Acender vela para as almas é gesto de segunda-feira, o dia que o catolicismo popular dedica às almas. Faz-se em casa, na igreja ou aos pés do cruzeiro do cemitério, e nenhuma fonte consultada fixa uma cor obrigatória nem um número de velas.
O que muda é para quem a vela vai. Na devoção católica, ela acompanha a reza pelas almas do purgatório. Na umbanda, ela vai para a linha das almas e para os pretos-velhos, e o jeito certo de fazer é o da casa que você frequenta.
Acender vela para as almas: a resposta curta
Dia: segunda-feira | Onde: em casa, na igreja ou no cruzeiro das almas | Cor mais registrada: branca (algumas casas usam branca e preta) | Quantas velas: nenhuma fonte fixa
Em 2026 as duas datas se encontram. O Dia de Finados, 2 de novembro, cai numa segunda-feira, o próprio dia das almas. O que cada tradição faz nessa data está no guia do dia de finados na umbanda.
Antes de acender, responda para quem é a vela: para as almas em geral, para um parente, para as 13 almas benditas ou para a linha das almas do terreiro. Na devoção católica, quem orienta é a reza. Na umbanda, é o dirigente da sua casa.
Por que segunda-feira é o dia das almas
A segunda-feira não é invenção de terreiro nem só costume de avó. A pesquisadora Michelle Ferreira Maia estudou a devoção popular em São Benedito, no Ceará, para a revista Mneme, da UFRN. Ela registra que as almas benditas “são cultuadas principalmente na segunda-feira, que é o dia das almas”.
Maia cita ainda o antropólogo Oscar Calavia Sáez, para quem a segunda é um “dia consagrado pela Igreja ao culto das almas”. É citação de segunda mão, e assim deve ser lida. O ponto dela é outro: a data tem raiz católica, e não só popular.
A umbanda herdou a data e deu a ela mais camadas. Num terreiro de Ribeirão Preto estudado pela USP, o dirigente explica que a segunda é o dia dos pretos-velhos, “que é a energia das almas”. O pesquisador anota que, na mesma casa, a segunda também é dia de Exu e de Obaluaê.
Em Vitória (ES), a pesquisadora Barbara Thompson ouviu o mesmo cruzamento. Para os umbandistas entrevistados, a segunda é dia de Exu; para os católicos, é dia das almas. Ela chama isso de “compartilhamento simbólico” entre as duas religiões.
Almas do purgatório, almas benditas e as 13 almas
Nem toda alma recebe a vela pelo mesmo motivo. A pesquisa de Maia separa dois grupos no catolicismo popular.
- As almas que pedem reza. São as do purgatório, que recebem rezas e missas para a salvação. A vela, aqui, acompanha o sufrágio.
- As almas que concedem graças. Estão, na fala dos devotos, “num lugar de luz superior” e ajudam quem pede a sua intercessão.
A expressão “almas aflitas” aparece muito na busca, mas as fontes consultadas não a usam. O que elas descrevem, com outro nome, é o primeiro grupo: as almas que ainda precisam de oração.
A vela para as 13 almas benditas
As 13 almas benditas e santas são, segundo Maia, o caso mais conhecido do segundo grupo. A oração circula em folheto de editora religiosa de São Paulo. A pesquisadora observa que é uma exceção: devoção popular que a oficialidade católica reconhece.
O folheto não pede 13 velas. Ele termina assim:
“Reza-se 13 Pai Nosso e 13 Ave Maria, 13 dias.”
Folheto das 13 almas benditas, transcrito por Michelle Ferreira Maia, Mneme, UFRN, 2011
São 13 orações por 13 dias. Quem acende uma vela junto com a reza faz um gesto de devoção, e o número de velas fica por conta de quem reza.
E a origem? Circula que a devoção nasceu do incêndio do Edifício Joelma, em São Paulo, em 1974. A EBC confirma que há devoção às “treze almas do Joelma”: 13 vítimas nunca identificadas, enterradas lado a lado no cemitério de Vila Alpina. Mas não diz que a oração nasceu ali. A origem da oração não está esclarecida nas fontes consultadas.
A umbanda também usa o número. No terreiro de Ribeirão Preto estudado pela USP, existe a “corrente das treze almas” dentro da linha das almas. É registro de uma casa.
Na umbanda, a vela vai para a linha das almas e os pretos-velhos
No terreiro, acender vela para as almas é trabalho da linha das almas, e quem conduz essa linha são os pretos-velhos. O dirigente da casa de Ribeirão Preto diz assim, na pesquisa de Rafael de Nuzzi Dias: “a casa das almas é uma devoção da linha dos pretos-velhos”. Quem trabalha nessa linha, e por que ela muda de casa para casa, está em linha das almas na umbanda.
A mesma dissertação da USP descreve a casa das almas daquele terreiro, ao lado da tronqueira:
- uma cruz de aroeira cravada no chão de terra, com um rosário pendurado;
- uma quartinha de barro com água do lado direito da cruz;
- um cachimbo e um alguidar;
- uma vela branca, que o dirigente “repõe diariamente”.
Isso é o que uma casa faz, não uma receita: há ali um fundamento enterrado que só o dirigente conhece. Montar casa das almas é assunto do seu pai ou mãe de santo.
A cor também varia. No cruzeiro de Vitória, os pretos-velhos recebem vela branca e preta, segundo a pesquisa de Thompson. Outras casas ficam só com a branca. O uso e as ervas da bicolor estão na ficha da vela preta e branca. Se ainda ficou em dúvida sobre a cor, o teste de qual vela acender ajuda a começar.
Na gira, os pretos-velhos costumam ser saudados com uma frase que o historiador Lourival Andrade Júnior registra como corrente “na maioria dos terreiros de Umbanda no Brasil”: “Adorei as almas”.
Em casa, na igreja ou no cemitério: onde acender
Nenhuma fonte consultada proíbe acender vela para as almas dentro de casa, nem obriga a ir ao cemitério. Maia registra que as intenções às almas se fazem “nas igrejas, mas na mesma medida em casa, em seu reduto particular e familiar”.

Em casa. A vela fica num lugar fixo, firme e seguro, longe do quarto. Muita gente põe um copo d’água ao lado. É costume que circula, mas a fonte que encontramos fala de outra coisa: a quartinha com água na casa das almas de um terreiro.
Na igreja. É onde se marcam e se celebram as intenções pelas almas, segundo a mesma pesquisa. A vela, ali, segue a regra da paróquia.
No túmulo. Para a Arquidiocese do Rio, as velas acesas nos túmulos simbolizam a fé na ressurreição dos mortos. E também a esperança de que as almas descansem em paz junto de Deus.
No cruzeiro. Thompson descreve o cruzeiro das almas do cemitério Santo Antônio, em Vitória, como uma grande cruz branca a cujos pés as pessoas acendem velas para todas as almas. Ali o cruzeiro permite lembrar também quem foi enterrado em outros cemitérios. A história dessa cruz está em cruzeiro das almas.
Nesse cemitério há dois cruzeiros, um da linha branca e outro de Exu, ou linha preta, e a autora avisa que isso só acontece em alguns lugares. Na pesquisa, a oferenda aos pretos-velhos vai ao cruzeiro branco.
Pode acender vela de 7 dias para as almas?
Pode. Nenhuma fonte consultada proíbe, e a vela de sete dias serve à intenção de quem acende. O que muda é o cuidado: são dias de chama acesa, e alguém precisa estar por perto o tempo todo. O passo a passo, do plástico ao prato, está em como acender vela de sete dias. Se a sua casa pediu a vela por sete dias, combine com o dirigente onde ela fica e quem cuida.
A vela no Dia de Finados
No 2 de novembro, o cemitério se enche de vela. Em São Benedito, uma devota contou a Maia como fica o túmulo mais visitado da cidade: “dia de finados as velas correm do túmulo para o chão”.
Para a Igreja, a vela no túmulo é sinal da luz da ressurreição e da vida eterna. Para a umbanda estudada em Vitória, o dia tem outra camada. Thompson registra que, “especialmente no dia dois de novembro”, umbandistas deixam oferenda no cruzeiro e nas lápides, enquanto católicos rezam pelos seus mortos e pelas almas do purgatório.
Ela anota ainda a ordem do gesto nos túmulos cultuados: “o primeiro a ser feito é acender as velas”. A oferenda vem depois.
Aqui vale a regra da casa. Acender vela no túmulo de um parente é devoção de qualquer pessoa. Oferenda e trabalho no cemitério são assunto de terreiro, com dirigente, e não de artigo. O que a umbanda, a quimbanda e o candomblé fazem, e o que não fazem, no 2 de novembro, está no guia do Dia de Finados na umbanda.
O que não fazer ao acender vela para as almas
A maior parte dos erros com vela é de segurança, não de fundamento. As orientações abaixo são da U.S. Fire Administration, agência federal de bombeiros dos Estados Unidos, e da cartilha do Corpo de Bombeiros de Goiás.
- Não deixe vela acesa sem ninguém por perto. A agência americana manda apagar ao sair do cômodo ou de casa, e ao ir dormir.
- Não acenda no quarto nem no banheiro. A mesma agência pede nada de vela acesa em quarto, banheiro e área de dormir.
- Não use suporte bambo. A vela vai num suporte estável, onde não possa ser derrubada.
- Não acenda perto de pano. São cerca de 30 cm de tudo o que queima. Os bombeiros de Goiás descrevem a cena clássica: vento move a cortina, ela encosta na chama. Longe de cortina, tapete e toalha.
E há o que não fazer por respeito:
- Não trate a vela como troca. Vela para as almas acompanha reza e lembrança. Não é pagamento por um pedido, e nenhuma fonte promete resultado.
- Não copie o cruzeiro do terreiro em casa. A casa das almas descrita pela USP tem fundamento da casa. Isso se monta com o dirigente.
Para as almas, a vela acompanha a reza. Quem acende cuida da chama até o fim, ou apaga e reacende depois.
Perguntas frequentes
Pode acender vela para as almas dentro de casa?
Pode. A pesquisa de Maia, na UFRN, registra que as intenções às almas se fazem nas igrejas e também em casa. Escolha um lugar firme, longe de cortina e fora do quarto, e apague a vela quando sair do cômodo ou for dormir, como orientam os bombeiros.
Qual a cor da vela para as almas?
Nenhuma fonte consultada fixa uma cor obrigatória. A branca é a mais registrada: numa casa de umbanda estudada pela USP, o dirigente repõe uma vela branca todo dia na casa das almas. Em Vitória, os pretos-velhos recebem vela branca e preta no cruzeiro. Siga a orientação da sua casa.
Quantas velas acender para as 13 almas benditas?
O folheto da oração, transcrito em pesquisa da UFRN, não fala em velas. Ele pede 13 Pai-Nossos e 13 Ave-Marias, rezados por 13 dias. São 13 orações, não 13 velas. Quem acende vela junto faz um gesto de devoção, e a quantidade fica por conta de quem reza.
Qual o melhor dia para acender vela para as almas?
A segunda-feira, dia das almas no catolicismo popular. Na umbanda, a segunda também é o dia dos pretos-velhos em muitas casas. Em 2026, o Dia de Finados, 2 de novembro, cai justamente numa segunda-feira, e junta as duas datas.
Vela branca, vela preta e branca, vela de sete dias, quartinha, rosário e imagem de preto-velho estão na loja em Extrema-MG. Se a sua casa pediu material para a segunda das almas ou para o 2 de novembro, é só chamar no WhatsApp da Joia Mística Laroyê.
Referências
- MAIA, Michelle Ferreira. “Entre o pedido e o recebido”. Mneme: Revista de Humanidades, UFRN, v. 11, n. 29, 2011. Artigo em PDF
- THOMPSON, Barbara. “Nos portões, lápides e cruzeiros das almas: rituais de Umbanda no cemitério público Santo Antônio, em Vitória-ES”. Anais do IV Seminário de Ciências Sociais PGCS-UFES, 2019. Artigo em PDF
- DIAS, Rafael de Nuzzi. Correntes ancestrais: os pretos-velhos do Rosário. Dissertação de mestrado, USP Ribeirão Preto, 2011. Texto integral
- ANDRADE JÚNIOR, Lourival. “Adorei as almas: Umbanda, Preto-velho e escravidão”. Anais do XXVII Simpósio Nacional de História, ANPUH, 2013. Artigo em PDF
- Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro. O Dia de Finados na Igreja Católica
- EBC, 2024. Caminhos da Reportagem aborda 50 anos do incêndio do Edifício Joelma
- U.S. Fire Administration (FEMA). Candle fire safety
- Corpo de Bombeiros Militar do Estado de Goiás. Cartilha de prevenção de acidentes domésticos