Exu das Almas não é um Exu só. Nas casas de umbanda e de quimbanda, “das Almas” funciona como sobrenome de falange. Diz que aquele Exu trabalha no cemitério, no cruzeiro e na passagem entre vivos e mortos.
Numa casa de Curitiba, o mesmo título vale para três Exus diferentes: Tranca Ruas, João Caveira e Mangueira. É por isso que tanta gente busca “Exu das Almas” e encontra nomes que não batem entre si.
Exu das Almas: um sobrenome, não uma biografia
A pergunta “quem é Exu das Almas” costuma esperar uma história de vida, com nascimento, morte e lenda. Nenhuma pesquisa acadêmica aberta traz essa biografia. O que as fontes mostram é outra coisa: um sobrenome que se aplica a vários Exus.
O exemplo mais claro vem da apostila de pontos do Terreiro de Umbanda Pai Maneco, em Curitiba. Lá há ponto de “Exu Tranca Ruas das Almas” e ponto de “Exu João Caveira das Almas”. E há um ponto que canta “viva Exu das Almas, que é Seu Mangueira de fé”. Três Exus, um sobrenome.
Em Bocaiuva (MG), numa casa de umbanda com culto quimbandeiro estudada pela UFMG, o primeiro nome da lista dos principais Exus é Tranca-Rua das Almas. A grafia muda de casa para casa (Tranca Rua, Tranca Ruas, Tranca-Rua), e o sobrenome acompanha.
Esse sobrenome fica mais visível numa data. Em 2026, o 2 de novembro cai numa segunda-feira, e há registro de umbandistas que vão ao cemitério no Finados. O que se faz, e o que não se faz, está no dia de finados na umbanda.
Por que o nome do Exu fala de um lugar
Porque a maior parte dos nomes de Exu na umbanda descreve um domínio de trabalho. O antropólogo Vagner Gonçalves da Silva, da USP, fez esse levantamento na Revista de Antropologia, em 2012.
“a grande maioria faz referência aos pontos de passagem (encruzilhadas, porteiras), de intercessão entre o mundo dos vivos e dos mortos (cemitérios, catacumbas, caveiras), aos estados intermediários da matéria (lodo, lama, sombra)”
Vagner Gonçalves da Silva, Exu do Brasil, 2012, p. 1091
Para o autor, esses nomes mostram continuidade com o Exu africano, que é um ser da mediação. “Das Almas” entra na mesma família de “da Encruzilhada”, “da Porteira” e “do Lodo”: é endereço, não adjetivo.
Uma pesquisa de campo em Vitória (ES) mostra o endereço funcionando na prática. No Dia de Finados de 2016, um umbandista contou à pesquisadora Barbara Thompson, da UFBA, que ia direto ao cruzeiro. O motivo: a pombagira da mãe de santo dele é Maria Padilha do cruzeiro preto. Ele tem um Exu Tranca Rua das 7 Catacumbas, e por isso a oferenda dele vai para a sétima catacumba depois do portão.
Ou seja: o sobrenome diz onde se trabalha com aquele Exu. A lista completa dos nomes, organizada por lugar, está em nomes de Exu. Aqui o foco é só o “das Almas”.
Os Exus das Almas com registro em pesquisa
Três nomes aparecem com “das Almas” em fonte que dá para abrir e conferir.
Tranca Ruas das Almas
É o nome com mais registro. Em Bocaiuva, abre a lista dos principais Exus da casa, e a pesquisa traz foto de oferenda a ele pedida para proteger um umbandista de perseguição no trabalho. Na mesma casa, as comidas do cemitério vão para Obaluaiê, pretos-velhos e para os Exus João Caveira e Tranca-Ruas das Almas.
Em Curitiba, um ponto o descreve assim: “Você está vendo esse homem / Que no cruzeiro está / Ele é o Exu Tranca Ruas / Filho das almas também”. O perfil geral do Exu das encruzilhadas está em quem é Exu Tranca Ruas.
João Caveira das Almas
Tem ponto próprio na apostila de Curitiba, com esse nome inteiro. Em Bocaiuva, João Caveira aparece entre os principais Exus e entre os que recebem comida no cemitério. Quem ele é, a lenda que circula e o que ela tem de fonte estão em Exu Caveira.
Mangueira, o “Exu das Almas” de um ponto
É o caso que mais ajuda a entender o sobrenome. Nenhuma pesquisa descreve Exu Mangueira. Mesmo assim, o ponto da casa de Curitiba o chama pelo título: “Viva as almas, viva a coroa e a fé / Oi, viva Exu das Almas / Que é Seu Mangueira de fé”. Outro ponto dele firma “no pé da cruz das almas”.
E as pombagiras das Almas
O sobrenome também vale no feminino. Em Bocaiuva, Maria Padilha das Almas recebe comida no cemitério. Na apostila de pombagiras da casa de Curitiba, o ponto dela diz que “O cemitério é o seu lugar”. O perfil geral está em quem é Pombagira.
Tiriri, Marabô, Veludo, Mirim e Rei das Almas
Esses nomes aparecem juntos na busca. A resposta curta: não há registro geral. Nenhuma pesquisa aberta descreve Tiriri das Almas, Marabô das Almas ou Veludo das Almas com esse sobrenome. Os nomes existem nas casas, e cada casa registra os seus.
A lógica, porém, é a mesma dos três casos acima. Um Exu que tem nome de falange (Tiriri, Marabô, Veludo) ganha o sobrenome quando a casa o recebe trabalhando no campo das almas. As fichas gerais estão em Exu Tiriri, Exu Marabô e Exu Veludo.
- Mirim das Almas: não achamos o nome em fonte aberta. O que há é um ponto de Exu Mirim numa casa de Curitiba que abre com “Oh! Meu Senhor das Almas / Não faça pouco de mim”.
- Rei das Almas: é o título que aparece no modelo de sete reinos da quimbanda, descrito em reinos da quimbanda. O próprio modelo muda entre casas e correntes.
Se você recebeu na sua casa um Exu com “das Almas” no nome, quem sabe dizer a qual falange ele pertence é o dirigente. O teste de Exu e Pombagira do site mostra afinidade, e não substitui a casa.
Onde o Exu das Almas trabalha: calunga, cruzeiro e segunda-feira
O campo do Exu das Almas é o cemitério, que na umbanda estudada em Vitória se chama calunga pequena. A mesma pesquisa registra os exus e os pretos-velhos da linha das almas como as entidades que atuam ali. A linha inteira, direita e esquerda, está em linha das almas.

Três detalhes do campo de Vitória ajudam a situar o sobrenome:
- O cruzeiro: no cemitério estudado há dois cruzeiros, um “da linha branca” e outro “de exu ou linha preta”. A autora avisa que só alguns cemitérios têm mais de um. O objeto está em cruzeiro das almas.
- Onde cada um recebe: pretos-velhos só recebem no cruzeiro branco; os exus recebem em portões, cruzeiros e lápides.
- O dia: os entrevistados dizem que a segunda-feira é dia de Exu, e para os católicos é dia das almas. A pesquisadora lê isso como um compartilhamento de símbolo entre as duas religiões.
E quem rege esse campo? Depende da casa. Em Bocaiuva, Obaluaiê/Omolu é “dono da Calunga Pequena”. Na literatura umbandista que Reginaldo Prandi analisou, um grupo de Exus trabalha “sob as ordens do orixá Omulu, o senhor dos cemitérios”. Vale para parte da umbanda e da quimbanda, não para todas as casas.
Exu das Almas não é demônio
Exu das Almas não é demônio, e trabalhar com os mortos não faz dele uma entidade do mal. A confusão vem de fora dos terreiros e tem história registrada.
A lista de Exus “sob as ordens de Omulu” citada acima vem de uma tábua montada a partir de livros umbandistas, entre eles obras de 1989 e 1990. Essa tábua pôs nomes da demonologia europeia ao lado dos Exus. Prandi descreve a tábua para mostrar a demonização do orixá, e não para endossá-la. O título do artigo dele já diz o percurso: “Exu, de mensageiro a diabo”.
A casa de Bocaiuva, que tem Tranca-Rua das Almas no topo da lista, responde por si:
“no Zambi-Iris o Exu não é a personificação da maldade, ele é caminho a ser trilhado, no qual o homem é quem decide”
Fábio da Silva Gonçalves, dissertação, UFMG e Unimontes, 2017, p. 296
Para a umbanda estudada em Vitória, o cemitério é lugar sagrado, morada de orixás e entidades. O Exu que trabalha ali lida com a passagem, e é isso que o sobrenome guarda.
Ponto cantado, ponto riscado e imagem de Exu das Almas
Os pontos cantados com “das Almas” existem impressos, e os que aparecem neste texto estão na apostila da casa de Curitiba, com a fonte ao lado. Ali, vários pontos trazem o nome de quem compôs, e cada casa canta os seus.
O ponto riscado é outra coisa. É a firmeza da entidade na casa, riscada com pemba, e cada terreiro tem o seu. Por isso este blog não publica desenho de ponto riscado de Exu das Almas: um desenho copiado da internet não é o ponto da sua casa.
A imagem segue a mesma regra. Como “das Almas” é sobrenome, a imagem que se compra é a do Exu da falange: Tranca Ruas, Caveira ou outro. No cruzeiro branco de Vitória, pretos-velhos recebem vela branca e preta. Para o Exu das Almas, a cor, o número e o lugar da vela, inclusive a vela de sete dias, são orientação do dirigente.
Perguntas frequentes
Quem é Exu das Almas?
Não é uma entidade só. “Das Almas” é sobrenome de falange: marca Exus que trabalham no cemitério, no cruzeiro e na passagem entre vivos e mortos. Numa casa de Curitiba, o título vale para Tranca Ruas, João Caveira e Mangueira. Qual Exu das Almas trabalha com você, quem diz é a sua casa.
Quais são os nomes de Exu das Almas?
Com registro em pesquisa ou em ponto impresso: Tranca Ruas das Almas, João Caveira das Almas e Mangueira, chamado de “Exu das Almas” num ponto. No feminino, Maria Padilha das Almas. Tiriri, Marabô e Veludo das Almas aparecem nas casas, mas sem descrição em pesquisa aberta.
Tranca Ruas das Almas é o mesmo que Tranca Ruas?
É o mesmo nome de falange, com o sobrenome de quem trabalha no campo das almas. Numa casa de Curitiba, Tranca Ruas das Almas é cantado como “filho das almas” que está “no cruzeiro”. A mesma apostila tem pontos de outros caminhos de Tranca Ruas.
Qual o dia de Exu das Almas?
Na pesquisa de Vitória, umbandistas apontam a segunda-feira como dia de Exu, o mesmo dia que os católicos dedicam às almas. No Dia de Finados, há registro de umbandistas que vão ao cemitério e fazem oferenda aos exus do cruzeiro. Datas próprias variam por casa.
Se a sua casa pediu vela, pemba ou imagem para a gira das almas, a Joia Mística Laroyê, em Extrema-MG, confere com você pelo WhatsApp da loja.
Referências
- Vagner Gonçalves da Silva: Exu do Brasil: tropos de uma identidade afro-brasileira nos trópicos, Revista de Antropologia (USP), v. 55, n. 2, 2012
- Reginaldo Prandi: Exu, de mensageiro a diabo, Revista USP, n. 50, 2001
- Barbara Thompson (UFBA): Nos portões, lápides e cruzeiros das almas, anais do IV SCS, PGCS-UFES, 2019
- Fábio da Silva Gonçalves: a comida nos terreiros de Candomblé, Umbanda e Quimbanda em Bocaiuva/MG, dissertação, UFMG e Unimontes, 2017
- Terreiro de Umbanda Pai Maneco: apostila de pontos de Exu, Curitiba
- Terreiro de Umbanda Pai Maneco: apostila de pontos de Pomba Gira, Curitiba
- Terreiro de Umbanda Pai Maneco: apostila de pontos de Exu Mirim, Curitiba