A festa de batuque é a parte pública da religião, o dia em que a casa abre as portas e a comunidade entra. O resto do ciclo, que corre o ano inteiro, acontece a portas fechadas.
Este guia mostra o que acontece no salão, do adjá que abre até o mercado que se leva para casa. E o que se faz, e o que não se faz, se você foi convidado.
O que é a festa, e o que fica de fora dela
A palavra batuque nomeia três coisas ao mesmo tempo: o toque do tambor, a festa, e a religião inteira. Por isso o povo de santo diz “vou num batuque no sábado” sem precisar explicar mais nada. As casas também chamam a cerimônia pública de toque.
O que você vê na festa é uma peça de um ciclo maior. Reginaldo Gil Braga organizou esse ciclo em cerimônias fixas e móveis. Entre as móveis estão o serão, a festa, a levantação da festa, o peixe, o passeio e a terminação. O serão é fechado, só para iniciados.
O pesquisador Leo Moraes, da UFRGS, registra a fala de dentro que resume isso melhor que qualquer definição: o batuque é todo o processo que corre o ano, e a festa é apenas a parte visível do iceberg. Se você ainda não sabe o que é a religião, comece por o que é o Batuque.
A casa por dentro: salão, peji e pagodô
O terreiro gaúcho quase sempre é casa de morar, com um cômodo separado para o santo.
- Salão: a peça grande onde a festa acontece. A porta dá para a rua, em referência a Bará, a quem se pede licença primeiro.
- Peji ou quarto de santo: cômodo anexo com os assentamentos, as comidas e as oferendas. É ali que moram de fato os orixás. Veja o que é o peji.
- Pagodô: a arquibancada elevada num canto, lugar ritual dos tamboreiros. O nome é próprio do batuque.
- Casinha do Lodê: na frente do terreno, guarda os assentamentos de Bará Lodê e Ogum Avagã.
- Igbalé: nos fundos, para os rituais de egum, acessado só em ocasião específica.
Casa mais simples improvisa: tira os móveis da sala no dia e transforma o cômodo em salão. Festa boa não depende de salão grande.
A chamada e a roda de rezas, de Bará a Oxalá
A festa começa com a chamada. O dirigente se ajoelha em frente ao quarto de santo e toca o adjá, chamando todos os orixás de Bará a Oxalá com a saudação de cada um. O adjá é a sineta da invocação, aladjé em algumas nações, e deve tocar do início ao fim do ritual.
Terminada a chamada, o dirigente autoriza o tamboreiro e o toque começa. Em muitas casas isso é por volta da meia-noite, e a festa vai até seis da manhã. É herança do tempo em que o ritual só cabia depois do trabalho.
Os cantos se chamam rezas ou axés, e as batidas de tambor se chamam pancadas. Quem está na roda dança acompanhando o orixá que está sendo cantado.
A ordem muda conforme a nação. Adalberto Ojuobá Pernambuco registra que na nação Oyó se chamavam primeiro os orixás masculinos e depois os femininos. Veja os doze orixás do batuque e as nações.
Uma nota de vocabulário que quase toda página erra: xirê é palavra do candomblé ketu, não do batuque. Nas fontes gaúchas os termos são chamada, roda de rezas, axés, erís e pancadas. Compare em o que é o xirê e nas diferenças entre batuque e candomblé.
Dentro das rezas de Xangô pode entrar a balança, também chamada kasun, a dança mais sagrada do batuque. Só participam os prontos, de mãos dadas, e ela não se fotografa nem se filma.
O tambor e quem conduz
A orquestra tem quatro instrumentos. O ilú é o tambor cilíndrico, com pele nas duas bocas e percutido em uma só. O inhã é cônico e hoje raro. O agê é o chocalho de porongo coberto de miçangas, e o agogô é de ferro. Nas casas etnografadas em Pelotas e Rio Grande eram três tambores, mais o agogô e dois agês. Não são os mesmos atabaques do candomblé.
Os tambores são tratados como divindades, e só quem passou pela iniciação pode manuseá-los. Ficam sempre deitados e frouxos: guardá-los em pé significa luto de uma liderança religiosa.
Não encoste no tambor, nem para ver de perto. É o objeto mais delicado do salão.
Quem conduz é o tamboreiro de nação, segunda autoridade do ritual depois do pai ou mãe de santo. Corre o ditado de que, na festa, o pai de santo entrega a casa na mão do tamboreiro. Existem tamboreiras mulheres: Ana Paula Silveira etnografou três e registra que as restrições são de ordem humana, não do sagrado.
O que fazer, e o que não fazer, se você foi convidado
A regra que não falha é perguntar a quem convidou. O que segue tem fonte, e cada item diz de onde vem.
- Convite. A festa é de portas abertas, e visitante é categoria reconhecida: público externo, ou gente de outra casa, que vem por intermédio do seu dirigente. Portas abertas é o salão, não a casa inteira.
- Roupa. Moraes registra que, para pisar no salão, se está descalço e de roupa ritual. A fonte não separa filho de santo de visitante, então pergunte na porta se tira o calçado. No batuque não é costume usar paramenta: mulheres de saia e bata, homens de bombacha larga e kaftã, com as guias. Veja a roupa de batuque e o pano da costa.
- Foto e vídeo. Só com autorização pedida antes. Numa casa de Rio Grande, a licença dada a uma pesquisadora foi filmar até o primeiro filho de santo se ocupar, e depois fotografar apenas os músicos. A balança nunca se registra.
- Menstruação. A pesquisa registra impedimento para servir ao santo, tocar o tambor ou participar de obrigação no quarto de santo. Não é o mesmo que proibir de assistir à festa.
- Saída do ecó. Em muitas casas, quando o ecó sai, a roda para e a assistência vira para a parede. Você não precisa decorar: quando chegar a hora, a casa avisa.
- Presente. Convidado costuma levar algo para o orixá do dirigente. Flores, perfume, doce e utensílio de uso da casa são os mais comuns.

O segredo de Orixá: a falta que ninguém comete de propósito
No batuque existe o segredo de Orixá. Marcus Vinicius Nunes descreve a proibição de falar qualquer coisa sobre a manifestação ocorrida, e ela alcança o cavalo de santo, a família religiosa e qualquer assistente do ritual.
Na prática: o visitante que chega no fim da festa e diz “nossa, você recebeu bonito hoje” comete a falta mais grave daquele salão sem fazer ideia. Não se comenta, não se pergunta, não se conta depois.
Junto vem o vocabulário certo. No batuque não se diz incorporar, virar nem bolar. Diz-se ocupar-se do Orixá, e o estado intermediário depois da manifestação chama-se axero. Nunes registra que a observância é rígida em algumas casas e mais relaxada em outras.
O mercado: a comida que se leva para casa
No fim da festa, distribuem-se as bandejas. Cada pessoa leva para casa o que se chama mercado, e a fala registrada por Moraes explica o sentido: é a expansão do axé da casa, que se irradia pela cidade.
Antes disso a comida circula ali mesmo, em banquete comunal com a família religiosa. O amalá, feito com peito bovino, folha de mostarda, farinha de mandioca, cebola, colorau e sal, é servido nos dias de festa, e quem prepara é gente já iniciada. Veja as comidas de santo do batuque.
Sair de mãos cheias faz parte do rito.
Perguntas frequentes
Quem pode ir a uma festa de batuque?
A festa é a parte de portas abertas do rito, e recebe público externo. Quem é de outra casa costuma ir por intermédio do seu dirigente. Portas abertas vale para o salão, não para a casa inteira do pai ou mãe de santo. Na prática, vá a convite de alguém.
Qual a diferença entre festa de batuque e xirê?
Xirê é o nome da ordem de cantos no candomblé ketu. No batuque gaúcho as fontes falam em chamada, roda de rezas, axés e pancadas. O termo aparece aplicado ao batuque por empréstimo. A ordem existe nos dois, o nome é que muda.
Pode filmar ou tirar foto numa festa de batuque?
Só com autorização pedida antes. Numa casa pesquisada, a licença permitia filmar até o primeiro filho de santo se ocupar, e depois só fotografar os músicos. A balança de Xangô não se fotografa nem se filma em hipótese nenhuma.
O que é o mercado no batuque?
É a bandeja de comida que cada pessoa leva para casa no fim da festa. A pesquisa registra o sentido: expansão do axé da casa, que se irradia pela cidade. Levar o mercado faz parte do rito.
Onde comprar o material do batuque
Na Joia Mística Laroyê você encontra o que a casa e o convidado precisam:
- Roupa ritual e axó: saia, bata, bombacha larga, kaftã e pano branco
- Fios de conta e guias nas cores de cada orixá
- Velas de palito e de sete dias
- Quartinhas e alguidares de barro
- Flores, perfumes e doces para o axé dos presentes
Passe na loja, na Rua Benedito Zingari, 460, Bela Vista, em Extrema-MG, ou chame no WhatsApp com entrega para todo o Brasil.
Referências
- Leo Francisco Siqueira de Moraes: o Batuque de Porto Alegre como patrimônio cultural, UFRGS, 2020
- Ana Paula Lima Silveira: Batuque de mulheres, aprontando tamboreiras de nação, UFRGS, 2008
- Marcus Vinicius de Souza Nunes: o segredo de Orixá no Batuque afro-sul, Revista Calundu, UnB, 2020
- Adalberto Ojuobá Pernambuco: as religiões africanas no Rio Grande do Sul, Debates do NER, UFRGS, 2019
- Rodrigo Heck, babalorixá de Cabinda: a festa do batuque descrita etapa por etapa, 2015