A oferenda para Nanã se monta em barro, e sem nenhuma peça de metal. Essa é a regra que separa o agrado dela do de qualquer outro orixá, e ela tem fundamento registrado.
Este guia mostra o que vai no alguidar, o que a quizila do metal muda na prática, onde se arria e o que fica para a casa fazer.
O que se leva para Nanã
A base do agrado doméstico é curta e toda ela de matéria simples.
Cores: roxo, lilás, branco e azul | Elemento: a lama, o encontro da água com a terra | Ferramenta: o ibiri | Vodum jeje: Nanã
- Mingau ou pirão de farinha de mandioca. É a comida que Reginaldo Prandi registra como favorita dela.
- Alguidar de barro cru, também chamado oberó, que é o vasilhame em que a comida do orixá se serve.
- Vela roxa ou lilás, uma ou três. Veja as cores das velas rituais.
- Flores roxas e lilases, sem plástico e sem arame.
- Água limpa numa quartinha de barro.
- Mel, quando a casa costuma usar.
A ferramenta dela é o ibiri, um cetro em forma de arco feito de fibras das folhas do dendezeiro, enfeitado com búzios. Repare que não há metal ali também: veja as ferramentas dos orixás e compare.
A guia dela segue a mesma lógica. Prandi registra contas brancas rajadas de azul cobalto. O acervo de arte sacra da Duke University descreve colares de Nanã que somam contas de osso às de vidro. A palha da costa, ráfia usada nos adornos dela e de Omolu, fecha o conjunto: fibra, barro, osso e búzio.
Se você ainda não conhece a orixá, comece por quem é Nanã.
O metal fora: o que a quizila muda no preparo
Prandi registra o tabu dos filhos de Nanã em uma linha: usar facas de metal. O que vem depois é a explicação, e ela é histórica.
Pierre Verger sustenta que os sacrifícios feitos a Nanã e a Obaluaê não usam instrumento de ferro. Para ele, isso aponta para um culto anterior à idade do ferro, antes da chegada de Ogum. Uma dissertação da UFPB diz o mesmo de outro jeito: nunca se corta os animais com instrumento de aço. E há a leitura de fundamento: aceitar o metal seria submeter-se ao território de poder de Ogum.
O itan que o povo conta fecha o sentido. Nanã discordou de que Ogum fosse o mais importante e torceu o pescoço dos animais com as próprias mãos.
Aqui vai a correção que quase toda página da internet precisa: não é que a faca de ferro seja trocada por uma de madeira. As fontes falam em ausência de lâmina, não em outra lâmina. O que fica vedado é o corte com aço.
Na sua cozinha, isso é simples de respeitar: prepare com colher de pau, sirva em barro, e deixe a faca, o garfo e a panela de alumínio fora da montagem.
A quizila varia de casa para casa. O mesmo estudo que registra a regra ouviu sacerdotes nagô-ketu que confirmam o uso da faca nos sacrifícios a Omolu. Preceito de casa vence texto de internet, sempre.
Entenda o conceito em quizilas no candomblé.
Mungunzá ou canjica: o prato de milho e o de mandioca
Duas confusões atrapalham quem vai montar o agrado.
A primeira é de nome. Mungunzá e canjica são o mesmo doce de milho branco, com nomes diferentes por região: mungunzá no Norte e no Nordeste, canjica no Sul e no Sudeste. A palavra vem do quimbundo kandjica.
A segunda é de atribuição. O milho aparece nas listas de terreiro para Nanã e circula muito, mas a comida com respaldo acadêmico é a de mandioca: mingau ou pirão de farinha. A FUCESP registra pirão, paçoca de amendoim e sarapatel, e o portal O Candomblé registra efó, mungunzá, sarapatel, feijão com coco e pirão com batata roxa.
Escolha o que a sua casa usa. Se não tem casa, o prato de mandioca é o que tem a fonte mais forte atrás.
Como montar o agrado, passo a passo
- Escolha o dia. Prandi coloca Nanã na segunda-feira. Há registro de terça em duas fontes de terreiro. Nosso guia dos dias da semana traz outra atribuição, sinal de que isso muda de casa para casa.
- Prepare a comida sem metal. Farinha de mandioca escaldada até virar pirão ou mingau, mexida com colher de pau.
- Arrume o alguidar. A comida no barro, forrada de folha de bananeira se você tiver. Veja para que serve o alguidar.
- Acenda a vela roxa ou lilás ao lado, nunca em cima da comida.
- Ponha as flores e a água. Flor sem plástico, água na quartinha.
- Fale o que veio dizer. Sem fórmula pronta, e sem pedir prazo.

Onde se arria a oferenda de Nanã
O território dela é a lama e o pântano. Uma coleção universitária a define como a mais antiga das divindades das águas e a dona da lama. Na prática, isso quer dizer brejo, mangue, beira de lago e água parada, não cachoeira e não mar.
Existe precedente institucional. O Santuário Nacional da Umbanda, em Santo André, mantém os Lagos de Nanã como local próprio de oferenda, onde as obrigações se fazem sobre esteiras flutuantes.
O mesmo santuário dá a régua do descarte, e ela vem de dentro da umbanda. Pede-se material natural: alguidar de barro, flor sem plástico, mel e perfume fora da embalagem original. O que não é biodegradável volta com quem levou. Vidro, isopor e sacola não pertencem ao brejo.
O que é da casa, e o que você faz sozinho
O que está acima é agrado doméstico: o que qualquer devoto pode arriar por conta própria.
Comida de santo com fundamento, assentamento, obrigação e matança são outra coisa. Quem conduz é a casa, com dirigente, e não se aprende em artigo. Se você é iniciado, o preceito da sua casa manda mais que qualquer lista.
Nanã é cultuada como vodum no candomblé jeje e como orixá no queto, e a entrega muda conforme a nação. Sobre a correspondência na nação angola, prefira consultar os inquices de angola a repetir equivalências que as fontes não fecham.
No sincretismo, ela corresponde a Santana, e a data corrente é 26 de julho: os detalhes estão em Santana e Nanã e no dia de Nanã. Se a série te interessa, veja também a oferenda para Oxalá.
Perguntas frequentes
Pode usar faca para preparar a comida de Nanã?
A tradição registra o tabu do corte com metal, e as fontes falam em ausência de lâmina. Para o agrado doméstico, prepare com colher de pau e evite faca, garfo e panela de metal na montagem. O preceito da sua casa decide o resto.
Pode servir a oferenda de Nanã em prato de vidro?
O vasilhame registrado é o alguidar de barro, também chamado oberó, e a cozinha de terreiro trabalha com madeira e barro. Barro cru é o caminho seguro. Vidro e alumínio ficam fora, e vidro também não deve ser deixado em brejo ou lago.
Qual é a comida de Nanã?
Prandi registra mingau de farinha de mandioca como a favorita. Fontes de terreiro somam pirão, paçoca de amendoim, sarapatel, efó, feijão com coco e mungunzá. O prato de mandioca é o que tem respaldo acadêmico, e o resto varia por casa e por nação.
Onde entregar a oferenda de Nanã?
Na lama e na água parada: brejo, mangue, beira de lago. Não é orixá de cachoeira nem de mar. O Santuário Nacional da Umbanda mantém os Lagos de Nanã para esse fim, e pede material biodegradável, com o que não se decompõe voltando com você.
Onde comprar o material da oferenda
Na Joia Mística Laroyê você encontra tudo o que essa montagem pede:
- Alguidares de barro cru em vários tamanhos
- Quartinhas de barro para a água
- Velas roxas e lilases, de palito e de sete dias
- Guias de contas brancas rajadas de azul, nas cores dela
- Farinha de mandioca, milho branco e mel
Passe na loja, na Rua Benedito Zingari, 460, Bela Vista, em Extrema-MG, ou chame no WhatsApp com entrega para todo o Brasil.
Referências
- Reginaldo Prandi: a tabela de atributos de Nanã, com o ibiri, o tabu das facas de metal e o mingau de mandioca, Horizontes Antropológicos, 1995
- Gildeci de Oliveira Leite: a passagem em que Verger explica o sacrifício sem ferro, Fragmentos de Cultura, PUC Goiás, 2019
- Larissa Fernandes Caldas Souza: a dissertação sobre a existência de Nanã anterior à idade dos metais, UFPB, 2015
- Santuário Nacional da Umbanda: os Lagos de Nanã e a régua de material para oferenda
- Faculdade de Saúde Pública da USP: por que o mesmo doce de milho se chama canjica e mungunzá, 2023