Os inquices são as divindades do Candomblé de Angola, o nome que a nação bantu dá às forças da natureza que a nação ketu chama de orixás. Vindos da palavra kikongo nkisi (receptáculo de força), eles guardam os caminhos, as matas, as águas, o raio e o tempo, cada um com um domínio próprio e uma história trazida do Kongo e de Angola para os terreiros brasileiros.
Este guia perfila os principais inquices um a um: quem é cada divindade, qual a sua função e a que orixá ela é aproximada no panteão iorubá. Antes de começar, vale a distinção que organiza tudo o que vem a seguir.
O que são os inquices (e por que não são “orixás”)
No Candomblé de rito Congo-Angola, inquice (ou nkisi, no plural minkisi) é a divindade cultuada. A palavra é bantu e, na origem africana, designava um receptáculo que concentra força espiritual, e não apenas uma “divindade” no sentido que o Brasil deu ao termo. Se você quer entender essa viagem da palavra em detalhe, ela está no artigo o que é um nkise.
Aqui interessa a consequência prática: inquice e orixá não são a mesma coisa. São cosmologias distintas, o mundo bantu (Angola, Kongo) de um lado e o mundo iorubá (Ketu) do outro, com línguas, mitos e ritos próprios. Como resume a Wikipédia, os inquices representam “as próprias forças da natureza em essência”, e não ancestrais divinizados. A diferença entre as nações Ketu, Jeje e Angola explica por que cada uma tem seu vocabulário sagrado.
Por isso, sempre que este guia disser que um inquice “corresponde” a um orixá, leia aproximação histórica, nunca sinal de igual. Nkosi lembra Ogum na função guerreira, mas Nkosi não é Ogum. A correspondência ajuda quem chega do Ketu a se localizar, e nada mais. Acima de todos os inquices está Nzambi (Zambiapongo), o Deus criador, que não se confunde com nenhuma dessas forças.
A correspondência com o orixá é uma ponte para o entendimento, não uma tradução exata. Cada casa e cada raiz guarda suas próprias leituras, e é o zelador quem confirma cada caso.
Inquices dos caminhos: Aluvaiá e a encruzilhada
Aluvaiá (também chamado Pambu Njila, Bombojira ou, na forma feminina, Bombogira) é o guardião dos caminhos e da encruzilhada. É ele quem abre e fecha as ritualísticas, o mensageiro que liga o mundo material ao mundo dos inquices. Nenhuma obrigação começa sem saudá-lo primeiro.
Na origem kikongo, seu nome vem de mpambu (bifurcação) e nzila (caminho): a própria encruzilhada, o ponto onde as estradas se encontram e se separam. Curiosamente, a tradição do Kongo distingue dois espíritos que o Brasil acabou reunindo num só: Mpambu Nzila, o guardião da encruzilhada, e Mavambu, o direcionador de todos os caminhos. Essa granularidade africana virou uma figura única no terreiro brasileiro.
No panteão iorubá, Aluvaiá é aproximado de Exu. Vale a mesma advertência de sempre: ele é o senhor dos caminhos e da comunicação, guardião da casa e do movimento da vida, e não tem nada a ver com a imagem distorcida de “demônio” que o preconceito colou nas religiões de matriz africana.
Inquices guerreiros e da forja: Nkosi e Mpanzu
Nkosi (Mukumbi, Roxi Mukumbe) é o inquice guerreiro, senhor das estradas de terra e guardião do terreiro. Seu nome significa “leão” em kikongo, e o título Mukumbi vem de Ankosi Nkumbu, “Senhor de Fama”. É o vigia que protege os que pertencem à casa e os que entram no espaço sagrado. No paralelo com o Ketu, Nkosi é aproximado de Ogum, o dono do ferro e das batalhas.
Ao lado dele caminha Mpanzu (Incoce), ligado à forja, ao ferro e à tecnologia. Entre os bantu, a arte de forjar o metal era sagrada e fundamental para a agricultura, a caça e a guerra, o que faz de Mpanzu um ancestral divinizado das linhagens que dominavam a metalurgia. Também exerce função de sentinela, e algumas casas o leem dentro do mesmo eixo de Ogum.
Inquices da mata: Mutalambô, Kabila e Katendê
A floresta tem seus próprios donos. Mutalambô (Mutakalombo) é o caçador, governante das matas, mestre da caça terrestre e das águas, acompanhado do cão e do crocodilo. É aquele que traz o alimento e ensina a aldeia a viver do que a natureza oferece. Corresponde a Oxóssi, o caçador do panteão iorubá.
Kabila é o caçador auxiliar, o que vigia a entrada da mata e reparte a caça entre todos por igual. Sua filosofia é a do serviço à comunidade, e no Brasil ele integra o mesmo grupo (kanda) de caçadores de Mutalambô. Também é lido na chave de Oxóssi.
Katendê (Katendi) é o senhor das folhas e da medicina, o dono da ciência das ervas (jinsaba). Sem ele não há axé, porque toda cura, todo banho e toda obrigação passa pela folha. Katendê é aproximado de Ossaim, o orixá das plantas litúrgicas. Na África, era guardião da fauna e da flora, capaz de se transformar em animal para punir quem invadia a mata com má intenção. Para conhecer o universo das folhas que a Joia Mística trabalha, veja a seção de ervas.
Inquices da terra, da saúde e da ancestralidade: Kavungo e Nzumba
Kavungo (Kafunjê, Kingongo, ligado ao Nsumbu do Kongo) é o inquice da terra, da saúde e da morte, aquele que traz e cura a doença. É temido e respeitado, porque domina tanto a peste quanto o remédio. Corresponde a Obaluaê / Omulu. Suas vestimentas são de ráfia, que envolve e oculta o mistério do espírito. Uma quizila importante da sua família é o porco, dentro do sistema de restrições que você encontra em quizilas no candomblé.
Nzumba (Nzumbarandá) é a divindade da lama, da decomposição e da ancestralidade, ligada ao que há de mais antigo. Corresponde a Nanã. Aqui aparece uma divergência que vale registrar: pesquisadores da tradição Kongo consideram o sincretismo entre Nzumba e Nanã uma aproximação imperfeita, já que Nanã pertence ao panteão jeje-fon e Nzumba tem raiz bantu, nos Balari. O Brasil consolidou a leitura, mas a origem africana é mais específica.
Inquices do tempo, do raio e do arco-íris: Tempo, Zaze e Angorô
Tempo (Kitembo, Quitembo) é um dos inquices mais centrais da nação Angola, a ponto de ser chamado de “Rei da nação Angola”. Ele é o ar, o vento, as estações e o próprio tempo que passa. É cultuado ao pé de uma árvore sagrada, a gameleira branca no Brasil, herança do culto africano à árvore Nsanda, com um mastro e uma bandeira que, ao tremular, anunciam sua presença. Por ser força elementar e não ancestral, algumas casas o aproximam de Irocô, o orixá da árvore sagrada, como registra o verbete Quitembo.
Zaze (Nzazi) é o raio, o relâmpago e o fogo, a justiça divina que desce dos céus. Suas cores são o branco e o vermelho, e a fogueira é uma de suas marcas. Corresponde a Xangô, o senhor do trovão e da justiça.
Angorô (Hongolo, na forma feminina Angoroméa) é o arco-íris, representado pela serpente que recolhe a água da terra e a leva de volta ao céu. É força de renovação, movimento e comunicação entre o alto e o baixo. Corresponde a Oxumaré.
Inquices das águas: Matamba, Dandalunda e Samba Kalunga
As águas guardam três grandes senhoras. Matamba (Bamburucema) é a rainha dos ventos, dos raios e das tempestades, ligada às águas agressivas dos rios em cheia e à guarda dos mortos (vumbi). É força guerreira e feminina, aproximada de Iansã / Oyá.
Dandalunda (Ndandalunda, ligada a Kisimbi) é o inquice das águas doces, das nascentes, dos rios e das cachoeiras, senhora da fertilidade, da beleza e da riqueza. No Brasil, foi fortemente sincretizada com Oxum por volta dos anos 1940 e 1950, embora seus ritos de origem sejam próprios. Seu nome antigo, ligado às “guardiãs que guardam a chuva”, carrega a memória africana da constelação das Plêiades anunciando a estação chuvosa.
Samba Kalunga (Kaitumba, Mikaia, Kaiala) é a força do mar, o Kalunga Grande. Para os bantu, Kalunga é ao mesmo tempo o oceano imenso e o mundo dos mortos, a extensão sem fim de Nzambi. Samba Kalunga é a mãe que gera a vida, no sentido espiritual e material, e corresponde a Iemanjá.
Inquices da infância e da paz: Vunji e Lemba
Vunji (Nvunji, Wunji) é o mais novo dos inquices, a força da infância, da inocência e da proteção das crianças e dos gêmeos. Também responde por uma justiça própria, ligada ao caráter e às ações de cada um. Corresponde aos Ibeji, os orixás crianças.
Lemba (Lembarenganga) é o inquice da criação, da paz e da serenidade, tratado por muitos como o “pai de todos os inquices”. Reúne masculino e feminino numa mesma força de equilíbrio, fertilidade e abundância, e na África esteve ligado a uma antiga escola de iniciação. Corresponde a Oxalá, o senhor da paz e da criação.
Há ainda inquices hoje pouco cultuados no Brasil, como Ndundu, ligado ao culto Kimpasi africano e à figura da grande mãe que multiplica os adeptos. Ele aparece sobretudo em cânticos e é lembrado mais como memória do que como divindade de assentamento comum.
Zambi e a ordem do panteão
Todos esses inquices se organizam sob Nzambi (Zambiapongo), o Deus supremo e criador, que está acima das forças da natureza e não é assentado como elas. Os inquices são, nesse sentido, os caminhos pelos quais o axé de Nzambi se manifesta no mundo.
Uma observação sobre grafias: como o Candomblé de Angola é oral e tem raízes em kikongo e kimbundu, os nomes variam de casa para casa (Kavungo ou Cafunjê, Nzazi ou Zaze, Matamba ou Bamburucema). Nenhuma grafia é “a errada”; cada raiz guarda a sua. Se quiser se aprofundar no vocabulário, o dialeto do Candomblé de Angola reúne dezenas de palavras traduzidas, e as saudações de Angola trazem como se cumprimenta cada divindade.
A tabela completa de correspondência entre cada inquice e seu orixá, com as cantigas (muimbus) que os louvam, está reunida no artigo sobre as zuelas de Candomblé de Angola.
Perguntas frequentes
O que são os inquices no candomblé?
Inquices são as divindades do Candomblé de Angola, a nação bantu. O nome vem do kikongo nkisi e nomeia as forças da natureza (caminhos, mata, água, raio, tempo) que a nação ketu chama de orixás. Cada inquice tem um domínio próprio e é cultuado com ritos de origem angolana e congolesa.
Qual a diferença entre inquice e orixá?
São divindades de tradições diferentes. Inquice pertence ao mundo bantu (Angola, Kongo) e orixá ao mundo iorubá (Ketu), com línguas, mitos e cultos distintos. A correspondência entre eles (Nkosi e Ogum, por exemplo) é uma aproximação histórica que ajuda no entendimento, não uma equivalência exata.
Quantos inquices existem?
Não há um número fechado. Os catálogos brasileiros costumam trabalhar com cerca de 16 a 19 inquices principais, mas a raiz e a casa de cada terreiro definem quais são cultuados. Na África, a lista de minkisi é ainda mais extensa e granular do que a versão consolidada no Brasil.
Como saber qual é o meu inquice?
Quem define o inquice de uma pessoa é o jogo de búzios, conduzido pelo zelador ou pela zeladora da casa. Não existe teste online ou autoatribuição que substitua essa consulta. É um processo ritual, dentro de uma casa de santo, e não uma curiosidade que se resolve pela internet.
Qual o inquice mais importante?
Não há hierarquia única, mas Tempo (Kitembo) é tratado como “Rei da nação Angola” e Lemba como “pai de todos os inquices”. Acima de todos está Nzambi, o Deus criador. Cada casa também tem o inquice dono do seu axé, que ocupa lugar central naquela comunidade.
Onde encontrar artigos e imagens dos inquices
Na Joia Mística Laroyê, você encontra o que precisa para honrar cada inquice e seu orixá correspondente:
- Imagens e assentamentos: figuras dos orixás ligados a cada inquice, de Ogum a Iemanjá.
- Velas rituais: nas cores de cada força, do branco e vermelho de Zaze ao branco de Lemba.
- Ervas e folhas: a ciência de Katendê, para banhos e defumações.
- Guias e contas: nas sequências de cores de cada divindade.
- Ráfia e artigos de terreiro: para as obrigações da nação Angola.
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Referências
- Wikipédia: verbete sobre o inquice na tradição bantu
- Wikipédia: verbete sobre o inquice Quitembo (Tempo)