Saber quem é Nanã é voltar ao começo de tudo. Antes do ferro, antes das cidades, antes mesmo de muitos dos orixás mais conhecidos, já existia a senhora da lama, das águas paradas e do barro do fundo do mangue. Nanã Buruquê é a mais velha das iabás, a avó dos orixás, aquela que guarda a memória da criação e os portais por onde a vida entra e por onde ela retorna à terra.
Este guia apresenta o perfil completo da orixá: sua origem antiquíssima no antigo Daomé, os domínios da lama e da ancestralidade, a ficha técnica (cores, saudação, oferendas), o porquê da sua quizila com o ferro, seus filhos e o sentido do dia 26 de julho, quando a umbanda a saúda no sincretismo com Sant’Ana.
Quem é Nanã, a mais velha dos orixás
Nanã é reverenciada como a mais antiga das divindades femininas, a iabá que existia antes das outras. Sua origem não é iorubá pura: ela vem do povo fon, do antigo reino do Daomé (atual Benin), e só mais tarde foi incorporada ao panteão nagô cultuado no Brasil. Por isso é tratada como uma das divindades mais ancestrais de todas, ligada a um tempo anterior à própria Idade do Ferro, leitura que o etnógrafo Pierre Verger sustenta ao colocar a orixá e seu filho Obaluaê entre os cultos mais arcaicos da África ocidental.
Seu domínio é a água parada: o lago, o pântano, o brejo e, sobretudo, a lama do fundo do mangue. Onde a água corrente de Oxum é movimento e a água salgada de Iemanjá é vastidão, a água de Nanã é profundidade quieta, repouso, o barro fértil onde a vida se forma e para onde a vida volta. Essa lama não é sujeira: é matéria-prima sagrada, o limo primordial que carrega ancestralidade e sabedoria.
Há um itan muito difundido que explica essa centralidade. Conta a tradição que, quando Olodumare quis criar o ser humano, Oxalá não conseguia dar forma à criatura até que Nanã trouxe do fundo das águas o barro com que o homem foi modelado. Por isso ela é vista como a matéria de que somos feitos e o destino para onde a carne retorna. Para situar a orixá no conjunto das divindades afro-brasileiras, vale ler o panorama sobre o que são os orixás.
Ficha técnica de Nanã
Antes de aprofundar a ancestralidade e os itans, vale fixar os elementos que identificam a orixá. As correspondências abaixo seguem o que é mais consensual entre as casas, com as variações mais comuns sinalizadas.
- Domínios: ancestralidade, lama primordial, águas paradas, sabedoria, memória, os portais da vida e da morte
- Cores: roxo e lilás, quase sempre acompanhados do branco; algumas casas incluem o anil
- Elemento: água parada e lama, o pântano, o brejo e o mangue
- Símbolo: o ibiri, cetro de palha-da-costa enfeitado com búzios e contas, que ela carrega curvado como quem ampara
- Saudação: “Saluba, Nanã!”, algo como “salve, Nanã” ou “nós nos refugiamos em Nanã”
- Oferendas: feijão-fradinho, canjica branca (mungunzá), batata-doce, camarão e caruru, servidos em alguidar de barro, nunca em vasilha de metal
- Origem: jeje-fon, do antigo Daomé (atual Benin); na nação angola, sua energia aparece sob o nome do inquice Nzumbarandá
- Sincretismo: Sant’Ana, celebrada em 26 de julho na umbanda
Saluba, Nanã! A saudação é um gesto de quem busca colo e amparo na mais velha das mães. Diante de Nanã, costuma-se baixar a cabeça com reverência, no respeito que se tem pela avó que tudo viu e tudo perdoa.
Sobre o dia da semana, é honesto dizer que as fontes divergem: a segunda-feira é a mais citada em muitos terreiros de umbanda, mas há casas que dedicam a ela o domingo ou a terça. O ponto firme é a data anual, o 26 de julho. Quando o assunto é cor, o roxo é o consenso mais forte, presente nas guias, nas velas e nas roupas usadas para honrá-la.
Senhora dos portais da vida e da morte
Um dos aspectos mais mal compreendidos da orixá é a sua ligação com a morte. Nanã rege os portais por onde as almas chegam ao mundo e por onde elas partem. Ela recebe quem desencarna, acolhe o espírito de volta ao barro de onde veio e o prepara para um novo ciclo. Não há aqui nada de sombrio ou assustador: é o contrário do medo.
Para a tradição afro-brasileira, a morte não é fim, é passagem, e a senhora dessa passagem é a mesma avó amorosa que ampara o nascimento. Por isso Nanã é também a orixá do luto sereno e da reconciliação com o tempo. Quem a procura num momento de perda costuma buscar nela o acolhimento de quem entende que tudo tem sua estação. Ela ensina paciência, aceitação e a sabedoria que só os mais velhos carregam.
Essa serenidade é o oposto da pressa do mundo. Nanã não age com o ímpeto de uma guerreira nem com o brilho de uma orixá das águas vivas. Sua força está na quietude profunda, naquilo que amadurece devagar, no que precisa de tempo para se transformar.
Por que Nanã não aceita ferro
Uma marca característica do culto de Nanã é a quizila com o ferro: em muitas casas, nada que toca a orixá ou suas oferendas pode ser de metal. Cortes e preparos rituais para ela se fazem com instrumentos de madeira ou bambu, e suas comidas são servidas em barro, não em alumínio.
A explicação está num itan que envolve Ogum, o orixá do ferro e da tecnologia. Conta a tradição que, numa assembleia em que os orixás iam reconhecer Ogum como o mais importante por ter forjado a faca e os instrumentos de metal, Nanã discordou. Para mostrar que a vida não dependia da invenção do ferro, ela teria realizado seu sacrifício sem usar lâmina alguma. Desde então, o metal de Ogum ficou excluído do seu culto.
Há também a leitura histórica, defendida por Verger: como divindade anterior à chegada do ferro à África ocidental, Nanã pertence a um tempo em que esse material simplesmente não existia, e seu culto preservou essa antiguidade. Vale uma ressalva importante: quizilas variam de casa para casa e de nação para nação. O ferro afastado do culto de Nanã é uma tradição amplamente seguida, não um dogma único, e cada terreiro guarda seus próprios fundamentos. O verbete da Wikipédia sobre Nanã registra essa origem daomeana e o itan do ferro para quem quiser aprofundar.
Os filhos de Nanã
A maternidade é parte central da identidade da orixá. Nanã é tida como mãe de divindades ligadas à terra, à transformação e ao mistério. O mais célebre dos seus filhos é Obaluaê (Omulu), o orixá da terra, das doenças e da cura, que aprendeu com a mãe o domínio sobre os ciclos de morrer e renascer. Conhecer o filho ajuda a entender a mãe: vale ler o perfil de quem é Obaluaê (Omulu), o orixá curador coberto pelo seu manto de palha.
A tradição também lhe atribui outros filhos. Oxumarê, o orixá-serpente do arco-íris, senhor dos ciclos e da renovação, e Iroko (Loko), a divindade da árvore sagrada e do tempo. Em alguns itans, Nanã aparece ainda como mãe de Ewá e ligada a Ossaim, o senhor das folhas. Em boa parte das narrativas, ela é apontada como a primeira mulher de Oxalá, o que a coloca na raiz das grandes linhagens de orixás.
Esse lugar de avó e matriarca reforça por que ela é invocada em questões de família, ancestralidade e linhagem. Quem busca Nanã busca, no fundo, a sabedoria das origens.
Nanã na umbanda e no candomblé
Embora seja a mesma orixá, Nanã não é vivida da mesma forma nas duas tradições, e confundi-las apaga o que cada uma tem de próprio.
No candomblé, Nanã é uma iabá cultuada com seus assentamentos, seus fundamentos e suas comidas específicas, variando conforme a nação. Na ketu e na jeje preserva-se com força a origem daomeana e a quizila do ferro; na nação angola, de raiz bantu, a energia da senhora da lama e da ancestralidade é cultuada sob o nome do inquice Nzumbarandá. Mencionar a nação não é detalhe: tratar o candomblé como um bloco único apaga a diversidade real das casas.
Na umbanda, Nanã atua sobretudo como uma vibração ou linha de trabalho ligada à ancestralidade, à sabedoria dos mais velhos e ao amparo no luto. É comum que sua energia seja associada à dos pretos-velhos, guias da sabedoria ancestral, pela proximidade dos temas. O sincretismo com Sant’Ana, mais presente na umbanda do que no candomblé de raiz, completa esse retrato da orixá-avó.
Dia de Nanã: 26 de julho e o sincretismo com Sant’Ana
Quem procura a data de Nanã encontra o 26 de julho, e a razão está na história do Brasil. Durante a colonização, diante da proibição de cultuar os orixás, os africanos escravizados associaram suas divindades a santos católicos para continuar reverenciando sob outro nome. Foi estratégia de sobrevivência, não declaração de que orixá e santo seriam a mesma coisa.
Nanã foi associada a Sant’Ana, mãe de Maria e avó de Jesus segundo a tradição cristã. A ligação é transparente: assim como Sant’Ana é a avó venerada, Nanã é a avó dos orixás, a matriarca mais velha, guardiã da ancestralidade. As duas carregam o mesmo arquétipo da anciã sábia que ampara as gerações. Como explica o material das Raízes Espirituais sobre o sincretismo de 26 de julho, é nessa data que muitos terreiros saúdam a senhora das águas paradas e da ancestralidade.
Por isso, ao se aproximar o fim de julho, casas de umbanda e de candomblé preparam homenagens à orixá mais velha. Para acompanhar as celebrações de cada divindade ao longo do ano, consulte o calendário dos orixás.
Como reverenciar Nanã
A devoção a Nanã se faz com a calma e o respeito que se tem pelos mais velhos. O que segue é uma referência devocional, lembrando que cada casa tem suas orientações e que oferendas de fundamento se fazem sob a condução de um pai ou mãe de santo.
- Acenda uma vela roxa ou lilás em local limpo e tranquilo, mentalizando gratidão pela ancestralidade e pedindo sabedoria e paciência
- Ofereça em barro, nunca em metal, comidas como o feijão-fradinho ou a canjica branca, respeitando a quizila do ferro
- Saúde a orixá com o “Saluba, Nanã!”, de cabeça baixa, como quem fala com a avó mais velha da família
- Honre os seus antepassados, porque cultuar Nanã é cultuar a memória de quem veio antes de nós
Dica de devoção: procure Nanã para pedir serenidade diante das mudanças, força no luto e sabedoria para amadurecer decisões. A orixá da lama trabalha no tempo das raízes, devagar e fundo, e ensina que algumas coisas só florescem quando se respeita o tempo certo.
A escolha consciente das velas faz parte da reverência. Para entender o significado de cada cor, veja o guia de velas rituais e seus significados.
Perguntas frequentes
Quem é Nanã na umbanda?
Nanã é a orixá mais velha, senhora da lama, das águas paradas e da ancestralidade. Na umbanda, ela atua como uma vibração ligada à sabedoria dos mais velhos, ao amparo no luto e à memória dos antepassados, sendo sincretizada com Sant’Ana e celebrada em 26 de julho.
Qual é o dia de Nanã?
A data anual de Nanã é 26 de julho, no sincretismo com Sant’Ana. Já o dia da semana varia conforme a casa: a segunda-feira é a mais citada, mas há terreiros que dedicam a ela o domingo ou a terça. A data de julho é o ponto de maior consenso.
Nanã é mãe de qual orixá?
Nanã é tida como mãe de Obaluaê (Omulu), o orixá da cura, e também de Oxumarê e Iroko. Em alguns itans, é ligada a Ewá e a Ossaim. Em muitas narrativas, aparece ainda como a primeira mulher de Oxalá.
Por que Nanã não aceita ferro?
A tradição conta um itan em que Nanã se recusou a reconhecer a supremacia de Ogum, o orixá do ferro, realizando seu sacrifício sem usar metal. Por isso, em muitas casas, o ferro fica excluído do seu culto, com instrumentos de madeira no lugar. As quizilas, porém, variam de casa para casa.
O que significa Saluba Nanã?
“Saluba, Nanã!” é a saudação tradicional da orixá. A expressão é entendida como “salve, Nanã” ou “nós nos refugiamos em Nanã”, um pedido de amparo e proteção dirigido à mais velha e mais sábia das mães.
Onde comprar artigos para Nanã
Na Joia Mística Laroyê, você encontra tudo para honrar a orixá mais velha com respeito e devoção:
- Imagens de Nanã com o ibiri, para o seu altar ou assentamento
- Velas roxas, lilases e brancas, nas cores da senhora da ancestralidade
- Alguidares e vasilhas de barro para oferendas, respeitando a quizila do ferro
- Guias e contas roxas e brancas para devoção
- Ervas e defumadores ligados à energia de sabedoria e ancestralidade
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Referências
- Wikipédia: verbete sobre Nanã, origem daomeana e o itan do ferro
- Raízes Espirituais: artigo sobre o sincretismo de 26 de julho entre Nanã e Sant’Ana