Depois que Bará abre os caminhos, é a vez do guerreiro entrar. No Ogum no Batuque encontramos o orixá do ferro e da luta, o segundo a ser chamado na ordem do axé e um dos pilares de qualquer casa de religião no Rio Grande do Sul. Sem o seu fundamento, nem a faca que corta nas obrigações teria força.
Este guia explica quem é o guerreiro dentro da tradição do batuque gaúcho: o seu domínio, a posição que ocupa no axé, as passagens cultivadas no Sul, as cores, o dia, a saudação e o sincretismo com São Jorge. Como sempre, a palavra final sobre o fundamento é da sua casa e do seu babalorixá ou ialorixá.
O guerreiro do ferro e dono da faca
Ogum é o orixá guerreiro, senhor do ferro e de todos os metais forjados a partir dele. É o dono das ferramentas de trabalho, das estradas e das demandas, e por isso caminha sempre com a espada na mão. Onde há luta a ser vencida, trabalho a ser feito ou caminho a ser aberto pela força, ali está a sua energia.
No batuque, esse domínio tem um peso ritual concreto. Ele é o dono do obé, a faca sagrada. Todo babalorixá e toda ialorixá precisam ter o seu assentamento na casa, porque sem ele não se usa o axé do corte nas obrigações. É por isso que, mesmo sendo o segundo a ser chamado, o guerreiro está presente em tudo o que a casa faz: sem o ferro dele, o axé não trabalha.
Ogunhê, meu pai! A saudação ecoa forte nas casas de batuque e nas ruas, sobretudo quando o Sul celebra São Jorge.
O segundo orixá da ordem do axé
No batuque, os orixás são chamados numa sequência, a ordem do axé, que vai do primeiro ao último em cada festa. Bará abre, como dono dos caminhos e da comunicação, e logo em seguida vem o guerreiro, que garante a força para o que foi aberto. Na nação Ijexá, por exemplo, a entrada segue Bará, Ogum, Oiá, Xangô, Odé, Otim, Ossanha, Obá, Xapanã, Oxum, Iemanjá e Oxalá. Fontes que documentam o batuque gaúcho descrevem essa sequência com pequenas variações por nação.
Essa hierarquia é de idade espiritual. O orixá do ferro está entre os orixás novos, o grupo que vai de Bará a Obá, antes dos orixás velhos, que são Oxum, Iemanjá e Oxalá. A sequência muda de nação para nação, mas a dupla de abertura, Bará e o guerreiro, é uma constante: primeiro se abre o caminho, depois se manda a força. Para ver todos eles em conjunto, vale conhecer os orixás do batuque.
As passagens de Ogum no Batuque
No batuque, um mesmo orixá se manifesta em diferentes passagens (também chamadas de qualidades), cada uma com o seu fundamento. As passagens do guerreiro mais conhecidas no Rio Grande do Sul são:
- Ogum Avagã: assentado junto ao Bará Lodê, com os otás fora do templo, em casa própria. É uma passagem muito ligada ao dia de segunda-feira.
- Ogum Onirê (ou Onira): o rei da cidade de Irê, uma das passagens mais reverenciadas.
- Ogum Adiolá: o que acompanha os orixás de água, andando junto de Oxum, Iemanjá e Oxalá.
- Olobedé: uma quarta passagem citada em casas da nação Cabinda.
Cada passagem tem os seus assentamentos, cantigas e preceitos, que variam de casa para casa e de nação para nação. Por isso, estas são as mais citadas, e não uma lista fechada: a sua casa é quem diz qual passagem rege a sua cabeça e como ela é cuidada.
Cores, dia e saudação
Conhecer a ficha do orixá ajuda o filho de santo a honrá-lo no dia a dia. No batuque, ela costuma ser assim:
- Cores: vermelho e verde (verde e branco na passagem Mejê; alguns sacerdotes antigos usavam também o azul-marinho nos fios).
- Dia da semana: quinta-feira (segunda-feira para a passagem Avagã).
- Saudação: “Ogunhê!”, também ouvida como “Patacori Ogum”, com o sentido de cabeça coroada.
- Oferendas: pipoca, milho torrado, batatas assadas no dendê (em número de três ou sete) e o opeté de batata.
Vale lembrar que oferenda tem fundamento e se faz com orientação. A lista acima mostra o gosto do orixá, mas o modo, a quantidade e o momento certo quem ensina é a casa. Ele é orixá de força e de justiça, não um amuleto de resultado garantido: abre a luta, mas a caminhada é de cada um.
Ogum e São Jorge: o sincretismo do Sul
Como em boa parte do Brasil, no Rio Grande do Sul o guerreiro foi sincretizado com São Jorge, o santo montado no cavalo, que enfrenta o dragão com a lança. A imagem do santo que vence o mal pela coragem conversou de imediato com o orixá do ferro e da luta.
Esse sincretismo nasceu como estratégia de sobrevivência: durante a escravidão e a repressão às religiões africanas, associar o orixá a um santo católico permitia continuar cultuando sob outro nome. É importante entender que orixá e santo não são a mesma entidade em suas origens; o sincretismo é uma ponte histórica, não uma igualdade. Ainda hoje, o dia 23 de abril reúne devoção ao santo e saudações de “Ogunhê!” pelas ruas do Sul.
Como cada tradição cultua o guerreiro
O orixá do ferro é reverenciado em várias tradições afro-brasileiras, mas cada uma tem o seu jeito. No batuque, ele aparece nas passagens e na ordem do axé que vimos aqui. No candomblé, é o orixá do ferro cultuado em iorubá, senhor do obé e da abertura de caminhos pela força. Na umbanda, encabeça uma linha de trabalho, com falanges e caboclos que atuam nas giras.
Se você quer o perfil geral do orixá, para além do batuque, veja quem é Ogum. E, como toda essa força passa também pelas folhas, vale conhecer o peregum, a folha de Ogum, usada em banhos e no fortalecimento. O importante é não tratar batuque, candomblé e umbanda como sinônimos: são caminhos distintos que, cada um a seu modo, reverenciam o mesmo guerreiro.
Perguntas frequentes
Quem é Ogum no batuque?
É o orixá guerreiro, senhor do ferro, dos metais, das ferramentas e das estradas. No batuque do Rio Grande do Sul, é o segundo orixá chamado na ordem do axé, logo depois de Bará, e o dono do obé (a faca) usado nas obrigações. Sem o seu assentamento, a casa não usa o axé do corte.
Quais são as passagens de Ogum?
As mais citadas no batuque são Ogum Avagã (assentado junto ao Bará Lodê), Ogum Onirê (rei de Irê), Ogum Adiolá (que acompanha os orixás de água) e Olobedé, citada na nação Cabinda. Cada passagem tem seus fundamentos, e a lista varia conforme a nação e a casa.
Qual é o dia de Ogum?
O dia do guerreiro no batuque é a quinta-feira. A passagem Avagã, porém, costuma ser associada à segunda-feira. Além dos dias da semana, o 23 de abril marca a festa de São Jorge, santo sincretizado com o orixá, muito celebrado no Rio Grande do Sul.
Com quem Ogum é sincretizado?
No Rio Grande do Sul e em boa parte do Brasil, o orixá é sincretizado com São Jorge, o santo guerreiro. O sincretismo foi uma estratégia histórica de resistência durante a escravidão. Vale lembrar que orixá e santo têm origens distintas: a associação é uma ponte cultural, não uma equivalência.
Quais as cores de Ogum?
As cores no batuque são o vermelho e o verde. Na passagem Mejê usa-se verde e branco, e alguns sacerdotes antigos incluíam o azul-marinho nos fios de conta. Na nação Cabinda, as contas costumam alternar uma verde-mato e uma vermelho-sangue.
Onde encontrar itens do orixá guerreiro
Na Joia Mística Laroyê, você encontra o que precisa para honrar o guerreiro na sua casa:
- Fios de conta e guias: nas cores vermelho e verde
- Imagens de Ogum e de São Jorge: para o altar e os assentamentos
- Velas rituais: vermelhas e verdes, para firmar a intenção
- Ferramentas e espadas em metal: para o assentamento
- Ervas de força: peregum, espada de são jorge e outras, para banhos
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Referências
- Historiando Axé: artigo sobre o batuque gaúcho e a ordem do axé por nação
- Wikipédia: verbete sobre o batuque como religião afro-brasileira