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Orixás 13 min de leitura

Quem é Ewá: a orixá da vidência, beleza e mistério

Ewá (Euá ou Yewá) é a orixá das fontes, do horizonte e da vidência, filha de Nanã ou de Obatalá conforme o itã. Origem, cores, saudação e onde é cultuada.

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Bruma rosada sobre um lago tranquilo cercado de flores delicadas, em luz suave de fim de tarde.

Resumo

Ewá, também escrita Euá ou Yewá, é a orixá das fontes, das nascentes e do horizonte, ligada à vidência e à passagem entre a vida e a morte. Tem culto raro, no candomblé queto e no jeje, e dá nome a um rio entre a Nigéria e o Benin.

Nos itãs reunidos por Reginaldo Prandi ela é filha de Nanã em umas histórias e de Obatalá em outras, irmã de Oxumaré numa e esposa dele noutra. Cores, dia e comida variam por casa: Prandi registra vermelho e amarelo, sábado e feijão com ovos cozidos.

O sincretismo com Santa Luzia, em 13 de dezembro, é o mais conhecido, mas muda por tradição. Na umbanda Ewá aparece pouco, e no batuque gaúcho ela não está entre os doze orixás.

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13 min de leitura

Ewá é a orixá das fontes, das nascentes e do horizonte, a que vê longe. No candomblé queto, Reginaldo Prandi a registra como “orixá das fontes”, com o elemento “nascentes e riachos”. A vidência é o atributo mais lembrado dela, e o domínio sobre a passagem dos mortos completa o retrato.

Ela também é escrita Euá ou Yewá, e é das orixás de culto mais raro no Brasil. Por isso a ficha dela muda tanto de uma casa para outra. Aqui cada dado vem com o nome de quem o registrou.


Quem é Ewá, a orixá das fontes e do horizonte

Ewá é uma iabá, orixá feminina, ligada à água doce que nasce da terra. Na tabela de Prandi para o queto, além das fontes, ela rege a “harmonia doméstica”. Num itã que ele reuniu, Ewá é o próprio horizonte, “o encontro do céu e a terra”, e puxa o sol com seu arpão ao fim do dia.

Na tese de Luciano Lima Souza (UESB, 2019), ela aparece como senhora das possibilidades, guardiã das coisas intocadas e dona da vidência, dada por Orunmilá. É também guerreira e caçadora.

Elemento: fontes, nascentes, névoa e horizonte | Nação: queto e jeje | Saudação: Ri ró | Dia: sábado (Prandi)

A imagem que muita gente conhece vem da música. Em “As ayabás”, de Caetano Veloso e Gilberto Gil (1976), Ewá é a “moça cismada que se esconde na mata” e a “virgem da mata”.


De onde vem Ewá: o rio Yewa e a leitura fon

O culto de Ewá nasce num rio de mesmo nome. O rio Yewa corre entre a Nigéria e o Benin e cruza a fronteira dos dois países. Pierre Verger, citado por Rodolfo Figueiredo, liga cada orixá africano a uma região e põe “Iyewa” em Egbado. Pelas Notas de Verger, o rio fica “muito próximo do rio Ogum”, onde se cultua Iemanjá.

Prandi lembra que os rios de vários orixás “conservam ainda hoje o mesmo nome” da divindade. No Brasil, esses orixás deixaram de estar presos ao rio de origem. Um itã conta a origem do rio: Ewá, perdida no bosque com dois filhos morrendo de sede, pede a Olodumaré e vira uma nascente, que vira lagoa e depois o rio Euá.

Há quem leia outra origem. A ialorixá Mãe Lúcia de Omidewá diz que Ewá faz parte do ketu, mas “tem mais a ver com o povo de Dan, ela é Fon”. Mãe Beata de Iemanjá também a chama de fon.

Na tabela de Prandi, Ewá tem vodum correspondente no jeje, com o mesmo nome, e nenhum inquice na coluna da nação angola. As diferenças entre as nações estão em nações do candomblé, e os voduns em voduns no Brasil.

A Yewá cubana

Na santería cubana, Yewá é a dona do cemitério, segundo a enciclopédia cubana EcuRed, que a descreve como casta e saudada com “Maferefún Yewa”. O antropólogo Roberto Garcés Marrero registra que, lá, os filhos e as filhas de Yewá não podem ter relações sexuais. É outra tradição, com regras próprias.

Pintura sacra de uma nascente de água doce entre pedras na mata ao amanhecer, com pano vermelho e amarelo dobrado e uma tigela de búzios sobre uma pedra


De quem Ewá é filha?

Depende do itã. Nas histórias reunidas por Prandi em Mitologia dos orixás (2001), Ewá é filha de Nanã em umas narrativas e de Obatalá em outras. A federação FUCESP a chama de “filha dileta de Oxalá e Oduduwá”. No tambor de mina da Casa das Minas, no Maranhão, ela é filha do vodum Azonce, segundo Prandi, que resume Sérgio Ferretti.

Circula na internet que Ewá é filha de Nanã e Oxalufã. Nenhuma fonte que abrimos sustenta esse casal. O nome de Oxalufã só aparece num verbete sem fonte conferível, e ali ele não é pai de Ewá. A versão que publicamos antes repetia esse erro, e ela foi corrigida aqui.

Pela mãe, Ewá é da família de Nanã, com Obaluaê e Omolu e Oxumaré. Numa casa ouvida por Souza, o laguidibá, colar de discos, é da “família jêje: Omolu, Oxumarê, Euá e Nanã”.


Ewá e Oxumaré: irmãos ou casal?

As duas coisas, no mesmo livro de Prandi. Num itã (p. 226), Ewá foge do casamento e o irmão Oxumaré a esconde onde o arco-íris acaba. Noutro (p. 236), ela se apaixona pelo arco-íris e se casa com ele.

VersãoQuem diz
Irmãositã em Prandi, p. 226
Casalitã em Prandi, p. 236; um terreiro ouvido por Souza
Gêmeosa ialorixá Mãe Andreia do Catimbó
”Não se sabe se é irmão”Mãe Beata de Iemanjá

O que liga os dois com certeza é a cobra e o arco-íris. A comparação completa, com as falas de cada casa e a leitura do tambor de mina, está em Oxumaré e Ewá: irmãos, casal ou gêmeos?.


Os itãs de Ewá: Xangô e o reino dos mortos

O itã mais contado liga Ewá a Xangô. Em Prandi, ela é filha de Obatalá e vive guardada no palácio do pai. Xangô a seduz, ela renega a paixão e pede um lugar onde homem nenhum a veja.

“Obatalá deu então a Euá o reino dos mortos, que os vivos temem e evitam.”

Na ficha que circula pela FUCESP, Ewá foge de Xangô e é acolhida por Obaluaiê, e vive nas matas, perto de Iroko e Oxóssi. Outra narrativa, também reunida por Prandi, a casa com Omulu, que a cobre com palha-da-costa vermelha. Mãe Beata conta um itã de paz: Ewá ofusca o exército inimigo com espelhos e evita a guerra.

A história de que Iansã teria se enfurecido e Oxóssi a teria acolhido na mata aparece em sites e numa enciclopédia aberta sem fonte. Por isso ela ficou de fora desta versão. A relação de Ewá com o orixá do trovão está também em quem é Xangô.


Ewá, a morte e a transição

Ewá tem lugar no rito dos mortos. Prandi a lista entre os orixás que participam do axexê, o rito funerário do candomblé queto, com Nanã, Omulu e Oxumaré. O que acontece nesse rito está em o que é axexê.

Na dissertação de Vitor Azevedo (UERJ), Ewá é “dona das fontes, do solo sagrado, onde repousam os mortos”. Naiara Paula Eugenio, citando Cléo Martins, a coloca “num entremeio”, na transição entre a morte e o pós-vida.

Não é um domínio de medo. É o domínio da passagem, o mesmo horizonte do itã: o lugar onde uma coisa termina e outra começa.


Cores, dia, símbolos e saudação de Ewá

A ficha varia conforme a nação e a casa. A única fonte acadêmica com a ficha inteira é a tabela de Prandi (1995), feita com terreiros queto de São Paulo e da Bahia. As outras linhas vêm de casas ouvidas em teses e da federação FUCESP.

CampoO que registram
Coresvermelho e amarelo na roupa, contas de búzios (Prandi); vermelho translúcido, coral e dourado (casas ouvidas por Souza); vermelho cristal (casa de Mãe Beata); vermelho vivo, coral e rosa (FUCESP)
Diasábado (Prandi e FUCESP)
Símbolosespada, chocalho de matéria vegetal e esfera (Prandi); ofá, arco e flecha, âncora, arpão e espada de latão em algumas casas (Martins)
Comidafeijão com ovos cozidos (Prandi); peixe frito, de água doce (Mãe Beata)
Tabu dos filhoscomer aves fêmeas (Prandi)
SaudaçãoRi ró

A saudação Ri ró, segundo Cléo Martins, citada por Eugenio, quer dizer “maciez, doçura, brancura, fofura”. Também aparece escrita “Riró” e “Ri Ro Ewá!”. A terça-feira, que já circulou como dia dela, não aparece em nenhuma fonte aberta que consultamos.

Quem acende uma vela para Ewá encontra na Joia Mística a vela vermelha de cor única. A cor da guia, porém, é a que a casa indicar. O quadro geral está em cores dos orixás.


O que se oferece a Ewá, segundo as fontes

A comida de Ewá que a pesquisa acadêmica registra é feijão com ovos cozidos, na tabela de Prandi para o candomblé queto. Mãe Beata de Iemanjá, ouvida por Eugenio, diz que Euá “gosta muito de peixe dos regados” e “come peixe frito”.

Cléo Martins, citada por Eugenio, registra uma regra de casa: “as iguarias de Euá deverão ser arrumadas e oferecidas somente pelas mulheres”. O peixe com inhame que muitos sites repetem vem de um texto de 2008 copiado de página em página, sem dizer de que casa é.

A galinha divide as fontes. Um levantamento com adeptos do Rio Grande do Norte, num TCC da UFRN, registra “carne de galinha” como quizila de Ewá, e Prandi põe outro tabu, o dos filhos comerem aves fêmeas. O que é quizila está em quizilas no candomblé.

Há pouco registro porque há poucos filhos. Até a dissertação sobre a cozinha de um terreiro do Paraná deixa Ewá sem prato, porque a casa não tinha filho dela. Obrigação, preparo de fundamento e lugar de entrega são da casa, e não localizamos fonte confiável para onde se entrega. Os agrados em geral estão em como fazer oferenda aos orixás.


Quem é filho de Ewá

São poucos. Maranhão registra que Ewá é de culto raro e que “nem sempre se mostra nos jogos de búzios”, aparecendo como Oxum ou Oiá. Na casa de Mãe Beata, entre 2012 e 2014, havia uma única filha feita de Ewá. Um pai pequeno ouvido por Souza diz que nunca pôs a mão na cabeça de gente de Ewá.

Circula a regra de que só mulheres virgens podem ser iniciadas para Ewá. Ela é contestada por ialorixás com nome. Mãe Beata diz que “não tem nada disso”, e Mãe Andreia do Catimbó conta que um irmão de santo foi iniciado em Ewá. No Gantois, segundo a antropóloga Clara Flaksman, Ewá, “ao que tudo indica”, também pertencia a Mãe Menininha. Uma filha de Ewá do Gantois foi Mãe Senhora de Ewá, iniciada por Mãe Menininha em 1950, que morreu em 2026 aos 104 anos.

Por que são tão poucos, onde eles estão e o que se diz do temperamento deles está em filhos de Ewá. Quem é de Ewá só o jogo de um pai ou de uma mãe de santo mostra. Veja o que é o jogo de búzios e se dá para ser filho de mais de um orixá.


Santa Luzia, 13 de dezembro e os outros sincretismos

No candomblé, o sincretismo pôs Ewá ao lado de Santa Luzia, a Santa Lúcia da tabela de Prandi. A Igreja celebra a santa em 13 de dezembro. Um projeto de lei de Curitiba descreve a data como “recorrente em celebrações de Ewá”. Ela aparece no calendário dos orixás.

O sincretismo muda com a tradição. A Casa das Minas de Tóia Jarina é um terreiro de tambor de mina em São Paulo. Lá, o vodum que corresponde a Ewá vai com Nossa Senhora do Carmo e tem festa em 16 de julho. Em Cuba, Yewá é associada a Nossa Senhora dos Desamparados e de Montserrat.

O sincretismo foi uma forma de manter o culto vivo sob repressão. Santa Luzia e Ewá seguem distintas, cada uma na sua tradição.


Ewá na umbanda e no batuque

Na umbanda, Ewá aparece pouco. Maranhão registra que ela é “eventualmente” chamada em rituais de umbanda e é mais cultuada no candomblé. Num estudo da revista Religare (UFPB), os nove orixás mais cultuados na umbanda não incluem Ewá. Não localizamos fonte aberta que descreva uma linha própria dela na umbanda.

No batuque gaúcho, Ewá fica de fora: a lista dos doze orixás que a pessoa assenta para estar pronta não tem o nome dela. O panteão gaúcho está em orixás do batuque.

No tambor de mina, como já vimos, ela é vodum da família de Dambirá. No xirê de uma casa ketu de linhagem da Casa de Oxumaré, ela é cantada depois de Obá e antes de Oyá. A ordem do xirê está em o que é xirê.


Perguntas frequentes

Ewá é filha de quem?

Depende do itã. Nos mitos reunidos por Reginaldo Prandi, Ewá é filha de Nanã em umas histórias e de Obatalá em outras. A FUCESP fala em Oxalá e Oduduwá, e no tambor de mina ela é filha do vodum Azonce. Não há fonte para o casal Nanã e Oxalufã.

Ewá é orixá do quê?

Das fontes, das nascentes e do horizonte, segundo Prandi. A vidência é o atributo mais lembrado, e ela participa do rito dos mortos no candomblé queto. Em Cuba, Yewá é a dona do cemitério.

Qual a saudação de Ewá?

Ri ró, também escrita Riró ou Ri Ro Ewá. Segundo Cléo Martins, citada pela pesquisadora Naiara Paula Eugenio, a saudação quer dizer maciez, doçura, brancura, fofura.

Qual a cor de Ewá?

Varia por casa. Prandi registra roupa vermelha e amarela e contas de búzios. Casas ouvidas em teses usam vermelho translúcido, coral ou vermelho cristal, e a FUCESP dá vermelho vivo, coral e rosa. Confirme a cor com a sua casa.

Tem Ewá na umbanda?

Aparece pouco. Ela é chamada eventualmente em rituais de umbanda, mas é mais cultuada no candomblé, e não está entre os orixás mais comuns dos terreiros umbandistas. No batuque gaúcho, Ewá não está entre os doze orixás.


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