Os nomes de preto velho costumam juntar três partes: um tratamento de família (Pai, Vovó, Tio), um nome de santo católico e um lugar ou origem (de Angola, de Aruanda). Dois historiadores chegam a essa regra por caminhos diferentes, Lourival Andrade Júnior e Lívia Lima Rezende.
O quadro que dá a cada lugar um orixá circula sem fonte, e numa casa estudada a divisão por origem não tem efeito prático. Quem são os pretos velhos e o que fazem na gira está em pretos-velhos na umbanda.
O que o nome de um preto velho costuma juntar
O nome de um preto velho costuma juntar três partes. A primeira é o tratamento de família: Pai, Mãe, Vovô, Vovó, Tio ou Tia. A segunda é um nome de santo católico. A terceira é uma designação de lugar, fazenda, região ou elemento que identifica a entidade.
Lourival Andrade Júnior descreve a regra num trabalho do Simpósio Nacional de História de 2013:
“Normalmente são nomes de santos católicos, acrescido de designações de lugar, fazenda, região, ou dos elementos que o identificam, como Pai Joaquim de Angola, Pai João de Aruanda, Vovó Maria Conga, Pai André do Cruzeiro, Vovó Maria Bahiana, Tia Maria Calunga, Vovô Zé da Pemba, entre muitos outros.”
Nenhuma das pesquisas citadas aqui conta a vida de qualquer um desses sete nomes. Os versos que as pesquisas citam, e a saudação, estão em ponto de preto velho.
Pai, Vovó e Tio: o tratamento de família
Pai, Mãe, Vovô, Vovó, Tio e Tia são o modo como os pretos velhos são conhecidos. Segundo Andrade Júnior, o tratamento dá a eles um lugar privilegiado na família de santo. É assim que os umbandistas chamam os membros da casa. Os próprios nomes demonstram experiência e pedem respeito.
Uma pesquisa de campo em Goiânia confirma o uso. A de Lucas Brito fala em “Pais Velhos, Vovôs e Vovós” e inclui as “Titias”.
Andrade explica os tratamentos pela senzala. Vovô e vovó eram os mais experientes, os sábios, que conheciam as ervas. Tio e tia eram quem criava as crianças separadas dos pais, órfãs de pais vivos.
Essa explicação é de um autor só. As outras pesquisas confirmam o uso nas casas, e não a origem na senzala.
Nome de santo, lugar e origem: de onde vem o padrão
O padrão tem paralelo nos registros da escravidão. Segundo Lívia Lima Rezende, o batismo com nome cristão também podia ocorrer no Brasil. A pessoa escravizada passava a ser identificada pelo nome cristão, pela origem (ou “nação”) e pelo senhor. Ela cita Silvia Hunold Lara (1988) para isso.
Esse costume aparece, para Rezende, “de maneira bastante nítida” no modo como os pretos velhos se apresentam. A ressalva é que o nome do senhor desaparece. Sobram o nome cristão, a origem e o parentesco: Pai José do Congo, Vovó Maria Conga, Pai Francisco de Aruanda. Para ela, essa ausência “pode, de certa forma, representar a libertação” dos antigos escravizados. É uma leitura dela, e não um fato registrado.
Os registros de batismo do Recife mostram o mesmo costume. Em 1790, na freguesia de Santo Antônio, os nomes cristãos evocavam santos e personagens da cristandade, como Maria e José. Em 1791, uma mulher foi “designada por Angola ao ser batizada”.
Esse estudo é de história social e não trata de umbanda.
Nos nomes de preto velho, “de Angola” e “do Congo” indicam origem. A nação de candomblé é outro assunto, com regras próprias.
O “de Angola” e o “de Aruanda” ligam o preto velho a um orixá?
Nenhuma das pesquisas citadas aqui afirma que o “de Angola” ou o “de Aruanda” de um preto velho o liga a um orixá. Numa casa de Ribeirão Preto, as correntes Congo, Africana, Cabinda e Guiné aparecem só em algumas orações e como adjetivo no nome. A divisão parece “não possuir qualquer efeito empiricamente discernível”.
Andrade diz que os pretos velhos baixam principalmente sob a vibração de Oxalá e de Omulu. Podem se manifestar sob todos os orixás, menos Exu e Ibeji. Ele não prende nenhum nome a um orixá. Se o preto velho também é Exu, a resposta está em preto velho é Exu.
Circula em sites, entre eles a Wikipédia, um quadro que dá a cada lugar um orixá. O Congo seria da linha de Iansã, Aruanda da de Oxalá e d’Angola da de Ogum. O quadro não traz fonte.
O único registro aberto que liga o Congo a Iansã é um ponto cantado de uma casa. O anexo da pesquisa de Dias traz “Salve o Congo, Iansã”. É o canto de uma casa, e não a regra de todas.
Aruanda, além disso, é um lugar sagrado e mítico. Rezende põe “Pai Francisco de Aruanda” entre os exemplos de nome com origem, mas Aruanda não é uma nação africana.
Um nome não fixa imagem nem biografia
O nome de um preto velho não traz uma imagem única. Na casa de Ribeirão Preto estudada por Rafael de Nuzzi Dias, Mãe Maria Conga é uma velha negra de lenço vermelho e vestido branco, pitando cachimbo num toco. Pai Joaquim é “um negro adulto de peito desnudo” sentado num toco.
Em Goiânia, na casa que Lucas Brito estudou, um nome vale pelo grupo: o ponto de Pai Antônio “representa todos os Pais Velhos e as Vovós”. A casa de Pai Joaquim de Angola, também em Goiânia, é herdeira da Casa de Pai Joaquim de Aruanda. O mesmo prenome, com dois “de” diferentes, dá nome a duas casas.
O nome Pai João pede cuidado. O “mito do Pai João” descreve um personagem do folclore negro. Ele representaria a pessoa escravizada submissa, dócil e conformada com a condição, segundo Dias e Bairrão. Por isso o “Pai João” tem história de estereótipo e não vale como o nome típico de um preto velho.
Pai Benedito: um nome com casa e altar
O patrono espiritual do Santuário Nacional da Umbanda é um preto velho, Pai Benedito de Aruanda, segundo o site da casa. Ele é o guia-chefe dos trabalhos espirituais de um babalaô.
Segundo Rezende, as imagens de santos católicos são muito comuns nos altares dos pretos velhos, com destaque para Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. Ela escreve que a presença de São Benedito e de outros santos negros “pode estar associada a uma identificação pela cor e pelas histórias de sofrimento e devoção”.
Nenhuma pesquisa citada aqui liga o nome Pai Benedito ao santo. O que existe é o santo no altar. A vida do santo está em São Benedito, o santo negro, e a devoção ao Rosário, em Nossa Senhora do Rosário e o congado.

Perguntas frequentes
O que significa o “de Angola” no nome do preto velho?
Indica a origem que acompanha o nome, como também o “do Congo”. Rezende lê essa parte como o equivalente da origem, ou “nação”, anotada nas pessoas escravizadas. Os registros de batismo do Recife trazem, em 1791, uma mulher “designada por Angola ao ser batizada”.
O que significa o “de Aruanda” no nome do preto velho?
Aruanda é o lugar sagrado e mítico de onde os espíritos retornam para fazer a caridade, segundo a casa de Ribeirão Preto estudada por Dias. Não é uma nação africana. As pesquisas citadas aqui não explicam de onde vem a palavra.
Vovô é mais velho do que pai?
Nenhuma pesquisa citada aqui fixa uma ordem de grau entre os tratamentos. Andrade descreve vovô e vovó como os mais experientes, os sábios. A regra de que quem é chamado de vovô ou vó é mais velho do que os outros circula em sites sem fonte.
Referências
- Andrade Júnior, Lourival, ANPUH, 2013: “Adorei as almas”: Umbanda, Preto-velho e escravidão
- Rezende, Lívia Lima, UFSJ, 2017: Força africana, força divina
- Dias, Rafael de Nuzzi, USP, 2011: Correntes ancestrais
- Brito, Lucas Gonçalves, UFG, 2017: O véu do congá de Pai Joaquim
- Silva, Gian Carlo de Melo, História (São Paulo), 2018: batismos no Recife
- Dias e Bairrão, Memorandum 20, 2011: Aquém e além do cativeiro dos conceitos
- Santuário Nacional da Umbanda: A Casa dos Pretos-Velhos