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Candomblé 8 min de leitura

Atabaques do candomblé: o que fazem rum, rumpi e lé

Atabaques do candomblé: o que rum, rumpi e lé fazem no xirê, quem tem o cargo de tocar, aguidavi ou mão, e quais toques chamam cada Orixá em cada nação.

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Três atabaques de candomblé, rum, rumpi e lé, lado a lado no barracão, com aguidavis apoiados e luz natural entrando.

Resumo

Os atabaques são os tambores sagrados que constituem a voz divina e o coração rítmico do terreiro de Candomblé, responsáveis por convocar os Orixás, conduzir o transe iniciático e sustentar a energia do xirê.

A bateria sagrada é formada por três tambores de tamanhos decrescentes: o Rum (o maior e mais grave, que comanda a festa e dialoga com o orixá incorporado), o Rumpi (de tamanho intermediário que sustenta o ritmo base) e o Lé (o menor e mais agudo que faz o contra-tempo).

Confeccionados com madeira nobre e couro de animal, os atabaques passam por ritos de batismo e consagração antes de tocarem no barracão. São tocados com baquetas de madeira (oguidavis) na nação Ketu e diretamente com as mãos nas nações Angola e Ijexá.

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Quando o xirê começa, o primeiro som não é de couro. É o ferro do agogô marcando a linha que todo o resto vai seguir. Só depois entram os atabaques do candomblé, e cada um dos três tem uma função exata dentro daquela roda.

Este guia mostra o que rum, rumpi e fazem e quem tem autorização para tocá-los. Também explica por que a técnica muda de uma nação para outra e quais toques chamam cada Orixá.


Os três atabaques do candomblé e o ferro que os guia

O conjunto tem três tambores de tamanhos diferentes, e o tamanho define a função:

  • Rum: o maior e mais grave. É o solista. Conduz o toque, dialoga com o corpo de quem está rodando e marca as viradas.
  • Rumpi: o médio. Sustenta a estrutura do toque e responde ao rum.
  • Lé: o menor e mais agudo. Segura o pulso-base do começo ao fim, sem se soltar.

Junto deles vem o agogô (também chamado de em várias casas), a campânula dupla de ferro tocada com uma vareta de metal. Ele não é enfeite. É a linha-guia que orienta os três couros, a régua rítmica em cima da qual tudo se apoia.

Os nomes rum, rumpi e lé vêm do fongbé, língua de matriz jeje, de hun, que quer dizer tambor. Daí vêm as variantes hun, hunpi e hunlé. No ketu, o conjunto também é chamado de ilú. Na nação angola, os tambores são as ngomas.

O conjunto só funciona como conversa. O lé segura o chão, o rumpi amarra o meio e o rum fala por cima. Tirar um dos três desmonta o toque inteiro.


Aguidavi ou mão: a técnica muda com a nação

Esta é uma das dúvidas mais repetidas, e a resposta depende da nação da casa.

No ketu e no jeje, os tambores são tocados com duas varetas de madeira, o aguidavi (também grafado agidavi ou laguidavi). Dependendo do toque, o ogã usa uma vareta numa mão e a mão livre na outra.

Na nação angola, toca-se só com as mãos, sem vareta, na linha das tradições bantu. Essa diferença aparece em depoimentos de ogãs recolhidos na reportagem Os sons do sagrado, publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos.

A madeira do aguidavi varia por casa. A goiabeira aparece com frequência pela resistência, mas não existe regra única, e cada terreiro tem a sua preferência. Para entender o que mais muda de uma raiz para outra, vale ler sobre as nações do candomblé.


Quem pode tocar os atabaques: cargo, não talento

Aqui está o ponto que separa o terreiro da roda de percussão. Tocar atabaque em casa de candomblé não é habilidade musical, é cargo religioso.

Quem toca é o ogã de couro, confirmado por rito próprio. O chefe do conjunto muda de nome conforme a nação:

  • Ketu: alabê (alagbê), o pai do toque, que abre e comanda.
  • Jeje: runtó (huntó), de hun (tambor) e (pai).
  • Angola: xicarangoma, do quicongo nsika (tocador) e ngoma (tambor).

Ser bom de mão não dá acesso ao tambor da casa. É preciso ser suspenso e confirmado, como acontece com os demais cargos e hierarquias do candomblé. A responsabilidade é grande: é o toque que chama o Orixá dentro da liturgia.


Os toques do candomblé e os Orixás que eles chamam

Cada toque é um padrão rítmico com nome, andamento e destino. A tabela abaixo reúne os mais ouvidos, com a nação de origem colada em cada um:

ToqueOrixá ou funçãoNação
VassiToque de base, muito ligado a Ogum e OxóssiKetu
AguerêOxóssi quando cadenciado, Iansã quando aceleradoKetu
AlujáXangôKetu
OpanijéObaluaêKetu
IjexáOxum, e também Oxalá em muitas casasKetu, de raiz ijexá
AdarrumChamada geral, associada a OgumKetu
BravumOxumaré, e Ogum em algumas casasJeje
CabilaRepertório de inquicesAngola
BarraventoRepertório de inquicesAngola

Duas ressalvas honestas. Primeira: essa correspondência não é lei nacional, ela muda por casa e por raiz. O etnomusicólogo Ângelo Cardoso catalogou 18 tipos de toque só no queto, na tese A linguagem dos tambores, defendida na UFBA em 2006. Qualquer lista de nove é recorte, não inventário.

Segunda: as fontes divergem em alguns pontos. O aguerê aparece ora ligado a Oxóssi, ora a Iansã, e a leitura mais consistente é que o andamento muda o destino. O adarrum ora surge como chamada geral, ora como toque de Ogum.

O ijexá é o caso mais conhecido fora do terreiro. Ele atravessou o muro e virou base do afoxé e de boa parte da música baiana, trajeto estudado por Alberto Ikeda na Revista USP.


Por que o atabaque de terreiro não é um instrumento comum

Um atabaque de casa de santo é objeto sagrado assentado, não equipamento musical. Ele passa por consagração, tem axé próprio e recebe oferendas em rito reservado, o que a linguagem de terreiro chama de dar de comer ao couro.

Esse axé é renovado periodicamente, em geral numa obrigação anual da casa. Por isso existem restrições de manuseio: não é qualquer pessoa que encosta, carrega, afina ou troca o couro do tambor.

O detalhe do rito não cabe em blog nenhum, e este artigo não vai entrar nele. Fundamento de casa se aprende na casa, com quem tem cargo para ensinar. Se você quer entender melhor a força que circula nesses objetos, comece por o que é axé.


Atabaque de candomblé não é curimba de umbanda

A confusão é comum e vale desfazer. As duas tradições usam tambor, mas o lugar do tambor é outro em cada uma.

AspectoCandombléUmbanda
Nome do grupoCorpo de ogãs sob o alabê ou runtóCurimba
O que se cantaCantigas de nação, em iorubá, fongbé ou quicongoPontos cantados, em português
Papel do tamborO rum conduz e dialoga com quem rodaO atabaque sustenta o ponto puxado
TécnicaAguidavi no ketu e no jeje, mãos no angolaPredominantemente com as mãos

No candomblé, o toque segue a sequência ritual do xirê. Na umbanda, o canto comanda e o atabaque acompanha, como explicamos no artigo sobre a curimba na umbanda.


Perguntas frequentes

Quais são os três atabaques do candomblé?

São o rum, o maior e mais grave, o rumpi, de tamanho e som médios, e o lé, o menor e mais agudo. Junto deles toca o agogô, ou gã, campânula dupla de ferro que dá a linha-guia para os três tambores.

Qual a diferença entre rum, rumpi e lé?

A diferença é de tamanho, de altura do som e de função. O rum solta, improvisa e conduz. O rumpi sustenta a estrutura do toque e responde ao rum. O lé mantém o pulso constante, sem variação, do início ao fim da cantiga.

Quem pode tocar atabaque no candomblé?

Só o ogã confirmado para o couro. É cargo religioso, com suspensão e rito de confirmação, não uma vaga que se ganha por talento. O chefe do conjunto é o alabê no ketu, o runtó no jeje e o xicarangoma no angola.

O atabaque é tocado com a mão ou com vareta?

Depende da nação. No ketu e no jeje usa-se o aguidavi, par de varetas de madeira. Na nação angola, os tambores são tocados apenas com as mãos. Nenhuma das duas técnicas é mais correta, são tradições diferentes.

Por que o atabaque do candomblé é sagrado?

Porque ele é assentado, tem axé próprio e recebe oferendas em rito reservado da casa. Não é um instrumento que se compra pronto e sai tocando. O tambor de terreiro é fundamento, e o manuseio dele é restrito a quem tem cargo.


Onde comprar atabaques e acessórios

Na Joia Mística Laroyê, você encontra o que sustenta o estudo e o dia a dia da casa:

  • Atabaques em tamanhos variados: para estudo e para o barracão
  • Aguidavi: pares de varetas de madeira resistente
  • Agogô e gã: o ferro que abre a linha-guia
  • Peles e acessórios de afinação: para manutenção do instrumento
  • Guias, velas e ervas: o restante do enxoval de quem frequenta a casa

Uma ressalva importante: instrumento comprado é instrumento de estudo. Ele não vem sacralizado e não substitui o tambor assentado do terreiro, que passa por rito próprio conduzido pela casa.

Visite nossa loja em Extrema-MG ou chame no WhatsApp com entrega para todo o Brasil.

Vale lembrar que esses tambores tocam em casas reconhecidas como patrimônio do país, como o Terreiro da Casa Branca, tombado desde 1984.


Referências

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