda preto velho cruzado. Se a sua casa tem um preto velho assim, quem explica o que ele é é o dirigente. O quadro geral está em pretos-velhos na umbanda, e o sistema de nomes (o “de Angola”, o “de Aruanda”) em nomes de preto velho.


Perguntas frequentes

Preto velho e Exu trabalham juntos?

Na mesma casa, sim: numa casa de Ribeirão Preto, a casa das almas e a tronqueira ficam no mesmo terreiro, uma em frente à outra, e a segunda-feira é dia dos dois. No cemitério, uma pesquisa vê oferendas em lugares diferentes e outra, convivência nos mesmos nichos. Atender juntos, na mesma gira, depende da casa.

O que é um preto velho cruzado?

É o preto velho que, segundo Rezende, atuaria entre as linhas de pretos-velhos e exus, juntando humildade e ponderação a um discurso mais incisivo. A pesquisa ouviu médiuns em São João del-Rei e Montevidéu, onde o cruzado também se diz “de tronqueira”. É conceito de casa, e não regra da umbanda.

Existe Exu preto velho?

Há registros de casas, e não uma regra. Diana Brown (1994), citada por Dias e Bairrão, descreve um Exu “cruzado” com um preto velho. A pesquisa de Ribeirão Preto descreve o preto velho da mata, que funde as duas figuras num só personagem.

Preto velho é do bem e Exu é do mal?

As pesquisas citadas não organizam assim. Prandi escreve que a divisão entre direita e esquerda pode ser “meramente formal”, de “frouxa importância ética”. Para Carvalho e Bairrão, ser de esquerda é um modo de atuar de quaisquer entidades.


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