A Linha Cruzada é a forma religiosa do Rio Grande do Sul que junta três lados na mesma casa. Ali se cultuam os orixás do batuque, os caboclos e pretos-velhos da umbanda e os exus e pombagiras da quimbanda. Cada lado tem seu rito, e na maioria dos templos cada um tem sua sessão.
Este guia mostra de onde vem o nome, quando a Linha Cruzada surgiu e como a casa organiza os três lados. Também mostra por que o famoso “80% das casas” é uma estimativa que ninguém chegou a contar.
O que é Linha Cruzada
Linha Cruzada é o nome gaúcho para a casa que junta três modalidades religiosas no mesmo templo. O antropólogo João Daniel Dorneles Ramos, doutor pela UFRGS, descreve pelo menos três linhas. São o Batuque ou Nação, dos orixás, a Umbanda, dos caboclos, pretos-velhos e Ibejis, e a Quimbanda ou Gira, dos exus e pombagiras.
As casas se concentram na região metropolitana de Porto Alegre. Entre si, o povo afro-gaúcho costuma chamar o conjunto só de “religião”, “povo de religião” ou “nação”.
Cada lado guarda o que é seu, e a casa não funde os três num rito só. Para entender o lado dos orixás desde a origem, o ponto de partida é o guia sobre o que é o batuque.
De onde vem o nome Linha Cruzada
A explicação mais citada é do antropólogo Norton Corrêa, registrada por Ari Pedro Oro na revista Estudos Afro-Asiáticos:
A modalidade “chama-se Cruzada […] porque, enquanto o Batuque cultua apenas orixás e a Umbanda caboclos e pretos-velhos, a Linha Cruzada reúne-os no mesmo templo”.
Norton Corrêa, citado por Ari Pedro Oro (2002)
Na mesma frase, Corrêa acrescenta que a casa soma a esses dois universos os exus e as pombagiras.
A palavra circula nas casas e na pesquisa. O pai de santo Cesar de Xangô tem um “terreiro cruzado” em Alvorada, com umbanda, quimbanda e batuque. Mas há casas que praticam batuque e umbanda sem se dizer Linha Cruzada. Num mapeamento de 2011 em Porto Alegre, o termo apareceu em menos de 3% das respostas.
Os pesquisadores também não usam o nome do mesmo jeito:
- Ari Pedro Oro trata Linha Cruzada e Quimbanda como nomes do mesmo culto a exus e pombagiras
- Rodrigo Marques Leistner vê a Linha Cruzada como antecessora da quimbanda
- Barbosa (2012) lê o nome como uma lógica que conecta e separa as entidades ao mesmo tempo
- Ramos fala em complexo de pelo menos três linhas
No dia a dia da casa, a palavra de campo é “lado”: fala-se no lado do batuque e no lado dos exus.
Quando surgiu a Linha Cruzada
Não há ano de fundação com fonte. Os autores dão faixas diferentes:
- Fim dos anos 1950 e começo dos 1960, para Leistner
- Década de 1960, para Oro em 2002 e em 2008
- Década de 1970, para o mesmo Oro em 2012, citando Corrêa
O caminho que as fontes descrevem é o de sacerdotes iniciados no batuque ou na umbanda. Eles aderiram à outra modalidade e passaram a praticar as duas no mesmo templo.
O pano de fundo ajuda a entender. A umbanda chega a Porto Alegre nos anos 1930 e ganha a primeira federação em 1953. Na época, ela é “branca”, sem tambor e sem sacrifício animal. Até meados dos anos 1960, o culto a exus nos primeiros terreiros cruzados ainda seguia a umbanda, e a mudança começou dentro desses templos.
Os três lados da casa
Cada lado tem suas entidades e seu rito de entrada. Os nomes dos ritos são os que Ramos registrou.
| Lado | Quem se cultua | Rito de entrada |
|---|---|---|
| Batuque ou Nação | Orixás, com liturgia em nagô | Apronte |
| Umbanda | Caboclos, pretos-velhos e bejis, com rito em português | Amaci de ervas |
| Quimbanda ou Gira | Exus, pombagiras, Povo Cigano e Povo do Oriente | Amaci cruzado |
No lado do batuque, as nações são Jeje, Ijexá, Oió, Cabinda e Nagô. Ali Bará é orixá: ocupa seus filhos e é dono da cabeça, como os outros orixás. É o nome que o batuque dá ao orixá que corresponde a Exu, e casa de batuque “puro” não tem imagem de Exu. O perfil está em quem é Bará, e o panteão em orixás do batuque.
No lado da quimbanda, o exu é “cruzado”. Ele recebe tratamento ritual parecido com o de orixá e tem assentamento próprio, e quem trabalha com ele precisa ser iniciado. O Povo Cigano, que tinha linha própria na umbanda gaúcha, passou a ser trabalhado como linha de exu. Em outros estados a linha cigana tem outros arranjos, como mostra o artigo sobre os ciganos na umbanda.
Os caboclos e pretos-velhos do lado da umbanda aparecem como resultado no teste da sua entidade. O sacrifício animal fica fora da umbanda e está presente no batuque e na Linha Cruzada. Rito de entrada em qualquer lado se faz na casa, com o pai ou a mãe de santo.
Como a casa separa sessões e assentamentos
Na maioria dos templos cruzados, cada lado tem sua sessão. Quando a sessão é de batuque, não entra rito de umbanda, e exu não é cultuado em sessão de batuque.
Os dias mudam de casa para casa. Um exemplo documentado em Porto Alegre é o da casa de Mãe Teresinha de Oxalá: pretos-velhos às terças, caboclos às quintas e, a pedido do exu, trabalhos às sextas. Serve como retrato de uma casa.
Os assentamentos também ficam separados. Leistner registrou um terreiro com casinhas distintas para os exus, para os barás e para os eguns do batuque e da quimbanda. Em geral o arranjo é mais simples, mas mantém a divisão entre espaço de dentro e espaço de fora.

Quem visita uma casa dessas precisa saber de uma regra do batuque: orixá não se filma nem se fotografa depois que chega ao terreiro. Outras orientações de visita estão em festa de batuque.
Quantas casas são de Linha Cruzada
O número mais repetido é 80%, e ele é estimativa:
- Norton Corrêa (1994): 80% de Linha Cruzada, 15% de batuque puro e 5% de umbanda pura
- Ari Pedro Oro (2002): cerca de trinta mil terreiros, com 80% de Linha Cruzada, 10% só de umbanda e 10% só de batuque, e o aviso de que os números são “extremamente precários”
- Rodrigo Leistner (2014): cerca de 80%
Em 2012, o próprio Oro escreveu que a investigação sobre a distribuição das três modalidades “ainda não foi realizada”. O mapeamento de 2011 em Porto Alegre, com menos de 3% de autodeclaração, também destoa da estimativa.
O dado medido que existe é outro. No Censo de 2010, 157.599 gaúchos se declararam de religião afro-brasileira, 1,47% do estado e 3,35% de Porto Alegre, como mostra Oro na revista Civitas. O censo conta pessoas por religião declarada e não separa Linha Cruzada de batuque.
Linha Cruzada e a quimbanda gaúcha
A relação entre as duas é onde os pesquisadores mais divergem. Oro chama as duas pelo mesmo nome. Leistner vê na Linha Cruzada a antecessora de uma quimbanda autônoma.
Emerson Giumbelli e Leonardo Oliveira de Almeida, na Revista de Antropologia, questionam essa autonomia: “Específico não significa autônomo”. Para eles, templo só de quimbanda é mais raro.
Corrêa explica o crescimento da Linha Cruzada com três razões: ritual mais barato que o do batuque, aprendizado mais simples e a soma da força mística do batuque com a da umbanda. A expansão também gerou conflito entre gerações, e parte dos mais velhos fala em “deturpação”. O que separa umbanda de quimbanda está em diferença entre umbanda e quimbanda.
Perguntas frequentes
O que significa linha cruzada na umbanda?
É o nome gaúcho da casa que cultua os orixás do batuque, os caboclos e pretos-velhos da umbanda e os exus e pombagiras da quimbanda, em sessões separadas. Segundo Norton Corrêa, o nome vem de reunir no mesmo templo o que as outras modalidades cultuam em separado.
Umbanda cruzada é a mesma coisa que Linha Cruzada?
Nem sempre. A Linha Cruzada, com esse nome, é registrada no Rio Grande do Sul e tem os orixás do batuque como um dos lados. “Umbanda cruzada” é expressão mais larga, usada para umbandas que trabalham com outras tradições, e está explicada em vertentes da umbanda.
Batuque e Linha Cruzada são a mesma coisa?
Não. O batuque cultua só os orixás, com liturgia em nagô, e casa de batuque puro não tem imagem de Exu. A Linha Cruzada soma a esse lado a umbanda e a quimbanda, e na maioria das casas cada uma tem sua sessão.
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- Velas vermelhas e pretas para o lado dos exus e pombagiras
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- Ervas de banho para o lado da umbanda
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Referências
- Giumbelli e Almeida: O enigma da quimbanda, USP, 2021
- Ari Pedro Oro: O atual campo afro-religioso gaúcho, Civitas, 2012
- Ari Pedro Oro: Religiões afro-brasileiras do Rio Grande do Sul, 2002
- João Daniel Dorneles Ramos: Aprontamento como cosmopolítica, ReACT
- Aline Speroni: Religiões afro-gaúchas no ensino de história, UCS, 2018