As qualidades de Ogum são os muitos caminhos de um só orixá. Na Bahia, Pierre Verger registrou sete nomes de Ogum, entre eles Onirê, Akorô, Alagbedê e Ogunjá. Na umbanda, o orixá ganhou linhas, como Beira-Mar, Megê e Rompe Mato.
A qualidade de cabeça de cada pessoa é fundamento de casa de santo: só se revela lá dentro, nunca sozinho.
O que são as qualidades de Ogum
No candomblé, qualidade é o nome que se dá a cada caminho ou fundamento de um orixá. O orixá é um só, mas se manifesta em qualidades que expressam facetas do guerreiro: o rei, o ferreiro, o que abre estradas. Quem quiser conhecer o orixá antes dos caminhos pode ler quem é Ogum.
Cada qualidade traz seu próprio fundamento, suas comidas, suas cores e até um temperamento distinto. Um caminho mais velho e ancestral pede um tratamento diferente de um jovem e impetuoso. Por isso não existe uma lista única e fechada: as qualidades variam de nação para nação e de casa para casa.
O mesmo acontece com outros orixás. O blog já explicou os caminhos de outros grandes nomes em qualidades de Xangô e qualidades de Oxum, e a lógica é sempre a mesma: um orixá, muitos caminhos.
Ogum é um só, mas anda por muitos caminhos
Aqui mora a distinção que separa quem entendeu de quem só decorou nomes. No candomblé, a qualidade é fundamento de terreiro, revelada na feitura de santo pelo jogo de búzios. É segredo de casa, não assunto de internet.
Na umbanda, o costume seguiu outro rumo. Em vez de qualidades de fundamento, o orixá ganhou linhas, também chamadas de falanges. Verger já anotava que Ogum “é único, mas, em Ire, diz-se que ele é composto de sete partes”.
Ogum é um só orixá. As qualidades e as linhas não são vários Oguns, e sim as muitas estradas por onde o mesmo guerreiro caminha.
Na prática, o praticante encontra os dois vocabulários. Um candomblecista fala em qualidade, um umbandista fala em linha, e os dois falam do mesmo Ogum. Entender essa diferença evita a confusão mais comum sobre o tema.
As principais qualidades de Ogum no candomblé
No livro Orixás, de 1981, Verger escreve que na Bahia Ogum recebe sete nomes, e os mais citados são “Ogum Onirê, Ogum Akorô, Ogum Alagbedê, Ogunjá, ogum Mejê, Ogum Omini, Ogum Warí”. Alguns têm explicação nas fontes:
- Ogum Onirê: o nome vem do título Oníìré, “Rei de Ire”. Para Verger, Ogum tomou a cidade de Ire, pôs o filho no trono e voltou usando o título.
- Ogum Akorô: Ogum não podia usar coroa, só um diadema chamado àkòró. Por isso é saudado como Ògún Aláàkòró, escreve Verger, também no Brasil e em Cuba.
- Ogunjá: Verger conta que os louvores a Ògúnjajá, “Ogum come cachorro”, deram a ele o nome de Ògúnjá. Edison Carneiro, citado por Reginaldo Prandi, descreve Ogunjá como “um Ogum que mora com Oxóssi e Exu, e se alimenta de comida crua”.
- Ogum Alagbedê, Mejê, Omini e Warí: estão na lista de Verger, sem explicação no mesmo trecho.
- Ogum Xoroquê: não está na lista baiana de Verger; o caso dele vem adiante.
Essa lista não é exaustiva nem universal. Cada raiz de candomblé guarda suas qualidades, com nomes e detalhes próprios. O que importa é o princípio: cada caminho é uma face do mesmo orixá.
Os caminhos de Ogum na umbanda
Na umbanda, a lista de linhas de Ogum muda com o autor. Na codificação de Matta e Silva, resumida pela pesquisadora Sônia Lages (UFJF), a linha de Ogum tem sete falanges: Ogum de Lei, Yara, Megê, Rompe Mato, Malê, Beira-Mar e Matinata. A própria autora avisa: “Mas as classificações variam.”
- Ogum Beira-Mar, Iara, Matinata, Rompe Mato e Megê: a casa de Zélio de Moraes canta os cinco nomes nos pontos e diz que “Eles trabalham na terra meu Pai”, no mar e na areia.
- Ogum Rompe Mato: aparece também como caboclo de Ogum na lista de Prandi, Vallado e Souza reproduzida por Pedro Nogueira (UFJF), ao lado de Oxóssi, tema de quem é Oxóssi.
- Ogum Megê e Ogum de Ronda: no cemitério de Vitória (ES), umbandistas ouvidos por Barbara Thompson dizem que Megê “pertence a linha das almas” e que Ogum de Ronda “trabalha auxiliando os exus”.
- Ogum Sete Espadas, Sete Ondas e Naruê: são nomes que aparecem nos pontos da casa de Zélio; Naruê também é cantado no Terreiro de Umbanda Pai Maneco, de Curitiba.
Cada falange, autor por autor, e quem desce na gira estão em Ogum na umbanda. Os pontos em que esses nomes aparecem estão em ponto de Ogum. Para conhecer o temperamento de quem é regido pelo orixá, vale ler filhos de Ogum.
Ogum Xoroquê: o caminho que toca Exu
Nenhuma qualidade gera mais dúvida do que Ogum Xoroquê. A fonte mais firme é Reginaldo Prandi, na Revista USP, em 2001. Ele escreve que os identificados no jogo como filhos de Exu corriam o risco de ser vistos como filhos do diabo. Por isso “acabavam sendo iniciados para outro orixá, especialmente para Ogum Xoroquê, uma qualidade de Ogum com profundas ligações com o mensageiro”. E acrescenta: “Até pouco tempo, eram raros e notórios os filhos de Exu iniciados para Exu”.
Na mesma página, Prandi cita Edison Carneiro sobre o “carrego de Exu”, entregue a Ogunjá. A ponte entre Ogum e Exu no candomblé baiano antigo passava também por esse caminho.
Daí vem a frase popular de que Xoroquê seria “metade Exu”, que nenhuma fonte aberta sustenta. O que as fontes dizem é a ligação próxima com o mensageiro. Isso não faz de Xoroquê uma entidade ruim, nem de Exu o diabo, como o blog explica em oferenda para Exu.
Ogum Xoroquê caminha perto de Exu. Aproximar-se de Exu não é maldade, é função.
A nação, a cor e a ferramenta de Xoroquê mudam de casa para casa, e as fontes abertas não fecham essas respostas. Quem cultua sabe o fundamento da própria casa.
Ogum além do ketu: nação angola e sincretismo
As qualidades mudam de nome quando muda a nação. No candomblé de angola, a energia do orixá aparece como o inquice Nkosi, que Prandi grafa “Roximucumbe”, com liturgia e cânticos próprios. No jeje, o vodum correspondente é Gu: no Bogum, casa jeje de Salvador, o jornal A Tarde registrou que no dia 19 de janeiro desce Gu, “o senhor da guerra e da metalurgia (Ogum)”. No batuque gaúcho, o guerreiro tem lugar de destaque, tema de Ogum no batuque.
No sincretismo, o orixá também ganha rostos diferentes por região. No Sudeste, ele é São Jorge, o santo guerreiro, associação tratada em São Jorge e Ogum. Na Bahia, o mesmo Ogum costuma ser Santo Antônio, como mostra Santo Antônio e Ogum. As datas de cada região estão em dia de Ogum.
A cor acompanha a tradição. No candomblé queto, Prandi registra contas “azul escuro ou verde”. Na umbanda, o vermelho domina, e Nogueira liga isso ao sincretismo, “na cor vermelha do manto de São Jorge para Ogun”. Há casas de umbanda que seguem a nação: num terreiro que ele estudou, “o Ogun pega o azulão”.
Nada disso é equivalência entre santo e orixá. O sincretismo foi estratégia histórica para o culto sobreviver à repressão, não fusão de fé.
O fundamento é do terreiro
Aqui está o ponto mais importante. A sua qualidade de Ogum não se descobre por conta própria.
Nenhum teste de internet, signo, data de nascimento ou quiz revela a qualidade de cabeça de uma pessoa. Isso é fundamento, e fundamento se revela no jogo de búzios, conduzido por um babalorixá ou uma ialorixá, dentro de uma casa de santo. Quem quer entender o próprio caminho começa por procurar um terreiro sério, como orienta o texto como saber qual é o meu orixá.
Este artigo serve para conhecer os caminhos e respeitar a riqueza da tradição, nunca para autoiniciar ou cravar uma qualidade. O saber sobre as qualidades pertence ao terreiro, e é lá que ele se transmite, de pai e mãe de santo para filho, no tempo certo.
Perguntas frequentes
Quantas qualidades de Ogum existem?
Não há um número fechado. Verger registra sete nomes de Ogum na Bahia: Onirê, Akorô, Alagbedê, Ogunjá, Mejê, Omini e Warí. Outras casas citam outros, como Xoroquê, e a contagem muda conforme a nação e o terreiro. Na umbanda, a lista de linhas também muda de autor para autor.
Qual a diferença entre qualidade e linha de Ogum?
Qualidade é o termo do candomblé, um fundamento revelado na feitura de santo. Linha, ou falange, é o termo da umbanda, como Beira-Mar ou Rompe Mato na lista de Matta e Silva. Os dois falam do mesmo Ogum, com vocabulários de tradições diferentes.
Quem é Ogum Xoroquê?
Reginaldo Prandi o descreve como “uma qualidade de Ogum com profundas ligações com o mensageiro”, Exu. Filhos de Exu acabavam iniciados para ele. Não está na lista de Verger para a Bahia. A ideia de que seria “metade Exu” não tem fonte aberta, e a ligação com Exu não faz dele uma entidade ruim.
Qual a qualidade de Ogum mais cultuada?
Não há contagem que responda. Onirê, ligado ao título de “Rei de Ire”, abre a lista de Verger na Bahia. Ainda assim, cada casa tem suas preferências e seu fundamento, então a qualidade mais presente muda de terreiro para terreiro conforme a raiz da nação.
Como saber a minha qualidade de Ogum?
Somente pelo jogo de búzios, com um babalorixá ou uma ialorixá, dentro de uma casa de santo. Não existe teste, signo ou data que revele isso. Se você sente ligação com Ogum, o caminho é procurar um terreiro sério e deixar o fundamento ser revelado no tempo certo.
Onde encontrar itens para Ogum
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- Velas nas cores de Ogum: azul-escuro, vermelho e branco
- Guias e contas: nas cores das qualidades e linhas do orixá
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Referências
- Pierre Verger: Orixás, Corrupio, 1981
- Prandi, Revista USP (2001): Exu, de mensageiro a diabo
- Prandi, Horizontes Antropológicos (UFRGS, 1995): Deuses africanos no Brasil contemporâneo
- Lages, UFJF (2003): Exu: luz e sombras
- Nogueira, dissertação (UFJF, 2014): O diálogo intra-religioso na Umbanda
- Thompson, IV Seminário PGCS UFES (2019): rituais de umbanda no cemitério Santo Antônio
- Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade: Livro de Pontos Cantados
- Terreiro de Umbanda Pai Maneco: apostila de pontos de Ogum
- A Tarde (2023): Bogum tem culto a vodum da árvore