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Candomblé 11 min de leitura

O que é xirê: a roda que chama os orixás no candomblé

O xirê é a roda de cantigas e danças que saúda os orixás no candomblé. Entenda a ordem no ketu, as saudações, o padê de Exu e o sentido da roda ancestral.

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Três atabaques rum, rumpi e lé alinhados no barracão de candomblé, prontos para o xirê, com bandeirinhas coloridas ao alto.

Resumo

O Xirê é a grande roda litúrgica de danças, cantigas e toques sagrados que compõe a festa pública do Candomblé, na qual os Orixás são sucessivamente louvados e convidados a se manifestar no barracão.

A roda segue uma sequência imutável de respeito cósmico que principia com a saudação obrigatória a Exu (o mensageiro), passa pelos guerreiros Ogum e Oxóssi, pelas Iabás das águas, pelos reis do trovão e da terra, e encerra-se na apoteose branca de Oxalá.

Ao som dos atabaques e cantigas entoadas pela comunidade, os iniciados entram em transe sagrado, vestem suas roupas de gala com suas ferramentas divinas e dançam no salão para abençoar a todos os presentes.

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Quando os atabaques rompem e a comunidade forma a roda no barracão, começa o xirê: a sequência de cantigas, danças e saudações que chama, um a um, todos os orixás da casa para descer e brincar com seus filhos. É o coração festivo do candomblé, o momento em que o axé se move em corpo, voz e tambor.

Este guia explica o que é o xirê, por que a roda gira no sentido anti-horário, como Exu abre os trabalhos com o padê, e qual é a ordem em que os orixás são saudados no candomblé ketu, com a saudação de cada um. Também mostra por que o xirê do candomblé não é a mesma coisa que a gira da umbanda.


O que é o xirê

Xirê (também grafado siré) é uma palavra de origem iorubá que significa roda, brincadeira, dança. No candomblé, é a parte pública e festiva do ritual: a sequência ordenada de cânticos e danças em que a comunidade saúda cada orixá cultuado naquela casa. Cada divindade tem sua cantiga, seu ritmo de atabaque, sua coreografia e sua saudação próprias.

O tom é de alegria e reverência ao mesmo tempo. Diferente de um culto silencioso, aqui se reverencia o sagrado com o corpo inteiro. Os filhos de santo dançam em círculo, os ogãs tocam os atabaques, e a cada cantiga a energia de um orixá é convocada e celebrada. Quando o axé se firma, um filho pode entrar em transe e receber seu orixá, que passa a dançar entre a comunidade.

O xirê é também uma aula viva de teologia. Ao seguir a ordem das cantigas, quem assiste aprende quem é cada orixá, qual é a sua natureza e como a casa organiza o seu panteão. É por isso que entender o xirê é entender a lógica do próprio candomblé: a religião se apresenta na sequência da roda. A cantiga de candomblé, cantada em iorubá, é o fio que costura essa apresentação, orixá por orixá.

Guarde este ponto: xirê não é espetáculo folclórico nem show de dança. É liturgia. A roda é um ritual de louvor com regras precisas, transmitidas de barracão em barracão há gerações.


Por que a roda gira no sentido anti-horário

A roda do xirê se forma no sentido anti-horário, contra o movimento dos ponteiros do relógio. Isso não é detalhe estético: carrega uma leitura de tempo e ancestralidade.

Girar contra o relógio simboliza um retorno à origem. Enquanto o tempo comum avança, a roda do candomblé recua, aproximando a comunidade dos ancestrais e da força que fundou a tradição. A cada volta, os presentes se religam ao que veio antes: os mais velhos, os orixás, a África de onde a religião partiu. É um gesto de memória feito com os pés.

Essa leitura é a mais difundida nos terreiros, embora as explicações variem de casa para casa. O que não varia é a direção: a roda gira sempre no mesmo sentido, e quem entra nela acompanha o fluxo do grupo, nunca contra ele.


O padê de Exu: quem abre o xirê

Antes de qualquer orixá ser saudado na roda, Exu é o primeiro a comer e a ser agradado. Isso acontece no padê, a oferenda votiva de abertura, feita com alimentos como farofa de dendê, água e, em algumas casas, bebida. É um rito de comida e reverência, não de sacrifício.

A razão é a função de Exu. Ele é o orixá dos caminhos e o mensageiro, aquele que comunica o aiê (a terra, o mundo dos vivos) e o orum (o mundo espiritual dos orixás). Sem a sua boa vontade, os recados não chegam e os outros orixás não são alcançados. O padê pede que Exu abra os caminhos, agencie a comunicação com o panteão e não perturbe os trabalhos com o seu lado brincalhão.

Vale desfazer aqui a confusão mais injusta que cerca a religião: Exu não é o demônio. Essa associação é uma projeção cristã que nada tem a ver com a teologia iorubá. Exu é dinâmico, é o dono do movimento, e por isso vem primeiro. Para conhecer o orixá em profundidade, vale ler quem é Exu.

Um detalhe técnico para o praticante: o padê de abertura, restrito a Exu, não é a mesma coisa que o ipadê mais amplo, um fundamento que também saúda os ancestrais (eguns) e aparece em situações específicas, como as Águas de Oxalá. As fontes distinguem os dois, como registra o verbete sobre o ipadê de Exu. Num xirê comum, o que abre a roda é o padê de Exu.


A ordem dos orixás no xirê ketu

Depois do padê, a roda segue uma ordem. No candomblé ketu, na maioria das casas, os orixás são chamados numa sequência que caminha das energias mais dinâmicas e ligadas à terra até as mais serenas e ancestrais, encerrando sempre em Oxalá, o pai. Uma sequência comum é:

  1. Exu (no padê, antes da roda)
  2. Ogum, o senhor do ferro e da guerra
  3. Oxóssi, o caçador, senhor das matas
  4. Ossaim, dono das folhas e do axé das ervas
  5. Obaluaê / Omulu, senhor da terra, da doença e da cura
  6. Nanã, a anciã, a lama primordial
  7. Oxumarê, o arco-íris, os ciclos e a renovação
  8. Xangô, o rei, senhor da justiça e do trovão
  9. Oyá / Iansã, senhora dos ventos, raios e tempestades
  10. Obá, a guerreira
  11. Ewá, ligada às fontes e ao mistério
  12. Logun Edé, o jovem caçador e pescador
  13. Oxum, senhora das águas doces, do ouro e do amor
  14. Iemanjá, a mãe das águas do mar
  15. Oxalá, o pai, ancestral dos ancestrais, que encerra a roda

Essa ordem não é uma regra universal. Ela é fixa dentro de cada casa, mas muda de barracão para barracão e de nação para nação. Algumas variações são bem conhecidas: Logun Edé costuma entrar antes de Oxum sobretudo nas casas de raiz ijexá, e nem toda casa o inclui na roda; a posição de Nanã varia, aparecendo às vezes mais perto de Oxalá. O que se mantém firme é o começo e o fim: Exu abre, Oxalá fecha.

Cada nação do candomblé tem a sua própria roda. No jeje e no angola, as sequências e os cânticos são outros, e no angola cultuam-se os inquices, e não exatamente os mesmos orixás com os mesmos nomes. Por isso não existe “a ordem do candomblé”, e sim a ordem de cada tradição. Para entender essas diferenças, vale ler sobre as nações do candomblé.


As saudações de cada orixá

Chamar o orixá é também saudá-lo com o brado certo. A saudação é uma palavra ou expressão de louvor, dita pela comunidade quando a cantiga daquele orixá começa. Estas são as saudações mais difundidas no candomblé ketu:

OrixáSaudaçãoSentido
ExuLaroyêSalve o mensageiro, o senhor dos caminhos
OgumOgunhêSalve o senhor do ferro e da guerra
OxóssiOkê ArôO brado do caçador, senhor das matas
OssaimEwê EwêLouvor ao dono das folhas e do axé das ervas
Obaluaê / OmuluAtotô”Silêncio”, o respeito diante da cura e da morte
NanãSalubaNós nos refugiamos na anciã, a lama primordial
OxumarêArroboboiSalve o arco-íris, o ciclo e a renovação
XangôKaô Kabecile”Saúdem o rei”, justiça e realeza
Oyá / IansãEparreiSalve a senhora dos ventos e das tempestades
OxumOra ie ie ôSalve a mãe benevolente das águas doces
IemanjáOdoiáSalve a mãe das águas do mar
OxaláEpa BabáSalve o pai, o ancestral maior

As saudações de Obá, Ewá e Logun Edé também existem e são usadas nas casas que os cultuam, mas variam mais de terreiro para terreiro, então o melhor é aprendê-las na própria casa, com quem conduz o culto. Se você quer se aprofundar nesse tema, veja também as saudações no candomblé de angola, que seguem outra lógica de nação.


Xirê e gira: por que não são a mesma roda

É comum quem vem da umbanda chamar o xirê de “gira”, e vice-versa. São coisas distintas, de tradições distintas.

O xirê é do candomblé. É a roda festiva que chama e saúda os orixás com cantigas em iorubá, danças e atabaques. O foco é o louvor: os orixás descem para dançar e receber reverência, não para dar consulta. Quando um orixá se manifesta, ele dança e abençoa, mas em geral não “atende” as pessoas com aconselhamento verbal.

A gira é da umbanda. É a sessão de trabalho em que guias como caboclos, pretos-velhos e crianças (erês) incorporam para atender os consulentes, dar passes, ouvir e orientar. O canto (o ponto) é em português, e o foco é a caridade e o atendimento direto ao público.

Resumindo a diferença: no xirê, a comunidade sobe até os orixás em festa; na gira, as entidades descem até as pessoas para trabalhar. Se esse contraste te interessa, vale ler o comparativo completo entre umbanda e candomblé.


Como se portar num xirê aberto ao público

Muitas casas realizam festas públicas, e o visitante é bem-vindo, desde que respeite alguns preceitos simples:

  • Roupa clara e discreta. Branco é sempre bem recebido. Evite preto e roupas curtas.
  • Homens de um lado, mulheres de outro, conforme a casa organizar. Observe onde os presentes se sentam.
  • Não vire as costas para o centro da roda nem para o lugar dos atabaques ao se levantar.
  • Não fotografe sem permissão. Muitos momentos são fechados, e a imagem dos filhos em transe é preservada.
  • Acompanhe as saudações quando puder, mas sem imitar transe ou entrar na roda sem ser convidado.

O bom senso resume tudo: você está na casa de uma religião, como estaria numa missa ou num culto. Respeito e silêncio nos momentos certos são a melhor conduta.


Perguntas frequentes

O que significa a palavra xirê?

Xirê vem do iorubá e significa roda, brincadeira ou dança. No candomblé, nomeia a parte festiva e pública do ritual, em que a comunidade chama e saúda cada orixá com cantigas, danças e atabaques, numa ordem estabelecida pela casa.

Qual orixá é saudado primeiro no candomblé?

Exu é sempre o primeiro a ser agradado, no padê que abre os trabalhos, antes da roda começar. Como orixá mensageiro e dono dos caminhos, ele garante a comunicação entre o mundo dos vivos e o dos orixás. Sem Exu, nenhum outro é alcançado.

Por que a roda do candomblé gira no sentido anti-horário?

Girar contra o relógio simboliza um retorno à origem e à ancestralidade. Enquanto o tempo comum avança, a roda recua, religando a comunidade aos mais velhos e à força que fundou a tradição. É um gesto de memória feito com o corpo.

Qual a diferença entre xirê e gira de umbanda?

O xirê é do candomblé: uma roda de louvor que saúda os orixás com cânticos em iorubá. A gira é da umbanda: uma sessão de trabalho em que guias incorporam para atender consulentes. No xirê a comunidade celebra; na gira as entidades atendem o público.

A ordem do xirê é igual em todo candomblé?

Não. A ordem é fixa dentro de cada casa, mas muda de barracão para barracão e de nação para nação. No ketu, uma sequência comum vai de Ogum a Oxalá, mas jeje e angola têm rodas próprias. O que se mantém é Exu abrindo e Oxalá encerrando.


Onde comprar artigos para o candomblé

Na Joia Mística Laroyê, você encontra o que precisa para honrar os orixás e viver a sua fé com respeito:

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