Exu Veludo é o guardião do trato fino. No povo de rua, onde cada falange tem uma forma de trabalhar, ele é o da palavra macia, da negociação e do magnetismo pessoal.
A comparação ajuda. Tiriri corta e limpa. Tranca Ruas guarda e tranca. Veludo convence. Ele atua onde a força bruta não resolve nada, e a conversa resolve tudo.
Este guia reúne a ficha da entidade, explica de onde vem o nome e mostra, com honestidade, o que as casas divergem entre si.
Exu orixá e Exu guardião não são a mesma coisa
Antes de qualquer ficha, é preciso separar duas coisas que a internet embaralha.
Exu orixá é o senhor dos caminhos e da comunicação do panteão iorubá, o primeiro a receber em qualquer rito. Sobre ele, o texto certo é quem é Exu.
Exu guardião é outra categoria. São espíritos que trabalham na quimbanda e na gira da esquerda da umbanda, organizados em falanges com nomes próprios: Tiriri, Tranca Ruas, Marabô, Veludo. Trabalham sob a lei do orixá, mas não são o orixá.
Veludo pertence ao segundo grupo. E falange quer dizer um povo inteiro sob o mesmo nome e o mesmo mistério, não um espírito único. Por isso não existe uma biografia oficial dele, e desconfie de quem apresenta uma.
Cada casa guarda a sua história de origem para o guardião, e essas histórias não coincidem entre si. Isso não é falha da religião. É o que acontece quando o fundamento é oral e vivo, transmitido de terreiro em terreiro.
Por que se chama Veludo
Dois relatos circulam, e os dois convivem sem se anular.
O primeiro é da fala. Vem da expressão popular de que fulano é um veludo ao falar. A falange se comunica com jeito polido, educado, aveludado, sem aspereza mesmo quando diz coisa dura.
O segundo é da vestimenta. A falange se apresenta com turbante e tecidos de veludo de origem oriental, marca de refinamento que ficou no nome.
O arquétipo que sai daí é consistente nas fontes: elegante, discreto, diplomático, de grande magnetismo pessoal. Um guardião que trabalha com pano, agulha, tigela e pemba, ferramentas de quem costura e desmancha, não de quem quebra.
Ficha de Exu Veludo: dia, cores, saudação e oferenda
O que segue é o que se repete nas fontes. Nada aqui é lei, porque a quimbanda não tem manual único.
- Saudação: Laroyê, Exu Veludo!
- Dia: segunda-feira, o dia do povo de Exu
- Cores: vermelho e preto
- Bebida: uísque e bebidas finas. Algumas casas registram batida de coco ou de amendoim
- Fumo: charuto
- Oferenda: velas vermelha e preta, charuto, rosas vermelhas, vinho tinto ou uísque
- Ponto de força: beira de rio e encruzilhada. Uma das fontes especifica o lado direito do rio em relação ao pôr do sol
- Frentes de atuação: abertura de caminhos, limpeza energética, quebra de demanda e questões que envolvem gente, imagem e conversa
Repare no detalhe do ponto de força. A beira do rio é o que mais distingue Veludo dos guardiões de encruzilhada de terra. Isso casa com a fama dele nas causas que pedem doçura em vez de corte.
O modo de entregar segue o padrão do povo de rua, explicado em oferenda para Exu. Sobre as cores das velas, vale o guia de velas rituais e seus significados.
Sobre firmar o guardião em casa: firmeza e assentamento são fundamento de terreiro, conduzidos pelo dirigente. Ninguém monta assentamento de Exu por conta própria com receita de internet.
Oxum ou Ogum? A divergência que ninguém resolve
Aqui está a pergunta mais buscada sobre a entidade, e a resposta honesta é que as fontes brigam.
Uma linha registra Veludo como um dos mensageiros mais próximos de Oxum, trabalhando também com Ogum, Xangô e Oxóssi. Outra linha o coloca sob Ogum, atuando de perto com Xangô e Oxóssi. Uma terceira nem crava regência, e enquadra a falange pelo magnetismo.
As duas primeiras leituras explicam coisas diferentes do mesmo guardião. O vínculo com Oxum explica a fama dele nas causas de amor, beleza e imagem pessoal. O vínculo com Ogum explica a firmeza na hora de abrir caminho e sustentar a demanda.
Não escolha por conta própria. Quem crava a regência é o fundamento da sua casa, e a resposta muda de terreiro para terreiro sem que nenhum deles esteja errado.
As subfalanges de Veludo
Parte das fontes registra desdobramentos da falange, cada um com feitio próprio dentro do mesmo mistério:
- Veludo Menino: a passagem mais jovem, de trato leve e brincalhão
- Veludo dos Sete Cruzeiros: ligado aos cruzeiros e ao trabalho de encruzilhada
- Veludo das Almas: ligado ao campo das almas e ao desmancho de demanda pesada
O lastro documental dessas subfalanges é mais fino que o do resto da ficha, e nem toda casa trabalha com elas. Onde a falange se encaixa dentro do sistema maior está descrito em reinos da quimbanda.
Exu Veludo não é o demônio
Essa confusão precisa ser desmontada de frente, porque ela é a maior fonte de preconceito contra a religião.
A associação entre Exu e o diabo cristão não vem da tradição africana. Ela foi construída na colonização, quando a catequese leu o orixá dos caminhos dentro de um esquema moral de bem contra mal que não existia no culto original. Reginaldo Prandi documentou esse processo em detalhe na Revista USP.
A quimbanda também não é o avesso moral da umbanda. A pesquisa acadêmica descreve os Exus como entidades de moral pragmática. Eles cobram responsabilidade pessoal e revelam o que a pessoa tem de verdadeiro, em vez de operar numa dicotomia rígida.
E vale a frase que toda casa séria repete: guardião não tira a vontade de ninguém. Trabalho que promete amarrar, prender ou dobrar uma pessoa não é fundamento, é comércio. Quem oferece isso está vendendo, não trabalhando.
Perguntas frequentes
Exu Veludo é da umbanda ou da quimbanda?
Dos dois. Ele é cultuado na quimbanda e também na gira da esquerda da umbanda, que trabalha com o povo de rua dentro da liturgia umbandista. A relação entre as duas tradições está explicada em diferença entre umbanda e quimbanda. O modo de receber e de trabalhar muda conforme a casa.
Qual a bebida de Exu Veludo?
As fontes convergem em uísque e outras bebidas finas, coerentes com o arquétipo de refinamento da falange. Algumas casas registram batida de coco ou de amendoim. A marca, a quantidade e o momento da entrega são definidos pelo dirigente do terreiro, nunca por lista de internet.
Existe ponto cantado de Exu Veludo?
Existem pontos que circulam com o nome dele, mas nenhum foi confirmado em fonte confiável de domínio público. Por isso não reproduzimos letra aqui. Se quiser entender o que é um ponto e como ele funciona na gira, veja pontos cantados na umbanda.
Posso firmar Exu Veludo em casa?
Firmeza e assentamento são fundamento de casa, conduzidos pelo pai ou mãe de santo. Acender uma vela em respeito é uma coisa, montar assentamento é outra bem diferente. Procure o seu dirigente antes de qualquer passo, porque a orientação muda conforme a sua coroa e o fundamento do terreiro.
Onde comprar o material de Exu Veludo
Na Joia Mística Laroyê, você acha o material do povo de rua com procedência:
- Velas vermelhas e pretas: avulsas, de sete dias e em par
- Charutos e fumo de rolo: nos formatos que a gira pede
- Guias em vermelho e preto: montadas ou em miçanga avulsa para a casa consagrar
- Imagens e ferramentas de Exu: em resina e em metal
- Louça de barro, pemba e ervas: para a firmeza que o seu dirigente orientar
Passe na loja, na Rua Benedito Zingari, 460, Bela Vista, em Extrema-MG, ou chame no WhatsApp com entrega para todo o Brasil.
Uma última palavra. Toda página que fala de Exu Veludo finge que existe uma versão certa da ficha. Não existe. Use este guia para chegar informado à sua casa e pergunte lá o resto, porque é onde está o fundamento que vale para você.
Referências
- Reginaldo Prandi: Exu, de mensageiro a diabo, sobre a demonização do orixá na colonização, Revista USP n. 50 (2001)
- Carvalho e Bairrão: umbanda e quimbanda como alternativa negra à moral branca, Psicologia USP v. 30 (SciELO)
- Cruz e Arruda: pesquisa sobre o povo de rua em terreiros de umbanda do Rio de Janeiro, revista Memorandum (UFMG)
- Wikipédia: verbete sobre a falange de Exu Veludo, com as subfalanges e as ferramentas