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Candomblé 10 min de leitura

Quizila no Candomblé: O que é e 7 preceitos importantes

Quizila é a proibição ritual que o filho de santo guarda no candomblé e, no português comum, antipatia. Veja a tabela de quizilas de cada orixá, de Exu a Oxalá.

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Assentamento de axé sobre esteira de palha com quartinhas de barro e alimentos cobertos, sugerindo os preceitos do candomblé.

Resumo

Quizila (ou ewó, ou kijila) é a proibição ritual que o filho de santo guarda no candomblé: comida, bebida, cor ou atitude que o seu orixá não aceita. No português comum, a mesma palavra quer dizer antipatia, implicância ou briga.

Cada orixá tem as suas: abóbora e carneiro para os filhos de Iansã, mel para os de Oxóssi, dendê e vinho de palma para os de Oxalá, faca de metal para os de Nanã. A lista muda de casa para casa.

Quebrar uma quizila é sentido no corpo, como mal-estar ou alergia, e não como castigo. Quem orienta o que fazer é o zelador da sua casa.

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10 min de leitura

Quizila é a proibição ritual que o filho de santo guarda no candomblé: comida, bebida, cor ou atitude que o seu orixá não aceita, como a abóbora para os filhos de Iansã. No português comum, a palavra também quer dizer antipatia, implicância ou briga.

Os dois sentidos vêm da mesma raiz, a palavra kijila do quimbundo, língua banto de Angola. Abaixo estão o significado religioso e o comum, a tabela de quizilas de cada orixá e o que acontece quando uma quizila é quebrada.


O que é quizila: significado religioso e significado comum

No candomblé, quizila é o interdito que o iniciado respeita para não enfraquecer o seu axé, a força vital que a iniciação firmou na cabeça dele. Pode ser um alimento, uma bebida, uma cor de roupa, um lugar ou um gesto. Fora do terreiro, quizila é palavra do dicionário e quer dizer antipatia sem motivo, aborrecimento ou desavença.

Origem: quimbundo kijila, “preceito de jejum, interdito” | Classe: substantivo feminino | Variantes: quizília, quezila | Nomes nas nações: quizila ou kijila (Angola), ewó ou èèwò (Ketu)

O Dicio registra os dois lados. Na língua de todo dia, quizila é antipatia natural por algo ou alguém, impaciência ou discussão. Na religião, é a aversão a certos alimentos ou comportamentos. O dicionário banto de Nei Lopes, citado no estudo da Fiocruz, acrescenta o verbo quizilar, importunar, e quizilento, a pessoa implicante. Quem diz “fulano está de quizila comigo” está usando a palavra no sentido comum.

No terreiro, a melhor imagem é a da alergia. Um estudo publicado na Revista de Alimentação e Culturas das Américas, feito num candomblé de nação angola, ouviu filhos de santo que descrevem a quizila como algo que o corpo sente: dificuldade de digestão, tontura, alergia, passar mal só com o cheiro do alimento. Como resumem as autoras:

“A quizila manifesta-se fora do terreiro como alergia.”

Por isso a quizila não é castigo nem punição da divindade. Ela é preceito de cuidado, e o filho de santo a respeita como parte da relação com o seu orixá de cabeça.


Quizila, ewó e kijila: o nome muda com a nação

Quizila, ewó e kijila são nomes da mesma ideia em línguas diferentes. O candomblé brasileiro juntou povos de origem banto e iorubá, e cada nação guardou a sua palavra.

Nas casas de Angola e Congo, de origem banto, o termo é kizila ou kijila. O estudo da Fiocruz explica que kijila vem do verbo jila, jejuar, com o prefixo ki. Nessas casas a quizila se relaciona com os inquices, as divindades bantu, que você conhece melhor em o que é um nkise.

Na nação Ketu, de língua iorubá, o nome é èèwò, grafado no dia a dia como ewó. O sentido é o mesmo: aquilo que não se come, não se toca e não se faz por respeito ao orixá. O panorama das casas está em nações do Candomblé.

Com o tempo, quizila virou a palavra mais popular em todas as nações, inclusive na umbanda, onde a ideia aparece com outros nomes em preceitos na umbanda. Alguns terreiros que guardam esse saber estão entre os tombados pelo IPHAN.


Tabela de quizilas de cada orixá

A quizila de cada orixá é o tabu que vale para os filhos dele. A tabela abaixo segue a lista de tabus dos filhos publicada pelo sociólogo Reginaldo Prandi para o candomblé de nação Ketu, com outras quizilas que aparecem registradas em casas diferentes.

OrixáTabu dos filhos (Prandi, nação Ketu)Outras quizilas registradas em casas
Exucarregar objetos na cabeçaexcesso de água e de mel
Ogumembebedar-sequiabo, manga-espada
Oxóssicomer meltangerina, coco, caça
Ossaimassobiar
Oxumarêrastejarcarne de ganso
Omolu (Obaluaê)ir a funeraiscaranguejo e crustáceos, abacaxi, carne de porco
Xangôcontato com mortos e cemitérios; vestir-se de vermelho
Iansã (Oyá)comer carneiro ou ovelha; comer abóboraarraia, manga-rosa
Obácomer cogumelos; usar brincos
Oxumcomer peixe de escamasovos, melancia
Logun Edéusar roupa marrom ou vermelha
Euácomer aves fêmeas
Iemanjácomer caranguejo; matar camundongo ou baratacarne de pato
Nanãusar facas de metaltaioba, caranguejo
Oxalácomer comida com dendê; beber vinho de palma; usar roupa não branca às sextas-feiras

A segunda coluna junta registros de casas diferentes e não vale para todo terreiro. A sua lista quem confirma é o seu zelador, nunca uma página de internet.


As 7 quizilas mais citadas e o que elas significam

Algumas quizilas aparecem em quase toda conversa de terreiro e têm uma história por trás. Estas são as sete mais procuradas, com o que as fontes registram.

1. Iansã: a abóbora e o carneiro

A quizila de Iansã mais conhecida é a abóbora, e a segunda é o carneiro. O itã conta que Oyá, perseguida, foi denunciada por um carneiro e se escondeu num abobral, e a plantação a acolheu. Por gratidão os filhos dela não comem abóbora, e o carneiro sai do prato por causa da traição. Algumas casas acrescentam a arraia. O temperamento e os caminhos dos filhos dela estão em filhos de Iansã, e o que se oferece a ela em oferenda para Iansã.

2. Oxalá: o dendê, o vinho de palma e a roupa branca

Oxalá é o orixá do branco e da calma, e o seu tabu mais firme é o azeite de dendê. Prandi registra também o vinho de palma e a roupa que não seja branca às sextas-feiras, o dia dele. Por isso a comida de Oxalá é feita sem dendê, e o filho de Oxalá veste branco na sexta.

3. Oxóssi: o mel

O mel é quizila de Oxóssi, e não de Ogum, como muito texto repete. O registro aparece tanto na tabela de Prandi quanto em casas de nações diferentes. Há casas que somam a tangerina e certas caças. O agrado ao caçador está em oferenda para Oxóssi.

4. Ogum: o quiabo e a embriaguez

A quizila de Ogum mais contada nos terreiros é o quiabo, e algumas casas somam a manga-espada. Na tabela de Prandi, o tabu dos filhos de Ogum é se embebedar. O itã que explica o quiabo está em oferenda para Ogum.

5. Xangô: os mortos, e não o quiabo

O quiabo é a comida de Xangô, a base do amalá, e por isso não entra na lista de quizilas dele. O tabu registrado para os filhos de Xangô é o contato com mortos e cemitérios, ao lado de vestir-se de vermelho. Algumas casas, porém, proíbem o filho de comer a comida do próprio orixá, porque ela é sagrada para ele. Augras, citada no estudo da Fiocruz, chama isso de proibição de “comer do mesmo material de que a cabeça é feita”. O resto está em filhos de Xangô e em egum no candomblé.

6. Iemanjá e Oxum: o caranguejo e o peixe de escama

Os filhos das águas evitam bichos das águas. Para os de Iemanjá, Prandi registra o caranguejo, e para os de Oxum, o peixe de escamas. Em muitas casas o ovo também é quizila dos filhos de Oxum, justamente por ser comida votiva dela. O caranguejo é tido por várias casas como quizila de todos: o estudo da Fiocruz o liga a Omolu, que no mito foi ferido pelos caranguejos no mangue.

7. Nanã: a faca de metal

Nanã é a orixá da lama e da ancestralidade, e a sua quizila é o metal. Prandi registra o tabu de usar facas de metal. Nas casas que seguem essa regra, nada que é de Nanã passa por lâmina de metal. O que isso muda no preparo está em oferenda para Nanã.


Os tipos de quizila no terreiro

Nem toda quizila vale para todo mundo. O estudo da Fiocruz separa três tipos, e a tabela de Prandi mostra um quarto, o do orixá:

  • Quizila de terreiro (coletiva): vale para todos os filhos da casa, por causa do orixá ou inquice que rege o terreiro. No candomblé angola estudado pela Fiocruz, o abacaxi é “a quizila maior do terreiro”, porque é a fruta que a inquice Kisimbi rejeita.
  • Quizila do orixá: é a lista geral ligada a cada divindade, como a abóbora para os filhos de Iansã ou o dendê para os de Oxalá.
  • Quizila pessoal: é a que o filho de santo recebe para si, ligada ao orixá da cabeça e aos caminhos dele. Duas pessoas do mesmo orixá podem ter listas diferentes, e algumas só aparecem depois da iniciação, quando certos pratos começam a fazer mal.
  • Resguardo (quizila temporária): vale por um tempo marcado, depois de um bori, de um ebó de limpeza ou durante a iniciação do iaô. Entenda o bori em o que é bori.

O que acontece se uma quizila for quebrada

Quem quebra uma quizila costuma sentir no corpo: mal-estar, enjoo, alergia. Os filhos de santo ouvidos nas pesquisas falam em passar mal, e um zelador relata que há quem coma caranguejo e “vai parar no hospital”. A quizila mais perigosa, segundo algumas casas, é a que não dá sinal na hora.

A quebra acidental é comum, sobretudo fora de casa, onde nem sempre se sabe o que vai no prato. O caminho é simples:

  1. Não entre em pânico: a quebra por engano não pesa como a quebra por desrespeito.
  2. Avise o seu zelador: a ialorixá ou o babalorixá avalia a situação e diz o que fazer.
  3. Siga o que a casa indicar: pode ser um banho de folhas, um resguardo ou uma limpeza. Quem escolhe a folha e o tempo é o zelador, porque isso varia de casa para casa.

Perguntas frequentes

O que significa quizila?

No candomblé, quizila é a proibição ritual que o filho de santo guarda por causa do seu orixá, seja alimento, bebida, cor ou atitude. No português comum, quizila é antipatia, implicância ou briga. As duas acepções vêm do quimbundo kijila, que quer dizer interdito.

Qual é a quizila de Iansã?

A quizila de Iansã mais conhecida é a abóbora, e a segunda é a carne de carneiro ou ovelha. Pelo itã, a abóbora a escondeu e o carneiro a denunciou. Algumas casas também incluem a arraia.

Quizila e ewó são a mesma coisa?

São. Quizila, ou kijila, é o nome banto, usado nas casas de Angola. Ewó, ou èèwò, é o nome iorubá, usado nas casas de Ketu. Hoje quizila é a palavra mais comum em todas as nações.

O que acontece se quebrar uma quizila?

O filho de santo costuma sentir no corpo, com mal-estar, enjoo ou alergia. Não é vingança do orixá. O certo é avisar o zelador, que indica o banho ou o resguardo da sua casa.

Como descobrir minhas quizilas?

As quizilas gerais de cada orixá são ensinadas no terreiro. As pessoais aparecem no jogo de búzios, feito pelo babalorixá ou pela ialorixá, ou durante a iniciação.


Referências

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