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Quimbanda 11 min de leitura

Cruzeiro das almas: a cruz do cemitério e a do terreiro

O cruzeiro das almas é a cruz central do cemitério e, em alguns terreiros, um canto da casa. Veja de onde ele vem, quem trabalha nele e como se portar lá.

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Cruzeiro das almas pintado de branco sobre base de pedra na alameda de um cemitério antigo, com velas brancas acesas em copos de vidro e flores brancas ao pé da cruz.

Resumo

O cruzeiro das almas é a cruz grande que marca o centro do cemitério. Nos cemitérios brasileiros do século XIX, essa cruz central indicava que o terreno era campo santo, e é nela que católicos e gente de terreiro acendem vela para todas as almas.

Na umbanda e na quimbanda, o cruzeiro é ponto de passagem onde trabalham pretos-velhos, Obaluaê e Omulu, e exus e pombagiras das almas, conforme a casa. Em Vitória, uma pesquisa encontrou dois cruzeiros no mesmo cemitério, um da linha branca e outro de Exu.

Há terreiros com cruzeiro ou casa das almas próprios, com cruz de madeira cravada na terra. O que vai ali dentro é fundamento do dirigente, e o cemitério segue sendo lugar de luto de outras famílias.

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O cruzeiro das almas é a cruz grande do meio do cemitério. Aos pés dela se acende vela para todas as almas de uma vez. Na umbanda e na quimbanda, ele também é ponto de passagem. E há terreiros que guardam um cruzeiro próprio, ao lado da tronqueira.

São dois lugares com o mesmo nome. Um nasceu da história dos cemitérios brasileiros, o outro é fundamento de cada casa. Os dois ficam mais claros quando se sabe quem trabalha em cada um.


O que é o cruzeiro das almas

É a cruz central do cemitério, também chamada de cruz mestra. Aos pés dela as pessoas acendem velas para os mortos em geral, não para um túmulo só. A pesquisadora Barbara Thompson, da UFBA, descreve o lugar como “uma grande cruz branca”. Aos pés dela, “as pessoas acendem velas para todas as almas”.

Duas datas de origem católica levam os brasileiros ao cemitério, registra a mesma pesquisadora. Uma é a segunda-feira, dia das almas. A outra é o 2 de novembro. O que essa data representa para quem é de terreiro está no guia do dia de finados na umbanda.

Onde fica: no centro do cemitério; no terreiro, onde o dirigente firmou | Dia: segunda-feira | Quem trabalha: pretos-velhos, Obaluaê e Omulu, exus e pombagiras das almas, conforme a casa | Vela mais registrada: branca; em Vitória, branca e preta para pretos-velhos

O cemitério inteiro é a calunga pequena, e o cruzeiro é um dos pontos dele, junto com o portão e as lápides. A diferença entre o reino do mar e o do cemitério está em calunga grande e calunga pequena.


De onde vem a cruz do cemitério

A cruz veio antes da umbanda. A historiadora Maria da Conceição Vilela Franco estudou o cemitério público de Campos dos Goytacazes (RJ). A tese de doutorado saiu pela UNIRIO em 2019. Ela mostra que os cemitérios católicos e públicos do século XIX tinham, em geral, uma cruz central. A cruz indicava que o terreno era campo santo, isto é, abençoado.

No Brasil, escreve a autora, essas cruzes “centrais ou mestras” dos cemitérios do século XIX “são conhecidas como cruzeiros”. Algumas trazem gravada a data de criação do cemitério.

O caso de Campos tem um peso próprio. Ali o cruzeiro foi erguido sobre a coluna de pedra do antigo pelourinho. A coluna saiu da rua para virar pedestal da cruz. A tese adota 1875 para a mudança, com base no historiador Júlio Feydit. Um almanaque de 1881 dá 1856. A autora anota ainda que a cruz central de cemitério é local “de devoção às almas e de culto das religiões de matriz africana”.

Onde fica o cruzeiro das almas perto de você? Na prática, no cemitério tradicional mais antigo da sua cidade. Cemitérios abertos no século XIX costumam ter a cruz central, porque ela era o marco do campo santo. Em cemitério novo, a administração sabe dizer se há cruzeiro e onde.


O cruzeiro das almas no cemitério, segundo quem pesquisou

A descrição mais detalhada que encontramos vem do cemitério Santo Antônio, em Vitória (ES), onde Thompson fez campo em 2015 e 2016. Tudo o que segue é o que essa pesquisa viu nesse cemitério, não regra para o Brasil.

Os umbandistas de lá usam três pontos: o cruzeiro, as lápides e os portões. Os três são tratados como lugares de passagem, onde os mortos dialogam com o mundo dos vivos. Para os entrevistados, a cruz é o cruzamento de forças, o encontro do alto com o baixo e da esquerda com a direita.

Santo Antônio tem dois cruzeiros. O da linha branca fica na parte baixa, a área nobre e mais visível. O outro, conhecido como “cruzeiro de exu ou linha preta”, fica na parte alta, afastado. A própria autora avisa que só alguns cemitérios têm mais de um cruzeiro.

Dois entrevistados contam o que fazem logo depois do portão: vão ao cruzeiro “para saudar toda as almas”. O gesto registrado é bater palmas três vezes, a mão direita na esquerda. O cruzeiro permite cultuar também almas enterradas em outros cemitérios, e por isso, segundo a autora, atrai mais frequentadores.

O cemitério é também o lugar onde outras famílias choram os seus. Quem vai ao cruzeiro chega em silêncio, respeita o enterro que estiver acontecendo e leva embora o que não se decompõe.

Trabalho no cemitério se faz com dirigente, dentro do fundamento da casa. Este artigo explica o lugar e não ensina oferenda nenhuma. Para a vela simples, a de devoção, o passo a passo e os cuidados estão em acender vela para as almas.


Pretos-velhos e o Cruzeiro do Campo Santo

Em Vitória, o cruzeiro branco é o único lugar do cemitério onde se deixa oferenda para pretos-velhos, segundo os entrevistados. A vela registrada para eles é branca e preta. Ao lado, a pesquisa encontrou alguidar com pipoca para Obaluaê e Omulu, que ali atuam “no portão e no cruzeiro das almas”.

O vínculo aparece também nos pontos cantados. O historiador Lourival Andrade Júnior apresentou um trabalho na ANPUH em 2013. Nele, cita o ponto de Pai André do Cruzeiro, impresso numa coletânea da Editora Eco em 1974:

“No Cruzeiro do Campo Santo, / Um velhinho trabalhava / Chorando com contrição / Se do cativeiro lembrava.”

O campo santo do ponto é o cemitério, o mesmo nome que a tese da UNIRIO usa para o terreno abençoado. O preto-velho trabalha aos pés da cruz, e a memória do cativeiro vem junto. Quem são esses trabalhadores, e por que em algumas casas a linha inclui também a esquerda, está em linha das almas na umbanda.


O povo da calunga: exus e pombagiras do cruzeiro

O cruzeiro não é só da direita. Em Vitória, os exus recebem oferenda nos portões, nas lápides e nos cruzeiros, segundo a mesma pesquisa. O que se faz no cruzeiro preto fica fora deste texto: é assunto de casa, não de blog.

Os nomes dizem onde cada um trabalha. O antropólogo Vagner Gonçalves da Silva, da USP, mostra que a maioria dos nomes de Exu remete ao domínio que ele rege. Entre esses domínios estão os pontos de passagem entre vivos e mortos, como cemitérios, catacumbas e caveiras. O povo da calunga carrega esse território no sobrenome.

Três registros mostram isso de perto:

  • Maria Padilha do cruzeiro preto. No Dia de Finados de 2016, em Vitória, um umbandista contou que vai direto ao cruzeiro. É lá que trabalha a pombagira da mãe de santo dele.
  • Tranca Ruas das Almas. Na apostila de pontos de um terreiro de Curitiba, ele é o Exu “que no cruzeiro está”, “filho das almas também”.
  • Maria Padilha das Almas e Rosa Caveira. A pesquisa de Fábio Gonçalves, da UFMG, estudou uma casa de umbanda com culto quimbandeiro em Bocaiuva (MG). Lá, as duas estão entre as entidades que comem na calunga.

Na literatura umbandista que o sociólogo Reginaldo Prandi analisou, aparecem ainda nomes como Pombagira do Cruzeiro e Pombagira das Almas. Prandi descreve essas listas para mostrar como Exu foi demonizado pelo sincretismo, não para endossá-las. Por que tantos Exus levam “das Almas” no nome está em Exu das Almas.

No modelo de sete reinos que circula em parte da quimbanda, os cruzeiros formam um reino próprio, separado das encruzilhadas e da calunga. A lista muda de casa para casa, e o desenho está em reinos da quimbanda. O panorama da tradição fica na página de quimbanda.


Cruzeiro das almas não é encruzilhada

A confusão vem da palavra. Cruzeiro e encruzilhada têm a mesma raiz, a cruz, mas são pontos diferentes.

A encruzilhada é o encontro de caminhos, no chão da rua, e é território do povo da rua. O cruzeiro é uma cruz erguida, marco de campo santo, e seu povo é o das almas. Um se define pelo cruzamento de estradas, o outro pelo morto e pela bênção do terreno.

Até dentro do cemitério, em Vitória, cada ponto tinha destinatário certo, como se viu acima. A casa sabe qual Exu responde em cada lugar, e o sobrenome da entidade costuma dizer. Os formatos de encruzilhada, e o que cada chão muda, estão em encruzilhada na quimbanda.


O cruzeiro das almas no terreiro de umbanda

Há casas que trazem o cruzeiro para dentro do próprio terreno. O Santuário Nacional da Umbanda, em Santo André (SP), mantém um Cruzeiro das Almas na estrada do Vale dos Orixás. É local de oração pelos desencarnados. O psicólogo Rafael de Nuzzi Dias descreveu outro, de perto, na dissertação de mestrado que defendeu na USP de Ribeirão Preto em 2011. O campo foi feito no Terreiro Pai José do Rosário.

Cruz simples de madeira cravada no chão de terra batida, com rosário pendurado, quartinha de barro, cachimbo, alguidar e uma vela branca acesa, no canto das almas de um terreiro de umbanda.

Ali, logo na entrada, ficam duas construções lado a lado: a tronqueira, dos exus e pombagiras, e a casa ou cruzeiro das almas. É o único lugar do terreiro sem piso, só terra batida com areia da praia. No centro, uma cruz de madeira de aroeira feita pelo próprio dirigente, cravada no chão, com um rosário pendurado.

Em volta, a pesquisa registrou quartinha de barro com água, cachimbo de madeira e alguidar. Há também uma vela branca, que o dirigente repõe todo dia. Embaixo da terra há um fundamento plantado na fundação da casa, que só ele sabe o que é. Para esse dirigente, “a casa das almas é uma devoção da linha dos pretos-velhos”. Tudo que se faz para eles, ali, se faz na segunda-feira.

O pesquisador lê esse culto como parente do culto às almas do purgatório do catolicismo popular. Com uma diferença: ali se reverenciam também os mortos da família e da própria casa.

Isso responde a quem procura cruzeiro “de madeira” para terreiro. A cruz é feita e plantada pelo dirigente, junto com o fundamento, e não se monta por conta própria. Quem é médium da casa cuida do que ela pede: vela branca, quartinha, rosário, cachimbo e fumo do preto-velho. Quem acende em casa, sem cruzeiro, pode usar a vela preta e branca virtual como referência de cor e de intenção.


Perguntas frequentes

Onde fica o cruzeiro das almas perto de mim?

No cemitério tradicional mais antigo da sua cidade. Os cemitérios brasileiros do século XIX tinham, em geral, uma cruz central que marcava o terreno como campo santo, e é ela o cruzeiro. Em cemitério novo, pergunte na administração. Alguns cemitérios têm mais de um cruzeiro, como o Santo Antônio, em Vitória.

Qual o significado do cruzeiro das almas na umbanda?

É um ponto de passagem entre vivos e mortos, onde se saúdam todas as almas de uma vez. Na pesquisa feita em Vitória, os umbandistas descrevem a cruz como cruzamento de forças. Eles vão a ela antes de qualquer outro ponto do cemitério. Pretos-velhos, Obaluaê e Omulu aparecem ligados ao cruzeiro nessa pesquisa.

Posso acender vela no cruzeiro das almas sozinho?

Vela de devoção, para as almas em geral, é gesto que a pesquisa de Vitória registrou entre católicos e umbandistas no cruzeiro. Use suporte firme, não deixe lixo e respeite quem está de luto. Oferenda para entidade é outra coisa: pede orientação do dirigente da sua casa, porque cada terreiro tem o seu fundamento.

Qual a diferença entre cruzeiro das almas e casa das almas?

No cemitério, cruzeiro é a cruz central. No terreiro, o nome vale para o canto das almas, que numa casa estudada pela USP também se chama casa das almas. Lá ele tem chão de terra, cruz de aroeira, rosário, quartinha e vela branca, e fica perto da tronqueira.


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Referências

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