A linha das almas é, na maior parte da umbanda de hoje, a linha dos pretos-velhos: os espíritos que chegam na gira saudados com “Adorei as almas” e que trabalham, de preferência, na segunda-feira. Só que o nome não quer dizer a mesma coisa em todo terreiro.
Em 1933 ele designava outra linha. Em parte das casas, cobre também exus e pombagiras do cemitério. E a pergunta sobre quem rege recebe mais de uma resposta, todas com registro.
O que é a linha das almas na umbanda
É a linha que a umbanda liga às almas dos mortos, com os pretos-velhos à frente. O dirigente de um terreiro de Ribeirão Preto (SP), ouvido pela pesquisa de Rafael de Nuzzi Dias na USP, resumiu assim: todo espírito da umbanda é alma, “mas os pretos-velhos são como que aqueles que conduzem, os condutores das almas”.
Quem trabalha: pretos-velhos, e em parte das casas exus e pombagiras “das Almas” | Dia: segunda-feira | Saudação: Adorei as almas | Regência mais citada: Oxalá e Omulu (Obaluaê), conforme a casa | Velas registradas: branca, e branca e preta
A segunda-feira não é invenção do terreiro. No catolicismo popular ela já era o dia das almas. Uma pesquisa da UFRN no Ceará registra o culto às almas benditas nesse dia, “nas igrejas, mas na mesma medida em casa”. A umbanda herdou o dia e pôs nele os seus próprios mortos. Por isso a linha ganha tanto peso no dia de finados na umbanda, que em 2026 cai numa segunda-feira.
Este texto trata da linha por dentro. A lista inteira, com a posição da linha das almas entre as outras, está em 7 linhas da umbanda.
Como o sentido mudou: em 1933, era a linha de Santo
Um dos primeiros livros publicados sobre umbanda já trazia o nome, mas com outro sentido. Em O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda, de 1933, Leal de Souza lista as sete linhas: Oxalá, Ogum, Oxóssi, Xangô, Iansã, Iemanjá e uma sétima.
“A sétima é a linha de Santo, também chamada de Linha das Almas.” E, logo depois: “A linha de santo é transversal, e mantém a sua unidade através das outras.” (Leal de Souza, 1933, p. 52)
Três coisas desse texto soam estranhas para quem é de gira hoje:
- Ela não era a linha dos pretos-velhos. Leal de Souza põe os pretos em outro lugar. A linha de Oxalá, escreve ele, “tem a devoção dos espíritos de pretos de todas as regiões”.
- Ela era feita de médiuns, os “pais de mesa”. São médiuns de “cabeça cruzada”, que assumiram o compromisso vitalício de emprestar o corpo a um espírito determinado.
- Ela fazia ponte com a esquerda. Os trabalhadores dessa linha, “caboclos ou negros”, vinham do que o autor chama de Linha Negra. Tinham a missão de procurar “a suspensão de hostilidades” junto aos antigos companheiros da encruzilhada.
Por isso, diz o livro, quem vinha da Linha de Santo usava, além das cores da linha em que trabalhava, “a preta, de Exu”. A leitura que hoje domina, linha das almas igual a pretos-velhos, veio depois. Nenhuma das duas está errada: são momentos diferentes da mesma religião.
Na direita: os pretos-velhos, condutores das almas
Hoje, quando alguém fala em linha das almas, quase sempre fala dos pretos-velhos. No terreiro estudado pela USP, o dirigente descreve a linha como uma escola: “é uma escola que prepara os espíritos para eles ingressarem na lei da umbanda”.

Dentro dela, segundo a mesma casa, há correntes menores: “a corrente das treze almas, a corrente das sete almas”. É a corrente das treze almas que ali trabalha direto com os pretos-velhos. Vale o cuidado: esse é o fundamento de uma casa de Ribeirão Preto, não um mapa da umbanda inteira.
O historiador Lourival Andrade Júnior, em estudo apresentado à ANPUH, analisou pontos cantados e riscados. Ele registra que os pretos-velhos baixam “principalmente” sob Oxalá e Omulu. Mas podem vir na vibração de qualquer orixá, com exceção de Exu e de Ibeji.
No cemitério de Vitória (ES), pesquisa de Barbara Thompson (UFBA) viu umbandistas ofertarem vela branca e preta aos pretos-velhos no cruzeiro das almas. Na gira, o agrado costuma passar por cachimbo, fumo e café, e cada item tem sua razão. Os detalhes estão em o que preto velho gosta de ganhar. As contas e as cores estão no artigo sobre a guia de preto velho.
Na esquerda: exus e pombagiras das Almas
Em parte das casas, a linha das almas também tem esquerda. A pesquisa feita em Vitória mostra as duas leituras lado a lado. Barbara Thompson anotou que “alguns entrevistados definem que os pretos velhos são as entidades que compõem a linha das almas”. Já outro entrevistado usava o termo para a “linha de cemitério”, composta “por Exus e preto velhos”, e citou Exu Caveira e Mulambo das Almas.
No mesmo cemitério, Ogum Megê aparece como pertencente à linha das almas. É mais um sinal de que ali ela não é só a linha dos pretos-velhos. A autora faz um alerta que vale para o artigo inteiro: “os umbandistas não são uma massa homogênea”.
O sobrenome também diz alguma coisa. Numa casa de Bocaiuva (MG), Tranca-Rua das Almas e Maria Padilha das Almas recebem comida no cemitério. O nome indica onde se trabalha com a entidade. Numa casa de Curitiba, “Exu das Almas” nem é um Exu só: é título dado a mais de um. Isso tem artigo próprio em Exu das Almas.
Uma ressalva de nome. Quimbanda é culto próprio, com Exus e Pombagiras no centro da casa, e não um pedaço da umbanda. Quando uma casa de umbanda põe exus na linha das almas, fala da esquerda dela, dentro da umbanda.
Quem rege a linha das almas
Em muitas casas, Omulu (ou Obaluaê). Em outras, Oxalá. E há quem responda com os dois. As fontes abertas para este artigo dão quatro registros diferentes:
| Fonte | Onde | O que registra |
|---|---|---|
| Leal de Souza, 1933 | Rio de Janeiro | linha de Santo, transversal; pretos na linha de Oxalá |
| Andrade Júnior, ANPUH, 2013 | pontos cantados e riscados | pretos-velhos baixam principalmente sob Oxalá e Omulu |
| Nuzzi Dias, USP, 2011 | um terreiro de Ribeirão Preto | segunda-feira dos pretos-velhos, das almas e de Obaluaê; há “uma linha de pretos-velhos de Obaluaê” |
| Thompson, UFBA, 2019 | cemitério de Vitória | ”pretos velhos são regidos por Obaluaê-omulu, um orixá que organiza a passagem” |
Ou seja: dizer “Omulu é o regente da linha das almas” é certo para muitas casas, mas não é regra da umbanda. O livro de 1933 nem cita Omulu entre as sete linhas.
A ligação com Obaluaê faz sentido por quem ele é: o senhor da terra, da doença e da cura, que em Vitória é homenageado no 2 de novembro e tem a segunda-feira como dia. O perfil completo do orixá está em quem é Obaluaê (Omulu).
”Adorei as almas”: o que a saudação diz
“Adorei as almas” é a saudação dos pretos-velhos. Nuzzi Dias explica em nota que toda categoria de espírito da umbanda tem uma saudação breve: “okê caboclo” para os caboclos, “laroiê exu” para os exus. E completa: “A expressão utilizada para saudar os pretos-velhos é ‘adorei as almas’”.
Andrade Júnior dá a versão longa, que diz, segundo ele, “a multiplicidade do culto e suas referências”:
“Salve Jesus Cristo e Nossa Senhora… Salve os Orixás… Saravá o Preto Velho… Adorei as almas.” (Andrade Júnior, ANPUH, 2013, saudação que o autor registra como proferida na maioria dos terreiros de umbanda no Brasil)
Numa frase só cabem o catolicismo, os orixás, o preto-velho e as almas. É a própria linha das almas em miniatura: a herança católica do culto aos mortos e a ancestralidade negra no mesmo lugar.
E a grafia? No autocomplete do Google aparece a dúvida entre “adorei” e “adorê as almas”. As duas pesquisas consultadas escrevem “Adorei as almas”, e nenhuma fonte aberta para este artigo explica a forma “adorê” nem a origem da palavra. Se na sua casa se canta de outro jeito, vale a forma da casa.
Por que a linha das almas muda de casa para casa
A umbanda não tem uma autoridade que fixe as linhas para todos os terreiros. Cada codificação organizou as linhas de um modo, e cada casa herdou de uma delas, ou de várias. A pesquisa de Vitória cita vertentes como Omolokô, kardecista e esotérica, e diz que delas “surgem diferentes perspectivas”.
Na prática, três perguntas mudam de resposta conforme o terreiro:
- Quem entra na linha: só os pretos-velhos, ou também exus e pombagiras do cemitério.
- Quem rege: Omulu, Oxalá, os dois, ou uma resposta própria da casa.
- Onde se trabalha: no congá, na casa das almas do terreiro ou no cruzeiro do cemitério.
A resposta certa para você é a do seu terreiro. Se a dúvida é sobre a sua própria linha, converse com o dirigente. Se quer uma pista antes da conversa, o teste descubra a sua entidade ajuda a organizar a pergunta.
O que se faz com vela na segunda-feira de Finados, em casa e no cruzeiro, está em acender vela para as almas.
Perguntas frequentes
Quem trabalha na linha das almas?
Na maior parte das casas, os pretos-velhos, chamados pelo dirigente de um terreiro de Ribeirão Preto de condutores das almas. Em parte da umbanda, o nome também cobre exus e pombagiras que trabalham no cemitério, como Exu Caveira e Mulambo das Almas, citados numa pesquisa em Vitória. A composição exata é fundamento de cada casa.
Qual orixá rege a linha das almas?
Em muitas casas, Omulu, também chamado Obaluaê. Outras põem os pretos-velhos sob Oxalá, e um estudo de pontos cantados registra os dois como os mais comuns. No livro de 1933 de Leal de Souza, a Linha das Almas era a linha de Santo, e nenhum orixá aparece como regente dela.
Exu faz parte da linha das almas?
Depende da casa. Em Vitória, parte dos umbandistas entrevistados usava linha das almas para a linha de cemitério, com exus e pretos-velhos juntos. Outros diziam que a linha é só dos pretos-velhos. Os pretos-velhos, por sua vez, não baixam na vibração de Exu, segundo o historiador Lourival Andrade Júnior.
Qual é o dia da linha das almas?
A segunda-feira. No catolicismo popular, ela já era o dia das almas benditas, e a umbanda herdou a data para os pretos-velhos. Num terreiro estudado pela USP, a segunda junta pretos-velhos, almas, exus e Obaluaê. Em 2026, o Dia de Finados, 2 de novembro, cai justamente numa segunda.
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Referências
- Leal de Souza. O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda, Rio de Janeiro, 1933, cap. XVIII. PDF no Instituto Mata Verde
- ANDRADE JÚNIOR, Lourival. Anais do XXVII Simpósio Nacional de História, ANPUH, 2013. “Adorei as almas”: umbanda, preto-velho e escravidão
- DIAS, Rafael de Nuzzi. Dissertação de mestrado, USP Ribeirão Preto, 2011. Correntes ancestrais: os pretos-velhos do Rosário
- THOMPSON, Barbara (UFBA). Anais do IV Seminário de Ciências Sociais PGCS-UFES, 2019. Nos portões, lápides e cruzeiros das almas
- MAIA, Michelle Ferreira. Mneme, UFRN, v. 11, n. 29, 2011. Entre o pedido e o recebido