As qualidades de Oxalá mais conhecidas no Brasil são duas: Oxalufã, o velho do cajado, e Oxaguiã, o jovem guerreiro do pilão. Verger registra que se diz na Bahia que existem dezesseis.
As fontes abertas trazem a mesma base: o branco, a sexta-feira e a saudação Èpa Bàbá. Elas divergem em três pontos. Uma é se as formas são o mesmo orixá, outra é de quem Xangô é parente, e a terceira é quem é Odudua.
Quantas qualidades de Oxalá existem?
Duas são as mais conhecidas. Gaia e Scorsolini-Comin escrevem que, para a cultura iorubá, existiriam outras 16 formas. Só Oxalufã e Oxaguiã recebem no Brasil o nome de Obatalá ou Oxalá. A visão geral do orixá está em quem é Oxalá.
Verger registra que “diz-se na Bahia que existem dezesseis Oxalás” e dá uma lista de nomes. Entram nela Odudua, “por causa de sua presença nos mitos de criação”, Ajaguna, um dos nomes de Oxaguiã, e Olissassa, a versão gêge de Lisa.
A lista mistura nomes iorubás, um nome jeje e Odudua. A Wikipédia traz outra, de 16 nomes, que separa Ajagunã de Oxaguiã. Nas fontes consultadas, não há número oficial.
Oxalufã e Oxaguiã: o velho e o jovem guerreiro
“O velho Oxalufã, cansado e encurvado, movendo-se vagarosamente, quase incapaz de dançar; o jovem Oxaguiã, dançando rápido como o guerreiro que é no mito.”
Reginaldo Prandi, candomblé de rito queto, 1995
Oxalufã é o mais velho dos orixás e o último reverenciado no xirê, que vai do orixá mais novo ao mais velho. Em Verger, os outros orixás cercam e sustentam Oxalufã na dança que fecha o xirê. A saudação é Èpa Bàbá, “Salve o Pai”.
O símbolo é o opaxorô, um cajado de metal enfeitado, com um pombo no alto. O museu da Duke diz que ele é carregado especificamente por Oxalufã.

Oxaguiã é, em Verger, um orixá funfun “jovem e guerreiro”. O gosto pelo inhame pilado lhe valeu o apelido de “Orixá-Comedor-de-Inhame-Pilado”, e dizem que ele inventou o pilão. A festa anual dele se chama Pilão de Oxaguiã.
Os símbolos, no IPHAN, são a idá (espada), a mão de pilão e o escudo, e Gaia soma o atori.
Cor, dia e comida de cada qualidade de Oxalá
Oxalufã (Prandi, rito queto): Cor: branco | Dia: sexta-feira | Comida: canjica, arroz com mel, inhame pilado | Símbolo: opaxorô
Oxaguiã (Prandi, rito queto): Cor: branco com “um mínimo de azul real” | Dia: sexta-feira | Comida: inhame pilado e canjica | Símbolo: idá, mão de pilão, escudo
O IPHAN descreve a cor de Oxaguiã como o branco “levemente mesclado com azul”. Verger chama a sexta-feira de dia consagrado a Oxalá. Para ele, o branco da sexta se estende a todas as pessoas filiadas ao candomblé.
A Wikipédia registra, sem fonte, o domingo para o Oxalá velho. Os domingos das águas de Oxalá são de festa. No Opô Afonjá, segundo Pinheiro, o segundo é de Oxalufã e o terceiro, o Dia do Pilão, é de Oxaguiã.
Na comida, as duas formas aparecem com canjica e inhame pilado em Prandi, que acrescenta o arroz com mel a Oxalufã.
As interdições são o dendê, o vinho e o sal em Verger, e Gaia soma o carvão.
Oxalufã e Oxaguiã são o mesmo orixá?
As fontes dão três respostas. Prandi escreve que Oxalá “apresenta-se de duas formas”, e o IPHAN diz que ele se apresenta “de duas maneiras”, moço e velho.
Gaia e Scorsolini-Comin discordam: “Não se trata de variações de um mesmo Òrisà”, e Òṣàlá é o panteão responsável pelos cultos de Oxalufã e Oxaguiã. Eles escrevem também que é possível que Oxalufã seja o próprio Obatalá.
A terceira resposta vem de um itã que Póvoas, babalorixá e professor, conta numa aula da UESC. Ajagunã, filho de Obatalá, nasce sem cabeça, e Ori lhe faz uma de inhame pilado, com escudo e mão de pilão. No fim, “Ajagunã virou Oxalufã, o mais velho dos mais-velhos”, e Ogum faz um cajado para ele se apoiar.
Nessa versão, o jovem e o velho são a mesma figura em tempos diferentes. Verger e Póvoas coincidem só no nome, pois Ajaguna é um dos nomes de Oxaguiã na lista de Verger.
Parentes de Oxalá: Oxaguiã, Xangô, Airá e Odudua
Em Verger, Oxalufã visita em Ejigbô “seu filho Oxaguiã”, e Gaia, citando Verger, chama Oxaguiã de filho de Oxalufã.
Sobre Xangô, as fontes se dividem em três. Verger o chama de “amigo” de Oxalufã. Prandi e Vallado contam que ele descobre “seu pai Oxalá” preso, e chamam Airá Intilé de “o filho rebelde de Obatalá”. A Wikipédia registra Xangô como “seu outro filho”, sem fonte.
Odudua rende quatro leituras. Cada autor diz uma coisa, e o texto não desempata.
- Prandi: irmão mais novo de Orixalá, o primogênito, e quem apanha o saco da criação.
- Verger: “mais personagem histórico do que orixá”, invasor e fundador de Ifé. O Padre Baudin o feminiliza para fazer dele a companheira de Obatalá, e a companheira de Obatalá, em Verger, é Yemowo.
- Wikipédia e Gaia: divindade feminina, a parte de baixo da cabaça, e a “parte feminina” de Olorum, enviada para criar a terra.
- Marins: na versão atual da criação, Odùduwà é o protagonista, e Obatalá fica com os seres humanos.
As qualidades de Oxalá em outras nações
Na nação angola, as fontes abertas aproximam Oxalá do nkisi Lemba ou Lembá. Numa casa de angola de São Paulo, Barros descreve Lembaringanga, ligado ao nome nagô de Oxalá, como “nkisi muito respeitado e que encerra todas as cerimônias de candomblé”. Num candomblé angola estudado na revista RACA, um taata diz que “Lembá rejeita azeite de dendê”. O Inzo Tumbansi, casa de angola, descreve Lembá com cor branca e canjica com coco.
A Wikipédia diz que Lemba “equivale ao orixá Oxalá”, palavra dela, e aqui vale como aproximação. Dia, cor e comida de Lemba em fonte acadêmica não foram localizados. Veja as nações de angola.
Do lado jeje, Verger diz que Lisa é, para os fon, o nome de Òrìsàálá, e que Olissassa é a versão gêge de Lisa no Brasil. Numa casa de tambor-de-mina de São Paulo, Prandi registra Lissá como correspondente de Oxaguiã e Arronovissavá como o de Oxalufã. O mesmo capítulo descreve Lissá como vodum dos astros, que representa o sol. É correspondência de uma casa, sem equivalência. O candomblé jeje da Bahia não apareceu em fonte aberta.
No batuque, uma casa do Rio Grande do Sul dá o domingo como dia de Oxalá, com Iemanjá e Oxum como adjuntós. O Ilê de Obokun descreve Obokun, “o mais moço dos Oxalás”, e Oromilaia, “um Oxalá muito velho”, que algumas famílias não entregavam a cabeça. Lia e Troglio registram o arroz de leite para Oxalá, na receita de um babalorixá de Caxias do Sul. O batuque tem artigo à parte em Oxalá no batuque.
O fundamento é da casa
A lista acima reúne o que as fontes abertas registram e não substitui a tradição de nenhuma casa. A qualidade de Oxalá de uma pessoa não se descobre por texto nem por teste. O orixá de cabeça se confirma no jogo de búzios, numa casa de axé, e cada nação nomeia as formas a seu modo.
Perguntas frequentes
Quantas qualidades de Oxalá existem?
No Brasil, as duas mais conhecidas são Oxalufã e Oxaguiã. Verger registra que “diz-se na Bahia que existem dezesseis Oxalás” e dá uma lista, e Gaia e Scorsolini-Comin falam em outras 16 formas na cultura iorubá. Nas fontes consultadas, não há número oficial.
Oxalufã e Oxaguiã têm dias diferentes?
Para Prandi e o IPHAN, o dia é a sexta-feira nas duas formas. A Wikipédia registra, sem fonte, o domingo para o Oxalá velho, e uma casa de batuque do Rio Grande do Sul dá o domingo para Oxalá. O dia da sua casa vale mais.
Obatalá e Oxalá são o mesmo orixá?
Gaia e Scorsolini-Comin escrevem que só Oxalufã e Oxaguiã recebem no Brasil o nome de Obatalá ou Oxalá, e que é possível que Oxalufã seja o próprio Obatalá. A Wikipédia lista Obatalá entre os nomes de Oxalá. A resposta varia com a casa e com o autor.
Oxalá é pai de Xangô?
Depende da fonte. Prandi e Vallado chamam Oxalá de “pai” no mito de Xangô Baru, Verger chama Oxalufã de “amigo” de Xangô, e a Wikipédia registra Xangô como “seu outro filho”, sem fonte.
Referências
- Reginaldo Prandi, Horizontes Antropológicos: Deuses africanos no Brasil contemporâneo
- Pierre Verger, Corrupio: Orixás, ficha da obra
- Gaia e Scorsolini-Comin, Memorandum (UFMG): Representações de Òṣàlá
- IPHAN: Festa do Bonfim, dossiê
- Reginaldo Prandi, Companhia das Letras: Mitologia dos orixás, trecho
- Prandi e Vallado, Edusp: Xangô, rei de Oió
- Luiz L. Marins, África (USP): Òrìsà dídá ayé
- Cristine Lia e Matheus Troglio, Revista Maracanan (UERJ): Alimentação sagrada no Batuque
- Érika Pinheiro, UERJ: O espetáculo das águas