A oferenda para Oxalá é a única da casa em que a lista do que não pode diz mais que a lista do que pode. Ele é o orixá funfun por excelência, e funfun quer dizer branco em iorubá.
Aqui você vê as três interdições e o porquê delas, e o que entra no lugar de cada uma. Vê também a diferença entre o prato do Oxalá jovem e o do velho, e como entregar o agrado em casa.
As três coisas que Oxalá não come
As fontes convergem numa lista curta e dura: sal, azeite de dendê e vinho de palma. Pierre Verger é citado nominalmente no verbete sobre os orixás funfun, e a formulação dele é direta: o vinho e o azeite provenientes do dendê, e o sal, são as principais interdições.
O dendê é o caso mais severo. As casas de terreiro ensinam que ele jamais deve macular as roupas, os objetos sagrados nem o alá, que é o pano branco do orixá. Não é questão de sabor, é de fundamento.
O vinho de palma tem itan próprio. Obatalá bebeu emu durante a criação dos corpos humanos e, embriagado, modelou gente de forma diferente da que pretendia. Ao ver o que fizera, jurou nunca mais tocar na bebida e assumiu para sempre a proteção dessas pessoas, que a tradição considera sagradas para ele. O mito completo está em quem é Oxalá.
O conceito por trás de tudo isso está em quizilas no candomblé. Quizila não é frescura de paladar, é aquilo que ofende o fundamento.
O que entra no lugar
Este é o ponto que quase nenhuma página explica. Nenhuma das três proibições deixa um buraco: cada uma tem substituto registrado.
- No lugar do dendê: o ori, a manteiga de karité, no fundamento da casa. No agrado doméstico, azeite doce, que é o azeite de oliva.
- No lugar do sal: nada, na maioria dos pratos. Quando a receita pede algum sabor, as fontes registram cebola ralada.
- No lugar da bebida: água limpa, servida na quartinha. O recipiente e o uso estão em o que é quartinha.
A louça também é preceito. As comidas oferecidas aos orixás funfun vão sempre em louça branca, e o mesmo cuidado vale para o alguidar, tema de alguidar para que serve.
O branco de Oxalá não é só cor. A pesquisadora Juana Elbein dos Santos lê o funfun em sentido duplo: o branco de tudo que é branco, e também o incolor, a anti substância, o nada de onde tudo começa.
Oxaguiã ou Oxalufã: dois cardápios
Oxalá não é um só, e essa partição não existe em nenhum outro orixá da série de oferendas. Ele corre em duas idades, e cada uma come uma coisa.
Oxaguiã é o Oxalá jovem, guerreiro e combativo, o que defende os injustiçados. O nome dele significa orixá comedor de inhame pilado, e o itan conta que foi ele quem inventou o pilão para preparar o prato predileto. A Festa do Pilão celebra isso, e o registro fala de canjica branca com oito bolas de inhame.
Oxalufã é o Oxalá velho, delicado e friorento, o do opaxorô, o cajado de metal branco. Ele come o ebô, a canjica de milho branco cozida só em água, sem tempero. O prato tem página própria em o que é ebô.
Na prática do agrado em casa a escolha é simples. Para honrar o jovem, o prato leva inhame cozido e amassado ou pilado. Para honrar o velho, leva a canjica, coberta com um chumaço de algodão. Quem tem casa pergunta ao dirigente qual dos dois é o seu.
Na nação angola a energia correspondente é o inquice Lembá, com culto próprio. No batuque gaúcho ele tem fundamento próprio, tema de Oxalá no batuque.
A oferenda passo a passo
O agrado doméstico é simples de propósito. Ele não substitui comida de santo, que é feita na casa com dirigente, e a distinção entre as duas coisas está em como fazer oferenda aos orixás.
- Cozinhe o milho branco só em água, sem sal e sem tempero, até ficar macio. É o ebô.
- Sirva em louça branca, um prato fundo ou um alguidar limpo, sem misturar com outra comida.
- Cubra com algodão, que é substância sagrada do orixá, e disponha ao lado flores brancas.
- Acenda uma vela branca, de sete dias quando quiser acompanhar a semana toda. Cores e uso estão em velas rituais.
- Ponha água limpa na quartinha, ao lado do prato.
- Fale o pedido em voz baixa e sem pressa, e feche saudando: Epa Babá.
Sobre quantidade, nenhuma fonte fixa medida, e desconfie de quem crava gramatura. Um prato fundo, um punhado de algodão e uma vela dão conta.
Duas divergências reais que vale conhecer. Mel na canjica é uso difundido na umbanda, mas as descrições de fundamento ketu falam em canjica limpa, sem tempero. Açúcar segue a mesma lógica. A regra unânime, em toda fonte, é apenas sem sal. O resto é preceito de casa.
O dia, o branco e o silêncio
O dia de Oxalá é a sexta-feira, consenso amplo que aparece também em dias da semana dos orixás. Uma parte minoritária das casas associa o orixá ao domingo.
Vestir branco na sexta é costume antigo, e Verger registrou que as pessoas consagradas a ele se vestem sempre de branco. É sinal de pertencimento.
E há o silêncio, que no caso de Oxalá é matéria de rito. Ele vem do itan de Oxalufã, que viajou a Oió contra o conselho do babalawo, recusou ajudar Exu no caminho e acabou preso injustamente. Quando Xangô descobriu quem era o prisioneiro, mandou soltá-lo, impôs silêncio ao reino, banhou o velho em água pura e o vestiu de branco novo.
Desse mito nasceram as Águas de Oxalá, rito que abre o ciclo litúrgico do candomblé ketu. Os filhos do axé saem do terreiro em silêncio, de branco, carregando potes e moringas para buscar água. Guarde isso como reverência, não como receita: participar exige borí ou consulta de obi, e o rito é da casa, com dirigente. Datas variam entre terreiros, e o calendário dos orixás ajuda a se situar.
O sincretismo com Nosso Senhor do Bonfim tem artigo próprio em Senhor do Bonfim e Oxalá, e não se repete aqui.
Onde entregar e como descartar
Oxalá é orixá do alto e do ar, e o agrado dele não pede mata nem cachoeira. O lugar mais citado é o alto, uma colina ou um ponto aberto, e muita gente entrega em casa mesmo, no ponto mais limpo e arejado da casa.
Deixe o prato pelo tempo que a sua casa orientar, em geral de um a três dias. Depois recolha, devolva a comida à terra, ao pé de uma árvore ou em água corrente, e lave a louça à parte. Nada de lixo comum.
Se você ainda não sabe qual é o seu orixá, comece por descubra seu orixá e leve o resultado para uma casa séria. O búzio da casa é quem confirma, e o agrado de outros orixás está na série que já traz oferenda para Oxóssi.
Perguntas frequentes
O que oferecer para Oxalá em casa?
Canjica de milho branco cozida só em água, servida em louça branca e coberta com algodão, mais flores brancas, uma vela branca e água limpa na quartinha. Se a intenção for honrar Oxaguiã, o jovem, entra inhame cozido e amassado no lugar da canjica.
Oxalá come dendê?
Não. O dendê é uma das três interdições registradas, ao lado do sal e do vinho de palma. As casas ensinam que ele não pode nem tocar o pano branco do orixá. No fundamento, quem faz o papel dele é o ori, a manteiga de karité, e em casa entra o azeite doce.
Pode pôr mel na canjica de Oxalá?
Depende da tradição. O mel é uso difundido na umbanda, e as descrições de fundamento no candomblé ketu falam em canjica limpa, sem tempero. O que nenhuma fonte permite é o sal. Se você tem casa, pergunte ao seu dirigente antes de adoçar.
Qual é o dia de Oxalá?
Sexta-feira, na maioria esmagadora das casas brasileiras, e é o dia em que muita gente veste branco. Uma parte minoritária associa o orixá ao domingo. A saudação é Epa Babá, e o símbolo é o opaxorô, o cajado de metal branco que ele carrega.
Onde despachar a oferenda de Oxalá?
Em lugar alto e arejado, como uma colina ou um ponto aberto, ou no ponto mais limpo da própria casa. Depois de um a três dias, recolha e devolva a comida à terra, ao pé de uma árvore ou em água corrente. A louça se lava à parte, e nada vai para o lixo comum.
Onde comprar o material de Oxalá
Na Joia Mística Laroyê, você acha o material do orixá da paz com procedência:
- Canjica de milho branco: o grão certo para o ebô, sem mistura
- Velas brancas: avulsas e de sete dias
- Louça branca, alguidar e quartinha de barro: para o prato e para a água
- Algodão, pemba branca e pano branco: para cobrir, marcar e forrar
- Guias de contas leitosas e imagem com o opaxorô: para o congá e para o presente
Passe na loja, na Rua Benedito Zingari, 460, Bela Vista, em Extrema-MG, ou chame no WhatsApp com entrega para todo o Brasil.
Uma palavra final. O agrado doméstico é da pessoa devota e cabe a qualquer um. Assentamento, borí e as Águas de Oxalá são da casa, feitos com dirigente, e a loja fornece o material sem substituir o fundamento de ninguém.
Referências
- Reginaldo Prandi: a página do autor na USP, com trechos de Mitologia dos Orixás e os mitos de Oxalá, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
- Wikipédia: o verbete dos orixás funfun, que cita Verger nas interdições e Juana Elbein dos Santos no duplo sentido do branco
- Wikipédia: o verbete de Oxaguiã, com o inhame pilado, a Festa do Pilão e a canjica com oito bolas
- Wikipédia: o verbete das Águas de Oxalá, com a procissão em silêncio e a exigência de borí para participar