Os orixás do Batuque seguem uma ordem própria, diferente da que se vê no candomblé baiano. No Batuque, a religião de matriz africana do Rio Grande do Sul, os orixás são chamados numa sequência ritual que vai do mais jovem ao mais velho, começando sempre por Bará e terminando em Oxalá. Conhecer essa linha é conhecer a espinha dorsal da tradição gaúcha.
Este guia apresenta os orixás do Batuque na ordem da linha, com os nomes próprios que a tradição usa, o que cada um rege e suas cores. Vale uma ressalva desde já: tudo isso varia conforme a nação e a casa, e é assim que deve ser.
O que é a linha do Batuque
No Batuque, chama-se de linha a sequência em que os orixás são saudados e tocados na festa, o xirê gaúcho. Não é uma ordem qualquer: ela segue uma lógica de idade, do orixá mais novo ao mais velho. Por isso a linha abre com Bará, o que movimenta e abre os caminhos, e fecha com Oxalá, o mais velho, o pai da criação.
Costuma-se dividir os orixás em duas classes: os “novos”, que vão de Bará até Obá, e os “velhos”, que começam em Oxum e terminam em Oxalá. Cada orixá tem seu assentamento, sua otá (a pedra que guarda o seu axé) e sua quartinha. Esses fundamentos são cuidados pelo babalorixá ou pela ialorixá, e pertencem ao mundo do iniciado.
Cada pessoa, no Batuque, também tem o seu orixá. É o chamado dono da cabeça, o orixá de frente que rege a vida e o temperamento do filho de santo, muitas vezes acompanhado de um segundo orixá, o adjunto ou juntó. Quem é dessa religião costuma se reconhecer nas características do seu orixá, e essa descoberta acontece no jogo de búzios, com o pai ou a mãe de santo. Se quiser entender melhor esse vínculo, veja como saber qual é o seu orixá.
Os orixás do Batuque na ordem da linha
A tabela abaixo mostra a sequência mais comum da linha, com o nome usado no Batuque, o equivalente conhecido no candomblé e na umbanda, o que o orixá rege e a cor geralmente associada a ele.
| Orixá (no Batuque) | Equivalente | Rege | Cor (geralmente) |
|---|---|---|---|
| Bará | Exu | Caminhos, comunicação, encruzilhadas | Vermelho |
| Ogum | Ogum | Ferro, trabalho, guerra, estradas | Vermelho e verde |
| Oiá | Iansã | Ventos, raios, tempestades | Vermelho |
| Xangô | Xangô | Justiça, trovão, fogo, pedreiras | Vermelho e branco |
| Odé | Oxóssi | Matas, caça, fartura | Azul e branco |
| Otim | (par de Oxóssi) | Matas e águas, ao lado de Odé | Variável |
| Obá | Obá | Luta, rios, força feminina | Rosa |
| Ossanha | Ossain | Folhas, ervas, cura | Verde e amarelo |
| Xapanã | Obaluaê | Saúde e doença, cura da pele | Vermelho e preto |
| Oxum | Oxum | Águas doces, ouro, fertilidade | Amarelo |
| Iemanjá | Iemanjá | Mar, maternidade | Azul claro |
| Oxalá | Oxalá | Criação, paz, fecha a linha | Branco |
Os Ibeji, os orixás gêmeos das crianças, aparecem em algumas casas como orixá próprio dentro da linha e, em outras, são tratados de outra forma. É um bom exemplo de como a sequência não é rígida.
A linha do Batuque não é igual em todo lugar. A ordem dos orixás, as cores e até a presença de alguns deles mudam conforme a nação e a casa. O que vale sempre é o fundamento do seu terreiro, e quem ensina isso é o seu pai ou mãe de santo.
O que torna o Batuque diferente
Quem conhece o candomblé ou a umbanda nota particularidades na forma como o Batuque cultua seus orixás. Algumas delas são a marca registrada da tradição gaúcha:
- Bará abre tudo. Ele é o Exu do candomblé, mas no Batuque é cultuado exclusivamente como orixá, e não como entidade de rua. Nenhum trabalho começa sem saudá-lo primeiro. Veja mais em quem é Bará.
- Odé e Otim formam um par. O que no candomblé é o orixá Oxóssi, no Batuque se desdobra em dois caçadores que vivem juntos, Odé e Otim.
- Xapanã é o nome do senhor da cura. O orixá das doenças de pele e da saúde, conhecido como Obaluaê ou Omulu noutras tradições, no Batuque atende por Xapanã ou Sapatá.
- Xangô é o centro. O Batuque já foi chamado de “religião de Xangô”, tamanha a importância dele. Na nação Oyó, Xangô e Oiá são saudados como o rei e a rainha que sustentam a casa, e muitas casas guardam o seu nome e o seu fundamento como o coração do terreiro.
São esses nomes próprios e esses arranjos que dão ao Batuque a sua identidade, distinta de qualquer outra religião de matriz africana.
Batuque, candomblé e umbanda
É comum confundir o Batuque com o candomblé, mas eles são tradições diferentes. O candomblé nasceu na Bahia. O Batuque é a expressão própria do Rio Grande do Sul, com sua liturgia, sua língua ritual e sua ordem da linha. Como resume o antropólogo Norton Corrêa, referência no estudo do tema, não se trata de um “candomblé do sul”, mas de uma religião com visão de mundo própria.
A organização por nações, como Oyó, Jeje, Ijexá, Cabinda e Nagô, também é central, e está detalhada no artigo sobre as nações do Batuque. Cada nação tem suas particularidades de ordem e de culto.
Há ainda a Linha Cruzada, surgida no Rio Grande do Sul em meados do século XX, que reúne numa mesma casa os orixás do Batuque e as entidades da umbanda, como exus e pombagiras. Hoje, boa parte das casas gaúchas é de Linha Cruzada, enquanto o Batuque que cultua só os orixás é uma das vertentes da tradição. Para entender melhor as divindades em geral, vale ler o que são os orixás.
O xirê: a festa onde a linha ganha vida
A ordem dos orixás não é só uma lista para estudar. Ela acontece de verdade na festa, o xirê, quando o terreiro se reúne ao som dos tambores para saudar cada orixá na sua vez. Os toques chamam um a um, do mais novo ao mais velho, e os filhos da casa dançam recebendo a vibração de cada divindade.
É no xirê que a teoria vira axé. O tambor, conduzido pelo alabê, marca o ritmo próprio de cada orixá, e a roda responde com os cantos na língua ritual. Bará abre a festa garantindo que os caminhos estejam livres, e a sequência segue até Oxalá, num crescendo que recolhe toda a comunidade.
Cada orixá tem ainda a sua data e os seus festejos ao longo do ano. Quem quiser situar essas celebrações dentro do calendário das religiões afro-brasileiras pode consultar o calendário dos orixás, lembrando sempre que, no Batuque, as datas e os costumes também variam conforme a nação e a casa.
Perguntas frequentes
Quais são os orixás do Batuque?
Os principais são Bará, Ogum, Oiá (Iansã), Xangô, Odé e Otim, Obá, Ossanha, Xapanã, Oxum, Iemanjá e Oxalá. Em algumas casas, os Ibeji também entram na linha. A relação e a ordem podem variar conforme a nação e o fundamento de cada terreiro.
Quantos orixás são cultuados no Batuque?
Costuma-se falar em doze orixás na linha do Batuque, de Bará a Oxalá, embora a conta mude um pouco conforme a casa, sobretudo pela presença ou não dos Ibeji e pelo desdobramento de Odé e Otim. O número não é uma regra fechada na tradição.
Qual é a ordem dos orixás na linha do Batuque?
A linha vai do orixá mais novo ao mais velho. Começa por Bará, segue por Ogum, Oiá, Xangô, Odé e Otim, Obá, Ossanha e Xapanã, e termina com os mais velhos, Oxum, Iemanjá e Oxalá. A sequência exata varia conforme a nação.
Qual a diferença entre Batuque e candomblé?
O candomblé é a religião de matriz africana nascida na Bahia, e o Batuque é a tradição própria do Rio Grande do Sul. Embora cultuem orixás em comum, têm liturgias, nomes e ordens diferentes. O Batuque não é uma versão do candomblé, e sim uma religião autônoma.
Quem é Bará no Batuque?
Bará é o orixá que corresponde ao Exu do candomblé, o senhor dos caminhos e da comunicação. No Batuque, porém, ele é cultuado apenas como orixá, e é sempre o primeiro a ser saudado, pois abre os caminhos para que os demais possam ser chamados.
Onde encontrar artigos para os orixás
Na Joia Mística Laroyê, você encontra o que precisa para honrar os orixás do Batuque:
- Guias e contas: nas cores de cada orixá
- Quartinhas e alguidares: para os assentamentos
- Velas coloridas: vermelha, branca, amarela, azul e mais
- Imagens dos orixás: para o seu altar
Visite nossa loja em Extrema-MG ou fale com a gente pelo WhatsApp e enviamos para todo o Brasil.
Referências
- Wikipédia: Batuque (religião)
- Reino de Xangô: Orixás no Batuque RS
- IHU Unisinos: Entrevista com o antropólogo Norton F. Corrêa sobre o Batuque