A compreensão sobre o que é uma quizila no candomblé é fundamental para entender a dinâmica de axé e respeito que sustenta a religião de matriz afro-brasileira. Longe de ser um castigo ou punição imposta pelas divindades, a quizila funciona como um preceito de proteção energética essencial para a saúde e o equilíbrio espiritual do iniciado. Ao longo da vida religiosa, cada filho-de-santo aprende a respeitar essas restrições como um pacto de amor e reverência ao seu Orixá regente.
Este guia prático explica a etimologia do termo, as diferenças de aplicação entre as nações, as proibições mais comuns associadas aos Orixás e como proceder em caso de quebra acidental.
O que é quizila e qual a sua verdadeira função no axé
Na vivência dos terreiros, a quizila no candomblé refere-se a um conjunto de restrições, tabus ou interdições que o iniciado deve observar para preservar a integridade do seu axé, que é a sua força vital. Quando uma pessoa passa pelo ritual de iniciação, seu corpo espiritual é consagrado e torna-se um receptáculo da divindade. A partir desse momento, estabelece-se uma relação de profunda sintonia energética entre o iniciado e o Orixá.
Para entender a função das quizilas, a melhor analogia prática é a de uma alergia espiritual. Assim como uma pessoa com intolerância alimentar sofre reações físicas ao consumir determinado alimento, o iniciado de candomblé apresenta uma incompatibilidade energética ao entrar em contato com substâncias, cores ou comportamentos que agridem a vibração do seu Orixá de cabeça. Não se trata de uma proibição sem lógica, mas sim de uma salvaguarda para evitar choques energéticos que possam debilitar a saúde física e mental do religioso.
Portanto, a transgressão de uma quizila não gera um castigo divino. O Orixá não pune o filho por raiva ou vingança. A consequência de quebrar uma quizila é o enfraquecimento temporário do axé pessoal, que pode se manifestar em sintomas físicos como mal-estar, dores no corpo, alergias na pele ou desequilíbrios emocionais e espirituais no cotidiano do iniciado.
As diferenças entre quizila, ewó e kizila nas nações
Embora o candomblé brasileiro use o termo quizila de maneira generalizada, a sua origem linguística revela a rica diversidade cultural das diferentes nações que compõem a religião.
Na nação Ketu, de tradição iorubá, o termo correto para essas proibições é èwò (frequentemente grafado como ewó). O èwò é o tabu sagrado, aquilo que não deve ser tocado, comido ou praticado de acordo com a mitologia de cada divindade. O conhecimento dos èwòs é resguardado pelas ialorixás e babalorixás, que orientam os filhos conforme as qualidades específicas dos Orixás reveladas no jogo de búzios. Você pode aprofundar essa relação no nosso artigo sobre as nações do Candomblé.
Já nas nações Angola e Congo, de origem bantu, a palavra utilizada é kizila (ou kijila), originária da língua quimbundo. Nas casas de Angola, as kizilas aplicam-se à relação com os inquices, as divindades bantu. Para compreender a diferença conceitual e litúrgica dessas divindades, confira nosso texto detalhado sobre o que é um nkise. Nas casas da nação Jeje, originárias da cultura fon do antigo Daomé, essas interdições são conhecidas como gbo.
No Brasil da diáspora, as línguas africanas misturaram-se e a palavra quizila acabou se tornando o termo mais popular para englobar todas as restrições rituais, independentemente de a casa seguir a tradição Ketu, Jeje ou Angola. No entanto, compreender essa distinção linguística é um ato de respeito às origens históricas de cada terreiro, muitas das quais são registradas como patrimônio imaterial pelo IPHAN.
Os quatro tipos de quizilas no terreiro
As interdições não são idênticas para todos os praticantes do candomblé. Elas dividem-se em quatro categorias principais que organizam a rotina da comunidade religiosa:
- Quizilas Coletivas (de Terreiro): São as proibições instituídas pelo fundador da casa e que devem ser seguidas por todos os filhos e visitantes daquele espaço. Por exemplo, no Ilê Axé Opô Afonjá, terreiro tradicional de Salvador, é estritamente proibida a entrada de abóbora devido a um fundamento sagrado ligado à história da casa e ao Orixá Iansã.
- Quizilas do Orixá: São as restrições gerais associadas a cada divindade. Todos os filhos de Oxalá, por exemplo, compartilham certas quizilas básicas como o azeite de dendê e o uso de roupas escuras.
- Quizilas Pessoais (de Feitura): São interdições específicas que o iniciado recebe individualmente no momento de sua iniciação ou durante consultas ao jogo de búzios. Duas pessoas iniciadas para o mesmo Orixá podem ter quizilas pessoais completamente diferentes, baseadas em seus respectivos caminhos espirituais (odu).
- Resguardos (Quizilas Temporárias): São interdições válidas apenas por períodos determinados, como durante o período de iniciação (iaô), após a realização de uma obrigação de anos, ou durante a execução de ritos de cura e limpeza. Se você quer entender como essas energias são movimentadas de forma geral, leia nosso guia sobre como fazer oferendas aos Orixás.
7 quizilas comuns no Candomblé e seus significados
Abaixo, listamos sete das quizilas mais tradicionais observadas nas casas de candomblé do Brasil, explicadas conforme os fundamentos litúrgicos e as narrativas míticas (itãs):
1. Oxalá: o azeite de dendê, o sal e o álcool
O Orixá da criação representa a paz, a pureza e a frieza ritual. Por esse motivo, os filhos de Oxalá têm como principal quizila o azeite de dendê, um óleo quente que acelera as energias, colidindo com a natureza calma da divindade. O sal em excesso e as bebidas alcoólicas também são evitados para manter a mente clara. O uso de roupas pretas ou escuras é restrito, priorizando-se sempre o branco. Essas restrições básicas são amplamente documentadas na obra clássica de Reginaldo Prandi, Mitologia dos Orixás. Para entender melhor os rituais com velas dedicados a este Orixá, veja nosso artigo sobre velas rituais e suas cores.
2. Iansã (Oyá): a abóbora e o carneiro
Uma das quizilas mais famosas da nação Ketu envolve os filhos de Iansã e a abóbora. Segundo o itã histórico, Iansã escondeu seus filhos dentro de uma abóbora gigante para salvá-los da morte durante uma batalha. Em sinal de gratidão e respeito à planta que salvou sua linhagem, os filhos de Iansã não comem abóbora. A carne de carneiro também é proibida por pertencer aos fundamentos de adoração da divindade dos ventos.
3. Oxum: a carambola e a tangerina
A senhora das águas doces e da fertilidade proíbe o consumo da carambola e da tangerina (mexerica) para seus filhos. A carambola é evitada devido ao seu formato de estrela e sua acidez, que afetam negativamente as energias de doçura associadas a Oxum. Conforme os estudos do etnólogo Pierre Verger em Orixás, o consumo de ovos também é considerado quizila por representar o útero e o princípio da fertilidade que a divindade protege.
4. Ogum: o peixe de pele e o caranguejo
Os filhos do guerreiro Ogum evitam o consumo de peixes de pele, como o bagre e a arraia. Esses peixes habitam o fundo lamacento dos rios e possuem defesas que colidem com a energia direta e metálica de Ogum. O caranguejo também entra na lista de interdições por andar para trás e de lado, o que contraria a determinação de Ogum de sempre avançar nos caminhos da vida.
5. Xangô: o quiabo e a carne de carneiro
Embora o quiabo seja o ingrediente principal do amalá (a comida sagrada de Xangô), em algumas qualidades específicas deste Orixá, o consumo do quiabo pelo iniciado é considerado quizila pessoal para manter o equilíbrio litúrgico. A carne de carneiro é outra proibição rígida de Xangô, estando diretamente ligada a relatos mitológicos sobre a partilha de oferendas entre os Orixás.
6. Iemanjá: a carne de carneiro e o peixe de escama
A Rainha do Mar proíbe seus filhos de consumirem a carne de carneiro. O carneiro é um animal de temperamento quente e confrontador, o que entra em conflito com a energia de acolhimento maternal de Iemanjá. Algumas qualidades de Iemanjá também exigem restrições a peixes que habitam águas muito profundas ou específicas de estuários.
7. Nanã: o uso do ferro e de metais
Nanã Buruquê, a Orixá mais velha associada à lama e à ancestralidade, tem quizila com o ferro e os metais em geral. Essa interdição remete a um itã antigo sobre a disputa entre Nanã e Ogum. Por conta disso, os rituais dedicados a Nanã utilizam utensílios de barro, madeira ou casca de coco, evitando-se o uso de facas ou ferramentas metálicas para cortar suas oferendas.
O que acontece se uma quizila for quebrada acidentalmente
A quebra acidental de um preceito é um fato comum na rotina dos praticantes de candomblé, especialmente em ambientes urbanos onde o controle sobre os ingredientes dos alimentos é menor. O mais importante nessas situações é manter a calma e agir com responsabilidade.
“A quizila não afasta o Orixá por raiva, mas sim por incompatibilidade de axé. Respeitar a quizila é zelar pela sua própria força espiritual.”
Caso você perceba que consumiu um alimento proibido ou cometeu um ato que infringe suas quizilas, siga os passos recomendados pela tradição:
- Não entre em pânico: Lembre-se de que a intenção é parte fundamental da liturgia. A quebra acidental não carrega a mesma carga espiritual de uma quebra deliberada e desrespeitosa.
- Comunique o seu zelador: A ialorixá ou o babalorixá de sua confiança deve ser informado. Esses dirigentes possuem a sabedoria necessária para avaliar a situação e recomendar o procedimento correto.
- Tome um banho de folhas adequado: Geralmente, a quebra de quizila é remediada com banhos de ervas frias (como o manjericão ou a colônia) prescritos pelo seu zelador para reequilibrar o axé.
- Faça o resguardo necessário: Em alguns casos, pode ser recomendado um breve período de repouso ritual, evitando o consumo de carne vermelha e abstendo-se de bebidas alcoólicas por 24 ou 48 horas.
Perguntas frequentes
O que é quizila no candomblé?
Quizila é uma interdição ou proibição ritual que visa proteger o axé (energia vital) do iniciado. Ela funciona como uma incompatibilidade energética entre o corpo espiritual da pessoa e certas substâncias, comportamentos ou alimentos.
O que acontece se quebrar uma quizila?
A quebra de uma quizila debilita temporariamente o axé do iniciado, podendo causar sintomas físicos como mal-estar e alergias, além de desequilíbrios espirituais no dia a dia. Não há punição física ou castigo vingativo do Orixá.
Como descobrir minhas quizilas?
As quizilas coletivas e gerais dos Orixás são explicadas no terreiro, enquanto as quizilas pessoais são reveladas pelo babalorixá ou ialorixá através do jogo de búzios ou durante a iniciação espiritual do filho-de-santo.
Referências
- IPHAN: Patrimônio imaterial e o registro de terreiros de matriz africana
- Reginaldo Prandi (Companhia das Letras): Mitologia dos Orixás
- Pierre Verger: Orixás, deuses iorubás na África e no Novo Mundo