Quando os atabaques rompem e a comunidade forma a roda no barracão, começa o xirê: a sequência de cantigas, danças e saudações que chama, um a um, todos os orixás da casa para descer e brincar com seus filhos. É o coração festivo do candomblé, o momento em que o axé se move em corpo, voz e tambor.
Este guia explica o que é o xirê, por que a roda gira no sentido anti-horário, como Exu abre os trabalhos com o padê, e qual é a ordem em que os orixás são saudados no candomblé ketu, com a saudação de cada um. Também mostra por que o xirê do candomblé não é a mesma coisa que a gira da umbanda.
O que é o xirê
Xirê (também grafado siré) é uma palavra de origem iorubá que significa roda, brincadeira, dança. No candomblé, é a parte pública e festiva do ritual: a sequência ordenada de cânticos e danças em que a comunidade saúda cada orixá cultuado naquela casa. Cada divindade tem sua cantiga, seu ritmo de atabaque, sua coreografia e sua saudação próprias.
O tom é de alegria e reverência ao mesmo tempo. Diferente de um culto silencioso, aqui se reverencia o sagrado com o corpo inteiro. Os filhos de santo dançam em círculo, os ogãs tocam os atabaques, e a cada cantiga a energia de um orixá é convocada e celebrada. Quando o axé se firma, um filho pode entrar em transe e receber seu orixá, que passa a dançar entre a comunidade.
O xirê é também uma aula viva de teologia. Ao seguir a ordem das cantigas, quem assiste aprende quem é cada orixá, qual é a sua natureza e como a casa organiza o seu panteão. É por isso que entender o xirê é entender a lógica do próprio candomblé: a religião se apresenta na sequência da roda. A cantiga de candomblé, cantada em iorubá, é o fio que costura essa apresentação, orixá por orixá.
Guarde este ponto: xirê não é espetáculo folclórico nem show de dança. É liturgia. A roda é um ritual de louvor com regras precisas, transmitidas de barracão em barracão há gerações.
Por que a roda gira no sentido anti-horário
A roda do xirê se forma no sentido anti-horário, contra o movimento dos ponteiros do relógio. Isso não é detalhe estético: carrega uma leitura de tempo e ancestralidade.
Girar contra o relógio simboliza um retorno à origem. Enquanto o tempo comum avança, a roda do candomblé recua, aproximando a comunidade dos ancestrais e da força que fundou a tradição. A cada volta, os presentes se religam ao que veio antes: os mais velhos, os orixás, a África de onde a religião partiu. É um gesto de memória feito com os pés.
Essa leitura é a mais difundida nos terreiros, embora as explicações variem de casa para casa. O que não varia é a direção: a roda gira sempre no mesmo sentido, e quem entra nela acompanha o fluxo do grupo, nunca contra ele.
O padê de Exu: quem abre o xirê
Antes de qualquer orixá ser saudado na roda, Exu é o primeiro a comer e a ser agradado. Isso acontece no padê, a oferenda votiva de abertura, feita com alimentos como farofa de dendê, água e, em algumas casas, bebida. É um rito de comida e reverência, não de sacrifício.
A razão é a função de Exu. Ele é o orixá dos caminhos e o mensageiro, aquele que comunica o aiê (a terra, o mundo dos vivos) e o orum (o mundo espiritual dos orixás). Sem a sua boa vontade, os recados não chegam e os outros orixás não são alcançados. O padê pede que Exu abra os caminhos, agencie a comunicação com o panteão e não perturbe os trabalhos com o seu lado brincalhão.
Vale desfazer aqui a confusão mais injusta que cerca a religião: Exu não é o demônio. Essa associação é uma projeção cristã que nada tem a ver com a teologia iorubá. Exu é dinâmico, é o dono do movimento, e por isso vem primeiro. Para conhecer o orixá em profundidade, vale ler quem é Exu.
Um detalhe técnico para o praticante: o padê de abertura, restrito a Exu, não é a mesma coisa que o ipadê mais amplo, um fundamento que também saúda os ancestrais (eguns) e aparece em situações específicas, como as Águas de Oxalá. As fontes distinguem os dois, como registra o verbete sobre o ipadê de Exu. Num xirê comum, o que abre a roda é o padê de Exu.
A ordem dos orixás no xirê ketu
Depois do padê, a roda segue uma ordem. No candomblé ketu, na maioria das casas, os orixás são chamados numa sequência que caminha das energias mais dinâmicas e ligadas à terra até as mais serenas e ancestrais, encerrando sempre em Oxalá, o pai. Uma sequência comum é:
- Exu (no padê, antes da roda)
- Ogum, o senhor do ferro e da guerra
- Oxóssi, o caçador, senhor das matas
- Ossaim, dono das folhas e do axé das ervas
- Obaluaê / Omulu, senhor da terra, da doença e da cura
- Nanã, a anciã, a lama primordial
- Oxumarê, o arco-íris, os ciclos e a renovação
- Xangô, o rei, senhor da justiça e do trovão
- Oyá / Iansã, senhora dos ventos, raios e tempestades
- Obá, a guerreira
- Ewá, ligada às fontes e ao mistério
- Logun Edé, o jovem caçador e pescador
- Oxum, senhora das águas doces, do ouro e do amor
- Iemanjá, a mãe das águas do mar
- Oxalá, o pai, ancestral dos ancestrais, que encerra a roda
Essa ordem não é uma regra universal. Ela é fixa dentro de cada casa, mas muda de barracão para barracão e de nação para nação. Algumas variações são bem conhecidas: Logun Edé costuma entrar antes de Oxum sobretudo nas casas de raiz ijexá, e nem toda casa o inclui na roda; a posição de Nanã varia, aparecendo às vezes mais perto de Oxalá. O que se mantém firme é o começo e o fim: Exu abre, Oxalá fecha.
Cada nação do candomblé tem a sua própria roda. No jeje e no angola, as sequências e os cânticos são outros, e no angola cultuam-se os inquices, e não exatamente os mesmos orixás com os mesmos nomes. Por isso não existe “a ordem do candomblé”, e sim a ordem de cada tradição. Para entender essas diferenças, vale ler sobre as nações do candomblé.
As saudações de cada orixá
Chamar o orixá é também saudá-lo com o brado certo. A saudação é uma palavra ou expressão de louvor, dita pela comunidade quando a cantiga daquele orixá começa. Estas são as saudações mais difundidas no candomblé ketu:
| Orixá | Saudação | Sentido |
|---|---|---|
| Exu | Laroyê | Salve o mensageiro, o senhor dos caminhos |
| Ogum | Ogunhê | Salve o senhor do ferro e da guerra |
| Oxóssi | Okê Arô | O brado do caçador, senhor das matas |
| Ossaim | Ewê Ewê | Louvor ao dono das folhas e do axé das ervas |
| Obaluaê / Omulu | Atotô | ”Silêncio”, o respeito diante da cura e da morte |
| Nanã | Saluba | Nós nos refugiamos na anciã, a lama primordial |
| Oxumarê | Arroboboi | Salve o arco-íris, o ciclo e a renovação |
| Xangô | Kaô Kabecile | ”Saúdem o rei”, justiça e realeza |
| Oyá / Iansã | Eparrei | Salve a senhora dos ventos e das tempestades |
| Oxum | Ora ie ie ô | Salve a mãe benevolente das águas doces |
| Iemanjá | Odoiá | Salve a mãe das águas do mar |
| Oxalá | Epa Babá | Salve o pai, o ancestral maior |
As saudações de Obá, Ewá e Logun Edé também existem e são usadas nas casas que os cultuam, mas variam mais de terreiro para terreiro, então o melhor é aprendê-las na própria casa, com quem conduz o culto. Se você quer se aprofundar nesse tema, veja também as saudações no candomblé de angola, que seguem outra lógica de nação.
Xirê e gira: por que não são a mesma roda
É comum quem vem da umbanda chamar o xirê de “gira”, e vice-versa. São coisas distintas, de tradições distintas.
O xirê é do candomblé. É a roda festiva que chama e saúda os orixás com cantigas em iorubá, danças e atabaques. O foco é o louvor: os orixás descem para dançar e receber reverência, não para dar consulta. Quando um orixá se manifesta, ele dança e abençoa, mas em geral não “atende” as pessoas com aconselhamento verbal.
A gira é da umbanda. É a sessão de trabalho em que guias como caboclos, pretos-velhos e crianças (erês) incorporam para atender os consulentes, dar passes, ouvir e orientar. O canto (o ponto) é em português, e o foco é a caridade e o atendimento direto ao público.
Resumindo a diferença: no xirê, a comunidade sobe até os orixás em festa; na gira, as entidades descem até as pessoas para trabalhar. Se esse contraste te interessa, vale ler o comparativo completo entre umbanda e candomblé.
Como se portar num xirê aberto ao público
Muitas casas realizam festas públicas, e o visitante é bem-vindo, desde que respeite alguns preceitos simples:
- Roupa clara e discreta. Branco é sempre bem recebido. Evite preto e roupas curtas.
- Homens de um lado, mulheres de outro, conforme a casa organizar. Observe onde os presentes se sentam.
- Não vire as costas para o centro da roda nem para o lugar dos atabaques ao se levantar.
- Não fotografe sem permissão. Muitos momentos são fechados, e a imagem dos filhos em transe é preservada.
- Acompanhe as saudações quando puder, mas sem imitar transe ou entrar na roda sem ser convidado.
O bom senso resume tudo: você está na casa de uma religião, como estaria numa missa ou num culto. Respeito e silêncio nos momentos certos são a melhor conduta.
Perguntas frequentes
O que significa a palavra xirê?
Xirê vem do iorubá e significa roda, brincadeira ou dança. No candomblé, nomeia a parte festiva e pública do ritual, em que a comunidade chama e saúda cada orixá com cantigas, danças e atabaques, numa ordem estabelecida pela casa.
Qual orixá é saudado primeiro no candomblé?
Exu é sempre o primeiro a ser agradado, no padê que abre os trabalhos, antes da roda começar. Como orixá mensageiro e dono dos caminhos, ele garante a comunicação entre o mundo dos vivos e o dos orixás. Sem Exu, nenhum outro é alcançado.
Por que a roda do candomblé gira no sentido anti-horário?
Girar contra o relógio simboliza um retorno à origem e à ancestralidade. Enquanto o tempo comum avança, a roda recua, religando a comunidade aos mais velhos e à força que fundou a tradição. É um gesto de memória feito com o corpo.
Qual a diferença entre xirê e gira de umbanda?
O xirê é do candomblé: uma roda de louvor que saúda os orixás com cânticos em iorubá. A gira é da umbanda: uma sessão de trabalho em que guias incorporam para atender consulentes. No xirê a comunidade celebra; na gira as entidades atendem o público.
A ordem do xirê é igual em todo candomblé?
Não. A ordem é fixa dentro de cada casa, mas muda de barracão para barracão e de nação para nação. No ketu, uma sequência comum vai de Ogum a Oxalá, mas jeje e angola têm rodas próprias. O que se mantém é Exu abrindo e Oxalá encerrando.
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Referências
- Wikipédia: Cantiga de candomblé
- Wikipédia: Ipadê de Exu