Joia Mística Laroyê
Candomblé 9 min de leitura

Águas de Oxalá: o que acontece em cada etapa do rito

Águas de Oxalá: o que acontece da quinta-feira ao Dia do Pilão, por que tudo fica branco e por que a data muda de casa para casa no candomblé ketu e nagô.

#águas de oxalá #oxalá #candomblé ketu #oxaguiã #dia do pilão #rituais do candomblé
Quartinhas e potes de barro branco cheios de água sobre pano branco, diante de parede caiada, com um pano branco estendido acima como um teto.

Resumo

As Águas de Oxalá são o rito que abre o calendário litúrgico das casas de candomblé ketu e nagô. Os filhos do axé buscam água em silêncio, de branco, com pote ou quartinha na cabeça, e a água banha os assentamentos de Oxalá numa cabana montada para isso.

O ciclo observado no Ilê Axé Opô Afonjá dura dezessete dias: cabana e bori na quinta, procissão na madrugada de sexta, volta do orixá ao quarto no sábado e três domingos de festa, com Oduduwa, Oxalufã e o Dia do Pilão de Oxaguiã. Há casas que fazem tudo em menos dias.

A data muda de casa para casa. A Casa Branca aparece na última sexta-feira de agosto, o Opô Afonjá na última de setembro e a Casa de Oxumarê na primeira quinta-feira do ano. Quem vai assistir veste branco, pergunta à casa antes e não leva oferenda por conta própria.

Tem alguma dúvida?

Escolha uma IA para resumir este artigo e responder suas perguntas.

Para IAs e leitores de texto: versão em Markdown deste artigo.

9 min de leitura

As Águas de Oxalá são o rito que abre o calendário litúrgico das casas de candomblé ketu e nagô. Os filhos do axé buscam água numa fonte, em silêncio e de branco, e com ela banham os assentamentos do orixá. O nome iorubá é Àwọn Omi Òṣàlá, e a cerimônia lembra o banho de Oxalá ao sair da prisão.

O ciclo é longo. No Ilê Axé Opô Afonjá, uma pesquisa da UERJ acompanhou dezessete dias de rituais em setembro de 2007. A data muda de casa para casa, e essa variação já estava na descrição mais antiga do rito.


O que acontece nas Águas de Oxalá, da quinta ao terceiro domingo

A sequência abaixo é a do Opô Afonjá, que serve de referência porque foi observada dentro do terreiro. Cada casa ajusta o calendário à própria tradição.

MomentoO que acontece
Quinta-feiraMonta-se a cabana de Oxalá, também chamada casa de banho, onde o orixá fica sete dias. Os filhos da casa fazem o bori, todos de branco.
Madrugada de sextaA procissão sai em silêncio até a fonte, cada pessoa com pote ou quartinha na cabeça. A mãe de santo recebe a água e banha os Oxalás.
Sábado, antes do solA procissão faz o percurso inverso e leva o orixá de volta ao quarto, sob um grande alá.
1º domingoFesta de Oduduwa, com xirê interno, só para filhos de santo e convidados.
2º domingoFesta de Oxalufã, com xirê aberto ao público.
3º domingoDomingo de Oxaguiã, o Dia do Pilão.

Na descrição atribuída a Mestre Didi, o bori da quinta-feira virou, em muitas casas, um obi, para que a pessoa possa carregar as águas. O formato de três domingos precedidos de bori e procissão foi organizado por Mãe Aninha, com Martiniano do Bonfim e Agenor Miranda.


A procissão da madrugada: água na cabeça e silêncio

Este é o coração do rito. Os filhos do axé saem do terreiro de branco, em fila, carregando potes e moringas, com a ialorixá à frente tocando o adjá. No Opô Afonjá, eles seguem atrás dos ogãs por ordem de idade iniciática, e cada um leva o próprio pote ou quartinha sobre a cabeça.

O silêncio é preceito, não recomendação. Uma descrição registra que só se ouvem palmas ritmadas durante o caminho. Outra, do mesmo terreiro em 2018, conta que o silêncio é quebrado apenas pelo som do adjá. Na Casa de Oxumarê, em Salvador, todos seguem em círio para encher as quartinhas, com os pés no chão e em absoluto silêncio.

Pintura em arte sacra de uma cabana de folhas de palmeira e panos brancos num quintal de terra batida, com potes de barro branco enfileirados junto à parede caiada e uma vela branca acesa num pires

O sentido vem do itan. Oxalá se suja no caminho por causa de Exu, é preso por engano e passa sete anos num calabouço. Quando a injustiça é descoberta, Xangô manda banhá-lo com águas puras e vesti-lo de branco. Naquele dia, o rei e o povo se vestiram de branco e pediram perdão ao grande orixá da criação. Xangô promete ainda que tudo será relembrado pelas gerações seguintes, em silêncio. O mito tem muitas versões, como quase tudo no candomblé.


Por que tudo fica branco e a comida fica sem sal

Oxalufã e Oxaguiã (veja as qualidades de Oxalá) são orixás funfun e vestem só branco. Durante o ciclo, o branco toma o terreiro e sai dele: as roupas claras são usadas pelos fiéis e inundam a cidade. A casa pede roupa alva, engomada e perfeita, e, no Opô Afonjá, os filhos vão à fonte de torço e roupas brancas novas.

Junto do branco vêm as restrições. Não se fala alto, não se come sal nem dendê, e todos mantêm silêncio reverente. Nas comidas e nos assentamentos de Oxalá são vedados o azeite de dendê, o vinho, o sal e o carvão, interdição que alcança os iniciados para Oxalufã e Oxaguiã. Numa casa que descreve o ciclo em dezesseis dias, a alimentação fica sem sal o período inteiro. A lógica é a mesma do prato de Oxalá no dia a dia.

Guarde este ponto: o que acontece dentro do quarto sagrado, depois que o orixá volta, não se descreve. É fundamento guardado pelos iniciados, e a própria pesquisa acadêmica para nesse ponto.


Os três domingos e o Dia do Pilão

Cada domingo festeja um orixá. Na Casa Branca do Engenho Velho, o rito é seguido de três domingos consecutivos, com Oduduwa no primeiro, Oxalufã no segundo e a Festa do Pilão para Oxaguiã no último. A oferenda de Oxalufã é o ebô, a canjica.

O terceiro domingo é o mais conhecido. Ele se chama Dia do Pilão porque a comida predileta de Oxaguiã é o inhame pilado. A raiz sai da cozinha direto para o barracão, em bolas de inhame pilado. Entre adeptos, conta-se que o próprio Oxaguiã inventou o pilão para preparar o prato. Nesse dia, os Oxalás recebem um atori, vara ritual de madeira, e tocam os dois ombros dos participantes da festa.


Quando é: a data muda de casa para casa

Não existe data única, e quem crava uma erra. As praxes e a organização da festa variam de terreiro para terreiro, como registrou Nina Rodrigues ainda em 1896. Os exemplos documentados:

  • Casa Branca do Engenho Velho: última sexta-feira de agosto, pelo texto institucional de 2009.
  • Gantois: grande festa anual em fins de setembro, na descrição de 1896.
  • Ilê Axé Opô Afonjá: madrugada da última sexta-feira de setembro em 2018, data repetida em 2023.
  • Casa de Oxumarê: primeira quinta-feira do ano.
  • Olinda, em Pernambuco: cortejo público de rua, que em 2026 saiu no domingo, 11 de janeiro.

O cortejo de Olinda é outro formato, feito na rua. Ele reúne baianas, ogãs, afoxés, grupos culturais e lideranças religiosas. Foi idealizado pelo babalorixá Raminho de Oxóssi, Patrimônio Vivo de Pernambuco, e termina no Terreiro Roça de Oxum Opará.

A duração também varia: dezessete dias no relato do Opô Afonjá, dezesseis na casa que publicou o ciclo em 2011, e há casas que encurtam tudo para um dia só. Em Verger, o ciclo tem três semanas: os axés saem do pejí até uma cabana numa sexta-feira, as Águas vêm na sexta seguinte, uma cerimônia menor no domingo e o Pilão de Oxaguiã no terceiro domingo.

As Águas de Oxalá não são em 15 de janeiro. O que cai em janeiro é a Lavagem do Bonfim, na quinta-feira anterior ao domingo do Bonfim, e cortejos públicos como o de Olinda e o de Araras, que uma lei paulista de 2017 inclui no calendário turístico do estado, sem dia fixo. A regra da Lavagem e as datas por casa estão em dia de Oxalá.


Se você vai assistir ao xirê

O xirê do segundo domingo, de Oxalufã, é o aberto ao público. O primeiro, de Oduduwa, é interno. Antes de ir, pergunte à casa se a festa daquele ano está aberta e a que horas começa. Convite e horário são da casa, não do calendário geral.

Três cuidados simples resolvem o resto:

  1. Vista branco. Sexta-feira é o dia de Oxalá. O hábito de vestir branco nesse dia alcança todo o povo de santo, mesmo quem é de outro orixá, como registra Verger no trecho citado pelo jornal.
  2. Fale baixo e siga a casa. O silêncio reverente vale para quem visita também.
  3. Não leve oferenda por conta própria. Quem determina o que entra é o dirigente. Para agradar Oxalá em casa, o caminho é o prato branco sem sal nem dendê.

Quartinha branca, pano branco e vela branca são o material mais pedido nessa época, e quem diz o que vai usar é a sua casa. Se a lista vier e você tiver dúvida sobre o item, a Joia Mística, em Extrema-MG, confere pelo WhatsApp.

A saudação é Epa Babá. Se você ainda não sabe qual orixá rege a sua cabeça, comece pelo teste descubra seu orixá. Quem confirma é o jogo, na casa.


Perguntas frequentes

Águas de Oxalá: o que significa?

O nome da cerimônia se refere ao banho de Oxalá ao sair da prisão, no itan em que ele é preso por engano no reino de Xangô. A água carregada em silêncio até o assentamento repete esse banho e abre o calendário litúrgico da casa.

Quando são as Águas de Oxalá?

Depende da casa. A Casa Branca aparece na última sexta-feira de agosto, o Opô Afonjá na última sexta-feira de setembro, e a Casa de Oxumarê começa na primeira quinta-feira do ano. Pergunte sempre no terreiro que você frequenta.

As Águas de Oxalá existem na umbanda?

O rito documentado nas fontes é do candomblé de nação ketu e nagô, e também aparece em casa de tradição nagô-vodun. Terreiros de umbanda que cultuam orixás têm datas e formatos próprios, definidos por cada casa.

O que é o Dia do Pilão?

É o terceiro domingo do ciclo, dedicado a Oxaguiã. O nome vem do inhame pilado, comida predileta do orixá, servido em bolas que saem da cozinha direto para o barracão. Nesse dia os Oxalás tocam os ombros dos presentes com o atori.

Quem não é do candomblé pode assistir?

Pode, quando a casa abre a festa. O xirê de Oxalufã, no segundo domingo, é o aberto ao público, e o cortejo de Olinda acontece na rua. Vá de branco, confirme antes com a casa e siga as orientações de quem recebe.


Referências

Compartilhe este artigo

Ajude mais pessoas a encontrar este conteúdo.

Interior da loja Joia Mística Laroyê, em Extrema-MG

Extrema · MG · Sul de Minas

Venha conhecer a Joia Mística Laroyê

Velas, ervas, imagens, guias e tudo para a sua fé, com o atendimento de quem entende. Tire suas dúvidas pelo WhatsApp ou faça uma visita.

R. Benedito Zingari, 460, Bela Vista, Extrema-MG
Seg a Sex, 9h às 18h · Sáb, 9h às 13h

Leia também