Os voduns são as divindades da nação jeje, dos povos fon e ewe do antigo Daomé. O sociólogo Reginaldo Prandi descreve os voduns como forças da natureza e antepassados humanos divinizados. Quem é de casa de mina convive com eles como quem é de ketu convive com os orixás.
Quem são os voduns
São as divindades da religião explicada em o que é vodu, e chegaram aqui com os africanos jeje. Por volta de 1900, o médico e pesquisador Nina Rodrigues já registrava que vodu é palavra jeje para divindade, sinônimo do termo nagô orixá.
O ser supremo a quem os voduns se subordinam aparece com o nome de Avievodum, na posição em que Olorum está para os iorubás. O nome varia conforme a casa e a fonte. Parte da bibliografia registra Mawu nesse lugar.
Na Bahia, os chamados reis da nação jeje são Bessém, da família Dan, Sogbo, da família Hevioso, e Azonzu, da família Sakpata. Nanã é o vodum feminino mais velho e Loko é o vodum da gameleira.
As famílias de voduns do Maranhão
Na Casa das Minas, em São Luís, os voduns se organizam em quatro famílias:
- Davice, a família real de Abomé: Naé representa a paz, Dadarrô o governo, Sepazim é a imperatriz, Doçu é poeta e tocador, Bedigá é o advogado, e Zomadonu é o dono da casa
- Quevioçô, das águas e dos astros: Badé protege contra o raio, Loco acalma as tempestades, Liçá representa o sol, Averequete é a estrela-guia, Abé é a sereia, Nanã representa os pântanos
- Dambirá, da terra: voduns que combatem as doenças e curam com raízes e remédios, com Acóssi Sapatá à frente da linhagem
- Savaluno, que é família hóspede, de voduns que não são jeje e foram acolhidos pela família de Davice
Parte das fontes conta só as três primeiras, porque a quarta é de acolhidos. Não é contradição, é arranjo de casa.

Vodum e orixá: parentes, não a mesma coisa
A correspondência entre os dois panteões é antiga. As fontes tratam como aproximação. Nina Rodrigues listou Khêbiosô perto de Xangô, Legba perto de Elegbá e Loko perto de Iroko. Prandi resume que, na maioria dos casos, há alguma correspondência entre voduns e orixás.
O que a tradição faz é aproximar, não igualar. Vodum, orixá e inquice vêm de povos diferentes, com língua, toque e fundamento próprios, e a comparação entre as três matrizes está em nações do candomblé.
Com o santo católico a relação é de subordinação, não de identidade: no Tambor de Mina se diz que o vodum adora o santo. Averequete adora São Benedito, e Sobô é chamado ao lado de Santa Bárbara, como Iansã.
O que muda no chão do barracão
Aqui está o que separa uma casa de mina de uma casa de ketu para quem assiste:
- A manifestação: o vodum não dá ilá, não brada. Dança em conjunto, quase sem destaque individual, fala e puxa cantos
- A roupa: na tradição da mina o vodum costuma amarrar uma toalha, na cintura se for feminino, no tronco se for masculino. Em dia de grande festa pode dançar paramentado
- A idade na roupa: vodum novo usa a toalha na cintura; vodum mais velho, amarrada abaixo dos ombros
- Os instrumentos: batás, gã e xequerê marcam o toque
- Quem chega primeiro: os toqüéns, voduns jovens que são guias e mensageiros e chamam os outros
Há ainda vocabulário próprio. O tratamento do vodum masculino é tói e o do feminino é nochê. As tobóssi são divindades infantis femininas, filhas dos voduns. Os atabaques do candomblé mudam de nome e de toque conforme a nação.
Onde se cultua vodum no Brasil
Na Bahia, a nação jeje mahi tem duas casas estudadas e em funcionamento. Uma é o Zôogodô Bogum Malê Hundô, em Salvador, conhecido como Bogum. A outra é o Zôogodô Bogum Malê Seja Hundê, em Cachoeira, a chamada Roça do Ventura. A ocupação da roça começou em 1858, e o terreiro está tombado pelo IPHAN. A ficha do tombamento lista as árvores sagradas do sítio pelos nomes dos voduns: Nana, Tiriri, Avequité, Zogbo, Bessém, Lokó, Badé, Aqué, Parara.
No Maranhão, o culto vive no Tambor de Mina. A Casa das Minas, ou Querebentã de Zomadonu, é a principal referência do culto aos voduns no país. É o único terreiro mina-jeje do estado e está tombada pelo IPHAN. A Casa de Nagô, fundada por volta de 1840, é de matriz nagô e foi tombada pelo estado do Maranhão em 1986. O modelo dela é o mais adotado pelos terreiros de mina.
O jeje aparece também no Sul, entre as nações do batuque gaúcho, como conta o artigo sobre as nações do batuque.
O material de quem cultua vodum é o mesmo do candomblé de qualquer nação: quartinha, louça, pano, vela, dendê e erva, do jeito que a casa mandar. Na dúvida sobre a lista que a mãe ou o pai de santo passou, dá para conferir item a item pelo WhatsApp da loja.
Perguntas frequentes
O que é um vodum?
É a divindade do panteão jeje, dos povos fon e ewe do antigo Daomé. Prandi descreve os voduns como forças da natureza e antepassados humanos divinizados. A palavra vem do fon e quer dizer espírito ou divindade, com o sentido que orixá tem entre os nagôs.
Qual a diferença entre vodum e orixá?
São divindades de povos diferentes. O vodum é jeje, o orixá é nagô, o inquice é angola. As fontes registram correspondências entre eles, mas tratam como aproximação histórica, não como igualdade.
Onde se cultua vodum no Brasil?
Na Bahia, nas casas jeje mahi do Bogum, em Salvador, e da Roça do Ventura, em Cachoeira. No Maranhão, no Tambor de Mina, com a Casa das Minas como principal referência. A nação jeje aparece ainda no batuque do Rio Grande do Sul.
Qual é a cor e o dia de cada vodum?
Depende da casa. As fontes acadêmicas abertas registram família, domínio e função de cada vodum, mas não fecham uma tabela de cor, dia e comida válida para todo mundo. Quem responde isso é a sua casa, não a internet.
Referências
- Reginaldo Prandi (USP): Nas pegadas dos voduns, sobre o panteão jeje no Brasil
- Afro-Ásia (UFBA): resenha de A formação do Candomblé, de Luis Nicolau Parés
- Ciências Sociais e Religião: Mundicarmo Ferretti sobre as nações africanas no Tambor de Mina
- Salvador e Suas Cores (UFBA): os voduns da Casa das Minas, com a etnografia de Sérgio Ferretti
- Universidade Federal do Sul da Bahia: tese sobre povos de terreiro e os tombamentos do IPHAN
- Ipatrimônio: ficha do terreiro Zogbodo Male Bogun Seja Unde, a Roça do Ventura
- Museu Afro Digital (UFMA): verbete da Casa de Nagô, em São Luís