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Umbanda 10 min de leitura

Linha das almas na umbanda: quem trabalha e quem rege

A linha das almas é, na maior parte das casas, a dos pretos-velhos, saudada com Adorei as almas. Veja quem trabalha nela, quem a rege e por que muda de casa.

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Altar de terreiro coberto de pano branco, com imagem de preto-velho em madeira, cachimbo, caneca de café, rosário, fumo de rolo, quartinha e uma vela branca e preta acesa.

Resumo

Na maior parte da umbanda de hoje, a linha das almas é a linha dos pretos-velhos, saudada com Adorei as almas e ligada à segunda-feira. Em parte das casas, o nome também cobre exus e pombagiras que trabalham no cemitério.

O sentido mudou com o tempo. No livro de Leal de Souza, de 1933, a Linha das Almas era a linha de Santo, transversal às outras seis, e os espíritos de pretos apareciam com devoção na linha de Oxalá.

A regência também varia: pesquisas registram pretos-velhos sob Oxalá e Omulu, uma casa com pretos-velhos de Obaluaê e um cemitério onde Obaluaê-Omulu rege a linha. Quem define na sua casa é o dirigente.

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10 min de leitura

A linha das almas é, na maior parte da umbanda de hoje, a linha dos pretos-velhos: os espíritos que chegam na gira saudados com “Adorei as almas” e que trabalham, de preferência, na segunda-feira. Só que o nome não quer dizer a mesma coisa em todo terreiro.

Em 1933 ele designava outra linha. Em parte das casas, cobre também exus e pombagiras do cemitério. E a pergunta sobre quem rege recebe mais de uma resposta, todas com registro.


O que é a linha das almas na umbanda

É a linha que a umbanda liga às almas dos mortos, com os pretos-velhos à frente. O dirigente de um terreiro de Ribeirão Preto (SP), ouvido pela pesquisa de Rafael de Nuzzi Dias na USP, resumiu assim: todo espírito da umbanda é alma, “mas os pretos-velhos são como que aqueles que conduzem, os condutores das almas”.

Quem trabalha: pretos-velhos, e em parte das casas exus e pombagiras “das Almas” | Dia: segunda-feira | Saudação: Adorei as almas | Regência mais citada: Oxalá e Omulu (Obaluaê), conforme a casa | Velas registradas: branca, e branca e preta

A segunda-feira não é invenção do terreiro. No catolicismo popular ela já era o dia das almas. Uma pesquisa da UFRN no Ceará registra o culto às almas benditas nesse dia, “nas igrejas, mas na mesma medida em casa”. A umbanda herdou o dia e pôs nele os seus próprios mortos. Por isso a linha ganha tanto peso no dia de finados na umbanda, que em 2026 cai numa segunda-feira.

Este texto trata da linha por dentro. A lista inteira, com a posição da linha das almas entre as outras, está em 7 linhas da umbanda.


Como o sentido mudou: em 1933, era a linha de Santo

Um dos primeiros livros publicados sobre umbanda já trazia o nome, mas com outro sentido. Em O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda, de 1933, Leal de Souza lista as sete linhas: Oxalá, Ogum, Oxóssi, Xangô, Iansã, Iemanjá e uma sétima.

“A sétima é a linha de Santo, também chamada de Linha das Almas.” E, logo depois: “A linha de santo é transversal, e mantém a sua unidade através das outras.” (Leal de Souza, 1933, p. 52)

Três coisas desse texto soam estranhas para quem é de gira hoje:

  • Ela não era a linha dos pretos-velhos. Leal de Souza põe os pretos em outro lugar. A linha de Oxalá, escreve ele, “tem a devoção dos espíritos de pretos de todas as regiões”.
  • Ela era feita de médiuns, os “pais de mesa”. São médiuns de “cabeça cruzada”, que assumiram o compromisso vitalício de emprestar o corpo a um espírito determinado.
  • Ela fazia ponte com a esquerda. Os trabalhadores dessa linha, “caboclos ou negros”, vinham do que o autor chama de Linha Negra. Tinham a missão de procurar “a suspensão de hostilidades” junto aos antigos companheiros da encruzilhada.

Por isso, diz o livro, quem vinha da Linha de Santo usava, além das cores da linha em que trabalhava, “a preta, de Exu”. A leitura que hoje domina, linha das almas igual a pretos-velhos, veio depois. Nenhuma das duas está errada: são momentos diferentes da mesma religião.


Na direita: os pretos-velhos, condutores das almas

Hoje, quando alguém fala em linha das almas, quase sempre fala dos pretos-velhos. No terreiro estudado pela USP, o dirigente descreve a linha como uma escola: “é uma escola que prepara os espíritos para eles ingressarem na lei da umbanda”.

Cruz branca num cemitério ao entardecer, com velas brancas e velas branca e preta acesas ao pé e uma tigela de barro com pipoca ao lado.

Dentro dela, segundo a mesma casa, há correntes menores: “a corrente das treze almas, a corrente das sete almas”. É a corrente das treze almas que ali trabalha direto com os pretos-velhos. Vale o cuidado: esse é o fundamento de uma casa de Ribeirão Preto, não um mapa da umbanda inteira.

O historiador Lourival Andrade Júnior, em estudo apresentado à ANPUH, analisou pontos cantados e riscados. Ele registra que os pretos-velhos baixam “principalmente” sob Oxalá e Omulu. Mas podem vir na vibração de qualquer orixá, com exceção de Exu e de Ibeji.

No cemitério de Vitória (ES), pesquisa de Barbara Thompson (UFBA) viu umbandistas ofertarem vela branca e preta aos pretos-velhos no cruzeiro das almas. Na gira, o agrado costuma passar por cachimbo, fumo e café, e cada item tem sua razão. Os detalhes estão em o que preto velho gosta de ganhar. As contas e as cores estão no artigo sobre a guia de preto velho.


Na esquerda: exus e pombagiras das Almas

Em parte das casas, a linha das almas também tem esquerda. A pesquisa feita em Vitória mostra as duas leituras lado a lado. Barbara Thompson anotou que “alguns entrevistados definem que os pretos velhos são as entidades que compõem a linha das almas”. Já outro entrevistado usava o termo para a “linha de cemitério”, composta “por Exus e preto velhos”, e citou Exu Caveira e Mulambo das Almas.

No mesmo cemitério, Ogum Megê aparece como pertencente à linha das almas. É mais um sinal de que ali ela não é só a linha dos pretos-velhos. A autora faz um alerta que vale para o artigo inteiro: “os umbandistas não são uma massa homogênea”.

O sobrenome também diz alguma coisa. Numa casa de Bocaiuva (MG), Tranca-Rua das Almas e Maria Padilha das Almas recebem comida no cemitério. O nome indica onde se trabalha com a entidade. Numa casa de Curitiba, “Exu das Almas” nem é um Exu só: é título dado a mais de um. Isso tem artigo próprio em Exu das Almas.

Uma ressalva de nome. Quimbanda é culto próprio, com Exus e Pombagiras no centro da casa, e não um pedaço da umbanda. Quando uma casa de umbanda põe exus na linha das almas, fala da esquerda dela, dentro da umbanda.


Quem rege a linha das almas

Em muitas casas, Omulu (ou Obaluaê). Em outras, Oxalá. E há quem responda com os dois. As fontes abertas para este artigo dão quatro registros diferentes:

FonteOndeO que registra
Leal de Souza, 1933Rio de Janeirolinha de Santo, transversal; pretos na linha de Oxalá
Andrade Júnior, ANPUH, 2013pontos cantados e riscadospretos-velhos baixam principalmente sob Oxalá e Omulu
Nuzzi Dias, USP, 2011um terreiro de Ribeirão Pretosegunda-feira dos pretos-velhos, das almas e de Obaluaê; há “uma linha de pretos-velhos de Obaluaê”
Thompson, UFBA, 2019cemitério de Vitória”pretos velhos são regidos por Obaluaê-omulu, um orixá que organiza a passagem”

Ou seja: dizer “Omulu é o regente da linha das almas” é certo para muitas casas, mas não é regra da umbanda. O livro de 1933 nem cita Omulu entre as sete linhas.

A ligação com Obaluaê faz sentido por quem ele é: o senhor da terra, da doença e da cura, que em Vitória é homenageado no 2 de novembro e tem a segunda-feira como dia. O perfil completo do orixá está em quem é Obaluaê (Omulu).


”Adorei as almas”: o que a saudação diz

“Adorei as almas” é a saudação dos pretos-velhos. Nuzzi Dias explica em nota que toda categoria de espírito da umbanda tem uma saudação breve: “okê caboclo” para os caboclos, “laroiê exu” para os exus. E completa: “A expressão utilizada para saudar os pretos-velhos é ‘adorei as almas’”.

Andrade Júnior dá a versão longa, que diz, segundo ele, “a multiplicidade do culto e suas referências”:

“Salve Jesus Cristo e Nossa Senhora… Salve os Orixás… Saravá o Preto Velho… Adorei as almas.” (Andrade Júnior, ANPUH, 2013, saudação que o autor registra como proferida na maioria dos terreiros de umbanda no Brasil)

Numa frase só cabem o catolicismo, os orixás, o preto-velho e as almas. É a própria linha das almas em miniatura: a herança católica do culto aos mortos e a ancestralidade negra no mesmo lugar.

E a grafia? No autocomplete do Google aparece a dúvida entre “adorei” e “adorê as almas”. As duas pesquisas consultadas escrevem “Adorei as almas”, e nenhuma fonte aberta para este artigo explica a forma “adorê” nem a origem da palavra. Se na sua casa se canta de outro jeito, vale a forma da casa.


Por que a linha das almas muda de casa para casa

A umbanda não tem uma autoridade que fixe as linhas para todos os terreiros. Cada codificação organizou as linhas de um modo, e cada casa herdou de uma delas, ou de várias. A pesquisa de Vitória cita vertentes como Omolokô, kardecista e esotérica, e diz que delas “surgem diferentes perspectivas”.

Na prática, três perguntas mudam de resposta conforme o terreiro:

  1. Quem entra na linha: só os pretos-velhos, ou também exus e pombagiras do cemitério.
  2. Quem rege: Omulu, Oxalá, os dois, ou uma resposta própria da casa.
  3. Onde se trabalha: no congá, na casa das almas do terreiro ou no cruzeiro do cemitério.

A resposta certa para você é a do seu terreiro. Se a dúvida é sobre a sua própria linha, converse com o dirigente. Se quer uma pista antes da conversa, o teste descubra a sua entidade ajuda a organizar a pergunta.

O que se faz com vela na segunda-feira de Finados, em casa e no cruzeiro, está em acender vela para as almas.


Perguntas frequentes

Quem trabalha na linha das almas?

Na maior parte das casas, os pretos-velhos, chamados pelo dirigente de um terreiro de Ribeirão Preto de condutores das almas. Em parte da umbanda, o nome também cobre exus e pombagiras que trabalham no cemitério, como Exu Caveira e Mulambo das Almas, citados numa pesquisa em Vitória. A composição exata é fundamento de cada casa.

Qual orixá rege a linha das almas?

Em muitas casas, Omulu, também chamado Obaluaê. Outras põem os pretos-velhos sob Oxalá, e um estudo de pontos cantados registra os dois como os mais comuns. No livro de 1933 de Leal de Souza, a Linha das Almas era a linha de Santo, e nenhum orixá aparece como regente dela.

Exu faz parte da linha das almas?

Depende da casa. Em Vitória, parte dos umbandistas entrevistados usava linha das almas para a linha de cemitério, com exus e pretos-velhos juntos. Outros diziam que a linha é só dos pretos-velhos. Os pretos-velhos, por sua vez, não baixam na vibração de Exu, segundo o historiador Lourival Andrade Júnior.

Qual é o dia da linha das almas?

A segunda-feira. No catolicismo popular, ela já era o dia das almas benditas, e a umbanda herdou a data para os pretos-velhos. Num terreiro estudado pela USP, a segunda junta pretos-velhos, almas, exus e Obaluaê. Em 2026, o Dia de Finados, 2 de novembro, cai justamente numa segunda.


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Referências

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