O dia de Nanã é celebrado em 26 de julho, a mesma data em que o catolicismo festeja Sant’Ana, mãe de Maria e avó de Jesus. Não é coincidência: a mais velha das iabás, a anciã que rege a lama e a ancestralidade, foi associada justamente à avó da tradição cristã, e essa ponte entre duas avós é o coração da festa.
Este guia explica por que a data caiu no 26 de julho, como o sincretismo com Sant’Ana nasceu da resistência dos terreiros, e de que forma você pode saudar e oferendar a senhora da lama em casa, com respeito e sem promessas mágicas. Para o perfil completo da iabá, vale ler também quem é Nanã.
Por que o dia de Nanã é 26 de julho
A resposta curta: a data não vem do calendário africano, e sim do calendário católico. O 26 de julho é a festa litúrgica de Sant’Ana e de São Joaquim, os pais de Maria. A celebração de Sant’Ana foi fixada nessa data pelo papa Gregório XIII em 1584, e mais tarde São Joaquim foi reunido à mesma comemoração. Por tabela, o 26 de julho também ficou conhecido como o Dia dos Avós, o que combina à perfeição com o arquétipo da avó dos orixás.
Quando os africanos escravizados foram proibidos de cultuar suas divindades, eles associaram cada orixá a um santo católico para continuar reverenciando às escondidas. Nanã, a anciã sábia, a mais velha do panteão, foi naturalmente ligada a Sant’Ana, a avó por excelência. Assim, no dia em que a Igreja honrava a avó de Jesus, os terreiros saudavam a avó de todos os orixás.
Essa lógica de fazer um santo e um orixá compartilharem a mesma data organiza o ciclo inteiro das festas afro-brasileiras. Quem acompanhou o ciclo junino, por exemplo, já viu o mesmo mecanismo no sincretismo dos santos e dos orixás. O 26 de julho é mais um elo dessa corrente.
Nanã e Sant’Ana: o encontro de duas avós
Para entender a festa, ajuda conhecer o lado católico da ponte. Sant’Ana é, na tradição cristã, a mãe de Maria e, portanto, a avó de Jesus. Esposa de São Joaquim, ela aparece em textos antigos como a matriarca que educou a própria Maria. Não à toa, é venerada como protetora das avós, das mulheres que desejam ter filhos e das educadoras, e é padroeira de várias cidades brasileiras.
O que aproxima a santa da iabá não é a aparência, e sim o arquétipo: as duas encarnam a figura da anciã que guarda a memória da família, ampara as gerações e carrega a sabedoria acumulada no tempo. Sant’Ana é a raiz da árvore que dá Maria e depois Jesus; Nanã é a água parada e antiga de onde a vida brota e para onde ela retorna. Ambas são começo e amparo.
É importante dizer com clareza: sincretizar não é igualar. A tradição afro-brasileira nunca afirmou que “Nanã é Sant’Ana”. O que houve foi uma associação inteligente, um disfarce de sobrevivência que permitiu manter o axé vivo sob o manto de uma santa, como descreve o material das Raízes Espirituais sobre o sincretismo de 26 de julho. Honrar a senhora da lama nessa data é reconhecer essa história de resistência, e não fundir duas religiões em uma só.
Quem é Nanã, a mais velha das iabás
Antes de chegar à celebração, vale fixar o essencial sobre a homenageada, sem repetir aqui o perfil inteiro. Nanã Buruquê é a mais velha das iabás, a senhora das águas paradas, da lama e do barro, e a guardiã da ancestralidade. A tradição a coloca nos dois portais da existência: o nascimento, quando a vida surge da lama, e a morte, quando o corpo volta à terra. Por isso ela é cultuada como a grande anciã, a avó que tudo viu.
Diferente da maioria dos orixás de origem iorubá, a anciã tem raiz jeje-fon, vinda do antigo Daomé, atual Benin, como registra o verbete da Wikipédia sobre Nanã. É uma das divindades mais antigas do panteão, anterior a muitos cultos nagôs. No candomblé de nação angola, a mesma energia é cultuada como o inquice Nzumbarandá. Seu símbolo é o ibiri, um cetro feito de nervuras de palmeira, búzios e palha, ligado aos espíritos ancestrais.
Cores: roxo, lilás e branco | Domínios: lama, águas paradas, ancestralidade, morte como passagem | Símbolo: o ibiri | Origem: jeje-fon, do antigo Daomé | Saudação: “Saluba, Nanã!”
Da anciã descende a linhagem ligada à terra e à cura. O mais célebre de seus filhos é Obaluaê, o orixá que rege as doenças e a saúde; conhecer quem é Obaluaê, o Omulu, ajuda a entender o domínio dessa família sobre os ciclos da vida e do corpo. Para o retrato completo da iabá, com itans, qualidades e fundamentos, o caminho é o perfil de quem é Nanã.
Como celebrar e oferendar a Nanã em casa no 26 de julho
O dia de Nanã não é uma festa eufórica, e sim um momento de reverência serena: tempo de gratidão à ancestralidade, de pedir paciência e sabedoria, e de acolher os ciclos da vida. O que segue é uma referência devocional, lembrando que oferendas de fundamento se fazem sob a orientação de um pai ou mãe de santo, e que cada casa tem suas próprias práticas. Para o passo a passo geral, veja como fazer oferenda aos orixás.
A homenagem caseira costuma reunir alguns gestos simples:
- Acenda uma vela roxa ou lilás (algumas casas usam também a branca) em local limpo e tranquilo, mentalizando gratidão à avó ancestral
- Prepare uma oferenda de comidas frias e brancas, como mungunzá ou canjica branca, feijão-fradinho, batata-doce e milho cozido, dispostos em alguidar ou tigela de barro
- Use flores roxas, lilases ou brancas, que traduzem a serenidade da senhora da lama
- Saúde a iabá de cabeça baixa, como quem conversa com a própria avó, pedindo serenidade, força no luto e paciência para amadurecer decisões
Um ponto de fundamento que atravessa quase todas as casas: a anciã não recebe nada em vasilha de metal. O barro, a madeira e o bambu são os materiais da entrega, em respeito à quizila do ferro que a tradição atribui a ela. A escolha da vela certa também faz parte da reverência; o guia de velas rituais e seus significados ajuda a entender o porquê do roxo.
Saluba, Nanã! Minha avó das águas paradas, senhora da lama de onde a vida brota e para onde ela volta. Que a sua paciência me ensine a esperar o tempo certo, e que a sua sabedoria antiga me dê serenidade diante do que não posso mudar.
O que evitar no dia de Nanã
Tão importante quanto saber o que fazer é saber o que não fazer, para não desrespeitar os fundamentos da anciã. Alguns cuidados são quase consenso entre as casas:
- Não use ferro nem metal no preparo e na entrega da oferenda. A quizila do ferro é amplamente seguida, embora possa variar conforme a casa e a nação. Na dúvida, prefira barro e madeira.
- Não trate a oferenda como simpatia infalível. Honrar a senhora da lama é gesto de fé e gratidão, não uma fórmula que garante resultado. Promessa mágica não combina com o respeito que a tradição pede.
- Não confunda a data anual com o dia da semana. O ponto firme é o 26 de julho. O dia da semana dedicado à anciã varia entre as casas, com algumas indicando o domingo e outras a segunda-feira.
- Não folclorize a ligação com a morte. Nanã rege a passagem, o retorno à terra, o ciclo que se fecha para que outro comece. Isso é acolhimento e ancestralidade, jamais algo macabro ou sombrio.
Para situar o 26 de julho entre as outras festas do ano e planejar suas homenagens, vale acompanhar o calendário dos orixás, que reúne as datas de cada divindade.
Perguntas frequentes
Qual é o dia de Nanã?
O dia de Nanã é 26 de julho, data em que o catolicismo celebra Sant’Ana e que ficou consagrada à anciã dos orixás no sincretismo. O dia da semana dedicado a ela varia entre as casas, mas a data anual de homenagem é firme: 26 de julho, junto à festa de Sant’Ana.
Qual santa é sincretizada com Nanã?
Nanã é sincretizada com Sant’Ana, a mãe de Maria e avó de Jesus na tradição cristã. A associação se explica pelo arquétipo compartilhado: as duas representam a avó sábia, a ancestralidade e o amparo das gerações. O sincretismo foi uma estratégia de resistência, não uma fusão entre santa e orixá.
O que se oferece a Nanã no dia 26 de julho?
A oferenda típica reúne comidas brancas e frias, como mungunzá ou canjica branca, feijão-fradinho, batata-doce e milho cozido, servidos em alguidar de barro. Acrescentam-se flores roxas, lilases ou brancas e uma vela roxa. Nada deve ser servido em vasilha de metal, respeitando a quizila do ferro.
Por que Nanã não usa ferro?
A maioria das casas ensina que a anciã não aceita objetos de ferro nem metal. Uma leitura histórica, registrada por pesquisadores como Pierre Verger, associa isso à sua antiguidade: Nanã seria anterior à idade do ferro. Há ainda itans que ligam a quizila a um desentendimento com Ogum. A prática varia por casa.
Quem é mais velha, Nanã ou as outras iabás?
Nanã é reconhecida como a mais velha das iabás, a anciã do panteão. De origem jeje-fon e muito antiga, ela é tratada como a avó dos orixás, aquela que guarda a sabedoria acumulada no tempo. Por isso a ligação com Sant’Ana, a avó, e com o 26 de julho, que também é o Dia dos Avós.
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- Imagens de Nanã para o seu altar ou assentamento
- Velas roxas, lilases e brancas, nas cores da anciã dos orixás
- Alguidares e tigelas de barro para as oferendas, no material que a tradição pede
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Referências
- Raízes Espirituais: artigo sobre o sincretismo de 26 de julho entre Nanã e Sant’Ana
- Wikipédia: verbete sobre a orixá Nanã