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Orixás 8 min de leitura

Oxumaré e Ewá: irmãos, casal ou gêmeos? O que dizem os itãs

Oxumaré e Ewá são irmãos, marido e mulher ou gêmeos? Os itãs de Prandi dão duas respostas no mesmo livro, e as ialorixás dão outras. Veja quem diz o quê.

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Nascente de água doce entre pedras lisas numa mata enevoada ao amanhecer, com um arco-íris fraco descendo atrás do horizonte e um fio de búzios sobre uma pedra.

Resumo

Depende do itã e da casa. Nos mitos reunidos por Reginaldo Prandi, Ewá e Oxumaré são irmãos numa história, filhos de Nanã, e marido e mulher em outra, as duas no mesmo livro.

A ialorixá Mãe Andreia do Catimbó chama Ewá de irmã gêmea de Oxumaré. Mãe Beata de Iemanjá diz que não se sabe se são irmãos e que Ewá é Ewá: orixás distintos, unidos na guerra e na amizade.

O que liga os dois com fonte é a cobra, o arco-íris e a família jeje de Nanã e Omolu. No tambor de mina, Ewá é filha de Azonce e fica na mesma família de voduns que Dangbê, o correspondente de Oxumaré.

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8 min de leitura

Oxumaré e Ewá são irmãos numa história e marido e mulher em outra, e as duas estão no mesmo livro de mitos reunidos por Reginaldo Prandi. Uma ialorixá os chama de gêmeos, e outra diz que não são nada disso. O que os une com certeza é a cobra e o arco-íris.

Euá, Ewá e Yewá são grafias do mesmo orixá. Prandi e as teses que o citam escrevem Euá; aqui fica Ewá, a forma mais buscada. A pergunta tem várias respostas porque itã não é árvore genealógica: cada narrativa ensina uma coisa, e cada casa guarda as suas.


Quem são Ewá e Oxumaré, em poucas linhas

Ewá é a orixá das fontes e do horizonte, cultuada no candomblé queto e reconhecida como vodum no jeje. O perfil completo, com família, cores e itãs, está em quem é Ewá.

Oxumaré é o orixá do arco-íris e da cobra. Pierre Verger escreve que ele é “ao mesmo tempo, macho e fêmea”, e que essa dupla natureza aparece nas cores vermelha e azul do arco-íris. Para Verger, a origem dele está em Mahi, no antigo Daomé, “onde é chamado Dan”. A ficha dele está em quem é Oxumaré.

Ewá: fontes e horizonte | Oxumaré: arco-íris e cobra | Em comum: a cobra, o arco-íris, a família de Nanã

A pesquisadora Du Flor Maranhão ouviu a ialorixá Mãe Lúcia de Omidewá. Para ela, Ewá faz parte do ketu, mas “tem mais a ver com o povo de Dan, ela é Fon”. É por esse caminho, o da serpente, que a dupla se forma no imaginário.


Oxumaré e Ewá são irmãos?

Sim, num itã recolhido por Prandi em Mitologia dos orixás (2001, p. 226). Ali, Ewá é filha de Nanã e é o horizonte, “o encontro do céu e a terra”. Ela não queria casar. Queria viver só, fazendo cair a noite e puxando o sol com seu arpão.

Nanã insistia no casamento, e Ewá pediu ajuda ao irmão. O arco-íris a escondeu no lugar onde ele acaba, atrás do horizonte.

“E assim os dois irmãos permaneceram vivendo longe da mãe lá onde o céu encontra a terra.”

Pela mãe, os dois são da família de Nanã, a mesma de Obaluaê e Omolu. Uma casa ketu, o Ilê Axé Opò Ajagunã, reúne os quatro como grupo. Segundo o resumo de um vídeo etnográfico gravado ali em 2021, a casa chama Iewá de “irmã de Oxumaré”, a sua “versão feminina”. A colunista Djamila Ribeiro, na Folha de S.Paulo, também os chama de irmãos.


Oxumaré e Ewá são casados?

Também, em outro itã do mesmo livro de Prandi (p. 236). Nessa história, Ewá é surpreendida pelo arco-íris entre as águas e se apaixona. O trecho que a pesquisadora Naiara Paula Eugenio cita na dissertação dela, defendida na UERJ, diz:

“E dele Euá loucamente se enamorou. Era Oxumarê que a encantava.”

Na versão resumida por Nágila Oliveira dos Santos, ela “veio a se casar com Oxumarê, com quem partilha os segredos do universo”. Há casa que ensina a mesma coisa. Num terreiro ouvido pelo pesquisador Luciano Lima Souza, em tese da UESB, Oxumaré é “esposo de Euá”.

Irmão numa página, marido noutra. Isso não é erro de Prandi: ele reuniu itãs de origens diferentes, e a tradição oral convive com versões que não se anulam.

Pintura sacra de um arco-íris que desce e some atrás do horizonte sobre um rio enevoado ao entardecer


Ewá e Oxumaré são gêmeos?

Para a ialorixá Mãe Andreia do Catimbó, sim. Ouvida por Maranhão na revista Mandrágora (2022), ela diz que Euá “é irmã gêmea de Oxumarê, filha de Nanã”.

É a fala de uma casa. Nenhum itã aberto que consultamos diz gêmeos. Quem chega a essa pergunta pelo Google costuma ter ouvido isso no terreiro, e a resposta honesta é que algumas casas ensinam assim e outras não.


”Euá é Euá”: quem diz que não são nada disso

Mãe Beata de Iemanjá, ouvida por Eugenio, recusa as duas ideias mais repetidas. Ela não aceita que Ewá seja o lado fêmea de Oxumaré e de Dan.

“Euá é Euá e Dan…”

Sobre o parentesco, Mãe Beata diz: “não se sabe se é irmão, todos são orixás que vem do Jeje”. Para ela, Ewá é parenta de Ibeji, de Iroko e de Oxumaré. Eugenio resume a posição dela: são “orixás distintos, mas unidos na guerra e na amizade”.

O itã que Mãe Beata conta mostra essa aliança. Oxumaré, “que era um grande rezador”, compra espelhos bonitos e os leva a Ewá, que ofusca o exército inimigo com eles e evita a guerra.

A leitura que ela recusa circula com força. A federação FUCESP repete o texto de que Ewá “teria o mesmo significado de Dan ou uma das suas metades”. A Wikipédia diz que ela é “ora irmã de Iansã, ora irmã de Oxumarê”. Nenhuma das duas cita de onde tirou isso.


O que liga os dois: a cobra, o arco-íris e a família jeje

Com fonte, três coisas aproximam os dois orixás.

  • A cobra. Na tabela de Prandi para o candomblé queto, o símbolo de Ewá na casa é uma cobra de ferro. Eugenio observa que objetos de Oxumaré e de Ewá às vezes se confundem, porque a cobra “está no imaginário das pessoas como pertencendo aos dois orixás”.
  • O arco-íris. Oxumaré é o arco-íris. Para Maranhão, em algumas tradições Ewá é a parte branca do arco-íris e, em outras, a parte vermelha.
  • A família jeje. Na tese de Souza, o laguidibá, colar de discos, é “da família jêje: Omolu, Oxumarê, Euá e Nanã”. Num itã de Prandi (p. 227), Oxumaré recebe a coroa de Nanã e se torna “o rei dos jejes”.

A origem fon pesa na conta. O historiador Luis Nicolau Parés, citado por Montgomery e Gonzalez, registra que na Bahia o vodum serpente Bessen é da família Dan. O que é vodum e como as famílias se organizam está em voduns no Brasil. Nenhuma fonte aberta de Parés põe Ewá na família Dan. O fundamento jeje fica com as casas.

Quem procura uma guia para um dos dois encontra na Joia Mística contas e búzios avulsos. As cores e o fio, porém, são os que a casa indicar, porque mudam de nação para nação.


E no tambor de mina?

No tambor de mina do Maranhão, a resposta é outra. Prandi resume o panteão da Casa das Minas, descrito por Sérgio Ferretti: Euá é “filha de Azonce, também é nagô”, da família de Dambirá, a dos voduns da terra.

Num terreiro de mina de São Paulo estudado por Prandi, a tabela põe Dangbê, que corresponde a Oxumaré, e Eowá, que corresponde a Euá, na mesma família. Lá, Ewá é festejada em 16 de julho e Dangbê em 24 de agosto, dia de São Bartolomeu. A data de agosto está em São Bartolomeu e Oxumaré.

É uma quinta resposta: mesma família ritual, outro pai, sem casamento nem gemelaridade. Tambor de mina não é candomblé, e o que vale numa tradição não passa sozinho para a outra.

Se a sua dúvida é sobre o que a sua casa ensina, quem responde é o seu zelador. Para dúvidas sobre material, a equipe da loja atende pelo WhatsApp.


Perguntas frequentes

Oxumaré e Ewá são irmãos?

Num itã recolhido por Reginaldo Prandi, sim: os dois são filhos de Nanã, e Oxumaré esconde Ewá onde o arco-íris acaba. Em outro itã do mesmo livro eles se casam. Algumas casas ensinam irmãos, outras marido e mulher, e Mãe Beata de Iemanjá diz que não se sabe.

Ewá e Oxumaré são gêmeos?

É a fala da ialorixá Mãe Andreia do Catimbó, registrada pela pesquisadora Du Flor Maranhão em 2022: Ewá seria irmã gêmea de Oxumaré, filha de Nanã. Nenhum itã aberto consultado diz gêmeos, então vale como ensinamento de uma casa.

Qual é o itã de Oxumaré e Ewá?

Há dois em Prandi. No do horizonte (p. 226), Ewá foge do casamento e o irmão Oxumaré a esconde atrás do horizonte. No do arco-íris (p. 236), ela se apaixona por ele entre as águas e os dois se casam. Mãe Beata conta um terceiro, o dos espelhos.

Ewá é a versão feminina de Oxumaré?

Uma casa ketu e a FUCESP leem assim, e a Wikipédia fala em ora irmã de Oxumaré. Mãe Beata de Iemanjá recusa a ideia e diz que Ewá é Ewá. Pierre Verger descreve o próprio Oxumaré como macho e fêmea ao mesmo tempo.


Referências

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