Quem é Ogum: o orixá do ferro, da guerra e dos caminhos, o que vai à frente dos outros orixás. Na tabela do sociólogo Reginaldo Prandi para o candomblé queto, ele é o “orixá da metalúrgica, da agricultura e da guerra”, e o dia dele é a terça-feira. A saudação é “Ogunhê!”, e a data mais conhecida é 23 de abril, dia de São Jorge.
Há casas que deram Ogum como regente do ano. Quem anunciou Ogum e quem anunciou Oxóssi está em orixá regente de 2026.
Quem é Ogum, o senhor do ferro
Ogum é o orixá que domina o ferro. Prandi o descreve como “Deus da guerra, do ferro, da metalurgia e da tecnologia” e como “o orixá que tem o poder de abrir os caminhos, facilitando viagens e progressos na vida”, em artigo de 1995 na revista Horizontes Antropológicos. Na mesma tabela, ele é patrono de “estradas abertas, ocupações manuais, soldados e polícia”.
A família de Ogum muda com o lugar. Na África, Pierre Verger escreve que Ogum, “como personagem histórico, teria sido o filho mais velho de” Odùduà, o fundador de Ifé. Ele tomou a cidade de Ire e voltou usando o título de Oníìré, “Rei de Ire”. No Brasil, a história é outra: “Conta-se no Brasil que Oxossi era irmão de Ogum e de Exu, todos os três filhos de Iemanjá”. Até isso varia. Na resenha que Andreas Hofbauer fez do livro de mitos de Prandi, fica a dúvida “se Ogum é pai ou irmão de Oxóssi?”. Hofbauer nota ainda que “A briga entre Xangô e Ogum parece assim eterna”.
O orixá que abre a estrada tem mais de uma versão de mito. Numa delas, contada pela FUCESP, federação de umbanda e candomblé de São Paulo, os orixás não conseguem desmatar um campo em Ifé, e só Ogum, dono do segredo do ferro, abre o mato com o facão. Verger resume a ideia: “Ele é, então e sempre, o primeiro e abre o caminho para os outros orixás.”
No candomblé baiano, Verger viu isso no ritual. Ogum é “o primeiro a ser saudado depois que Exú é despachado”, e quando os orixás entram no barracão, “É sempre Ogum quem desfila na frente”. No Brasil, escreveu ele, “Ogum no Brasil é conhecido, sobretudo como deus dos guerreiros”. O verbete da Wikipédia reúne outros nomes e correspondências. Para situá-lo entre as outras divindades, veja o que são os orixás.
Ficha técnica de Ogum
A ficha separa o que vem do candomblé queto, pela tabela de Prandi e pelo livro de Verger, e o que vem das casas de umbanda.
- Domínios: metalurgia, agricultura e guerra; estradas abertas, ofícios manuais, soldados e polícia (Prandi)
- Cores: no candomblé queto, roupas “azul escuro, verde e branco” e contas “azul escuro ou verde” (Prandi). Na umbanda, o vermelho: em 1933, Leal de Souza já dava à linha de Ogum a cor “encarnada”, e a TUCTVC, casa de São José dos Campos, usa “Vermelho, vermelho e branco e azul”
- Dia da semana: terça-feira (Prandi e Verger)
- Elemento: o “ferro forjado” (Prandi)
- Símbolo: a espada (Prandi). Em Ire, Verger registra Ogum em instrumentos de ferro numa haste: “lança, espada, enxada, torquês, facão, ponta de flecha e enxó”
- Saudação: “Ogunhê!” (Prandi). Casas de umbanda como a TUCTVC também usam “Patakori Ogum”, e Verger registra “Ogum ieee!” na Bahia
- Número: sete. Verger escreve que “Ogum é único, mas, em Ire, diz-se que ele é composto de sete partes”
- Comida: “feijoada e inhame assado” (Prandi)
- Tabu dos filhos no queto: “embebedar-se” (Prandi)
- Ervas: aroeira e espada-de-são-jorge, entre outras, no Terreiro de Umbanda Pai Maneco; espada-de-são-jorge, abre-caminho, arruda e folha de seringueira na FUCESP
“Ogunhê!” Segundo a Wikipédia, a saudação vem do iorubá “Ògún yè”, “Ogum vive”.
A erva mais conhecida do guerreiro leva o nome do santo a que ele foi associado: veja a espada-de-são-jorge, a planta de Ogum. A folha do dendezeiro desfiada que protege a porta do terreiro está em mariô, a folha de Ogum.
Por que Ogum é o orixá dos caminhos e da guerra
A guerra de Ogum não é violência cega, e entender isso desfaz um dos preconceitos mais comuns sobre o orixá. Sua espada corta o que trava o caminho: o mato que não deixa passar, a demanda que prende a vida de alguém. Por isso ele é procurado por quem precisa vencer uma batalha, abrir uma porta de trabalho ou destravar uma situação parada.
O mesmo ferro que faz a lança faz a enxada. A tabela de Prandi põe sob Ogum tanto os soldados e a polícia quanto as ocupações manuais e a agricultura. Hofbauer lembra que a importância que os iorubás dão à fundição do ferro “se expressa em vários mitos dedicados à figura de Ogum”. Quem recorre ao guerreiro não pede que a luta desapareça: pede força para travá-la com firmeza.
O orixá que abre caminho é lido também no temperamento de quem é dele. Como Prandi e Verger descrevem esse arquétipo, e onde ele falha, está em filhos de Ogum.
As qualidades e linhas de Ogum
O guerreiro aparece com muitos nomes: qualidades no candomblé e linhas ou falanges na umbanda. As grafias e o número variam de casa para casa.
No candomblé, Verger registra que na Bahia Ogum recebe sete nomes, e os mais citados são “Ogum Onirê, Ogum Akorô, Ogum Alagbedê, Ogunjá, ogum Mejê, Ogum Omini, Ogum Warí”. Alguns têm explicação nas fontes:
- Onirê: vem do título Oníìré, “Rei de Ire”, que Ogum ganhou ao tomar a cidade (Verger)
- Akorô: Ogum não podia usar coroa, só um diadema chamado àkòró, e por isso é saudado como Ògún Aláàkòró (Verger)
- Ogunjá: Verger conta que os louvores a Ògúnjajá, “Ogum come cachorro”, lhe valeram o nome de Ògúnjá. Edison Carneiro, citado por Prandi, descreve Ogunjá como “um Ogum que mora com Oxóssi e Exu, e se alimenta de comida crua”
- Xoroquê: não está na lista baiana de Verger. Prandi escreve, na Revista USP, que filhos de Exu acabavam iniciados “especialmente para Ogum Xoroquê, uma qualidade de Ogum com profundas ligações com o mensageiro”
O que cada nome quer dizer e por que a qualidade de cabeça só se descobre dentro de uma casa estão em qualidades de Ogum.
Na umbanda, a lista muda com o autor. Na codificação de Matta e Silva, resumida pela pesquisadora Sônia Lages (UFJF), a linha de Ogum tem Ogum de Lei, Yara, Megê, Rompe Mato, Malê, Beira-Mar e Matinata, e ela avisa: “Mas as classificações variam”. Nas casas de Fortaleza estudadas na dissertação de Pereira (UFC) aparecem Ogum de Ronda, Ogum Dilé e Ogum Sete Rondas. Ogum Naruê é cantado na casa de Zélio de Moraes e no Terreiro Pai Maneco, de Curitiba (“Salve Ogum Naruê”), e Ogum Sete Espadas aparece nos pontos da casa de Zélio.
Na nação angola, o inquice correspondente é Nkosi, que Prandi grafa “Incáci” e “Roximucumbe”. A casa angola Inzo Tumbansi o descreve como “Divindade guardiã ligada à guerra”. O que é um inquice está em o que é um nkise no candomblé de angola. No jeje, o vodum é Gu: Verger escreve que o culto de Ogum se estende a países jejes, como o antigo Daomé e o Togo, “onde é chamado de Gun”. No batuque gaúcho, o guerreiro tem as próprias passagens, tema de Ogum no batuque.
Ogum na umbanda e no candomblé
Ogum não é vivido da mesma forma nas duas tradições, e confundi-las apaga o que cada uma tem de próprio.
No candomblé, Ogum é um orixá cultuado no xirê, com assentamento, ferramentas, qualidades e comidas por nação. Na tabela de Prandi, o assentamento são “instrumentos agrícolas de ferro em miniatura em alguidar de barro”. Em transe, conta Verger, Ogum “dança com ar marcial, agitando sua espada e procurando um adversário para golpear”. As cantigas são em iorubá, como Ogum Onire Alagbara. Os fundamentos ficam com o pai ou a mãe de santo.
Na umbanda, Ogum trabalha sobretudo como linha. Leal de Souza, em 1933, já o punha como a segunda das sete linhas, a de São Jorge. Na Umbanda Sagrada, de Rubens Saraceni, “Ogum é o Orixá da Lei”; a TUCTVC resume Ogum como “Lei, Ordem e Abertura de Caminhos”.
O orixá em si raramente desce na gira. Leal de Souza escreveu que “Os Orixás não baixam sempre” e que, em oito anos, viu só dois, um deles “de Ogum, o Orixá Mallet”. Segundo Matta e Silva, na leitura de Lages, os orixás repassam seus atributos às entidades, “não se apresentando pois, pessoalmente no terreiro, como ocorre no Candomblé”. Quem chega são caboclos e guias com nome de Ogum, que vêm cortar demanda e abrir caminho. As falanges, autor por autor, e quem desce na gira estão em Ogum na umbanda. O que separa as duas religiões está em diferença entre umbanda e candomblé.
Ogum, São Jorge e o Dia de Ogum
Quem procura a data de Ogum encontra 23 de abril, dia de São Jorge. Durante a colonização, diante da proibição de cultuar os orixás, os africanos escravizados associaram suas divindades a santos católicos para continuar reverenciando sob outro nome. Foi estratégia de sobrevivência, não declaração de que orixá e santo seriam a mesma coisa. A TUCTVC escreve que o sincretismo “não significa que as duas figuras sejam exatamente a mesma divindade”.
O santo muda com a região. Verger registra: “No Rio de Janeiro, é com São Jorge que Ogum foi associado”, e “Na Bahia, Ogum foi sincretizado com Santo Antônio de Pádua”, celebrado em 13 de junho. A FUCESP dá São Jorge em São Paulo e Santo Antônio na Bahia. A história de cada par está em São Jorge e Ogum e em Santo Antônio e Ogum.
O 23 de abril não é feriado nacional. Em São Paulo, a Lei estadual 14.905, de 2012, instituiu o “Dia de Ogum” no calendário oficial do Estado, sem feriado. No Rio, o feriado estadual é do Dia de São Jorge, pela Lei 5.198, de 2008, que o Supremo Tribunal Federal julgou constitucional. Nas casas de umbanda, a TUCTVC dá “Data de culto 23 de abril”, e na Tenda Espírita Mamãe Oxum, estudada por Pedro Nogueira (UFJF), “no dia 23 de abril, dia votado a São Jorge, o homenageado é o Orixá Ogun”. As leis, a data jeje e o dia em 2027 estão em dia de Ogum, e as datas de todos os orixás, no calendário dos orixás.
Como homenagear Ogum
A reverência a Ogum se faz com respeito à sua firmeza e ao seu papel de guardião. O que segue é referência devocional: cada casa tem as próprias orientações, e oferendas de fundamento se fazem com o pai ou a mãe de santo.
- Acenda uma vela numa terça-feira, na cor da sua casa: vermelha na umbanda, azul-escura no candomblé
- Ofereça inhame assado ou uma feijoada, a comida de Ogum na tabela de Prandi. Na umbanda, o amalá do Pai Maneco leva “cerveja branca em coité, charutos, amendoins e frutas”. O passo a passo está em oferenda para Ogum
- Saúde o guerreiro com o “Ogunhê!” e cante para ele: os pontos de Ogum mais conhecidos e de onde vêm estão em ponto de Ogum
- Use a guia com autorização da casa: por que ela é vermelha na umbanda e azul-escuro no queto está em guia de Ogum
Dica de devoção: o orixá não responde a pedidos de vingança nem a quem quer que a luta seja travada por ele. Procure-o para pedir força, coragem e a abertura de um caminho que está fechado. O orixá vai à frente, mas a estrada quem caminha é você.
Para escolher a cor da vela com consciência, veja o guia de velas rituais e seus significados. E para conhecer outra erva ligada ao guerreiro e a Exu, leia sobre a arruda, erva de Ogum e Exu.
Perguntas frequentes
Qual é o dia de Ogum?
O dia da semana de Ogum é a terça-feira, na tabela de Prandi para o queto, em Verger e nas casas de umbanda como a TUCTVC. A data do ano é 23 de abril, dia de São Jorge, no Sudeste e na umbanda. Na Bahia, a data é 13 de junho, dia de Santo Antônio.
Qual a saudação de Ogum?
A saudação é “Ogunhê!”, registrada por Prandi. Casas de umbanda como a TUCTVC usam também “Patakori Ogum”, e Verger ouviu “Ogum ieee!” no candomblé baiano.
Qual a cor de Ogum?
No candomblé queto, Prandi registra contas azul-escuro ou verde, e Verger diz o mesmo da Bahia. Na umbanda, o vermelho, a cor “encarnada” que Leal de Souza já dava à linha em 1933. A TUCTVC usa vermelho, vermelho e branco, e azul. As combinações variam por nação e por casa.
Qual o santo de Ogum no sincretismo?
No Rio de Janeiro, São Jorge, segundo Verger; a FUCESP dá o mesmo para São Paulo. Na Bahia, Santo Antônio, em 13 de junho. O sincretismo é associação histórica, não equivalência.
Qual a comida de Ogum?
Na tabela de Prandi para o candomblé queto, a comida de Ogum é feijoada e inhame assado. Na umbanda, o amalá varia com a casa. As oferendas de fundamento seguem a orientação do pai ou da mãe de santo.
Onde comprar artigos para Ogum
Na Joia Mística Laroyê, você encontra tudo para honrar o guerreiro que abre os caminhos com respeito e firmeza:
- Imagens de Ogum com a espada, para o seu altar ou assentamento
- Velas vermelhas, azuis e brancas, nas cores do orixá guerreiro
- Ferramentas e símbolos de ferro ligados à sua força guerreira
- Guias e contas vermelhas, azuis e verdes para devoção
- Ervas e defumadores de proteção, como a espada-de-são-jorge e a aroeira
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Referências
- Prandi, Horizontes Antropológicos (UFRGS, 1995): Deuses africanos no Brasil contemporâneo
- Prandi, Revista USP (2001): Exu, de mensageiro a diabo
- Pierre Verger: Orixás, Corrupio, 1981
- Hofbauer, Revista de Antropologia (USP, 2001): resenha de Mitologia dos orixás
- Leal de Souza, livro de 1933: O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda
- Lages, UFJF (2003): Exu: luz e sombras
- Nogueira, dissertação (UFJF, 2014): O diálogo intra-religioso na Umbanda
- Pereira, dissertação (UFC, 2012): A umbanda em Fortaleza
- Saraceni, Umbanda Sagrada: Orixás universais
- Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade: Livro de Pontos Cantados
- Terreiro de Umbanda Pai Maneco: Ogum e apostila de pontos de Ogum
- Casas e federações: TUCTVC, FUCESP e Inzo Tumbansi
- Assembleia Legislativa de São Paulo: Lei 14.905 de 2012, Dia de Ogum
- Supremo Tribunal Federal: Informativo 1105, ADI 4.092, feriado do Dia de São Jorge
- Wikipédia: Ogum