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Orixás 8 min de leitura

Ayrá orixá: quem é e por que carrega Oxalá nas costas

Xangô Ayrá veste branco e carrega Oxalá nas costas. Umas casas o tratam como qualidade de Xangô, outras como orixá próprio. Veja cores, contas e a festa.

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Pano de algodão branco sobre esteira de palha com uma gamela de madeira cheia de quiabos cortados, uma quartinha de barro branca em pé e um machado de dois gumes com cabo de madeira, diante de parede caiada.

Resumo

Ayrá, também escrito Airá, é cultuado no candomblé ketu. Muitas casas o tratam como uma qualidade de Xangô, e outras como orixá próprio, ligado a Xangô. Reginaldo Prandi registra que a leitura mais comum é a de um Xangô branco.

A cor dele é o branco, e o itan explica o motivo: quando Oxalá voltou do reino de Xangô, foi Ayrá quem o acompanhou e o levou nas costas. Em casas grandes, o assentamento de Ayrá fica junto dos orixás funfun, e não no quarto de Xangô.

A festa pública mais conhecida é a de 29 de junho na Casa Branca do Engenho Velho, em Salvador, e quem vai assistir veste branco. Cor das contas, dendê na comida e caminho de Ayrá mudam de casa para casa, e só o terreiro confirma quem é de Ayrá.

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8 min de leitura

Na festa da Casa Branca do Engenho Velho, em Salvador, um orixá de branco dança carregando o velho Oxalufã nas costas. É Ayrá, que muita gente conhece como Xangô Airá. O Ayrá orixá anda com os orixás do branco, mas também come quiabo e dança o alujá, como Xangô.

Daí a pergunta que mais aparece sobre ele: Ayrá é Xangô ou outro orixá? As casas de candomblé ketu respondem de jeitos diferentes, e as duas respostas têm fonte. Este guia mostra as duas, conta o itan que explica o branco e diz o que muda de casa para casa.


Quem é Ayrá no candomblé

Ayrá é um orixá do candomblé de nação ketu, também chamada nagô. A grafia varia: Reginaldo Prandi e Armando Vallado escrevem Airá, e outros autores escrevem Ayrá.

Os dois pesquisadores da USP resumem assim, no capítulo Xangô, rei de Oió: em alguns terreiros, Airá é um grupo de qualidades de Xangô, e em outros é um orixá diferente, que participa dos mitos dele.

“O mais comum é considerar-se Airá como um Xangô branco.”

Reginaldo Prandi e Armando Vallado, Edusp, 2010

Nação: ketu (nagô) | Cor: branco | Toque: alujá | Festa na Casa Branca: 29 de junho | Grafias: Ayrá, Airá

A origem aponta para a região de Savé. Pierre Verger registrou que em Ketu se dizia que o culto veio de Savé, e em Savé, que veio de Ketu. O caminho de Xangô como rei de Oió está no guia sobre quem é Xangô.


Ayrá é qualidade de Xangô ou orixá próprio?

Depende da casa, e cada leitura tem gente de terreiro e pesquisa por trás.

Ayrá como Xangô. Pai Pércio de Xangô, babalorixá do Ilê Alaketu Axé Airá, respondeu a Prandi com três palavras: “É tudo Xangô”. O estudo de Viviane Caldas e Leonardo Lima, da UERJ, publicado na Revista Philologus, confirma que muitas casas brasileiras veem os dois como uma divindade só.

Ayrá como orixá à parte. Para o terreiro que mantém o site O Candomblé, Airá é “um Orixá único”, de culto independente, que no Brasil foi incorporado à família de Xangô. Djamila Ribeiro, em coluna na Folha de S.Paulo, descreve vertentes em que Ayrá é autônomo e muito ligado a Oxalá.

Um meio-termo. Um babalorixá ouvido na tese de Luciano Lima Souza, da UESB, disse que Airá é um orixá específico, “mas é da família de Xangô”.

Nenhuma dessas falas anula as outras. Se o seu terreiro canta Ayrá como Xangô, essa é a liturgia da sua casa. A lista dos outros caminhos de Xangô está em qualidades de Xangô.


Por que Ayrá carrega Oxalá nas costas

A resposta está num itan que liga Xangô, Oxalá e Ayrá. A tradição conta que Oxalá ficou preso sete anos no reino de Xangô sem que o rei soubesse. Quando descobriu, Xangô o soltou, e ele e seu povo “vestiram-se de branco e pediram perdão”. O site O Candomblé liga a esse acontecimento a festa hoje conhecida como Águas de Oxalá.

Na volta de Oxalá para casa, Xangô não pôde acompanhá-lo e mandou Ayrá no lugar. “Foi assim que Airá tornou-se o companheiro de Oxalá”, registra a mesma casa. Na versão contada por Djamila Ribeiro, Ayrá levava Oxalá nas costas durante o dia e, à noite, acendia uma fogueira e o distraía com histórias.

Prandi registra outra versão, no caminho de Airá Intilé: Obatalá fez Intilé levá-lo de volta ao palácio pelo rio, carregando-o nas costas. Na Casa Branca, a cena volta na dança, quando Ayrá carrega Oxalufã.

Pintura de uma margem de rio à noite com fogueira acesa na areia, pano branco dobrado e cajado de madeira ao lado, palmeiras e céu estrelado.

Outro itan de Prandi explica o branco de Airá Osi. Depois de enganar Oxaguiã, o jovem voltou para casa vestido de branco “e nunca mais usaria o escarlate”. Oxalufã e Oxaguiã, as duas faces de Oxalá, estão em quem é Oxalá.


Cores, contas, coroa e comida de Ayrá

O branco é a cor em que todas as fontes concordam. Verger descreveu os Airá como Xangôs muito velhos, sempre vestidos de branco. Como Ayrá não foi rei, também não usa coroa, e sim um adorno de cabeça, que O Candomblé chama de eketé branco.

Em casas grandes, o assentamento de Ayrá não fica no quarto de Xangô. Ele fica com os de Oxalá e Oduduwa, entre os orixás funfun, os orixás do branco. Em casa pequena, os dois podem dividir o mesmo quarto. Segundo o estudo da UERJ, essa proximidade com Oxalá também liga Ayrá à chuva.

O resto muda de casa para casa:

ItemO que as fontes registram
ContasAzuis no lugar do coral (Verger); brancas rajadas de marrom com segui (O Candomblé); vermelho e branco (babalorixá ouvido na UESB e o mito de Intilé em Prandi)
ComidaBase de quiabo, como a de Xangô (Philologus)
DendêSem dendê e sem sal; só um pingo em Airá Modé; dendê com moderação, na resposta da mesma casa a um leitor

A divergência do dendê tem explicação. Djamila Ribeiro lembra que tudo o que pertence a Oxalá rejeita o dendê. Como Ayrá vive entre Xangô e Oxalá, cada casa acerta o tempero pelo próprio fundamento. A comida de quiabo de Xangô está em amalá de Xangô, e a restrição dos orixás do branco em oferenda para Oxalá.

Por essa mesma razão, este guia não traz receita de oferenda para Ayrá. Quem define o prato é a casa.


A festa de Ayrá em 29 de junho

A festa mais conhecida de Ayrá acontece em junho. Prandi registra que, na maioria dos terreiros, acontece em junho a fogueira de Airá, em que Ibonã dança com Iansã pisando as brasas. O Candomblé liga a fogueira de 29 de junho à viagem de Ayrá com Oxalá.

Na Casa Branca do Engenho Velho, o Ilê Axé Iyá Nassô Oká, 29 de junho é a festa de Xangô Airá, “um dos orixás mais importantes da comunidade”. Lisa Earl Castillo e Luis Nicolau Parés registram isso na revista Religião e Sociedade. A festa pública desse dia é para Ayrá Intilé, e quem vai assistir veste branco.

A ligação é antiga. Pela tradição oral das casas descendentes, o candomblé da Barroquinha, de onde saiu a Casa Branca, “era uma casa dedicada ao orixá Airá Intile”. Renato da Silveira, no artigo da Afro-Ásia, levanta a hipótese de que Iyá Akalá assentou os fundamentos de Airá na Bahia.

As Águas de Oxalá têm data própria, que muda de casa para casa. Na Casa Branca, pelo registro do Geledés, o rito é na última sexta-feira de agosto. No Opô Afonjá, em 2018, foi na última sexta de setembro. Nos dias do rito, as casas ketu usam só branco e comem sem sal.


Perguntas frequentes

Como saber se sou de Ayrá?

Só a casa confirma. O orixá de cabeça e o caminho dele são definidos pelo babalorixá ou pela ialorixá do terreiro. Nenhum teste da internet aponta Ayrá. O teste do orixá serve como porta de entrada para conhecer os orixás, e a resposta vem depois, na sua casa.

Qual é a saudação de Ayrá?

O estudo da UERJ registra a saudação Ayrá Lé, que traduz como “Ayrá está feliz, ele está sobre a casa”. Na dúvida, siga o que o seu terreiro canta.

Ayrá existe na umbanda?

Ayrá é cultuado nas casas de candomblé de nação ketu. Nenhuma das fontes deste guia registra culto a ele na umbanda nem nas nações angola e jeje. Se a sua casa canta Xangô Ayrá, o dirigente explica de onde vem esse fundamento. As diferenças entre as religiões estão em umbanda e candomblé.

Filho de Ayrá é filho de Xangô?

Nas casas que tratam Ayrá como qualidade de Xangô, sim. Nas que o cultuam como orixá à parte, a resposta muda. O perfil atribuído aos filhos de Xangô está em filhos de Xangô, e o terreiro diz como a sua casa entende.


Onde comprar artigos para a festa de Ayrá

Na Joia Mística Laroyê você encontra o que precisa para a festa e para as Águas de Oxalá:

  • Roupa de ração branca, para ir de branco à festa de Ayrá e às Águas
  • Panos brancos de algodão
  • Fios de contas montados na cor que a sua casa define para Ayrá
  • Imagens de Xangô e de Oxalá em resina
  • Ferramentas de orixá, como o oxê de Xangô

Passe na loja, na Rua Benedito Zingari, 460, Bela Vista, em Extrema-MG, ou chame no WhatsApp com entrega para todo o Brasil.


Referências

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