Quem chega de outra tradição toma um susto na primeira obrigação. As comidas de santo no Batuque do Rio Grande do Sul não são as mesmas do candomblé baiano, e o amalá é a prova mais clara disso.
O Batuque montou uma cozinha própria com o que o Sul tinha à mão. Costela assada, batata-inglesa, farinha de mandioca, linguiça, erva-mate. Nada disso é desvio da matriz africana. É a mesma liturgia falando com a despensa daqui.
Este guia mostra o que cada orixá come, o que a pessoa compra e o que muda de casa para casa.
Comida seca e comida de axé: as duas categorias
Antes de qualquer lista, é preciso entender que existem dois tipos de comida no Batuque, e eles não se misturam.
- Comida seca: grãos, farináceos, tubérculos, frutas, doces e bebidas. Não envolve sacrifício. É a comida que o filho de santo leva ao ilê ou entrega no assentamento, e que ele pode preparar sob orientação da casa.
- Comida de axé: a comida ritual ligada à matança, montada com as partes do animal e com a farinha e o dendê que seguram o axé. Só a cozinha da casa prepara, sob condução do babalorixá ou da ialorixá.
A comida de axé aparece no ciclo das obrigações, tema tratado em obrigação no Batuque. A comida seca circula o ano inteiro, nas entregas de natureza e nas firmezas de assentamento.
Depois de servida no quarto de santo, a comida não fica parada. Ela é despachada de volta à natureza ou repartida entre os presentes. A refeição em comum é o fecho do rito, não uma sobra dele.
O amalá do Batuque não é o do candomblé
Este é o ponto que mais confunde quem vem de fora, e vale dizer com todas as letras.
No candomblé ketu, amalá é quiabo picado com cebola, camarão seco e dendê, servido sobre acaçá. É a receita descrita em amalá de Xangô.
No Batuque do Rio Grande do Sul, amalá é outro prato. É um pirão de farinha de mandioca com molho de carne de peito bovina e mostarda, servido em gamela, acompanhado de bananas e maçã em quartos.
A mudança de ingrediente não empobrece o fundamento. Ela mostra a criatividade litúrgica de uma comunidade que reconstruiu o culto longe da Bahia, com outra despensa e outra história. Xangô recebe o prato, e em muitas casas Oiá, Obá e Ibeji também recebem.
O que cada orixá come no Batuque
A ficha abaixo segue a ordem da linha do Batuque, explicada em orixás do Batuque. Os pratos variam por nação e por passagem do orixá, então trate a lista como mapa, não como receita fechada.
- Bará: milho torrado, pipoca e batata-inglesa assada ou em opeté, com dendê. As passagens mais jovens levam balas e bergamota. Sete é a conta mais citada para a batata. Veja mais em quem é Bará.
- Ogum: costela de boi assada ou frita no dendê, miamiã de farinha de mandioca, pipoca, maçã vermelha e laranja.
- Oiá: pipoca, sete rodelas de batata frita, batata-doce assada, maçã assada e abóbora recheada com carne moída. No Batuque o nome corrente é Oiá, não Iansã.
- Xangô: o amalá em gamela, com bananas e maçã. O número de bananas muda conforme a passagem, e o detalhe está em Xangô no Batuque.
- Odé e Otim: costelinha de porco frita no dendê, miamiã doce, feijão miúdo torrado e pipoca. Andam juntos e a comida costuma ser montada em par.
- Obá: canjica amarela e feijão miúdo cozidos, misturados com salsa picada e dendê. Lentilha, abacaxi e rosas cor-de-rosa acompanham.
- Ossanha: um opeté de batata com casca e outro sem casca, mais pipoca. Linguiça frita e ovo cozido aparecem em várias casas.
- Xapanã: feijão preto torrado, amendoim torrado e pipoca. Xapanã é o nome do Batuque para Obaluaê.
- Oxum: canjica amarela, oito quindins, maçã verde em quartos, mamão em oito pedaços e rosas amarelas. O número dela é oito.
- Iemanjá: canjica branca cozida com salsa, merengues e peixe assado. Pente, espelho, perfume, pera e melancia acompanham.
- Oxalá: canjica branca, oito fatias de coco fresco, cocada, coco ralado e feijão miúdo descascado. Tudo branco e sem tempero pesado.
- Ibeji: doces, balas, quindim, bananas e brinquedos, montados em praça e repartidos em público.
Por que uma casa põe canjica onde a outra põe feijão? Porque a nação muda o preparo, como explica as nações do Batuque.
A cozinha gaúcha do axé e as quizilas
Três adaptações contam a história do Batuque melhor que qualquer definição.
A costela assada de Ogum entrou pela mesa gaúcha e indígena do Sul. A batata-inglesa de Bará chegou com a imigração alemã. A linguiça de Ossanha veio da herança portuguesa. Nenhuma delas existe no candomblé ketu, e todas são fundamento no Batuque.
A adaptação mais marcante é outra. Erva-mate e chimarrão não vão para orixá, vão para os eguns, os mortos. O panteão ganhou uma bebida que nenhuma casa da Bahia serve.
As quizilas, as proibições alimentares, também têm assinatura local:
- Dendê nunca vai para Oxalá. A comida dele é branca, sem gordura vermelha e sem tempero forte.
- Mel é quizila para Odé e Otim em muitas casas, e nas mesmas casas adoça a comida de Oxum.
- Cada passagem do orixá acrescenta as suas restrições, e elas nem sempre coincidem entre nações.
Errar uma quizila é erro sério. Pergunte à sua casa antes de comprar qualquer ingrediente.
Gamela, alguidar e quartinha: onde a comida vai
A louça não é embalagem. Ela participa do rito e vai acumulando axé pelo uso repetido, como mostram as etnografias feitas em casas de nação Oyó em Porto Alegre.
- Gamela de madeira: é onde o amalá é servido. Peça de porte, ligada a Xangô e às comidas de molho.
- Alguidar de barro: recebe a comida seca e as entregas de natureza. O uso geral está em alguidar para que serve.
- Quartinha: guarda a água do assentamento e nunca vira prato de comida. Confira o fundamento em o que é quartinha.
Cada casa tem a sua exigência de tamanho, de cor e de acabamento. Compre depois de perguntar, não antes.
A comida de axé, o sacrifício e a lei
Parte da comida de santo vem do sacrifício ritual conduzido pelo sacerdote. Falar disso com naturalidade é obrigação de quem escreve sobre a religião.
A carne do animal é preparada na cozinha da casa, servida ao orixá e depois repartida entre a comunidade ou despachada. O rito é conduzido pelo babalorixá ou pela ialorixá, nunca por conta própria.
Do ponto de vista legal, a questão está resolvida. Em 28 de março de 2019, o Supremo Tribunal Federal julgou o RE 494.601. A tese fixada diz que é constitucional a lei que permite o sacrifício ritual de animais em cultos de matriz africana, para resguardar a liberdade religiosa. O caso nasceu de uma lei do próprio Rio Grande do Sul.
O antropólogo Norton Corrêa, que assinou a etnografia clássica do Batuque, aponta o duplo padrão das campanhas que miram o terreiro e passam ao largo dos matadouros.
Perguntas frequentes
O amalá do Batuque leva quiabo?
Não. No Batuque do Rio Grande do Sul o amalá é pirão de farinha de mandioca com molho de carne de peito bovina e mostarda. O quiabo com dendê é a versão do candomblé ketu. As duas são legítimas dentro das suas tradições, e a comparação completa está em Batuque e candomblé.
Posso comer a comida de santo depois de oferecida?
Depende do tipo. Boa parte da comida de axé é repartida entre os presentes, e essa refeição em comum é ponto de honra da religião. Outras comidas são despachadas de volta à natureza. Quem determina o destino de cada prato é o dirigente da casa.
O que levar para uma obrigação de Batuque?
A casa passa a lista, e ela muda conforme o orixá e a etapa. O que aparece com mais frequência são farinha de mandioca, canjica, dendê, mel, pipoca, frutas da estação, velas e a louça pedida. Nunca compre por conta própria antes de conversar com o dirigente.
Por que o orixá come churrasco no Batuque?
Porque a religião se reconstruiu no Sul com os ingredientes do Sul. A costela assada de Ogum tem raiz na mesa gaúcha e indígena, do mesmo modo que a batata-inglesa de Bará chegou com os alemães. É adaptação litúrgica, não perda de fundamento.
Onde comprar o material da comida de santo
Na Joia Mística Laroyê, você acha os insumos e a louça do preparo em um lugar só:
- Farinha de mandioca, canjica branca e amarela: a base da miamiã e do pirão
- Dendê, mel e azeite: nos volumes que a obrigação pede
- Alguidares e gamelas de barro e madeira: em vários tamanhos
- Quartinhas: para a água do assentamento
- Velas por cor de orixá e pipoca ritual: para acompanhar a entrega
Passe na loja, na Rua Benedito Zingari, 460, Bela Vista, em Extrema-MG, ou chame no WhatsApp com entrega para todo o Brasil.
Uma última palavra. Nenhuma lista de internet substitui a fala do seu dirigente. Use este guia para entender a lógica e chegar ao mercado sabendo o que procurar. O prato final quem define é a sua casa.
Referências
- Gustavo Correa Pinto: estudo sobre o amalá como comida sagrada no Batuque do Rio Grande do Sul, Revista Mangút v. 5 n. 2 (UFRJ)
- Museu Afro-Brasil-Sul (UFPel): registro de oferendas para Xangô, Bará, Oxum e Ogum com os ingredientes
- Jornal da USP: análise da tese do STF sobre sacrifício ritual em cultos de matriz africana
- Instituto Humanitas Unisinos: entrevista com o antropólogo Norton F. Corrêa sobre o Batuque gaúcho