No dia 26 de julho, duas anciãs dividem a mesma data no coração do Brasil devoto. De um lado, Sant’Ana, a mãe de Maria e avó de Jesus, padroeira dos avós e das famílias. Do outro, Nanã, a mais velha dos orixás, senhora da lama, do tempo e da ancestralidade. O encontro de Sant’Ana e Nanã é um dos sincretismos mais bonitos e menos explicados das religiões afro-brasileiras.
Este artigo separa com cuidado os dois lados dessa devoção: quem foi Sant’Ana no catolicismo, quem é Nanã nas tradições de matriz africana, por que as duas foram aproximadas e por que dividir uma data não significa serem a mesma pessoa.
Quem foi Sant’Ana, a avó de Jesus
Sant’Ana é, na tradição cristã, a mãe da Virgem Maria e esposa de São Joaquim. Como mãe de Maria, ela é também a avó de Jesus, e é por esse laço que se tornou uma das figuras mais queridas do catolicismo popular.
O nome de Sant’Ana não aparece nos quatro evangelhos. A história dela vem de uma tradição cristã antiga, registrada no chamado Protoevangelho de Tiago, um texto que não entrou na Bíblia oficial. Segundo essa tradição, Ana e Joaquim eram um casal idoso, sem filhos, que só teve Maria depois de muita fé e espera.
É desse detalhe que nasce boa parte da sua força devocional. Por ter concebido a filha já em idade avançada, Sant’Ana virou símbolo de fé na velhice e de esperança para quem espera um filho. Por isso é invocada como padroeira dos avós, das mães, das gestantes e das famílias.
Nanã, a mais velha dos orixás
Nanã, ou Nanã Buruquê, é a mais velha e mais respeitada das iabás, as orixás femininas. Senhora das águas paradas, dos lagos, dos pântanos e da lama do fundo, ela representa o tempo profundo, a origem da vida e o destino final de tudo o que existe. Sua saudação é “Salubá, Nanã!”.
Aqui trazemos apenas o essencial, porque o blog já tem o perfil completo dela. Para conhecer a mitologia, as qualidades e as oferendas, vale ler quem é Nanã. O que nos interessa agora é entender por que essa avó ancestral encontrou Sant’Ana.
No candomblé, Nanã tem culto próprio em cada nação. É cultuada como vodum na nação jeje, de origem no antigo Daomé, e como orixá das águas paradas e da lama na nação ketu. Na nação angola, a mesma energia ancestral aparece sob o nome de Nzumbarandá. Na umbanda, rege a linha ligada à sabedoria dos mais velhos e ao acolhimento.
A lama do fundo do lago é a matéria-prima da vida. Nos mitos recolhidos por Reginaldo Prandi, foi de Nanã que veio o barro com que o ser humano foi modelado. Por isso ela é a dona do começo e do fim.
Por que Sant’Ana e Nanã foram associadas
O encontro das duas não é acaso, e também não foi escolha livre. Durante a escravidão, os africanos eram proibidos de cultuar os seus orixás. A saída foi esconder cada orixá atrás da imagem de um santo católico de domínio parecido, para que o culto sobrevivesse à repressão.
No caso de Nanã, o elo que uniu as duas é a velhice ancestral. Sant’Ana é a avó, a raiz materna da linhagem que leva a Cristo, a anciã que gera vida quando já não se esperava. Nanã é a orixá mais velha, a matriarca que existe desde antes do mundo e é mãe de orixás como Obaluaê, Oxumarê e Ossaim. Diante de duas avós tão parecidas no significado, a associação foi natural.
Por isso o sincretismo não é fusão nem equivalência. É uma estratégia de resistência, a forma que o povo africano escravizado encontrou de manter viva a sua fé. Sant’Ana continua sendo Sant’Ana para o católico, e Nanã continua sendo Nanã para o povo de santo. É o mesmo mecanismo que aproxima Nossa Senhora Aparecida e Oxum e Santa Bárbara e Iansã.
26 de julho: a data que une as duas avós
A festa de Sant’Ana no dia 26 de julho foi fixada pelo Papa Gregório XIII, no fim do século XVI. Mais tarde, na reforma do calendário litúrgico, o Papa Paulo VI uniu a essa data a memória de São Joaquim, o marido dela. Assim, 26 de julho passou a celebrar juntos os avós de Jesus.
Não por acaso, o dia acabou virando também uma referência para o Dia dos Avós em vários países. Sant’Ana e Joaquim são o retrato da ancestralidade que sustenta a família, os mais velhos que passam a fé adiante.
Nos terreiros, essa mesma data é o dia de saudar Nanã. Acende-se vela lilás ou roxa, oferecem-se flores e frutas, e ecoa o “Salubá!” em homenagem à mais velha. Para situar a celebração dentro do ciclo afro-brasileiro, veja o calendário dos orixás. Quem quiser o passo a passo da saudação encontra tudo no artigo sobre o dia de Nanã, 26 de julho.
A ficha de Nanã e as suas oferendas
Conhecer a ficha da orixá ajuda o filho de santo a honrá-la com respeito no dia a dia. Na maioria das casas, ela costuma ser assim:
Cores: roxo, lilás e branco | Elemento: águas paradas, lagos e lama | Símbolo: o ibiri | Saudação: “Salubá, Nanã!”
O ibiri é o cetro de Nanã, feito de palha da costa, com cabaça e búzios. É com ele, na mitologia, que a orixá recolhe a lama do fundo das águas. Já a saudação “Salubá” funciona como um “salve” reverente à senhora anciã. Essa ficha aparece registrada em fontes institucionais como o Santuário Nacional da Umbanda.
As oferendas de Nanã costumam ser suaves e ligadas à terra:
- Batata-doce cozida, um dos pratos mais associados a ela
- Frutas como jabuticaba e ameixa, de tons escuros e roxos
- Vinho licoroso, flores lilás e velas roxas
- Nada que leve ferro ou metal cortante, por preceito da tradição
Oferenda tem fundamento e se faz com orientação. A lista acima mostra o gosto da orixá, mas o modo, a quantidade e o dia certo quem ensina é a sua casa e o seu babalorixá ou ialorixá.
A correspondência varia de casa para casa
Embora a ligação entre Sant’Ana e Nanã seja forte, sobretudo na umbanda e nas casas de tradição jeje, ela não é uma regra universal. O sincretismo muda conforme o fundamento de cada terreiro.
A maioria das casas associa Nanã a Sant’Ana ou a Nossa Senhora Sant’Ana. Algumas tradições, porém, aproximam a orixá de outras imagens de senhora anciã, e há quem cite Nossa Senhora das Candeias, com menos consenso. O dia da semana dedicado a Nanã também varia: umas casas indicam o sábado, outras a segunda-feira.
A correspondência entre santo e orixá não é fixa. Quem define é o fundamento da casa. O costume do seu terreiro tem sempre a palavra final.
Vale lembrar ainda que, ao falar de candomblé, cada nação tem o seu jeito próprio de cultuar Nanã, e tratar ketu, jeje e angola como sinônimos apaga a riqueza real da religião.
Sincretismo não é igualdade
É importante não confundir devoção com equivalência. Sant’Ana é uma santa católica, uma mulher que a tradição cristã glorificou. Nanã é uma orixá, uma força da natureza e da ancestralidade cultuada há séculos na África e no Brasil. As duas dividem uma data, não uma identidade.
Dizer “Nanã é Sant’Ana” apaga essa diferença. O certo é dizer que Nanã foi associada a Sant’Ana, sincretizada com ela por um domínio comum, a velhice sábia que gera e acolhe. Reconhecer isso é um gesto de respeito às duas tradições e à história de luta que uniu as duas avós no mesmo 26 de julho.
Religiões de matriz africana ainda enfrentam preconceito e intolerância no Brasil. Tratar Nanã com a mesma naturalidade com que se trata uma santa é parte de desfazer esse racismo religioso.
Perguntas frequentes
Qual é o dia de Nanã Buruquê?
O dia de Nanã é o 26 de julho, mesma data da festa de Sant’Ana no catolicismo. Nesse dia, os terreiros saúdam a mais velha dos orixás com velas roxas, flores e frutas. A escolha da data vem justamente do sincretismo entre a orixá anciã e a avó de Jesus.
Qual santo católico representa Nanã?
Na maioria das casas, Nanã é sincretizada com Sant’Ana, a mãe de Maria e avó de Jesus. A associação nasce da ideia comum de anciã sábia e matriarca. Algumas tradições citam outras imagens de senhora idosa, mas Sant’Ana é a correspondência mais difundida.
Por que Nanã é sincretizada com Sant’Ana?
Porque as duas representam a velhice ancestral e a origem da vida. Sant’Ana gerou Maria já idosa; Nanã é a orixá mais velha, mãe de outros orixás e dona da lama que deu forma ao ser humano. Durante a escravidão, o povo africano escondeu a orixá atrás da santa para manter o culto vivo.
Qual é a saudação de Nanã e o que significa “Salubá”?
A saudação é “Salubá, Nanã!”, que funciona como um “salve” reverente à senhora anciã das águas paradas. É dita ao saudar a orixá em festas, oferendas e no dia 26 de julho. A forma exata pode variar um pouco conforme a nação e a casa.
O que se oferece para Nanã?
As oferendas mais tradicionais são batata-doce cozida, frutas escuras como jabuticaba e ameixa, vinho, flores lilás e velas roxas. A tradição evita objetos de ferro nas coisas de Nanã. O modo certo de ofertar deve sempre ser orientado pela sua casa.
Onde encontrar itens para Nanã e Sant’Ana
Na Joia Mística Laroyê, você encontra o que precisa para honrar as duas avós no dia 26 de julho:
- Velas roxas e lilás: as cores de Nanã, para firmar pedidos de sabedoria e amparo
- Imagens de Sant’Ana: para o altar dos devotos da avó de Jesus
- Guias e contas roxas: para quem é filho de Nanã
- Flores e frutas de oferenda: para as águas paradas e a mesa da orixá
- Velas brancas: para a paz e a serenidade da senhora anciã
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Referências
- Wikipédia: Ana, mãe de Maria
- Santuário Nacional da Umbanda: ficha de Nanã Buruquê e oferendas