Preto velho é Exu? Em geral, não. Na classificação mais comum da umbanda, o preto velho fica na linha da direita e Exu na da esquerda. Um historiador registra que o preto velho baixa sob todos os orixás, menos Exu e Ibeji.
Pesquisas de campo descrevem, porém, exceções em poucas casas: o preto velho “da mata”, o preto velho “cruzado” e o Exu “cruzado” com preto velho.
Preto velho é Exu? Na classificação mais comum, não
Não, na classificação mais usada. O sociólogo Reginaldo Prandi, da USP, descreve a umbanda em duas linhas, direita e esquerda. Ele põe o preto velho do lado direito, como “símbolo da raiz africana e marca do passado escravista”.
Na classificação de Lima (1997), resumida por Dias e Bairrão, os pretos-velhos são entidades “disciplinadoras” e os exus, “catárticas”. São rótulos do autor, e não das casas.
O próprio Prandi avisa que a divisão pesa menos do que parece:
“Esta divisão, contudo, pode ser meramente formal, como uma orientação classificatória estritamente ritual e com frouxa importância ética.”
Reginaldo Prandi, Herdeiras do Axé, 1996
Na prática, escreve ele, “não há quimbanda sem umbanda nem quimbandeiro sem umbandista”. A diferença entre umbanda e quimbanda e quem é Exu completam o quadro.
Preto velho: direita | Exu: esquerda | Dia: segunda-feira, dos dois | Exceções: da mata, cruzado
O que os dois têm em comum: dia, espaço e cemitério
A segunda-feira é o dia dos dois, e o dia de preto velho no ano é 13 de maio. O Santuário Nacional da Umbanda diz que é o dia dos pretos-velhos, “mesmo dia de Exu e Abaluaiê”. Numa casa de Ribeirão Preto, a segunda é “concomitantemente o dia dos pretos-velhos e dos exus”. Em Vitória (ES), é dia de oferendas para “preto velhos, entidade Exu e mortos especiais de cemitério”.
O espaço também junta os dois. Na casa estudada por Rafael de Nuzzi Dias, o certo seria a casa das almas à direita da entrada, em frente à tronqueira, a casa dos exus, à esquerda.

No cemitério, as pesquisas divergem. Em Vitória, Barbara Thompson (UFBA) anotou que os pretos velhos “trabalham de forma diferenciada dos exus”. O único local de oferenda para eles é o cruzeiro das almas da linha branca, e os exus recebem em portões, cruzeiros e lápides.
Já Lourival Andrade Júnior (UFRN) escreve que exus, pombagiras e pretos velhos “harmoniosamente dividem e convivem nos mesmos nichos dentro do campo santo”. A linha das almas e o Exu das Almas tratam disso em detalhe.
As exceções: o preto velho da mata, o cruzado e o quimbandeiro
Sim, as pesquisas registram exceções, em poucas casas. Quatro têm nome: o preto velho “da mata”, o preto velho “cruzado” ou “de tronqueira”, o Exu “cruzado” com preto velho e o “quimbandeiro”. Cada uma vem de uma casa ou de uma pesquisa, e nenhuma vale para a umbanda inteira.
O preto velho da mata
Numa casa de Ribeirão Preto, Dias e Bairrão descrevem pretos-velhos “da mata” que, para eles, “desafiam dicotomias ao fundirem num único personagem pretos-velhos e exus”. O assentamento deles fica perto do domínio da esquerda e dos exus. O do preto velho comum fica no altar, com caboclos e erês.
O pai-pequeno da casa os resume assim: são pretos-velhos “pois trabalham com características dos pretos-velhos; mas com uma energia mais densa, próxima dos exus”. Os autores contrastam o comum, de “entidades serenas, calmas e acolhedoras”, com o da mata, de “entidades severas, diretas e imperativas”. Não são tomados como entidades da esquerda propriamente dita. O dirigente anterior chamava o seu de “compadre”, tratamento que a umbanda usa para os exus.
Os autores sugerem que a fronteira entre pretos-velhos e exus é “talvez mesmo praticamente inexistente”, e leem a separação como parte de um esforço de “embranquecimento” do preto velho. É interpretação deles, e não doutrina da casa.
O preto velho cruzado ou de tronqueira
Lívia Lima Rezende, na Afro-Ásia, escreve que os pretos-velhos “cruzados” atuariam “entre as linhas de pretos-velhos e exus”, com características dos dois grupos. Juntariam sabedoria, ponderação e humildade a um discurso mais incisivo e menos paciente.
A pesquisa ouviu médiuns em São João del-Rei (MG) e Montevidéu, onde o cruzado também se diz “de tronqueira”.
Atenção ao nome: o “cruzado” de Rezende descreve um espírito, e a Linha Cruzada do Rio Grande do Sul descreve uma casa que cultua batuque, umbanda e quimbanda em sessões separadas.
O Exu cruzado com preto velho
Dias e Bairrão definem “cruzado” como termo dos umbandistas para entidades que estão “na interseção entre a esquerda e a direita”. Segundo Diana Brown (1994), que eles citam, um Exu pode ser “cruzado” com um preto velho e assim recuperar uma identidade africana.
O preto velho quimbandeiro
Um estudo de 1972, de Lapassade e Luz, descreveria “pretos velhos quimbandeiros”. Na revisão de 2011, Dias e Bairrão dizem ser bastante provável que o nome seja dos autores, e não dos umbandistas. Levantam a hipótese de que pretos-velhos “revoltosos” tenham se “(con)fundido” com os exus em muitos lugares.
Esquerda é um modo de atuar, segundo uma pesquisa da USP
Segundo uma pesquisa da USP, ser de esquerda na umbanda não define um tipo de entidade. Juliana Barros Brant Carvalho e José Francisco Miguel Henriques Bairrão escrevem que isso:
“não é uma propriedade de certos tipos dessa espiritualidade, mas um modo de manifestação e de ação de quaisquer sujeitos espirituais”
Carvalho e Bairrão, Psicologia USP, 2019
Na descrição deles, a linha da esquerda “também inclui alguns pretos-velhos”, embora os pretos-velhos sejam “atribuídos à linha da direita e reportados como humildes, amáveis e pacientes”. A pesquisa está aberta no SciELO.
Por essa leitura, a pergunta “preto velho é Exu?” supõe dois tipos fixos, e as casas descritas acima mostram arranjos diferentes.
Por que a pergunta pesa: reconhecimento e racismo religioso
Prandi anota que, “de todas as classes de entidades da umbanda, que são muitas, certamente o preto-velho é o de maior reconhecimento público”, e o põe do lado do “bem”. Já uma dissertação da UFES, sobre giras de pretos-velhos em Vitória, registra que obrigações religiosas em locais públicos “evidenciaram os problemas e conflitos da discriminação e do racismo religioso”. O assunto está em racismo religioso.
As pesquisas citadas tratam direita e esquerda como forma de organizar a casa, e não como escala de valor. Este blog descreve o que elas registram e não ensina nem recomenda preto velho cruzado. Se a sua casa tem um preto velho assim, quem explica o que ele é é o dirigente. O quadro geral está em pretos-velhos na umbanda, e o sistema de nomes (o “de Angola”, o “de Aruanda”) em nomes de preto velho.
Perguntas frequentes
Preto velho e Exu trabalham juntos?
Na mesma casa, sim: numa casa de Ribeirão Preto, a casa das almas e a tronqueira ficam no mesmo terreiro, uma em frente à outra, e a segunda-feira é dia dos dois. No cemitério, uma pesquisa vê oferendas em lugares diferentes e outra, convivência nos mesmos nichos. Atender juntos, na mesma gira, depende da casa.
O que é um preto velho cruzado?
É o preto velho que, segundo Rezende, atuaria entre as linhas de pretos-velhos e exus, juntando humildade e ponderação a um discurso mais incisivo. A pesquisa ouviu médiuns em São João del-Rei e Montevidéu, onde o cruzado também se diz “de tronqueira”. É conceito de casa, e não regra da umbanda.
Existe Exu preto velho?
Há registros de casas, e não uma regra. Diana Brown (1994), citada por Dias e Bairrão, descreve um Exu “cruzado” com um preto velho. A pesquisa de Ribeirão Preto descreve o preto velho da mata, que funde as duas figuras num só personagem.
Preto velho é do bem e Exu é do mal?
As pesquisas citadas não organizam assim. Prandi escreve que a divisão entre direita e esquerda pode ser “meramente formal”, de “frouxa importância ética”. Para Carvalho e Bairrão, ser de esquerda é um modo de atuar de quaisquer entidades.
Referências
- Reginaldo Prandi (USP): Pombagira e as faces inconfessas do Brasil, Herdeiras do Axé, 1996
- Rafael de Nuzzi Dias e J. F. M. H. Bairrão (USP): O caldeirão dos insurgentes, Memorandum n. 26, 2014
- Rafael de Nuzzi Dias e J. F. M. H. Bairrão (USP): Aquém e além do cativeiro dos conceitos, Memorandum n. 20, 2011
- Rafael de Nuzzi Dias (USP): Correntes ancestrais, dissertação, 2011
- Lívia Lima Rezende (UFJF): A ética do amor nos pretos-velhos umbandistas, Afro-Ásia n. 66, 2022
- Juliana Barros Brant Carvalho e J. F. M. H. Bairrão (USP): Umbanda e quimbanda: alternativa negra à moral branca, Psicologia USP, 2019
- Lourival Andrade Júnior (UFRN): Exus, Pomba-giras e Pretos Velhos, Diálogos (UEM), 2021
- Maria Sampaio do Nascimento (UFES): Giras de pretos-velhos em um terreiro de umbanda, dissertação, 2017
- Barbara Thompson (UFBA): Seminário de Ciências Sociais, PGCS-UFES, 2019
- Santuário Nacional da Umbanda: A Casa dos Pretos-Velhos