Joia Mística Laroyê
Candomblé 9 min de leitura

Pano da costa: para que serve e como usar no candomblé

Pano da costa: para que serve, como amarrar em cada grau de iniciação, a diferença em relação ao ojá, a medida certa e por que a peça é de uso feminino.

#pano da costa #alaká #candomblé #indumentária #ojá #iaô
Pano da costa listrado em tecido artesanal dobrado sobre uma esteira de palha ao lado de contas e búzios.

Resumo

O pano da costa, também grafado pano de costa e chamado alaká no nome africano, é a peça retangular de tecido que a mulher de terreiro usa sobre o peito ou na cintura. A medida padrão é de 2 metros por 60 centímetros, e a função é dupla: cobrir e proteger o tronco, e mostrar a posição da mulher dentro da casa.

A altura em que o pano fica amarrado não é escolha de gosto. Iaô usa na altura dos seios, e a cintura costuma ser lugar de ebomi, sobretudo quando ela está vestida de bata. Pano no peito ou na cintura sinaliza função religiosa no barracão. Fora da função, ele vai jogado sobre o ombro direito.

A peça descende do aso oke, o tecido de tear manual dos povos da África Ocidental, e chegou ao Brasil pelo tráfico com destino ao Recôncavo baiano. Hoje faz parte do traje das baianas de acarajé registrado pelo IPHAN em 2005, e o tear tradicional sobrevive na Casa do Alaká, no Ilê Axé Opô Afonjá.

Tem alguma dúvida?

Fale com a Joice Mística, nossa guia espiritual, ou pergunte a outra IA.

Perguntar à Joice Mística Tire dúvidas sobre orixás, banhos e rituais

Ou pergunte a outra IA

9 min de leitura

O pano da costa é a peça de roupa que mais fala sem dizer nada. Quem entende de terreiro olha a altura em que ele está amarrado e já sabe o grau da mulher que o veste. Sabe também se ela está em função ritual naquele momento.

Este guia reúne a história da peça, para que ela serve, como se amarra em cada grau, a diferença em relação ao ojá e o cuidado que ela pede.


O que é o pano da costa

O pano da costa, também grafado pano de costa, é um retângulo de tecido de mais ou menos 2 metros de comprimento por 60 centímetros de largura. Algumas casas trabalham com 80 centímetros. Ele é usado sobre o tronco, no peito ou na cintura, e completa a roupa feminina de candomblé.

O nome africano da peça é alaká, que aparece também como alacá, pano de alaká e pano de cuia. Na tradição, alaká designa em especial o pano tecido em tear manual, e não a versão industrial de loja.

Ficha da peça: formato retangular | medida 200 x 60 cm (até 80 cm em algumas casas) | padrão branco ou bicolor, listrado ou xadrez | uso feminino | posição no peito, na cintura ou no ombro direito.

A construção tradicional explica o desenho. O tecelão faz tiras estreitas no tear horizontal e costura as tiras à mão, uma ao lado da outra. Daí vêm as listras e os quadriculados geométricos da peça. No processo manual, um pano leva até 30 dias para ficar pronto.


De onde vem o pano da costa

A matriz da peça é o aso oke, o tecido de tear manual do povo iorubá, cujo nome antigo é òfì. Na Nigéria, no Benim e no Togo ele veste casamento, funeral e cerimônia de titulação de chefe. Os tipos têm nome próprio: o etu, de índigo escuro com listras brancas finas, e o sanyan, de seda selvagem com algodão em tom bege.

O nome brasileiro guarda a rota. “Da costa” diz da costa ocidental africana, de onde vinham os panos, com destino especial ao Recôncavo baiano. Mulheres escravizadas chegavam enroladas nesse tecido. Depois, teares rústicos vindos no século XVIII permitiram que o pano passasse a ser tecido aqui mesmo.

No século XIX, a peça já compõe o traje de baiana das ruas de Salvador e do Rio de Janeiro. Para o pesquisador Raul Lody, a função principal do pano é distinguir o posicionamento feminino nas comunidades afro-brasileiras.

Os terreiros guardaram a técnica quando o mercado a abandonou. A tecelagem do alaká sobreviveu em casas antigas de Salvador, entre elas o Ilê Axé Opô Afonjá, o Engenho Velho de Brotas e o Terreiro do Gantois. A Casa do Alaká, no Opô Afonjá, mantém o tear vivo até hoje.

Em 14 de janeiro de 2005 o IPHAN registrou o Ofício das Baianas de Acarajé no Livro dos Saberes. O traje reconhecido inclui saia rodada, blusa, pano da costa, turbante e fios de conta. A proposta partiu, entre outros, do próprio Opô Afonjá.

Sobre os nomes, há duas leituras que convivem. A linha majoritária deriva a peça do aso oke iorubá. Já a pesquisa de Aline Santiago, da UFRJ, mostra que a palavra alaká tem origem linguística fon, dos povos do Benim e do Togo. Ela critica “pano da costa” como nome colonial genérico, que apagou as várias formas de produzir e nomear.


Para que serve o pano da costa

A peça tem duas funções, e as duas pesam igual.

A primeira é proteção. O pano cobre os seios e a região do útero, que a tradição trata com resguardo dentro do espaço ritual. Não é pudor no sentido cristão. É o cuidado com um corpo em contato com o axé.

A segunda é posição. O pano identifica a mulher feita mesmo quando ela não está com a roupa de santo completa. Ele diz que aquela pessoa passou pela iniciação, e a altura da amarração diz por qual grau ela anda.

Pano no peito ou na cintura significa que a mulher está em função religiosa no barracão. Fora da função, ele vai jogado sobre o ombro direito. Quem não sabe disso comete o deslize sem perceber.

Vale a comparação com os outros sinais de posição da casa. Os fios de conta dizem de qual orixá a pessoa é. O pano da costa diz onde ela está no caminho, dentro da estrutura de cargos e hierarquia no candomblé. As duas informações andam juntas nos olhos de quem sabe ler.


Como amarrar o pano da costa em cada grau

Aqui não existe gosto pessoal, existe preceito. No ketu e no nagô, a roupa de ração feminina muda conforme o grau de iniciação, e o pano acompanha essa mudança.

GrauOnde o pano ficaDetalhe
AbiãAltura dos seiosPano branco, junto de calçolão, saia e camizu
IaôAltura dos seios, nunca na cinturaVem com ojá, 16 fios de conta e mokan
EbomiCintura ou peitoSem enrolar nem torcer; cintura sobretudo quando vestida de bata

A iaô é o caso mais rígido. Enquanto ela não cumpre a obrigação de sete anos, o pano fica no peito e ponto. Cintura em iaô é erro que a casa corrige na hora.

Sobre o abiã existe divergência real. Parte das casas veste a abiã de pano da costa branco desde o começo, e parte reserva a peça para quem já é feito. Não há resposta única: quem responde é o seu babalorixá ou a sua ialorixá.

E uma regra que atravessa todos os graus: o pano não se enrola em corda nem se torce para prender. Ele se dobra e se ajusta.


Pano da costa e ojá não são a mesma coisa

Essa confusão é a mais comum de todas, e a resposta é simples: são duas peças, de duas medidas, para duas partes do corpo.

CritérioPano da costaOjá
Onde vaiPeito, cintura ou ombro direitoCabeça, enrolado como turbante
Medida200 cm x 60 a 80 cmCerca de 220 cm x 20 a 35 cm
FormatoRetângulo largoFaixa estreita
FunçãoCobrir e marcar posiçãoCobrir e proteger o ori

O ojá é a faixa fina da cabeça. Ele protege o ori, que é a cabeça em sentido espiritual. Em ayabá, o torso pode subir as pontas para os lados, formando as figuras que a casa chama de orelhas ou de borboletas. O pano da costa nunca vai na cabeça, e o ojá nunca substitui o pano no tronco.


Cor, escolha e cuidado com a peça

A cor do pano acompanha a cor simbólica do orixá da pessoa, e o assunto tem página própria em cores dos orixás. O que interessa aqui é o critério de escolha.

A recomendação da tradição vai para cores claras e tecidos sóbrios. Fuja de cor berrante e de seda estampada, que puxam a atenção para a roupa. Branco resolve quase tudo, e é obrigatório em boa parte dos ritos.

Cuidados que prolongam a peça:

  • Lave à mão, com sabão neutro e água fria, sem torcer o tecido.
  • Seque na sombra, porque sol forte come a cor do tingimento artesanal.
  • Guarde dobrado, em pano ou saco de algodão, longe de umidade.
  • Não use a peça fora do terreiro para tarefa comum. Roupa de santo tem lugar próprio.
  • Passe morno, do lado avesso, sem vinco marcado na frente.

Se a sua casa mantém preceito específico de resguardo para a roupa de ração, o preceito da casa vence qualquer lista de internet, inclusive esta.


Perguntas frequentes

Para que serve o pano da costa no candomblé?

Serve para duas coisas ao mesmo tempo. Cobre e protege o tronco da mulher dentro do espaço ritual, em especial os seios e a região do útero, e marca a posição dela na comunidade de terreiro. A altura da amarração comunica o grau de iniciação e se ela está em função naquele momento.

Homem pode usar pano da costa?

Não. As fontes de terreiro são categóricas nesse ponto: o pano da costa é peça da indumentária feminina. O homem tem as suas próprias peças na roupa de ração, como o camizu e a calça, e o pano não entra nessa composição em nenhum grau.

Qual é o tamanho certo do pano da costa?

O padrão mais citado é de 2 metros de comprimento por 60 centímetros de largura. Algumas casas trabalham com 80 centímetros de largura, o que dá mais cobertura no tronco. Antes de comprar, pergunte a medida que a sua casa adota, porque a diferença aparece na amarração.

Abiã pode usar pano da costa?

Depende da casa, e essa é a resposta honesta. Parte dos terreiros veste a abiã de pano da costa branco desde o início, junto de calçolão, saia e camizu. Outra parte reserva a peça para quem já é feito. Pergunte ao dirigente da sua casa antes de comprar.

Pano da costa e alaká são a mesma coisa?

Em sentido amplo, sim: alaká é o nome de origem africana da mesma peça. Na prática, muita gente reserva alaká para o pano tecido em tear manual. E usa pano da costa para a peça em geral, incluindo a versão industrial.


Onde comprar pano da costa e roupa de santo

Na Joia Mística Laroyê, você acha as peças da roupa de ração com procedência:

  • Pano da costa: em branco e em padrões bicolores, nas medidas que as casas pedem
  • Ojá: faixas para a cabeça, avulsas ou no jogo com o pano
  • Fios de conta e mokan: montados nas cores de cada orixá ou em miçanga avulsa para a casa consagrar
  • Tecidos por metro: algodão e renda para a costureira da casa trabalhar
  • Louça de barro, pemba e ervas: para a firmeza que o seu dirigente orientar

Passe na loja, na Rua Benedito Zingari, 460, Bela Vista, em Extrema-MG, ou chame no WhatsApp com entrega para todo o Brasil.

Uma última palavra. O pano da costa carrega duas travessias. A do tecido, que veio da África e passou a ser feito aqui. E a da mulher que o veste, que atravessou uma iniciação para ter direito a ele.


Referências

Compartilhe este artigo

Ajude mais pessoas a encontrar este conteúdo.

Interior da loja Joia Mística Laroyê, em Extrema-MG

Extrema · MG · Sul de Minas

Venha conhecer a Joia Mística Laroyê

Velas, ervas, imagens, guias e tudo para a sua fé, com o atendimento de quem entende. Tire suas dúvidas pelo WhatsApp ou faça uma visita.

R. Benedito Zingari, 460, Bela Vista, Extrema-MG
Seg a Sex, 9h às 18h · Sáb, 9h às 13h

Leia também