Quando o xirê começa, o primeiro som não é de couro. É o ferro do agogô marcando a linha que todo o resto vai seguir. Só depois entram os atabaques do candomblé, e cada um dos três tem uma função exata dentro daquela roda.
Este guia mostra o que rum, rumpi e lé fazem e quem tem autorização para tocá-los. Também explica por que a técnica muda de uma nação para outra e quais toques chamam cada Orixá.
Os três atabaques do candomblé e o ferro que os guia
O conjunto tem três tambores de tamanhos diferentes, e o tamanho define a função:
- Rum: o maior e mais grave. É o solista. Conduz o toque, dialoga com o corpo de quem está rodando e marca as viradas.
- Rumpi: o médio. Sustenta a estrutura do toque e responde ao rum.
- Lé: o menor e mais agudo. Segura o pulso-base do começo ao fim, sem se soltar.
Junto deles vem o agogô (também chamado de gã em várias casas), a campânula dupla de ferro tocada com uma vareta de metal. Ele não é enfeite. É a linha-guia que orienta os três couros, a régua rítmica em cima da qual tudo se apoia.
Os nomes rum, rumpi e lé vêm do fongbé, língua de matriz jeje, de hun, que quer dizer tambor. Daí vêm as variantes hun, hunpi e hunlé. No ketu, o conjunto também é chamado de ilú. Na nação angola, os tambores são as ngomas.
O conjunto só funciona como conversa. O lé segura o chão, o rumpi amarra o meio e o rum fala por cima. Tirar um dos três desmonta o toque inteiro.
Aguidavi ou mão: a técnica muda com a nação
Esta é uma das dúvidas mais repetidas, e a resposta depende da nação da casa.
No ketu e no jeje, os tambores são tocados com duas varetas de madeira, o aguidavi (também grafado agidavi ou laguidavi). Dependendo do toque, o ogã usa uma vareta numa mão e a mão livre na outra.
Na nação angola, toca-se só com as mãos, sem vareta, na linha das tradições bantu. Essa diferença aparece em depoimentos de ogãs recolhidos na reportagem Os sons do sagrado, publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos.
A madeira do aguidavi varia por casa. A goiabeira aparece com frequência pela resistência, mas não existe regra única, e cada terreiro tem a sua preferência. Para entender o que mais muda de uma raiz para outra, vale ler sobre as nações do candomblé.
Quem pode tocar os atabaques: cargo, não talento
Aqui está o ponto que separa o terreiro da roda de percussão. Tocar atabaque em casa de candomblé não é habilidade musical, é cargo religioso.
Quem toca é o ogã de couro, confirmado por rito próprio. O chefe do conjunto muda de nome conforme a nação:
- Ketu: alabê (alagbê), o pai do toque, que abre e comanda.
- Jeje: runtó (huntó), de hun (tambor) e tó (pai).
- Angola: xicarangoma, do quicongo nsika (tocador) e ngoma (tambor).
Ser bom de mão não dá acesso ao tambor da casa. É preciso ser suspenso e confirmado, como acontece com os demais cargos e hierarquias do candomblé. A responsabilidade é grande: é o toque que chama o Orixá dentro da liturgia.
Os toques do candomblé e os Orixás que eles chamam
Cada toque é um padrão rítmico com nome, andamento e destino. A tabela abaixo reúne os mais ouvidos, com a nação de origem colada em cada um:
| Toque | Orixá ou função | Nação |
|---|---|---|
| Vassi | Toque de base, muito ligado a Ogum e Oxóssi | Ketu |
| Aguerê | Oxóssi quando cadenciado, Iansã quando acelerado | Ketu |
| Alujá | Xangô | Ketu |
| Opanijé | Obaluaê | Ketu |
| Ijexá | Oxum, e também Oxalá em muitas casas | Ketu, de raiz ijexá |
| Adarrum | Chamada geral, associada a Ogum | Ketu |
| Bravum | Oxumaré, e Ogum em algumas casas | Jeje |
| Cabila | Repertório de inquices | Angola |
| Barravento | Repertório de inquices | Angola |
Duas ressalvas honestas. Primeira: essa correspondência não é lei nacional, ela muda por casa e por raiz. O etnomusicólogo Ângelo Cardoso catalogou 18 tipos de toque só no queto, na tese A linguagem dos tambores, defendida na UFBA em 2006. Qualquer lista de nove é recorte, não inventário.
Segunda: as fontes divergem em alguns pontos. O aguerê aparece ora ligado a Oxóssi, ora a Iansã, e a leitura mais consistente é que o andamento muda o destino. O adarrum ora surge como chamada geral, ora como toque de Ogum.
O ijexá é o caso mais conhecido fora do terreiro. Ele atravessou o muro e virou base do afoxé e de boa parte da música baiana, trajeto estudado por Alberto Ikeda na Revista USP.
Por que o atabaque de terreiro não é um instrumento comum
Um atabaque de casa de santo é objeto sagrado assentado, não equipamento musical. Ele passa por consagração, tem axé próprio e recebe oferendas em rito reservado, o que a linguagem de terreiro chama de dar de comer ao couro.
Esse axé é renovado periodicamente, em geral numa obrigação anual da casa. Por isso existem restrições de manuseio: não é qualquer pessoa que encosta, carrega, afina ou troca o couro do tambor.
O detalhe do rito não cabe em blog nenhum, e este artigo não vai entrar nele. Fundamento de casa se aprende na casa, com quem tem cargo para ensinar. Se você quer entender melhor a força que circula nesses objetos, comece por o que é axé.
Atabaque de candomblé não é curimba de umbanda
A confusão é comum e vale desfazer. As duas tradições usam tambor, mas o lugar do tambor é outro em cada uma.
| Aspecto | Candomblé | Umbanda |
|---|---|---|
| Nome do grupo | Corpo de ogãs sob o alabê ou runtó | Curimba |
| O que se canta | Cantigas de nação, em iorubá, fongbé ou quicongo | Pontos cantados, em português |
| Papel do tambor | O rum conduz e dialoga com quem roda | O atabaque sustenta o ponto puxado |
| Técnica | Aguidavi no ketu e no jeje, mãos no angola | Predominantemente com as mãos |
No candomblé, o toque segue a sequência ritual do xirê. Na umbanda, o canto comanda e o atabaque acompanha, como explicamos no artigo sobre a curimba na umbanda.
Perguntas frequentes
Quais são os três atabaques do candomblé?
São o rum, o maior e mais grave, o rumpi, de tamanho e som médios, e o lé, o menor e mais agudo. Junto deles toca o agogô, ou gã, campânula dupla de ferro que dá a linha-guia para os três tambores.
Qual a diferença entre rum, rumpi e lé?
A diferença é de tamanho, de altura do som e de função. O rum solta, improvisa e conduz. O rumpi sustenta a estrutura do toque e responde ao rum. O lé mantém o pulso constante, sem variação, do início ao fim da cantiga.
Quem pode tocar atabaque no candomblé?
Só o ogã confirmado para o couro. É cargo religioso, com suspensão e rito de confirmação, não uma vaga que se ganha por talento. O chefe do conjunto é o alabê no ketu, o runtó no jeje e o xicarangoma no angola.
O atabaque é tocado com a mão ou com vareta?
Depende da nação. No ketu e no jeje usa-se o aguidavi, par de varetas de madeira. Na nação angola, os tambores são tocados apenas com as mãos. Nenhuma das duas técnicas é mais correta, são tradições diferentes.
Por que o atabaque do candomblé é sagrado?
Porque ele é assentado, tem axé próprio e recebe oferendas em rito reservado da casa. Não é um instrumento que se compra pronto e sai tocando. O tambor de terreiro é fundamento, e o manuseio dele é restrito a quem tem cargo.
Onde comprar atabaques e acessórios
Na Joia Mística Laroyê, você encontra o que sustenta o estudo e o dia a dia da casa:
- Atabaques em tamanhos variados: para estudo e para o barracão
- Aguidavi: pares de varetas de madeira resistente
- Agogô e gã: o ferro que abre a linha-guia
- Peles e acessórios de afinação: para manutenção do instrumento
- Guias, velas e ervas: o restante do enxoval de quem frequenta a casa
Uma ressalva importante: instrumento comprado é instrumento de estudo. Ele não vem sacralizado e não substitui o tambor assentado do terreiro, que passa por rito próprio conduzido pela casa.
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Vale lembrar que esses tambores tocam em casas reconhecidas como patrimônio do país, como o Terreiro da Casa Branca, tombado desde 1984.
Referências
- Instituto Humanitas Unisinos: reportagem sobre os sons do sagrado no candomblé
- Universidade Federal da Bahia (Repositório Institucional): tese A linguagem dos tambores, de Ângelo Cardoso
- Revista USP: artigo de Alberto Ikeda sobre o ijexá e a música baiana
- Fundação Cultural Palmares (gov.br): página sobre o tombamento do Terreiro da Casa Branca