Oxumaré e Ewá são irmãos numa história e marido e mulher em outra, e as duas estão no mesmo livro de mitos reunidos por Reginaldo Prandi. Uma ialorixá os chama de gêmeos, e outra diz que não são nada disso. O que os une com certeza é a cobra e o arco-íris.
Euá, Ewá e Yewá são grafias do mesmo orixá. Prandi e as teses que o citam escrevem Euá; aqui fica Ewá, a forma mais buscada. A pergunta tem várias respostas porque itã não é árvore genealógica: cada narrativa ensina uma coisa, e cada casa guarda as suas.
Quem são Ewá e Oxumaré, em poucas linhas
Ewá é a orixá das fontes e do horizonte, cultuada no candomblé queto e reconhecida como vodum no jeje. O perfil completo, com família, cores e itãs, está em quem é Ewá.
Oxumaré é o orixá do arco-íris e da cobra. Pierre Verger escreve que ele é “ao mesmo tempo, macho e fêmea”, e que essa dupla natureza aparece nas cores vermelha e azul do arco-íris. Para Verger, a origem dele está em Mahi, no antigo Daomé, “onde é chamado Dan”. A ficha dele está em quem é Oxumaré.
Ewá: fontes e horizonte | Oxumaré: arco-íris e cobra | Em comum: a cobra, o arco-íris, a família de Nanã
A pesquisadora Du Flor Maranhão ouviu a ialorixá Mãe Lúcia de Omidewá. Para ela, Ewá faz parte do ketu, mas “tem mais a ver com o povo de Dan, ela é Fon”. É por esse caminho, o da serpente, que a dupla se forma no imaginário.
Oxumaré e Ewá são irmãos?
Sim, num itã recolhido por Prandi em Mitologia dos orixás (2001, p. 226). Ali, Ewá é filha de Nanã e é o horizonte, “o encontro do céu e a terra”. Ela não queria casar. Queria viver só, fazendo cair a noite e puxando o sol com seu arpão.
Nanã insistia no casamento, e Ewá pediu ajuda ao irmão. O arco-íris a escondeu no lugar onde ele acaba, atrás do horizonte.
“E assim os dois irmãos permaneceram vivendo longe da mãe lá onde o céu encontra a terra.”
Pela mãe, os dois são da família de Nanã, a mesma de Obaluaê e Omolu. Uma casa ketu, o Ilê Axé Opò Ajagunã, reúne os quatro como grupo. Segundo o resumo de um vídeo etnográfico gravado ali em 2021, a casa chama Iewá de “irmã de Oxumaré”, a sua “versão feminina”. A colunista Djamila Ribeiro, na Folha de S.Paulo, também os chama de irmãos.
Oxumaré e Ewá são casados?
Também, em outro itã do mesmo livro de Prandi (p. 236). Nessa história, Ewá é surpreendida pelo arco-íris entre as águas e se apaixona. O trecho que a pesquisadora Naiara Paula Eugenio cita na dissertação dela, defendida na UERJ, diz:
“E dele Euá loucamente se enamorou. Era Oxumarê que a encantava.”
Na versão resumida por Nágila Oliveira dos Santos, ela “veio a se casar com Oxumarê, com quem partilha os segredos do universo”. Há casa que ensina a mesma coisa. Num terreiro ouvido pelo pesquisador Luciano Lima Souza, em tese da UESB, Oxumaré é “esposo de Euá”.
Irmão numa página, marido noutra. Isso não é erro de Prandi: ele reuniu itãs de origens diferentes, e a tradição oral convive com versões que não se anulam.

Ewá e Oxumaré são gêmeos?
Para a ialorixá Mãe Andreia do Catimbó, sim. Ouvida por Maranhão na revista Mandrágora (2022), ela diz que Euá “é irmã gêmea de Oxumarê, filha de Nanã”.
É a fala de uma casa. Nenhum itã aberto que consultamos diz gêmeos. Quem chega a essa pergunta pelo Google costuma ter ouvido isso no terreiro, e a resposta honesta é que algumas casas ensinam assim e outras não.
”Euá é Euá”: quem diz que não são nada disso
Mãe Beata de Iemanjá, ouvida por Eugenio, recusa as duas ideias mais repetidas. Ela não aceita que Ewá seja o lado fêmea de Oxumaré e de Dan.
“Euá é Euá e Dan…”
Sobre o parentesco, Mãe Beata diz: “não se sabe se é irmão, todos são orixás que vem do Jeje”. Para ela, Ewá é parenta de Ibeji, de Iroko e de Oxumaré. Eugenio resume a posição dela: são “orixás distintos, mas unidos na guerra e na amizade”.
O itã que Mãe Beata conta mostra essa aliança. Oxumaré, “que era um grande rezador”, compra espelhos bonitos e os leva a Ewá, que ofusca o exército inimigo com eles e evita a guerra.
A leitura que ela recusa circula com força. A federação FUCESP repete o texto de que Ewá “teria o mesmo significado de Dan ou uma das suas metades”. A Wikipédia diz que ela é “ora irmã de Iansã, ora irmã de Oxumarê”. Nenhuma das duas cita de onde tirou isso.
O que liga os dois: a cobra, o arco-íris e a família jeje
Com fonte, três coisas aproximam os dois orixás.
- A cobra. Na tabela de Prandi para o candomblé queto, o símbolo de Ewá na casa é uma cobra de ferro. Eugenio observa que objetos de Oxumaré e de Ewá às vezes se confundem, porque a cobra “está no imaginário das pessoas como pertencendo aos dois orixás”.
- O arco-íris. Oxumaré é o arco-íris. Para Maranhão, em algumas tradições Ewá é a parte branca do arco-íris e, em outras, a parte vermelha.
- A família jeje. Na tese de Souza, o laguidibá, colar de discos, é “da família jêje: Omolu, Oxumarê, Euá e Nanã”. Num itã de Prandi (p. 227), Oxumaré recebe a coroa de Nanã e se torna “o rei dos jejes”.
A origem fon pesa na conta. O historiador Luis Nicolau Parés, citado por Montgomery e Gonzalez, registra que na Bahia o vodum serpente Bessen é da família Dan. O que é vodum e como as famílias se organizam está em voduns no Brasil. Nenhuma fonte aberta de Parés põe Ewá na família Dan. O fundamento jeje fica com as casas.
Quem procura uma guia para um dos dois encontra na Joia Mística contas e búzios avulsos. As cores e o fio, porém, são os que a casa indicar, porque mudam de nação para nação.
E no tambor de mina?
No tambor de mina do Maranhão, a resposta é outra. Prandi resume o panteão da Casa das Minas, descrito por Sérgio Ferretti: Euá é “filha de Azonce, também é nagô”, da família de Dambirá, a dos voduns da terra.
Num terreiro de mina de São Paulo estudado por Prandi, a tabela põe Dangbê, que corresponde a Oxumaré, e Eowá, que corresponde a Euá, na mesma família. Lá, Ewá é festejada em 16 de julho e Dangbê em 24 de agosto, dia de São Bartolomeu. A data de agosto está em São Bartolomeu e Oxumaré.
É uma quinta resposta: mesma família ritual, outro pai, sem casamento nem gemelaridade. Tambor de mina não é candomblé, e o que vale numa tradição não passa sozinho para a outra.
Se a sua dúvida é sobre o que a sua casa ensina, quem responde é o seu zelador. Para dúvidas sobre material, a equipe da loja atende pelo WhatsApp.
Perguntas frequentes
Oxumaré e Ewá são irmãos?
Num itã recolhido por Reginaldo Prandi, sim: os dois são filhos de Nanã, e Oxumaré esconde Ewá onde o arco-íris acaba. Em outro itã do mesmo livro eles se casam. Algumas casas ensinam irmãos, outras marido e mulher, e Mãe Beata de Iemanjá diz que não se sabe.
Ewá e Oxumaré são gêmeos?
É a fala da ialorixá Mãe Andreia do Catimbó, registrada pela pesquisadora Du Flor Maranhão em 2022: Ewá seria irmã gêmea de Oxumaré, filha de Nanã. Nenhum itã aberto consultado diz gêmeos, então vale como ensinamento de uma casa.
Qual é o itã de Oxumaré e Ewá?
Há dois em Prandi. No do horizonte (p. 226), Ewá foge do casamento e o irmão Oxumaré a esconde atrás do horizonte. No do arco-íris (p. 236), ela se apaixona por ele entre as águas e os dois se casam. Mãe Beata conta um terceiro, o dos espelhos.
Ewá é a versão feminina de Oxumaré?
Uma casa ketu e a FUCESP leem assim, e a Wikipédia fala em ora irmã de Oxumaré. Mãe Beata de Iemanjá recusa a ideia e diz que Ewá é Ewá. Pierre Verger descreve o próprio Oxumaré como macho e fêmea ao mesmo tempo.
Referências
- Nágila Oliveira dos Santos: Orixás no divã, com os itãs de Prandi, Revista África e Africanidades, 2010
- Naiara Paula Eugenio: A face guerreira das iabás Obá, Euá e Oiá, dissertação, UERJ, 2014
- Reginaldo Prandi: Nas pegadas dos voduns, 2005
- Reginaldo Prandi: Deuses africanos no Brasil contemporâneo, Horizontes Antropológicos, 1995
- Luciano Lima Souza: Os colares sagrados da memória, tese, UESB, 2019
- Du Flor Maranhão: Amar e mudar as coisas no arco-íris de Euá, Mandrágora, 2022
- Vinícius Vasconcelos Castro: Dan, a serpente arco-íris, Diversidade Religiosa, UFPB, 2012
- Eric J. Montgomery e Rene Gonzalez: artigo sobre o vodum, citando Parés, Revista Brasileira do Caribe, UFMA, 2019
- Gabriel Omar Alvarez: Bahia d’ Orixás, resumo do vídeo no Ilê Axé Opò Ajagunã, 2022
- Pierre Verger: Orixás, Corrupio, 1981
- FUCESP: ficha de Ewá
- Djamila Ribeiro: coluna sobre Ewá, Folha de S.Paulo, 2024
- Wikipédia: verbete Ieuá