As nações do Batuque são o que dá identidade a cada terreiro de orixá do Rio Grande do Sul. Antes de saber o nome do pai ou da mãe de santo, o praticante costuma perguntar outra coisa: “de que nação é a sua casa?” porque é a nação que define o toque do tambor, a língua das rezas, a ordem do xirê e os fundamentos que aquele ilê guarda.
Neste guia você vai entender o que significa “nação” no Batuque, conhecer as cinco principais Oyó, Jeje, Ijexá, Cabinda e Nagô e ver, lado a lado, o que distingue cada uma. No fim, explicamos por que quase nenhuma casa hoje é “pura” de uma só nação.
O que significa “nação” no Batuque
No Batuque do Rio Grande do Sul, nação também chamada de “lado” é a tradição africana de origem que organiza toda a liturgia de uma casa. Ela define quatro coisas que o praticante reconhece de imediato:
- A língua ritual em que se canta (iorubá, fon ou kimbundo, conforme a raiz).
- O toque do tambor, isto é, a maneira de tocar que chama cada orixá à roda.
- A ordem das rezas no xirê a sequência em que os orixás são saudados.
- Os fundamentos próprios: assentamentos, ritos de iniciação e cultos específicos.
Por isso a pergunta “de que nação é a sua casa?” é, no Batuque, a pergunta de fundamento. Ela equivale a perguntar de que raiz africana descende tudo o que se faz naquele ilê.
A nação não é um detalhe de estilo. É a coluna que sustenta o axé da casa: muda a língua, muda o toque, muda a ordem em que os orixás vêm e, ainda assim, são os mesmos orixás cultuados em toda a diáspora.
As cinco nações do Batuque
O Batuque reconhece cinco nações principais: Oyó, Jeje, Ijexá, Cabinda e Nagô. Três delas têm raiz iorubá (sudanesa), uma vem do antigo Daomé e uma é de tronco banto. A tabela resume o que distingue cada uma:
| Nação | Raiz africana | Língua ritual | Marca ritual distintiva | Destaque |
|---|---|---|---|---|
| Oyó (ou Oió) | Iorubá (região de Oyó, Nigéria) | Iorubá | Reza para os orixás masculinos e depois para os femininos | Xangô e Iansã, o casal real |
| Jeje | Fon-ewe (antigo Daomé / Benin) | Fon | Toque rápido do tambor; cantigas que sobrevivem em quase toda casa | Raiz dos voduns |
| Ijexá | Iorubá (região de Ijexá, Nigéria) | Iorubá | Nação com mais casas e filhos de santo hoje | Oxum, a rainha |
| Cabinda | Banto (Angola/Cabinda) | Kimbundo | Começa pelo Balê (culto aos Eguns); cultos próprios | Xangô e o Balê dos ancestrais |
| Nagô | Iorubá (nagô) | Iorubá | Nação originária, hoje quase extinta; ritos próprios | Divindades individualizadas |
Oyó
De raiz iorubá, a nação Oyó se reconhece sobretudo pela ordem das rezas: toca-se primeiro para os orixás masculinos e, depois, para os femininos, encerrando com Iansã, Xangô e Oxalá. Xangô e Iansã são tratados como o rei e a rainha de Oyó. A liturgia é cantada em iorubá, com grande proximidade da nação Ijexá.
Jeje
A nação Jeje vem do antigo Daomé (atual Benin), do tronco fon-ewe, e tem o toque rápido dos tambores como assinatura. Hoje quase não existe como modalidade exclusiva, mas é a mais viva das ausências: as cantigas jeje sobrevivem em quase todas as casas de Batuque, misturadas à liturgia ijexá.
Ijexá
Vinda da região iorubá de Ijexá, é a nação predominante do Batuque atual, com o maior número de casas e de filhos de santo. Tem Oxum como rainha e a liturgia em iorubá. Seus rituais foram aos poucos se associando aos das demais nações, a ponto de hoje servirem de eixo ao fundamento mais comum da religião.
Cabinda
De tronco banto, com língua ritual de raiz kimbundo, a nação Cabinda guarda as rupturas mais próprias. Todo trabalho começa pelo Balê (também grafado Igbalé), o assentamento e culto aos Eguns, os ancestrais. Tem cultos exclusivos como o de Leba (um vodum) e o de Xangô Kamucá, caminho de Xangô ligado aos mortos. Embora banto na raiz, adotou o panteão de orixás iorubás.
Nagô
De base iorubá, a Nagô é tida como a nação originária do culto no Sul, mas está praticamente extinta como modalidade exclusiva. Mantinha ritos de enterramento e iniciação próprios e preservava divindades de forma individualizada, sem aglutinação. Como no caso do Jeje, sua herança não desapareceu: persiste em fundamentos e cantigas guardados pelas casas.
O fundamento Jeje-Ijexá: por que quase nenhuma casa é “pura”
Na prática, raramente um terreiro segue uma única nação em estado puro. A maioria das casas do Rio Grande do Sul cultua hoje o fundamento Jeje-Ijexá uma combinação de fundamentos que reúne também elementos de Cabinda, Nagô e Oyó. É uma mistura de ritos de origem banto e sudanesa, em que os elementos iorubás se destacam.
A expressão foi consagrada pelo pesquisador Reginaldo Gil Braga, em Batuque jêje-ijexá em Porto Alegre (1998), estudo sobre a música no culto aos orixás. Mais do que um rótulo, ela descreve um fato: as nações se entrelaçaram ao longo de mais de um século de convivência no Sul, e o comum é a casa combinar raízes em vez de isolar uma só.
Isso não apaga as diferenças. Mesmo numa casa Jeje-Ijexá, a ordem das rezas, o toque e os cultos de fundamento revelam de qual lado a tradição pende. Quem abre os trabalhos, em qualquer nação, é sempre Bará o orixá dos caminhos, o primeiro a ser saudado. (Vale conhecer quem é Bará no Batuque para entender por que nada começa sem ele.)
Nação no Batuque não é o mesmo que nação no candomblé
Um cuidado importante: a palavra “nação” também existe no candomblé baiano (ketu, jeje, angola), mas as tradições são distintas, ainda que aparentadas. O Batuque se formou no Rio Grande do Sul ao longo do século XIX, por caminhos próprios, com toques, ordens de reza e fundamentos que não são os da Bahia.
Há ainda diferenças teológicas finas. No Batuque, por exemplo, fala-se em “ocupar-se do orixá”, e não em “incorporar” um modo próprio de nomear a presença do orixá no filho de santo. Para entender o contraste maior entre as tradições de matriz africana, vale ler também o que é candomblé e a diferença entre umbanda e candomblé. E, para conhecer o panteão por trás de todas elas, veja o que são os orixás.
Para um panorama acadêmico e enciclopédico, a página da Wikipédia sobre o Batuque reúne as cinco nações e os doze orixás; já o portal Historiando Axé detalha toques e línguas de cada lado com mais profundidade. Pesquisadores como Ari Pedro Oro (UFRGS) também documentam a presença afro-religiosa no Sul.
Perguntas frequentes
Quantas nações existem no Batuque?
São cinco nações principais: Oyó, Jeje, Ijexá, Cabinda e Nagô. Além delas, fala-se em “nações misturadas”, como Jeje-Ijexá, Jeje-Nagô e Nagô-Ijexá, que combinam fundamentos de mais de uma raiz. Na prática, a maioria das casas atuais segue uma dessas combinações, e não uma nação isolada.
Qual é a nação predominante no Batuque hoje?
A Ijexá, de raiz iorubá, é a mais difundida, com o maior número de casas e filhos de santo. Na prática, porém, o que predomina é o fundamento Jeje-Ijexá: a fusão das duas raízes, com elementos de Cabinda, Nagô e Oyó. Quase nenhuma casa é “pura” de uma só nação.
O que significa “nação” no Batuque?
Nação, ou “lado”, é a tradição africana de origem que define a língua ritual, o toque do tambor, a ordem das rezas e os fundamentos de uma casa. É a raiz que organiza toda a liturgia do terreiro. Por isso “de que nação é a sua casa?” é a pergunta de fundamento entre praticantes.
Qual a diferença entre as nações do Batuque e as do candomblé?
São conceitos parecidos em tradições distintas. As nações do candomblé (ketu, jeje, angola) se estruturaram na Bahia; as do Batuque (Oyó, Jeje, Ijexá, Cabinda, Nagô) se formaram no Rio Grande do Sul, no século XIX, com toques e ordens de reza próprios do Sul.
Quais são os 12 orixás do Batuque?
São eles: Bará, Ogum, Iansã (Oyá), Xangô, Odé, Otim, Ossanha, Obá, Xapanã, Oxum, Iemanjá e Oxalá. Bará abre todos os trabalhos. As grafias e a ordem das rezas variam conforme a nação e a casa, mas o panteão é o mesmo da tradição iorubá.
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